{"id":564,"date":"2025-05-27T09:13:33","date_gmt":"2025-05-27T14:13:33","guid":{"rendered":"https:\/\/memeliamoreira.com\/blog1\/?p=564"},"modified":"2025-05-27T12:15:44","modified_gmt":"2025-05-27T17:15:44","slug":"a-estreia-e-meu-irmao-sonsonho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/memeliamoreira.com\/blog1\/2025\/05\/27\/a-estreia-e-meu-irmao-sonsonho\/","title":{"rendered":"A ESTR\u00c9IA E MEU IRM\u00c3O SONSONHO"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"512\" height=\"288\" src=\"https:\/\/memeliamoreira.com\/blog1\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/sosonio-512x288.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-567\" style=\"width:834px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/memeliamoreira.com\/blog1\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/sosonio-512x288.jpg 512w, https:\/\/memeliamoreira.com\/blog1\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/sosonio-300x169.jpg 300w, https:\/\/memeliamoreira.com\/blog1\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/sosonio.jpg 596w\" sizes=\"auto, (max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 exatos 54 anos, neste 26 de maio, foi publicada minha primeira reportagem na tal \u201cgrande imprensa\u201d. A viagem, minha primeira ao Xingu, tinha acontecido dias antes. A revista Veja divulgou a mat\u00e9ria sob o t\u00edtulo \u201c\u00edndios, Tratores e Bibliotecas\u201d, onde relato a inaugura\u00e7\u00e3o de uma estrada at\u00e9 hoje inacabada, a BR-080, que deveria ligar Bras\u00edlia a Manaus. Ela serviu apenas para macular o Parque do Xingu at\u00e9 <a><\/a>ent\u00e3o inviol\u00e1vel e onde vivem 16 na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Mas a estrada foi aberta principalmente para beneficiar 15 fazendas instaladas nas redondezas e entregues aos amigos da ditadura. Ali come\u00e7ou a grande devasta\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia. Exatamente ali, na fronteira de dois biomas, onde a savana abre alas para aquela que foi a maior floresta tropical do planeta, nossa Amaz\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 exatos 54 anos, neste 26 de maio, meu irm\u00e3o Sonsonho, ou Neiva, passou seu anivers\u00e1rio de 22 anos nas m\u00e3os dos torturadores da tem\u00edvel Oban. Ele era um dos guerrilheiros que lutou contra a ditadura militar que prendia, sequestrava, torturava, matava e desaparecia com os combatentes na luta pela Democracia. E meu irm\u00e3o fez oposi\u00e7\u00e3o armada na &#8220;Ala Vermelha do PCdoB&#8221; . Meu irm\u00e3o foi um guerrilheiro e isso me orgulha.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 54 anos, nossa fam\u00edlia buscava por todos os meios saber onde estava nosso irm\u00e3o. S\u00f3 em junho tivemos as primeiras not\u00edcias. Nosso \u00fanico irm\u00e3o homem estava vivo e fora levado para o Pres\u00eddio Tiradentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje meu irm\u00e3ozinho querido, aquela crian\u00e7a de mente brilhante que maravilhava toda a vizinhan\u00e7a porque antes de saber ler fazia c\u00e1lculos complicados e a mente era explorada pelos vizinhos adultos porque eles somava, multiplicava, dividia sem ter papel na m\u00e3o estaria completando 76 anos e tenho dificuldades de v\u00ea-lo nessa idade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mano, ser\u00e1 que te tornarias um velho rabugento? Mano, ser\u00e1 que j\u00e1 terias perdido tua capacidade de sedu\u00e7\u00e3o? Ser\u00e1 que continuarias o grande estrategista pol\u00edtico que sempre fostes? Ser\u00e1 que continuarias lutando para manter a esquerda leal aos seus ideais?<\/p>\n\n\n\n<p>Ah, mano, n\u00e3o consegui dizer nada h\u00e1 dois dias quando se completaram dez anos da tua morte. Tudo porque tu bem sabes que j\u00e1 cheguei \u00e0 velhice e tenho poupado os momentos que me sufocam de tristezas e de lembran\u00e7as que prefiro manter adormecidas. A lembran\u00e7a de tua morte \u00e9 uma dessas.<\/p>\n\n\n\n<p>Prefiro pensar como seria o meu irm\u00e3ozinho velho. E tenho certeza que estarias tecendo alian\u00e7as que n\u00e3o fossem esp\u00farias para eleger um candidato de esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Ando por aqui estudando o Populismo, mano. E o assunto tem me preocupado porque n\u00e3o consigo encontrar nenhum l\u00edder populista que tenha constru\u00eddo herdeiros. E eles tamb\u00e9m envelhecem, se enfraquecem e ficamos tentando lhes dar energia, como se fosse poss\u00edvel. Tu ias gostar muito desses livros que ando estudando.<\/p>\n\n\n\n<p>Tu sempre davas um jeito de pegar meus livros e para n\u00e3o interromper minha leitura tu devoravas em menos de 48 horas. Sempre me impressionou tua capacidade de ler. Lias com uma rapidez supers\u00f4nica e quando discutiamos, eu percebia que tu tinhas entendido mais do que eu que estudava cada um deles, sublinhando, anotando.<\/p>\n\n\n\n<p>Mano, j\u00e1 passa da meia noite aqui nessa terra estranha. Comecei a te escrever sentada no jardim que plantei pra ti. Sim, no dia seguinte da tua morte sai desvairada, comprei \u00e1rvores ainda pequenas e que hoje j\u00e1 nos concedem sombras, flores variadas, arbustos. Foi a \u00fanica maneira de me sentir perto de ti. Com enxada, abri enormes buracos. Plantei palmeiras, bambus e cultivei as sementes de carvalho. Esse carvalho est\u00e1 bem alto e \u00e9 onde me refugio quando leio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mano, eu te telefonaria hoje. Aqueles telefonemas-rel\u00e2mpago, s\u00f3 pra te dizer feliz anivers\u00e1rio e perguntar sobre um ou outro assunto pol\u00edtico. Agora s\u00f3 me resta te escrever.<\/p>\n\n\n\n<p>Um beijo, meu irm\u00e3ozinho.<\/p>\n\n\n\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 exatos 54 anos, neste 26 de maio, foi publicada minha primeira reportagem na tal \u201cgrande imprensa\u201d. A viagem, minha primeira ao Xingu, tinha acontecido dias antes. 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