COMÍCIO NO SERTÃO

By , 17 May, 2009 1:45 pm

COMÍCIO NO SERTÃO

Risomar Fasanaro (*)
A mãe serviu a sopa de palavras e toda a família tomou-a em silêncio. Era noite. Uma noite de névoa e trevas. Tão escura que os escombros da vida se escondiam entre as frestas do silêncio. Por isso, nem o pai nem os filhos perceberam que ela lhes servira o que de último lhe restara: palavras.
O pai voltava mais uma vez dos longos túneis de suas buscas, sem encontrar sequer a si mesmo. De todos os males talvez o desemprego fosse, para ele, o de menor importância.
Todos tomaram a sopa e foram dormir. No meio da madrugada, um dos filhos passou mal; suava frio e sentia dores abdominais. Só poderia ser conseqüência daquela sopa, pensou a mulher. E se nem isso pudessem mais comer, o que seria da família?
Resolveu que no dia seguinte iria escolher melhor as palavras, lavá-las muito bem; quem sabe ficara alguma impureza e por isso o pequeno passara mal?
Serviu um chá ao filho que logo melhorou e voltou a deitar-se, pensando no que prepararia para o almoço do dia seguinte. Não permitiria que suas revoltas substantivas, nem as (des) conjunções da vida prejudicassem sua grande descoberta.
Agora, mais segura, poderia dar-se ao luxo de demorar-se nessa escolha, de aprimorar suas receitas. E foi então que escolheu a palavra de que mais gostava: saudade. Por certo, uma palavra tão bonita não faria mal a ninguém.
Tomou-a entre as mãos, sentindo a maciez e a doçura que dela emanavam. Lavou-a bem, deixando que reluzisse ao sol cada curva, cada haste das letras que a compunham. Depois a temperou com sal e limão, e sozinha, colocou-a na boca e saboreou cada letra, cada sílaba. Sentiu-a fria na boca, e quando tentou engoli-la, foi como se de repente ela crescesse, formasse um nó, fechando a garganta. Fez força e conseguiu engoli-la, provocando no mesmo instante um frio, um peso no estômago que lhe tomou o peito, como travo de fruta verde…
Algum tempo depois o mal-estar passou, mas quando menos esperava voltou a sentir o nó na garganta e a dor no peito dificultando-lhe a respiração, como se fosse morrer. Sentiu medo. Ainda bem que experimentara antes de servi-la ao marido e aos filhos. E pensou: se depender de mim, jamais eles comerão isso.
Já não sabia o que cozinhar, mas decidiu insistir, pois nada havia para comer, até encontrar uma forma de servir as palavras de modo que não fizessem mal.
Escolheu os vocábulos attonitta, inamorare, inodio e acumene. Com uma faca bem afiada, provocou aférese em todas elas. Depois, lavou-as bem em uma bacia de ágata que ganhara de uma ex-patroa, cozinhou-as com alho, sal, pôs coentro e serviu à família.
Mesmo com todos esses cuidados, algumas palavras ainda eram indigestas, e no final da tarde o marido estava com febre. Foi aí que ela resolveu podar, limpar todas as arestas, provocando síncope, crase, haplologia e sinalefa. Ia cortando tudo e de malu fez mal, de amare fez, amar e continuou com lepore, manica, liberare, atroce, legale, dolore, rodador, idolatria….
O dia e a noite transcorreram tranqüilos. A família, enfim, acostumara-se à nova alimentação, e como já não recolhia os restos da feira, passou a ser motivo de curiosidade. O que estava acontecendo? Alguém estava lhes doando alimentos?
A mulher, sem nenhum mistério, contou o que descobrira, e ante a descrença dos vizinhos, explicou como preparava os pratos. Ali mesmo explicou às outras mulheres como fazer um refogado de dígrafos, com molho de consoantes.
É claro que ela não dava aos ingredientes os mesmos nomes que eles receberam dos gramáticos. Jamais em toda sua vida tivera entre as mãos uma gramática, muito menos histórica. Se lhe dissessem que servira metaplasmos à família, por certo ficaria horrorizada, ou riria…
-Mas onde a gente encontra esses negócios? – perguntaram-lhe os vizinhos.
-Ora, e vocês não sabem?
Depois de ensinar onde buscar palavras advertiu:
-Vão com cuidado.. Comecem do jeitinho que eu falei. Primeiro a, e, i, o, u. Façam sopa, depois usem as outras letras, vão juntando, e só depois de bem-acostumados, usem palavras inteiras, e depois as grandes.? Vão cortando, limpando… Depois de um tempo vão poder comer qualquer uma. Nada mais vai fazer mal a vocês.
A partir daquele dia, os estômagos daquele lugarejo nos confins do sertão, acostumaram-se àqueles novos alimentos. Alguns dentro de pouco tempo puderam dar-se ao luxo de comer palavras que haviam sofrido prótese, epêntese, paragoge e anaptixe.
Tudo corria bem, nem mesmo houve qualquer ocorrência policial durante vários dias. E assim continuaria se um incidente, durante um comício, não viesse atrapalhar a vida daqueles moradores.
Finalmente chegou o dia do comício e vieram os candidatos às eleições para deputado, senador, e até, um ao governo do Estado. O comício teve início às dezessete horas, mas desde as oito as pessoas começaram a chegar com suas sacolas, para guardar lugar. Postaram-se em frente ao palanque à espera deles. Houve empurrões, xingamentos e provocações, desde o início da aglomeração. Todos queriam ficar bem na gente, na primeira fila.
Um adolescente com ginga e feição de quem não perde uma briga por nada desse mundo, gritava:
– Eu vou ficar é aqui, na fila do gargarejo. E quero ver se tem valente aqui que me tire.
E enquanto dizia isso, deixava que reluzisse ao sol o brilho de uma peixeira. Quando os candidatos chegaram e viram toda aquela multidão reunida, gritando e pulando, ficaram maravilhados, pois se há coisa que político gosta de ver é platéia para seus discursos. Era preciso saber quem era o cabo eleitoral que organizara tão bem aquele comício.
Subiram ao palanque, e deram início aos discursos. Um deles dizia:
– Exigiremos do governo federal uma reforma tributária e um rígido controle dos juros. Não permitiremos que se comprometa o crescimento.
Logo depois outro dizia:
– Jamais permitiremos que a crise nos alcance. Ela que fique por lá, pelos Estados Unidos, pela Europa, aqui ela não entra. Nosso povo não merece e não quer mais sofrer, e a vontade do povo é soberana. Pelo povo, tudo sacrificaremos. Cortaremos até nossa própria carne, se preciso for!
Em seguida, o que pretendia o cargo de governador do Estado, um sujeito magrinho, raquítico, inflamava-se todo e, na ponta dos pés, gesticulando muito, prometia:
-Nenhuma criança ficará sem escola, e as secretarias da Saúde e da Educação irão receber, no meu governo, as maiores verbas do orçamento do estado. Nenhuma criança ficará sem escola. NE-NHU-MA, eu repito. Este é um compromisso que eu assumo e que vocês poderão cobrar lá no Palácio. Sim, porque serei eleito, com toda certeza, e então, meus amigos, farei daquele palácio a casa do povo!
As pessoas pulavam, gritavam agarravam as palavras, as frases e as guardavam nas sacolas. Algumas eram tão espertas, que conseguiam alcançar parágrafos inteiros. Os oradores estavam eufóricos com aquele público tão vibrante, e que manifestava seu entusiasmo com as mãos, os pés, o corpo todo. E continuavam os discursos:
-Vamos restaurar a tranqüilidade. Não haverá mais seca, pois construiremos um açude a cada quilômetro deste município. Também não haverá enchentes, pois não permitiremos que vocês percam seus pertences, suas casas, seus familiares. Para isso temos projetos de abastecimento de água durante o verão e de escoamento da água na época das chuvas.
Com  voz forte, um candidato a deputado estadual dizia:
-Vamos restaurar a tranqüilidade. A população não sofrerá mais ataques de bandidos. Para isso nosso governador aqui presente já assumiu que colocará centenas de policiais  nas ruas…
Uma velhinha sentada à porta de um armazém murmurou baixinho: mas aqui nunca houve ataque de bandidos…
 Lá embaixo, o público se engalfinhava:
-Sai daí, seu vagabundo, essa população aí eu vi primeiro. Num toma não. É minha, dá aqui. E puxava a palavra pela cedilha, tomando-a do outro.
-Conversa, seu filho da puta, eu é que vi primeiro e já tinha até enfiado na sacola.. Num dou mesmo!
-E você aí, vai ficar dando chute em mim, vai? Tomou a inflação que eu tinha agarrado no começo do comício e agora ainda quer o crescimento, é?
-Cuidado, sua ordinária, não vem me dando soco não. Passa o tempo todo dormindo e agora quer tirar o atraso, é? O controle é meu.
– Eu peguei pra fazer uma omelete pro meu menino que tá com vontade faz dias…Sai daí, já avisei. Eu te dou um chute nesse bucho que tu vai ver!
-Por que tu não pegou os policiais que caíram ainda há pouco nos teus pés? Tu tava bem embaixo do homem que tava falando neles…….
-Tu pensa que eu sou besta, é? Pega tu, seu lazarento!
Em poucos minutos a confusão era tamanha, que não era possível entender mais nada do que se dizia no palanque. A pancadaria foi tão grande que atingiu também os políticos, e esses tentaram com seus seguranças, controlar a situação. Inútil. Todos se agrediam, e de longe só se enxergava a poeira correndo solta.
A velhinha que estava na porta do armazém, quando viu que um dos oradores estava caído, criou coragem e foi devagarinho até o palanque, enfiou a mão na boca do candidato, e conseguiu recolher ainda quentinhas, e molhadas de saliva o parágrafo inteiro:
-Puta merda, que miséria! Bando de marginais! Tinha que ter trazido mais seguranças. Pra essa corja, só no pau!
A velhinha, ainda apanhou mais algumas palavras daquele discurso do homem ferido, que escorreram pela terra, envolveu-as no avental, já que não levara sacola, por considerar-se incapaz de concorrer com os jovens no recolhimento das palavras. Depois desceu calmamente, rindo muito, e seguiu o caminho, para o seu mocambo, com seu almoço do dia seguinte garantido.
O restante do povo continuou ainda brigando, e já era madrugada quando a polícia chegou e levou muita gente presa. Uns apresentavam hematomas, outros sangravam e apresentavam fraturas. Clareava o dia quando os menos atingidos voltaram para casa.
No dia seguinte, todos, mesmo os detidos na noite anterior, felizes com a abundância, trocavam receitas pelas ruas da cidadezinha. Esquecidos das brigas, como se nada houvesse acontecido. Um dia de felicidade e fartura..
A lua começava a subir no horizonte quando as primeiras pessoas começaram a passar mal: vômitos, diarréia, convulsões, e uma fortíssima erupção no corpo todo. Em pouco tempo todos no pequeno lugarejo tinham sido atingidos.
Chamaram o único médico do lugar que, sozinho, não conseguiu atender a todos. Vieram ambulâncias da capital e dos municípios vizinhos. Conduziram os doentes aos hospitais da região que ficaram lotados com tantos pacientes. Entre os muitos internados 134 morreram, embora os jornais noticiassem a morte de 27. Entre os mortos estavam a velhinha do avental e a primeira mulher que descobrira as receitas e ensinara a todo o lugarejo que era possível se alimentar com palavras.
Contudo, o mistério permaneceu: como é que pessoas tão fortes, acostumadas a comer até os restos que recolhiam das feiras, tinham morrido tão rápido? Para os médicos aquelas pessoas tinham sido vítimas de algum vírus desconhecido, e embora os cientistas tenham pesquisado muito, jamais descobriram o que causara a intoxicação e a morte de tantas pessoas…
(*) Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.

UMA HERÓICA BRASILEIRA

By , 13 May, 2009 5:29 pm

UMA HERÓICA BRASILEIRA

Seu nome raramente aparece no noticiário. Ela é uma dessa pessoas que trabalha nos bastidores, o quê significa, na invisibilidade. Mas é uma brasileira heróica. Chama-se Myrian, com ípsilon mesmo. Paulistana descendente de italianos (comme il faut) e índios. Myrian Luiz Alves, é assim que ela assina o nome.
Nosso primeiro contato, há mais de dez anos, não foi exatamente amistoso. Claro, nós duas temos temperamento forte e somos desconfiadas e alertas.
Mãe de quatro filhos, três mulheres e um homem, ela é dessas pessoas que são necessárias. E mesmo na intimidade de sua casa, que tenho o privilégio de usufruir, é dura, mas segue os conselhos de Che e sabe ser a mais terna das mães, companheira e amiga. E só os deuses sabem o quanto é difícil cuidar de quatro filhos, sem a presença do pai (ela já foi casada, separou, ficou viúva) e, muitas vezes, sem saber como sustentar a prole. Mas eu repito, Myriam é uma heróica brasileira.
Há bem mais de dez anos, antes de conhecê-la, Myriam já estava na batalha que até hoje é motor de sua vida: a busca dos desaparecidos da ditadura militar brasileira. Foi ela, por exemplo, quem trabalhou incansavelmente para a descoberta das ossadas do cemitério de Perus, na sua São Paulo. Mas, sempre, nos bastidores, na assessoria de políticos. Na época, assessorava um vereador do PDT de São Paulo, que presidia a comissão de inquérito.
Mas São Paulo é pequena demais para Myriam e assim ela chegou a Brasília. E, sem tirar os sapatos de salto, começou uma luta sem tréguas para identificar os mortos e desaparecidos da Guerrilha do Araguaia. Viaja a Marabá, que foi o QG dos militares da ditadura no combate à guerrilha, com seus próprios recursos, vai de carro, volta de carro, dirigindo, às vezes sozinha, tudo para buscar mais uma informação. Desloca-se com passagem aérea emprestada quando sabe que lá nos confins de Rondônia, ou no Ceará, provavelmente se encontre mais um elo da sua busca. E mesmo numa reunião social, quando as pessoas estão falando de rock, ou cinema, Myriam consegue voltar ao tema principal. O direito à História, as chaves para a identificação das ossadas do Araguaia, as covas sem nome daqueles que lutaram para, quem sabe, libertar o Brasil e dar melhores condições aos brasileiros…
Sua maior revolta em todos esses anos tem sido contra muitos políticos que ocupam páginas de jornais dizendo-se empenhados em desvendar os bem guardados segredos dos militares que fizeram a campanha do Araguaia, enquanto conviviam, e nos faziam conviver, com ossadas guardadas em sacos plásticos nos armários da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Nem mesmo mesmo a fabulosa imaginação de Gabriel Garcia Márquez seria capaz de supor esse cenário surreal.
E mais, além da revolta, ela guardava uma certeza. A ossada é de Bergson Gurjão Farias, líder estudantil no Ceará nos nossos anos de chumbo, que depois aderiu à guerrilha e lá foi morto e barbarizado, porque seu corpo foi chutado e vilipendiado mesmo depois da morte.
Tanta era a convicção de Myrian que ela me convenceu.
Mas só agora, esta semana, Myrian teve o reconhecimento “científico” de suas convicções. O perito Domingos Tocchetto, professor de Criminalísitica na Escola Superior de Magistratura, admite que os ossos do armário são do guerrilheiro Bergson. E tenho certeza de que ele não foi influenciado por Myrian, afinal de contas, é um perito. Por coincidência, foi mais um parlamentar do PDT, Pompeo de Mattos, gaúcho e presidente da Comissão de Direitos Humanos quem possibilitou a perícia.
Hoje, quando acordei e li nos jornais a certeza de Myriam estampadas, não tive dúvidas. Telefonei e lhe dei parabéns. Mas achei pouco. Um telefonema, mesmo sujeito a escutas clandestinas, é pouco para agradecer o trabalho desta mulher. Por isso, escrevo. E escrevo com os pelos arrepiados pela emoção.
Myrian, obrigada. Acho que não só eu, mas a História do Brasil deve agradecer tua obstinação. E, quem sabe, te por uma medalha no peito. Medalha que ainda não tem nome mas, quem sabe, poderia se chamar “Medalha dos Guerreiros”, ou do “Mérito de Luta”.
Obrigada, Myrian. Obrigada por nos dar o direito de conhecer nossa História

SIM, NERUDA, CONFESSO!

By , 10 May, 2009 5:50 pm

SIM, NERUDA, CONFESSO!
Confesso que vivi e vivo na mesma intensidade e com todas as emoções. A certeza me veio quando vi a foto de um homem de cabelos brancos sendo condecorado com a “Ordem de Ipiranga”, honraria máxima do estado de São Paulo. O homenageado era um ex-presidente dos Estados Unidos que parecia ter um sorriso grudado ao rosto, todos os dentes à mostra. Recebeu a faixa porque foi um aliado da luta pela anistia no Brasil.
A foto que vi, num dos sites de jornal, era pequenina e por isso, impossível perceber que até suas cílios já estão totalmente brancos. E então me veio à lembrança a única vez que estive próxima de um Carter. Era o tempo dos medos e sussurros. Minha terra vivia sobressaltada. Qualquer palavra a mais poderia significar masmorras, torturas e até mesmo o desaparecimento de quem a proferisse. Aquele tempo ficou conhecido pelo nome de ditadura. Das histórias que sei e que presenciei, “ditadura” talvez seja uma palavra branda. Vivíamos um tirania total. Direitos Humanos? Nem pensar. A palavra fora arrancada das páginas do dicionário e triturada em algum dos porões mantidos pelos facínoras. Mas voltemos a Carter.
78 ou 79? Acho que era 79 e lutávamos pela anistia daqueles que se exilaram ou foram simplesmente banidos pelos militares. O presidente da época era um general, chamado João Batista Figueiredo. E então se anunciou a vinda do presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter e sua mulher, Rosalynn. Eu trabalhava num jornal importante, a Folha de São Paulo.
Na embaixada, pronta para receber o “comandante em chefe”, houve um sorteio para a escolha dos jornais que participariam da entrevista com Rosalynn Carter. Meu jornal foi sorteado e, imediatamente, me transferiu a tarefa de ir à Câmara dos Deputados, onde ela falaria com os jornalistas.
Na época meu inglês cabia numa caixinha de fósforos e até hoje não entendo porque o chefe me mandou fazer a entrevista. Talvez porque eu sempre perguntasse além da conta. Mas ainda hoje desconfio que a decisão do editor obedeceu a esses mistérios da vida.
E explico.
Jamais acreditei na chamada neutralidade jornalística. Isso já me custou empregos, prisões, mas manteve minha dignidade no devido lugar. Cada vez que algum jornalista vem me falar de neutralidade, lembro de um jovem militar do exército do Egito que lutava contra o colonialismo inglês no seu país que um dia disse, “eles nos querem neutros para que sejamos cúmplices”. O jovem militar se chamava Gamal Abdel Nasser. Bom, foi com esse espírito que sempre exerci a profissão e por isso acredito que minha escolha para aquela entrevista deve-se mesmo aos mistérios da vida. Nenhum outro jornalista ousaria, em plena ditadura, assumir a tarefa que assumi. Não, não pensem que isso me envaidece. Foi apenas uma tarefa de quem tem convicções na luta contra as tiranias.
Quando cheguei à Câmara, alguns deputados do chamado grupo “Autêntico” do MDB, ficaram felizes porque eu fora escalada para a entrevista. Eles tinham necessidade de se aproximar da primeira-dama dos EUA e não podiam entrar na Comissão de Constituição e Justiça, onde aconteceria a entrevista.
E então me deram um envelope branco, retangular que deveria ser entregue ao presidente, e ninguém melhor do que a esposa para a função de carteiro. Do grupo eu me lembro que estavam Aírton Soares, de São Paulo, o deputado Duque, do Paraná, Odacir Klein, Getúlio Dias e João Gilberto, do Rio Grande do Sul.
Guardei a carta dentro da agenda e fui para o lugar designado para a entrevista. Uns seis brutamontes gringos cercavam Rosalynn Carter, além dos temíveis policiais federais brasileiros. Não fiz perguntas. Havia outros para fazer e, desde a hora que recebi a missão, só me preocupava em cumpri-la. Entre os jornalistas e a primeira-dama havia um cordão de isolamento. Quatro ou cinco perguntas foram feitas e então, um representante da embaixada anunciou que a próxima seria a última pergunta. Ela respondeu, e eu corri para o cordão gritando “Mrs. Carter, Mrs. Carter”. O suficiente para uma cotovelada nas costelas, dada por um brutamontes. Fui logo cercada pelos demais. Com 159 centímetros de comprimento, desapareci no meio daqueles homens enormes, mas continuei gritando “Mrs. Carter, Mrs. Carter”. Na verdade, eu me esgoelava. E ela, num gesto de elegância, ou talvez benevolência, ordenou que me deixassem passar. Entreguei a carta dizendo que era da “oposição brasileira no Congresso” e que todos estávamos lutando pela anistia. Ela pegou a carta da minha mão, antes que os brutamontes o fizessem, abriu, leu, me concedeu um sorriso e um “thank you”.
Do lado de fora, os deputados também sorriam de alívio. E eu, com a missão que poderia ter custado meu emprego, saí da sala saltitante. Mesmo sem ter feito perguntas, criara o “lead”, ou seja, a abertura da matéria, preocupação diária de todos os jornalistas.
Não sei se o presidente Carter ajudou na conquista da nossa anistia, mas só sei que tempos depois eu me deslocava pelo Brasil afora para receber nossos exilados. Para Carázinho, no Rio Grande do Sul, onde me juntei à massa que esperava o querido Leonel Brizola, para Recife, receber Miguel Arraes, para o Rio, onde me sentei no chão do aeroporto e ouvi as palavras do “Cavaleiro da Esperança”, Luís Carlos Prestes, e para minha inesquecível ilha de São Luis, para encerrar a longa espera do meu tio, Neiva Moreira. Eles estavam voltando. Quem sabe tudo entraria nos eixos novamente.
Por isso, Neruda, não tenho pudor em repetir a sua frase tão famosa e ainda acrescentar versos de Roberto Carlos quando diz, “se chorei ou se sofri, o importante é que emoções eu vivi”.
Memélia Moreira

Volto com novo blog

By , 3 May, 2009 12:36 pm

Olá, vocês!
Volto com novo blog.
O primeiro “Entrelinhas”, morreu de inanição. Claro, as dificuldades de alimentar um noticiário a mais de oito mil quilômetros de distância dos temas sufocaram a idéia.
Depois veio o “Beyond the Parks”. Morreu de desinteresse. Difícil escrever sobre as atrações que existem além dos parques, em Orlando, na Flórida. Elas existem, mas não me motivaram o suficiente para acompanhá-las.Finalmente, acredito que cheguei onde pretendia. Um blog onde posso escrever crônicas, comentar notícias, postar minha poesias e poesias dos poetas, dar dicas de culinária, desabafar, enfim, uma colcha de retalhos. Fiquei em dúvida sobre o nome. Primeiro pensei realmente em “Colcha de retalhos”. São coloridas e de diferentes texturas. Mas é um nome duplo e gosto de substantivos simples. Depois, veio “bric-a-brac”. Legal! Mas me soou pretensioso.
Finalmente, cortando ervas daninhas no meu jardim e com as cores de todas as flores, o título saíu naturalmente.
Optei por Mosaico, que não deixa de ser uma colcha de retalhos só que no lugar de tecido, fragmentos esmaltados.
Resta dizer que sou apaixonada por mosaicos, essa arte que foi criada pelos sumérios 2.500 anos antes de Cristo e resiste a todas as artes que se seguiram.
Finalmente quero pedir aos amigos que escrevam. Os poetas, que mandem poesias; os cronistas, as crônicas e aqueles que querem apenas expressar indignação ou tristeza, usem as letras e me mandem. Prometo que só vou censurar as ofensivas, aquelas que atentem contra as liberdades.
Com carinho
Memélia
P.S. A cada mês, uma frase será escohida entre as dezenas de minha coleção guardadas em cadernos.

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