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QUANDO OS CORONÉIS TREMERAM…

By , 5 May, 2013 4:58 am

DAVID YANOMAMI ÍNDIO KARAJÁ Mário Juruna_thumb[3] raoni_trocadero

QUANDO OS CORONÉIS TREMERAM

Memélia Moreira

(Segue aqui minha homenagem a líderes indígenas que escreveram e ainda escrevem a história da resistências dos povos dominados: Mário Juruna, Raoni, Aniceto Tsvadzére, Celestino Xavante, Arutana, Modesto Terena, Maluwaré, Híbes Menino, Bedjai, Kokrid Panará, Ângelo Kretã, David Kopenawa Yanomami, Krumari, Marçal Tupã-í, Kremuro, Pio Suruí, Getúlio Krahô, Pio Tapirapé, Daniel Matenho Cabixi, Álvaro Tukano, Marcos Terena. Todos eles, em algum momento,  frequentaram minha casa e me deixaram um legado para a vida.)

Já é madrugada de uma fresca primavera nessa tórrida Flórida, que flerta à distância com minha América, a América do Sul, piscando seus olhos de cobiça sobre o Caribe. Entre saudades das filhas e neta, da família e dos amigos, leio as notícias da recente ocupação do canteiro de obras da faraônica barragem de Belo Monte. A repressão, a censura, a tentativa de esmagar povos que defendem sua própria sobrevivência e a sobrevivência do planeta me fazem lembrar tantas outras resistências e o dia em que os coronéis da ditadura tremeram. De medo.

Era noite de domingo, quatro de maio de 1982. Estava em casa com minhas filhas, ainda crianças, quando o telefone toca. Do outro lado da linha uma voz conhecida diz “venha aqui pra casa agora. Temos uma reunião de emergência. E você vai ter que viajar hoje à noite”. Respondi ser impossível porque não tinha com quem deixar minhas filhas. E então a voz, responde “estamos mandando alguém para ficar com as meninas”.

A reunião era na casa de Cláudio Romero, antropólogo e indigenista. Um combatente. Havia outros indigenistas e funcionários na Funai. Conspirávamos. Foi quando decidiram ser eu a “pessoa certa” para uma missão delicada e quase arriscada. Fui designada, por ser jornalista de um importante veículo (Folha de São Paulo), a escoltar um ônibus que transportava 60 índios do povo Xavante. E eles estavam pintados de vermelho. Só exigi levar o fotógrafo que sempre me acompanhava. Concordaram. Embarquei no bravo fusquinha AD-1715, sem carteira de motorista, documento que só tirei depois dos 50 anos. Sem mapa, porque conheço os caminhos que me levam à Amazônia, segui viagem.

Já era tempo de frio nos sertões de Goiás. O encontro foi marcado no trevo de São Luís dos Montes Belos. E lá nos esperava o saudoso Antonio Moura, jornalista do Porantim.

A madrugada  esfriava cada vez mais. O jeito era recorrer a uma cachaça para não congelar dentro do carro.

Ser mulher e ter a ousadia de entrar num restaurante de beira de estrada, às 3 da manhã para pedir uma “azuladinha” é igual brincar na montanha-russa. Mas, alertada por Guimarães Rosa, sei que viver é perigoso. Muito perigoso. Tomei uns goles e até exorbitei,  puxando conversa no balcão.

Pelas quatro da manhã, surge nosso ônibus. O fotógrafo dormia no carro, Moura tentava se concentrar na matéria que escreveria, enquanto eu fumava um charuto, planejando o quê dizer se fôssemos interceptados pela Polícia Federal. Foi para essa tarefa que me convocaram. Tinha que levá-los a Brasília. E cumpriria a missão.

Extasiada com o espetáculo do alvorecer, que nos sertões do Goiás na época da seca leva qualquer um à poesia,  acompanhei o ônibus. As barreiras policias de um país sitiado pela ditadura não se movimentaram. Chegamos a Brasília por volta das sete da manhã. O destino era o centro de estudos mantido pelos jesuítas, ao norte da cidade.

Voltei para casa. Precisava tomar um banho, sentar à mesa do café da manhã com minhas filhas e, descansar um pouco. Foi pouco mesmo. Elas foram para o parquinho. Às nove da manhã, quando mal começava a dormir, o chefe de redação do jornal telefona: “Memélia, vá direto para a Funai. Os índios cercaram o bloco A do Setor de Autarquias Sul. Há um batalhão de choque da PM. Mas, toma cuidado.” Que saudades dos chefes que tanto me conheciam.

Em menos de 15 minutos e com uma xícara de café forte na mão, já estava no fusquinha. E nem precisava me apressar. Afinal de contas, só Antonio Moura, e eu, tínhamos  a história completa. Mas  jamais perderia um minuto daquele dia.

O prédio borbulhava. Na calçada da entrada principal, 180 policiais militares com capacete, escudo, cassetete, armas no coldre, esperavam a ordem para atacar. Lá dentro, o pandemônio.

Aos 60 xavantes se juntaram mais 40 de 16 etnias diferentes. Pankararu, Makuxi, Suyá, Karajá, Kaingang, Terena, Nambiquara, Trumai, Parakategê, Guarani, Kaxinawá, enfim, todos os índios que estavam em Brasília reivindicando seus direitos se uniram naquele momento de resistência.

O presidente da Funai era o coronel João Carlos Nobre da Veiga. Naquele mesmo ano ele foi envolvido no escândalo da Capemi (lembram do caso Baumgarten, do travesti Polica e do coronel Newton Cruz? Pois é) e na venda ilegal de madeira derrubada para a construção da farônica e inútil hidrelétrica de Tucuruí. Nobre da Veiga presidia a Funai, vendia madeira de terra dos índios, ia a Paris dançar bolero no “Le 78”  e ainda comandava outros 19 coronéis todos com altos salários empoleirados em “funções de confiança”.

Do seu time, figuravam os coronéis da Aeronáutica, Roberto Guaranys, do grupo  que queria explodir o Gasômetro do Rio de Janeiro. A explosão serviria para  endurecer o poder militar que  vinha perdendo suas forças. E também o coronel Ivan Zanoni Hausen, conhecido como “doutor da mata” nas sessões de tortura contra os guerrilheiros do Araguaia. Um circo de horrores.

No oitavo andar, ocupado pela Funai, gavetas eram esvaziadas, processos do DSI  (Departamento de Segurança e Informação) rasgados e atirados pela janela. Os muitos servidores que eram subservientes e cúmplices dos coronéis se encostavam pelas paredes, olhos arregalados de medo, sem bússola, sem proteção dos chefes, sem saber o quê fazer.

Com pouco mais de um metro e meio de altura e medalha no peito por ter combatido nos campos da Itália durante a II Guerra Mundil, o coronel Nestor  andava de botas de montaria dentro da Funai. Sem qualquer razão específica agredia índios, jornalistas e qualquer um que se atrevesse a cruzar seus passos barulhentos. Ele foi içado por quatro índios. Carregando o coronel, entoavam a contagem regressiva. “3..2…”  Iam jogá-lo pela janela. Cheguei no exato momento em que o coronel, com voz de caniço rachado e chorando, gritava pedindo ajuda. “Ezequias, Ezequias, me socorre”. Ezequias era nada menos do que meu querido amigo. O  Xará de todos nós, um resistente que, por sua generosidade e senso político, evitou a  cena com uma cabeça de coronel virando farinha suja de sangue no asfalto do estacionamento…

Eu subia e descia os oito andares do Bloco A. Cheguei à porta principal e o coronel Hausen, cabelos eriçados, em total desespero, me pergunta, “o que é que se pode fazer”. Com o mais singelo sorriso (e uma vontade imensa de dizer “que se danem vocês”) respondi, “só resta negociar, coronel”.

Rodeado por seus seguranças, Nobre da Veiga, o presidente, homem irritadiço que quando perdia a paciência puxava a perna da calça até chegar à altura do joelho, e depois desenrolava até o tornozelo, ouve o coronel Hausen e pergunta se eu podia ajudar. Assumo imediatamente a famosa “neutralidade jornalística” e digo, “coronel, não posso fazer nada. Vim aqui só para fazer matéria para meu jornal”.

Que maravilha devolver aos dominadores os mitos que eles criaram para sufocar os povos que se levantam!

Os boatos começam a circular. “Mandaram prender Cláudio Romero”. Ou, então “Odenir está preso”. Odenir Pinto de Oliveira é  indigenista, apelidado “Xavantão”. Xavante mesmo. Mestiço. Criado em aldeia, fala a língua do seu povo tão bem quanto fala a língua portuguesa.

Já perto de meio-dia, o chefe xavante Aniceto Tsvadzére vai ao encontro dos policiais. Para em frente de cada um e diz as mesmas palavras. “Quando nós recebemos vocês na nossa terra, nós não mandamos guerreiro com arma para assustar vocês. Estamos aqui só para lutar pelos nossos direitos”. E apertava a mão do soldado. Foram 180 aperto de mãos. Aniceto era o diplomata do seu povo.

A situação continuava em descontrole. A essa altura, a imprensa internacional já subia e descia as escadas, câmeras no ombro, pedindo tradução das palavras de ordem, também assustados com os gritos e os corpos dos índios pintados de urucum.

Odenir e Cláudio Romero chegam. Para não receberem voz de prisão, entram protegidos por deputados do PMDB. Dante de Oliveira, que depois apresentou a emenda constitucional pelas eleições diretas para presidência da República, vinha na frente do grupo. Todos de braços dados.

Faz-se a negociação.

Volto para minha Olivetti e descrevo, com detalhes, o  dia que começara na noite de quatro de maio e se estendera por todo o dia 5. Matéria de primeira página de todos os grandes jornais do país.

Vou para casa levando cinco índios que passaram a noite tramando a nova ocupação. Ela aconteceria menos de 12 horas depois.  Minhas filhas dormiram na minha cama, aconchegadas ao meu corpo para matar as saudades da mãe sempre ausente. E, na biblioteca, armamos redes para os hóspedes insones.

Aquela foi a primeira ocupação de uma propriedade do Governo. Uma ação inédita que depois se repetiria pelo Brasil ao longo das resistências.

Por que será que tantas lembranças turbilhonam minha cabeça nessa madrugada de cinco de maio? Por que não jogar essas lembranças no fundo da arca? Porque Belo Monte, essa hidrelétrica planejada pelos ditadores do regime militar e executada por um Governo que prometia mudar a história dos povos deserdados, é a refilmagem de um momento que vivi e que se repete como um pesadelo contínuo. Porque as cenas da ocupação dessa obra criminosa, que vai destruir meu mágico Xingu são o testemunho mais vivo de que a luta na defesa da sobrevivência humana será prolongada. E só derrotaremos o seleto grupo de convidados para o banquete quando as palavras de Giuseppe Tomasi, duque de Palma, príncipe de Lampedusa, – “se queremos continuar como está, vamos mudar para que nada se transforme”- , enxovalhada pelo excesso de uso, seja atirado ao lixo não-reciclável da História. Caso contrário, o desabafo feito por David Yanomami, perplexo e triste, sentado no sofá da minha sala será citada como profecia: “Eles fazem tanto buraco no chão para buscar ouro que um dia a terra vai cair porque a riqueza do fundo da terra é que segura o mundo para não despencar tudo”.

PAPAI, CHICO MEIRELES E OS GAYS

By , 30 April, 2013 11:14 am

PAPAI, CHICO MEIRELES E OS GAYS

Memélia Moreira

Papai se chamava Geraldo Guimarães Moreira. Era boêmio, libertário amoroso e dava o sangue e a alma pelo “Jornal do Povo”, fundado por seu irmão, meu tio, Neiva Moreira, em 1950 e   fechado dias depois do golpe de abril de 1964. Papai nasceu em 15 de janeiro de 1920, na cidade de Barão de Grajaú, no Maranhão.  Morreu em janeiro de 1971.

Francisco Meireles era amoroso, libertário, não sei sobre suas boemias, sertanista, entregou a vida aos índios. Nasceu em 21 de fevereiro de 1908, na cidade do Recife e morreu em junho de 73.

Não me debrucei sobre os vícios e defeitos de nenhum dos dois. Nem me interessa. Guardo deles lições de vida que me moldaram e hoje são importantes para que eu assuma algumas bandeiras atuais.

Antes de mais nada, me apresento. Nasci em 23 de outubro de 1947, na cidade de Boa Vista, capital de Roraima e cresci entre Rio de Janeiro, São Luís do Maranhão, minha paixão, e Brasília, paixão igual.  Sou jornalista, libertária, de formação intelectual errática. Hoje leio István Mészaros e em seguida, abro Marie Claire, Vogue ou Elle e mergulho intensamente nas frivolidades ditas. Tenho paixão por Machado de Assis, Marcel Proust, Dostoievsky. Baudelaire, Bandeira Tribuzi, Sousândrade, Rimbaud, Pepetela, Mia Couto e tantos outros. Os amigos dizem que sou generosa. Pode ser. Dos meus defeitos, eu sei. Sou impaciente com pessoas neutras, intolerantes de qualquer natureza, mal-humoradas e, principalmente com aquelas que carregam o que chamo de “pollyanismo’, essa mania de acreditar que tudo está bem e querer agradar todo mundo o tempo todo. Bato de frente com quem se escuda atrás de qualquer religião, mas rezo sempre que me lembro. E, antes que me esqueça: heteroessexual bem resolvida.

Que traços em comum teriam Papai, Chico Meirelles e os gays.  Calma, mais adiante vocês vão saber. E se alguém estiver esperando por um tratado sobre gays, esqueça. Não tenho nenhuma tese sobre o assunto e nem sei citar os clássicos que tentam explicar porque um homem ou uma mulher é homossexual. Acho que a natureza, os fez assim. A mim me basta essa certeza.

Estou escrevendo tudo isso porque fui provocada por uma história contada por um jornalista de quem gosto muito. Chama-se Carlos Marchi.  Há dias ele postou no Facebook, esse grande ponto de encontro, militâncias, onde se debate desde o mais recente botox da Esplanada dos Minsitérios, passando pelas piadas, poesias, manifestações governistas e anti-governistas, intrigas políticas nacionais e internacionais e, principalmente, assuntos da ordem do dia uma pequena notícia.

Pois bem, Carlos Marchi nos conta história que aconteceu num parque público em São Paulo. Dois homens se beijavam na boca e uma criança assistiu a cena. Curiosa, como devem ser as crianças, perguntou à mãe o significado da cena. A mãe, sem responder, pegou o filho e se afastou correndo do beijo. Marchi disse que não saberia responder a pergunta se ela fosse feita por um filho seu. E eu sugeri ao meu amigo que a mãe respondesse apenas, “ele se beijam porque querem se beijar”. Nada mais simples.

Meus questionamentos me importunavam. E eu me dizia, que sorte a dessa criança e de sua mãe. Nenhum dos dois viveu o tempo em que o beijo público entre um homem e uma mulher também era uma cena vamos dizer, imoral, escandalosa. Nem precisa ir muito longe. “Cinema Paradiso” me resgatou. A herança deixada por Alfredo, que juntou no mesmo celulóide todas as cenas de beijo, entre um homem e uma mulher, cortadas pela censura religiosa de uma Itália da primeira metade do século XX me deu um alívio sobre a evolução da humanidade.

Mas os neuroniozinhos ainda não estavam satisfeitos. A história e a tentativa de montar a cena do parque continuavam beliscando meus pensamentos. E então, um filme, sem celulose, me transportou à minha infância tão rica em experiências. E, também, aos aprendizados que o Jornalismo me concedeu.

Era final dos anos 50, eu andava aí pelos 11, 12 anos, na minha ilha de São Luís, chamada de “Ilha dos Amores” ou, “Ilha Rebelde”. Seu Frauzino era um líder da comunidade do Sacavém, bairro proletário.  Negro retinto (no Maranhão, a pele negra tem vários tons: “negro retinto”, ou seja, puro; o “Roxinho”, com aquela tonalidade de pele comum aos indianos, paquistaneses; “Mulato claro”, ‘Mulato escuro” e outras subdivisões das quais já me esqueci), e olhos amendoados, ele era também nosso cabo eleitoral.

Um dia, alguém contou ao Papai que seu Frauzino, figura que frequentava muito nossa casa, era “maricas” (denominação socialmente aceita para denominar os “qualiras”, regionalismo maranhense para gays). O assunto foi lembrado na hora do almoço. E Papai, aquele homem que nasceu na segunda década do século XX apenas respondeu, “Isso não interessa. E daí, muda alguma coisa? Ele não é homem, nem mulher, ele só é diferente. É assim. E, pronto”. A discussão morreu. Não para mim que a guardei em alguma gaveta da memória.

Nos início dos anos 70, já com meus 24, 25 anos, convivi de perto com o sertanista Chico Meireles. Tenho dele grandes lembranças de ensinamentos que só depois de madura percebi a grandeza do que aprendera. Lembro de Chico Meireles deitado na rede num apartamento modestamente mobiliado na 205 Sul, em Brasília. Jornais espalhados pelo chão e o cheiro da caldeirada de peixe que borbulhava na cozinha integram essas lembranças. Ali, entre jornais e goles de cachaça, se escrevia a história de alguns dos povos indígenas da Amazônia, principalmente a da nação Xavante.

Seu Chico participou de muitas frentes de atração de índios sem contato com a sociedade nacional.  Era sertanista desde os tempos do SPI (Serviço de Proteção aos Índios) e se aposentou pela Funai.

Numa dessa frentes de contato, estava com seu filho Apoena Meireles e seu genro, Ezequias Heringer, o “Xará”. Filho e genro também sertanistas. Xará foi meu querido amigo desde a adolescência até meus 40 anos, quando um acidente de carro o matou. Era meu confidente, pai, irmão. E brigávamos muito. Muito mesmo. O machista mais carinhoso com quem convivi.

Da frente de atração, além de Chico Meireles, Apoena e Xará, havia um indigenista apelidado “Campinas”. Gay.

Um dia, em plena floresta, nas proximidades do rio Peixoto de Azevedo, Mato Grosso, terra dos Krena-Karore (Panará), Xará e Apoena chegam esbaforidos perto da rede de seu Chico e contam, indignados e atropeladamente, que Campinas, o indigenista gay, “estava comendo os índios”. E eles não falavam exatamente de canibalismos.

O velho Chico, mais indignado ainda, senta-se na beira da rede e pergunta: “Apoena, o cu é seu?”. Apoena, já de cabeça baixa, responde “Não”. Vira-se para “Xará e refaz a pergunta, “Xará, o cu é seu?”. Quieto, mas trincando os dentes, Xará responde “Não”. E aí aquele homem que nasceu no começo do século XX, deu a lição: “O cu é dele. Vocês dois não tem que reclamar de nada. Deixem o Campinas em paz e não me encham o saco”. Era assim, seu Chico Meireles.

Agora, já nos meus 65 anos aquela lição de respeito ao outro que esses dois homens me deram em épocas tão diferentes da minha vida me devolvem à criança do beijo. E não mais acredito que ela é uma criança de sorte. Vai atravessar o século XXI sem ter  vivido a oportunidade de receber uma aula  de respeito quando viu dois homens se beijando. E lamento mais ainda pela mãe do garoto que jamais entenderá as tantas variedades de amor manifestadas pelo ser humano.

Marchi, meu amigo, eu te agradeço muita aquela postagem. Tu reavivastes momentos esquecidos.  Até agora nem eu sabia a razão pela qual defendo a bandeira dos gays. Não é apenas porque minha militância política está sempre a postos para lutar em defesa dos discriminados de um modo geral. Mas porque, no passado, dois homens tão diferentes entre si imprimiram em mim a noção da alteridade. E, mais ainda, a respeitar essa alteridade.

Que se beijem todos!

Que se beijem homens e mulheres, mulheres e mulheres, homens e homens, anjos e demônios, todos. Eu prefiro vê-los aos beijos que entre quatro paredes construindo bombas ou planejando a destruição do planeta que me serve de moradia. E   porque, canta o poeta…

 

“…Eles amaram de qualquer maneira, vera

Qualquer maneira de amor vale a pena

Qualquer maneira de amor vale amar

 

…Qualquer maneira de amor vale aquela

Qualquer maneira de amor vale amar

………………………………………

Qualquer maneira de amor valerá”

CAÇADA HUMANA, ESPETÁCULO EM CINCO ATOS (OU, CINCO DIAS)

By , 21 April, 2013 5:25 pm

BostonCAÇADA HUMANA,

ESPETÁCULO EM CINCO ATOS (OU, CINCO DIAS)

Roteiro, Direção e Sonoplastia – CIA, FBI, POLÍCIA DE BOSTON

Participação Especial – Sociedade Americana

Narração – Fox News

 

Memélia Moreira

Era Boston, início da tarde de 15 de abril, numa primavera sonolentae e ainda fria, quando dois irmãos sairam de casa. Nas costas carregavam um elemento cada dia mais demonizado pela sociedade americana: mochila. E essa tinha seus perigos. Ela transportava uma bomba. Caseira, rudimentar, de baixo impacto, de fácil feitura, feita em panela de pressão.  Mas continuava sendo uma bomba. E bombas, de nêutrons ou caseiras, são construídas com o mesmo objetivo. Para matar.  Sempre.

Os jornais da cidade de Boston naquela segunda-feira, dia da “segunda maratona do mundo” (a primeira continua sendo a grega) trazem notícias corriqueiras., além do assunto do dia, a maratona . Nas primeiras páginas do jornais de Boston, New York, Washington, Chicago, Miami, nenhuma linha sobre o que acontecera na véspera, domingo, 14 de abril. Naquele dia, 30 pessoas, entre elas oito crianças,foram mortas por um drone no Afeganistão. A máquina da morte confundiu uma cerimônia de casamento com ato terrorista. Há quem concorde.

São 2h17 minutos da tarde de 15 de abril na bela e culta cidade de Boston. Correrias, sirenes, multidão em polvorosa.  A bomba havia explodido. Quatro pessoas são envolvidas em sacos plásticos. Mortas. Outras 160  se espalham pela rua interditada e pelas calçadas. Feridas. Comoção nacional. Não pelo drone que matou 30 pessoas inocentes. Mas pelo “ato terrorista” que matou quatro pessoas, inocentes, entre eles um garoto,  e mais 160 feridos. Um deles, com pernas amputadas.

24 horas do atentado, nenhum suspeito. Nada.  Nenhuma testemunha mas (as conjunções adversativas sempre mudam a história do mundo), surge a primeira imagem, um primeiro suspeito. Alguém que andava sobre os telhados na hora da maratona.

As especulações qual coriscos ensandecidos, riscam os céus de Miami, Chicago, Washington, New York e Boston.  “Isso é coisa do Tea Party”, reclamam uns. “Parece que foi ação de quem é contra a alta de impostos”, bradam outros. Ninguém se lembra de que o Congresso dos EUA está, nesse momento, discutindo uma Lei de Migração menos draconiana. A discussão arrepia e traz pesadelos para a  extrema direita e seu atual líder, senador pela Flórida, Marco Rúbio. Filho de cubanos fugidos da ilha nos 60.

Quarta-feira, 17 de abril. A câmera de um “anônimo” traz, finalmente, aquilo que mais de 300 milhões de americanos esperavam. A imagem de dois rapazes. Eles e suas e suas mochilas.  Os dois próximo à lixeira onde a bomba fora deixada.

Ainda é 17 de abril. A voz da âncora da Fox News ecoa pelos ares de um país em pânico. Mas, antes de qualquer pronunciamento oficial, a âncora da Fox News canal de televisão de Rupert Murdoch  (a mesma que se recusou a acreditar na reeleição de Obama) deixa escapar o cheiro da panela. Um cheiro de Islam servido num samovar.

17 de abril, em Boston, a câmera com imagem dos dois irmãos, de nomes impronunciáveis no Ocidente, se junta a outras câmeras. A CIA entra em ação para ampliar as imagens que mais a interessavam A dos dois irmãos.  A Polícia de Boston nega ter feito a captura de qualquer suspeito.

Já é quinta-feira, 18 de abril. CNN, com seu noticiário desbotado e Fox News exigindo vingança passam a centralizar o noticiário na busca dos “terroristas”. Às nove da noite desse dia, as imagens dos dois irmãos surge nas telas das redes sociais com a tarja “Wanted” (Procurados). A mesma tarja utilizada na colonização da costa Oeste do país para encontrar pistoleiros ou ladrões de gado, de banco…

Ainda é quinta-feira. Dez da noite. O lado Leste dos EUA   já se entregou ao sono.  A sociedade estadunidense dorme cedo. Mantém até hoje hábitos rurais, com algumas exceções. Na Fox News, uma voz embargada de emoção anuncia que uma loja de conveniências foi assaltada. Eram os dois irmãos. Eles também fizeram um refém, o dono de uma Mercedes SUV (Sport Utility Vehicule), um jeep possante. O refém escapa enquanto os irmãos assaltam a loja. Nem o FBI, nem a CIA, nem a Polícia de Boston mostra a loja do assalto e muito menos o cidadão sequestrado.

A partir daí, a tarja “Wanted” pode ser substituída pela tarja “Fiction”. Ou, com o aviso de acredite, se quiser. Porque, nessa tragédia, com cinco mortos (os quatro pela bomba e um dos irmãos pela polícia) a verdade de substantivo abstrato, torna-se substantivo volátil.

10h30 minutos da noite de quinta-feira, os dois irmãos, mesmo num carro possante, não tinham se afastado tanto do local do sequestro seguido de roubo. A Polícia cerca o carro. Uma câmera imóvel filma o tiroteio. O som dos tiros são nitidamente de armas do mesmo calibre.  Mas a versão oficial informa que a polícia foi recebida com bombas, embora o vídeo de câmara parada não mostre nenhuma explosão.

O mais velho dos irmãos é preso (ou se entrega, ninguém sabe). E morre “a caminho do hospital”. Ou vocês pensavam que só bandido brasileiro morre a caminho do hospital depois de “intensa troca de tiros”.

O irmão caçula, ferido, consegue escapar. Deixa um rastro de sangue, mas a polícia não segue as pegadas frescas. Desloca-se para uma pacata cidadezinha, Watertown para vasculhar a casa onde, afirmam as autoridades, viviam  os irmãos. A essa altura, o telespectador já sabe que eles são estrangeiros. Vieram da sofrida Chechênia, país localizado numa região onde a morte chega pelas mãos das tropas de ocupação estacionadas no Afeganistão, pelos russos ou, pela arma mais abjeta criada pela indústria armamentista dos Estados Unidos, o drone.

Os repórteres, âncoras e comentaristas se entreolham decepcionados. Por que Chechenia? Afinal de contas,  Chechenia, é um país invadido pela Rússia. Seus imigrantes têm direito ao status de “refugiados”. Ou seja, os dois estavam fugindo do antigo inimigo número um dos EUA, a poderosa União Soviética. Um fantasma que por mais de cinco décadas povoou os pesadelos dos americanos. Não fazia sentido, bradavam os analistas e especialistas em Segurança e Terrorismo.

Helicópteros, carros anti-bomas, agentes com colete do FBI, Polícia de Boston, sirenes incessantes. A casa é cercada. São 10h30 da manhã de 19 de abril. A caçada fora iniciada doze horas antes. O movimento é acompanhado por centenas de jornalistas e canais de TV. As ruas da cidade foram fechadas. Ninguém entra ou saí. Os vôos, cancelados. Boston e seus arredores transformam-se em cidades sitiadas. “Estou no meio da guerra” dizia ao microfone um repórter da Fox News num cenário onde não se via carros ou pessoas.

Pé ante-pé, rodeados por câmeras de grandes e pequenos canais de TV, batalhões de policiais, agentes do FBI, especialistas em desarmar bombas, helicópteros de guerra sobrevoam a pacata Watertown.

A âncora da Fox News baixa o tom de voz dramaticamente para dizer, “o procurado é uma pessoa de extrema periculosidade”. Ela está rouca e muito excitada. A polícia, qual seriado de TV, põe a arma em diagonal (nunca entendi porque as armas ficam na diagonal da mão quando a polícia busca criminosos). Chegam à casa onde viveriam os dois irmãos. Não se ouve nada. Nenhum som.

Frustração. Os policiais abandonam a busca. E saem declarando que havia um verdadeiro arsenal dentro da casa vazia. E muitas bombas, algumas delas de alto poder destrutivo e que “exigem treinamento para sua fabricação. . ,Não há imagens do arsenal.

Só um protesto diante da cena. A tia dos dois irmãos é advogada. Sem papas na língua. E vive no Canadá. Quando uma jornalista lhe pergunta o que acha do fato de seus sobrinhos terem bomba em casa, ela, voz firme, com forte sotaque do Leste europeu, responde “Evidências. Quero evidências de que havia bombas. Quem está está informando sobre as bombas é o FBI e a CIA. Mas não há evidências”. E até agora as evidências continuam no anonimato.

Ninguém contesta a informação. Ninguém se pergunta porque os dois irmãos, “pessoas de extrema periculosidade” deixaram em casa bombas potentes e usaram uma outra de baixo impacto.

“Necessidade de treinamento para a fabricação”. A frase, parece solta ao acaso. Mas não se iludam. É o primeiro passo, o primeiro elo com o “terrorismo” (leia-se “terrorismo islâmico”).

14h30 minutos de 19 de abril. A caçada continua sem pistas da pessoa de “extrema periculosidade”. A essa altura, na cozinha da Fox News, a panela de pressão assovia. Na tela o sinal de “Alert”, ou seja, vem notícia bombástica (sem trocadilhos).

E, para um público que, passivamente se deixa impregnar pelo noticiário como se fossem gansos alimentados para que seus fígados engordem e se transformem em paté de “foie gras”, a voz que alicia multidões diz que…tchan…tchan…tchan, o mais velho dos irmãos passou “seis meses na Chechenia.

Que absurdo! Como é que um checheno tem a ousadia de passar seis meses na Chechenia, mesmo morando no país mais rico e poderso do planeta? Isso é crime. É sinal explícito de militância terrorista.

Mas ainda não era tudo. Os ponteiros do relógio avançavam. A caçada ia a passos de um velho celacanto. Nessa época do ano, o dia invade a noite. Só se deixa vencer quando não mais consegue provar o poder do sol.

As tropas tomam outra direção. Agora procuram um barco ancorado na terra. Lá está um adolescente. Ferido. Sangrando.

São 19h30 em Boston e seus arredores. A claridade é suficiente para encontrar filhotes de esquilo em mata fechada. Os helicópteros continuam vasculhando céu, terra. As tropas do país mais armado do mundo  parecem perdidas. O bombardeio da Fox News sobre os gansos repete exaustivamente as mesmas informações.  Em tons de filme macabro ou novela policial, os âncoras se revezam em adjetivos. Os gansos estão quase a ponto de virar paté de foie gras, explodindo de ódio contra os seguidores do Alcorão.

A luminosidade cede lugar às primeiras escuridões. A Fox News, num tom solene anuncia que o aparato policial “avança com cautela” porque quer pegar o irmão sobrevivente “vivo”. Como se fosse uma grande concessão.

21 horas. Já é noite de 19 de abril em Boston, em Watertown, Miami, New York e Washington. Em Chicago ainda há luz. A escuridão impede imagens nítidas mesmo para câmeras poderosas. E…”cantemos ao senhor”, a pessoa de “extrema periculosidade” é capturada. Está ferida. Perdeu muito sangue por quase 24 horas. Debruçados sobre um corpo magro, os paramédicos impedem telespectadores de olhar a cara do “terrorista” que é levado para o hospital. Os helicópteros com luzes infra-vermelho retornam à base.

Cai a cortina.  E, como em qualquer espetáculo teatral, o público aplaude os atores. Eles desfilam em seus carros com luzes que piscam vermelhas e azuis, os tanques anti-bombas passam sob um frenesi de uma sociedade que,  desde 11 de setembro de 2001 vive a frustração por não ter conseguido caçar os terroristas que abalaram o orgulho nacional quando explodiram as Torres do WTC.

O espetáculo se encerra com os habitantes de toda uma cidade. Carregando  flores ou velas protegidas por saco de papel cantam God save America. My home, sweet home/ God save America/ my home sweet home, numa verdadeira catarse nacional.

Dos 30 mortos no Afeganistão, entre eles, oito crianças, nenhuma linha até domigo, 21 de abril, uma semana depois do massacre.

A COR DO ASCO

By , 2 April, 2013 9:51 am

A COR DO ASCO

Memélia Moreira

Na simbologia das cores ao vermelho, minha cor favorita, coube o significado da luta, da vivacidade; ao amarelo, a riqueza; ao verde, a esperança; ao branco, a paz e ao preto, o luto. Mas não encontro, nessas simbologias  a cor que signifique o asco. Porque, sim,  o asco tem cor. E só a percebi quando estava com 25 anos de idade.

Tudo começou no primeiro semestre de 1964.

Era o primeiro dia de abril. Naquela manhã  já se anunciavam as ondas do frio ameno que ainda existia no inverno de Brasília, antes de ser devorada pela especulação imobiliária. Na minha escola, onde estudavam muitas filhas de congressistas, havia eletricidade no ar. Adolescentes em polvorosa.  Cruzei o portão de saída sem ser autorizada pela  “irmã superiora”. Fui pelas ruas disposta a defender meu país contra um golpe de estado. Ia em busca das armas que, segundo os boatos da principal avenida de uma capital ainda em construção, seriam entregues aos resistentes no Teatro Nacional, monumento do genial Niemeyer.

Não havia armas. Só uma fila imensa para recrutar combatentes de uma guerra que nos parecia de curta duração. E, venceríamos. Eu tinha direito de pensar assim. Estava com apenas 16 anos.

Passaram-se quatro anos e “eles”, os golpistas, insatisfeitos em desestruturar famílias, prender, torturar e matar, impuseram o silêncio na tarde de 13 de dezembro de 1968.  Era o AI-5.  Naquele momento, a oposição armada já se organizara nas imensidões do país.  E então, fugi.  Fugi para uma Paris que abrigava muitos exilados. E,  entre livros e longas conversas com uma requintada parcela da intelligentsia francesa,  exilei meus medos. O medo de ser covarde por não ter coragem de mergulhar numa clandestinidade que parecia não ter volta e o medo de me deixar engolir pela alienação. Paris não foi meu exílio. Foi minha luta particular com meus conflitos.

E quando os derrotei, descobri que havia outras trincheiras de luta. Escolhi uma a qual  se transformou em militância que até hoje carrego para onde quer que a Rosa dos Ventos me transporte.  Foi na defesa dos povos indígenas e de todos aqueles que sob balas disputavam, e ainda disputam,  um pedaço de terra contra os latifúndios da fome que me construí  jornalista e assim lutei, com papel e caneta contra “eles”, os ditadores. Essa é e sempre será minha trincheira. Um campo de batalha onde não se admite neutralidade, apesar desse mito tão difundido por todos aqueles que esperam da nossa profissão apenas a concordância com os poderosos. Nunca fui neutra. Jamais serei. E para que os poderosos e seus aliados não tenham dúvidas da minha opção, repito, minha luta, que a princípio era apenas contra aqueles que usurparam o poder no meu país, ampliou-se à defesa dos que são submetidos à opressões. Por todo e qualquer deserdado da Terra.

E foi a opção que fiz quem me levou à descoberta da cor do asco. É acajou. Um acajou intenso que escorre da cabeça pela testa, vai ao pescoço e, às vezes, se instala numa das orelhas como se fosse uma cicatriz nauseabunda. Acajou era a cor preferida dos pequenos e grandes déspotas que governaram o país durante a ditadura militar iniciada pelo golpe de 64.

A cor do asco me veio por acaso. Foi em 1971. E eu nem estava preparada.

Era a inauguração da BR-O80 (Brasília-Manaus), uma estrada inacabada e que estuprou o até então inviolável Parque Indígena do Xingu. Dias antes da viagem, o coronel Costa Cavalcanti, ministro do Interior, deu entrevista coletiva. Fui escalada e era, praticamente, minha primeira entrevista importante.

Fiz uma ou duas perguntas mesmo sentindo um terrível desconforto  com os olhares gulosos do coronel-ministro. Acabada a entrevista enfrentei o primeiro dos muitos assédios daqueles homens que, insatisfeitos em desestruturar famílias, em prender, torturar, matar, calar, também se sentiam à vontade para exercer seu poder de macho diante de, quem sabe, prováveis presas assustadas.   O ministro me chamou e, com aquela voz melosa de locutor de rádio dos anos 50, disse “ô, benvinda, minha jovem (odiava quem me chamasse de minha jovem ou querida). Você vai me acompanhar nessa viagem. Meu avião sempre tem lugar para belas mulheres”. Disfarcei com um quase sorriso e então, sem querer,  olhei para a cabeça do coronel. E vi. Uma  tinta escorria dos seus ralos cabelo. E era acajou. Fui invadida pelo asco.

Asco daqueles poderosos que levaram meu pai e meu tio para longe,  mantinham meu irmão Sonsonho na cadeia, depois de torturá-lo e, minha irmã Gagocha na clandestinidade. Senti ânsia de vômito. Controlei. Não ali. Não naquela hora.

A entrevista do dia seguinte foi ainda pior. A investida veio do chefe da Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (SUDECO), órgão destinado a beneficiar os grandes fazendeiros que começavam a desmatar Mato Grosso e Goiás (na época não existia, Mato Grosso do Sul e Tocantins),  Sebastião Camargo. Ele, integrante da comitiva que viajaria para a inauguração da BR-080,   fez parecer o convite do coronel Costa Cavalcanti apenas um escorregão de  um cavalheiro.  O acajou dos seus cabelos já estava desbotando. Só  as pontas ainda mantinham a cor do asco. E usava um perfume ordinário.

Sebastião Camargo, também fazendeiro, como todos que dirigiram a SUDECO, não contente de  em plena entrevista coletiva, me  jogar no rosto palavras que pretendiam ser galanterias mas que pecavam pela vulgaridade e absoluta falta de originalidade, depois de insistir que viajasse em seu avião, decidiu que me daria um abraço ou coisa parecida. A cena chegou às raias do ridículo. Em frente aos meus colegas, eu corria ao redor da mesa para escapar do cheiro daquele homem. E ele corria atrás de mim. O espetáculo durou menos de um minuto, tempo bastante para me ensinar que, a partir daí, o jogo seria pesado.

O aprendizado foi rápido.

As viagens de jornalistas eram sempre de útima hora. E numa dessas, acordei às quatro da manhã para embarcar num bimotor, novamente para minha Amazônia. Peguei a primeira camiseta disponível. Era amarela, com dois gorilas e um deles dizia “I feel sexy”.

Na cidade de Xavantina, Mato Grosso, que a qualquer hora do dia ou da noite faz um calor insuportável, estavam inaugurando uma ponte sobre o rio das Mortes. E  lá vem um outro coronel (na época, os coronéis se empoleiravam nos cabides de emprego do Ministério do Interior, principalmente Funai, Ministério dos Transportes e Ministério das Comunicações). Esse devia ter pintado o cabelo na véspera. Não limpou direito e a cor acajou escorria pela testa. Nojo. De novo. E desse, sequer me lembro o nome. Ele chegou com aquele sorriso de cabaré de garimpo e me perguntou, “Você sente o que esse macaquinho (não era macaquinho, era gorila) está dizendo?”. Rosnei e respondi, “Coronel, sinto. E muito. Depende do gorila que estiver do meu lado”.  Ele me olhou ainda com sorriso de cabaré de garimpo e disse, “você é perigosamente espirituosa…” . Suei de nervosismo.

Eu sabia os riscos que estava enfrentando. Sabia que podia perder meu emprego com apenas um telefonema dos gorilas poderosos. Mas estava decidida não apenas a continuar trabalhando mas, principalmente, reagir a qualquer investida. Uma dessas poderia ter custado minha liberdade. Aconteceu em Santa Isabel do Morro, ilha do Bananal.

Eram 20 pessoas, das quais 17 homens e três mulheres. Estava com a também jornalista Eliana Lucena, do jornal “Estado de São Paulo” e  minha melhor amiga. A terceira mulher era uma loura.  Eliana e eu logo a apelidamos de “agente da Gestapo”. Ela estava com os coronéis e sua função era nos acompanhar. Estava ali para nos espionar. Não podíamos contar com ela.

Depois de um dia de reuniões por Mato Grosso, dentro de um DC-3 da FAB, decolando e pousando em pistas improváveis, a comitiva pernoitou no Hotel JK (originalmente se chamava Hotel Juscelino Kubistcheck. Depois do golpe passou a ser chamado oficialmente de Hotel John Kennedy), na beira do Araguaia, esse que é um dos rios da minha vida.

Os homens da comitiva eram todos coronéis. Todos com os cabelos pintados de acajou com a tinta escorrendo pelo pescoço,  todos usavam óculos escuros. E todos, sem exceção, bêbados. E, trôpegos. Foi então que um deles, Oscar Jerônimo Bandeira de Mello, presidente da Funai, com a voz pastosa de whisky barato e ainda de óculos escuros em plena noite, falou, “Temos três mulheres aqui. Vamos fazer uma festa”. Meu sangue não gelou. Ferveu. Asco e ódio. Fui para o apartamento que dividia com Eliana, empurramos o pesado armário contra a porta, abri minha valise, tirei a gilete com a qual raspava as pernas  e disse para Eliana, “o primeiro que tentar abrir essa porta, eu capo”. Foi uma noite de pânico e insônias, mas acho que os coronéis estavam tão bêbados que não conseguiram subir as escadas que davam acesso ao nosso apartamento. Ufa! Escapamos.

Cada viagem para a Amazônia, o sabor da aventura de estar naquela que é uma das mais belas regiões do mundo que conheço vinha sempre temperado de   pânico. Pânico  pelas reações que poderiam ter aqueles homens inescrupulosos. Diante do fracasso de suas investidas passavam então a fazer insinuações sobre nossas sexualidades porque percebiam que nem o poder de vida ou morte sobre todo um povo era suficiente para nos curvar e ceder às suas exibições de masculinidade hesitante.

A descoberta da cor do asco me mostrou que aqueles que detinham o poder absoluto duranta a ditadura mlitar eram tão conscientes de sua força que acreditavam que esse poder também lhes concedia a capacidade de exercerem a delicada arte da sedução. E para essa arte é exigida a habilidades de ourives e não a brutalidade de quem aciona o “pau-de-arara”.

 

Esses e outros episódios semelhantes, estão ainda engasgados dentro do meu eu mais profundo. São meu  testemunho da relação entre aqueles homens que desestruturavam famílias, prendiam, torturavam, matavam, silenciavam e nós, mulheres que estavam apenas querendo exercer nossa perigosa profissão de jornalista.

 

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DIÁRIO DA PAIXÃO E DA INFÂMIA

By , 3 November, 2009 1:45 pm

Soledad Barret

Soledad Barret
(06/01/1945 – 08/01/1973)        

 
 

 DIÁRIO DA PAIXÃO E DA INFÂMIA.
Memélia Moreira
Se alguém souber sobre uma tese, brochura ou mesmo esses manuais que se proclamam de “auto-ajuda” sobre o comportamento de um leitor no momento da leitura, me informe. Já procurei em catálogos de livros raros, em almanaques, monografias universitária e nada. Parece que esse representante de uma tribo quase em extinção diante de tantas tecnologias, ainda não sensibilizou psicólogos, psicanalistas e nem mesmo antropólogos. E juro que o estudo do comportamento e dos hábitos dos leitores no momento em que se dedicam à prática merecem considerações. Quem sabe até descubram novas psicopatias. Ou mesmo rituais dignos de palestras e conferências.
Por exemplo, minha Mãe. Intelectual elegante e de gosto refinado na leitura, costumava ler descalça, de perna cruzada, esfregando o polegar e o indicador do pé. Mesmo descalça, escapou de morrer envenenada porque o dedo inquieto tocou em alguma coisa fria que foi repelida rapidamente. A “coisa fria” era uma cobra coral verdadeira tão comum naquela Brasília dos anos 60, ainda coberta da rica vegetação do Cerrado. Ela deve ter outros hábitos. Mas jamais confessou.
Os meus, decidi confessar agora. Nunca, em hipótese alguma, leio deitada ou dobro a página do livro para marcar o ponto em que parei. Leio sentada e com um lápis na mão. Porque livros são salas de aula e, por isso, vou sublinhando o que me interessa e anoto o número da página. Depois, copio tudo isso, num caderno. Quanto mais sublinhado um livro, mais aprendi com ele. E estudo a frase, disseco uma por uma, como se estivesse diante de um corpo num curso de Anatomia. Parece coisa de doido? Admito que sim. É um hábito. E jamais, sob hipótese alguma, leio a apresentação ou introdução antes de ler o livro. As críticas também não.
Mas, o pior dos hábitos é por os livros em fila. Fila mesmo. Quem chega primeiro é lido primeiro. Às vezes um fura a fila porque gosto de fazer leitura casada (essa é uma linguagem pessoal). Ou seja, se estou relendo “A Guerra Civil Espanhola”, de Hugh Thomas, releio “Por quem os sinos dobram”, de Hemingway. E releio. Releio muito, principalmente livros que li na adolescência. Machado de Assis, por exemplo. Li as obras completas entre meus 15 e 17 anos. Reli aos 50. O mesmo acontece com Dostoievsky. Li aos 20, seus livros e contos. Releio agora, com mais de 60. Outros livros costumam furar a fila. Eles se impõem de tal forma usando toda sua sedução e, pimba, furam a fila. Em geral não me arrependo desse pecado venial. 
O outro hábito chega a ser quase uma autoflagelação. Vou confessar, mas conto com a discrição de vocês. Não espalhem. Eu economizo livros. É isso mesmo que vocês estão lendo. Eu E-CO-NO-MI-ZO livros. Explico. Sou leitora voraz. Leio, em média, de quatro a cinco livros por mês. Mas economizo. É assim. Quando o livro é bom, daqueles que dá vontade de ler sem parar até a última página, eu leio bem devagar, vou sorvendo cada palavra como se fosse a mais delicada mousse de chocolate. Ou ainda um vinho finíssimo desses que nos conduz pelos jardins do paraíso. Foi assim com “Grande Sertão: Veredas”. Foi assim com “La Vie devant soi”, de Romain Gary , “O Amor nos Tempos do Cólera”, de Gabriel Garcia Márquez e muitos outros.
Apesar de tanta intimidade com livros nunca me atrevi a escrever críticas sobre esta ou aquela obra. Nos jornais onde trabalhei insistiam muito para eu me tornar crítica literária. Sem chance. Sou repórter e gosto de escrever reportagens. Livros, principalmente os bons, são entes sublimes e devem ser reverenciados. No máximo, comentados en petit comité para que não se quebre o encanto.
Mas, quero abrir uma exceção. E também quero lhes dizer que me sinto intimidada diante dessa tarefa que me impus. A tarefa de dizer dos meus sentimentos ao ler “Soledad no Recife”. Me desculpem. Pela ousadia e por iniciar uma frase com pronome reflexivo. Soledad furou a fila.
Nunca me encontrei com o autor, mas nossa troca de mensagens é quase intensa e por isso me arrrisco considerá-lo amigo. Trata-se de um pernambucano chamado Urariano Mota. Ele me mandou o livro por uma agência dos Correios de Olinda, onde vive. E já me deu inveja. Invejo os moradores de Olinda, mesmo os desafortunados. Viver ali é privilégio. O livro chegou na véspera da morte de Mercedes Sosa e apenas desfiz o pacote, porque estava de olhos grudados no noticiário acompanhando sua agonia. Depois entrei em luto fechado e só chorava e ouvia as músicas daquela que foi a verdadeira “Voz da América”. De todas as Américas. Da opressora às oprimidas.
 Levei uns quatro dias para abrir o livro. E abri com os cuidados de amantes na primeira noite. Comecei a ler e veio aquela voracidade que me obriga à disciplina. Então, adotei a minha usada técnica de poupança. Primeiro economizei parágrafos. Insatisfeita, passei a economizar frases. Para que a leitura se eternizasse.
Mas o livro chegou ao fim e eu queria mais. A única forma que encontrei de continur a conviver com ele foi desabafar com vocês. Por isso, pela primeira vez, em 62 anos, ouso comentar um livro.
Para começar, “Soledad no Recife” é um livro sonoro. Sim, o narrador não apenas tinha vontade de cantar quando via Soledad, como nos faz ouvir Gal Costa cantando “Mamãe, mamãe, não chore, a vida é assim mesmo…” E quantas mães até hoje ainda não enxugaram suas lágrimas porque seus filhos se foram e sequer os corpos apareceram?
Além de sonoro, o livro tem perfume. Alguém conhece livro perfumado? Soledad no Recife cheira a jasmin e patchuli, essa raíz tão usada para dissimular odores ilegais.
Os fatos acontecem num espaço de onze meses, entre a sexta-feira de Carnaval de 1972, no Pátio de São Pedro, em Recife (onde aprendi a dançar ciranda), a janeiro de 1973, quando Soledad Barret e mais cinco jovens, entre eles Pauline Reichstul, militantes da Vanguarda Popular Revolucionária, foram torturados e chacinados na cidade do Recife, pelo delegado Fleury e sua tropa de matadores profissionais. Generosos, como todos os jovens que entregaram a vida e os sonhos para libertar um Brasil que vivia sob as botas dos facínoras, eles foram traídos por uma pessoa chamada Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo a quem o autor de “Soledad no Recife” compara a um réptil. Particularmente acho que comparar essa nefasta criatura a um réptil é boa vontade. Os répteis, mesmo os mais repugnantes, cuidam de suas crias. Cabo Anselmo era o pai da criança que Soledad carregava. O feto morreu sob a tortura a qual a mãe foi submetida e, encontrado aos pés de Soledad. Anselmo entregou seu filho (ou filha, nunca vamos saber) e a mulher a quem, em algum momento, prometeu amor. E os entregou aos carrascos. Anselmo não chega a ser um réptil. Jamais conseguiu ultrapassar o nível dos vermes. E um verme com inteligência é mais nocivo que um vírus mortal.
 São 113 páginas (há outras tantas com fotos, mas essas eu não contei. Apenas admirei a força dessa paraguaia que foi uma verdadeira guerreira latino-americana). Das 113 páginas, sublinhei e fiz anotações em exatas 34. Em outras palavras o livro me provocou um bouleversement . Peço desculpas por usar a palavra em francês, mas só ela traduz fielmente essa mistura de agitação, encantamento e perplexidade que nos invade em muitos momentos da vida.
 Mas, vamos lá. Tomei coragem porque, afinal de contas, não é uma crítica literária, apenas a maneira que encontrei de extravasar meus sentimentos em relação a esse livro que me obrigou a uma longa reflexão sobre aqueles tempos terríveis que marcaram e destruiram boa parte das gerações que tentavam florescer durante a ditadura militar. Tempos que nos impôs até mesmo às clandestinades internas porque, como diz Urariano na página 29, “naqueles anos, o amor era uma alienação”.
O primeiro sentimento a me assaltar mal começada a leitura foi o da força do texto, como se Urariano escrevesse com o fuoco nelle vene, fogo nas veias, essa sintética expressão que os italianos usam para explicar como deve ser a paixão pela vida.
E a paixão na escrita é apenas o reflexo da paixão do narrador pelo personagem principal. Se a história é ficção ou não, se o narrador é ou não Urariano, a resposta ficará a critério de quem estiver lendo. Particularmente, prefiro acreditar que autor e narrador são uma única pessoa. E toda a história é mais real que a própria realidade que vivemos naqueles anos quando o amor era uma alienação. Porque, para mim, é quase impossível tanta paixão, tanto erotismo sem que o autor tenha, pelo menos por algum momento, convivido com Soledad. Se bem que sou apaixonada por Emiliano Zapata sem nunca tê-lo encontrado.
O erotismo, que se desenrola em toda a história não chega em nenhum momento ao vulgar, ao chulo. É que Urariano sabe temperar rusticidade com elegância.
 Cito apenas dois exemplos desse erotismo: ” ‘Como é bela’, eu me disse, quando na verdade eu traduzi para beleza o que era graça, graça e terna feminilidade”. Um pouco mais adiante, o narrador anônimo e apaixonado diz “- Sério? – voltou Soledad. Então ela se virou e pude ver suas pernas grossas, a se baterem, como se represasse coxas em fúria”. Há muitos outros, mas não posso citar um por um para que não se perca o encanto.
“Coxas em fúria” . A expressão é de um erotismo profundo e resgata uma parte do corpo feminino há muito em desuso diante de peitos siliconados e bumbuns trabalhados em laboratórios que são mostrados por algumas senhoritas de profissão indefinida que se apresentam como “modeloatriz” (tomo emprestado a expressão usada por minha filha caçula, Helena, ao se referir a essas mulheres que inundam revistas de TV e sites da internet. E ela fala assim mesmo, modeloatriz, sem hífen).
Mas essa é apenas uma das expressões e comparações onde o adjetivo é usado com tal propriedade que se pode vislumbrar as coxas de Soledad sob uma saia hippie, longa e solta. E o uso dos adjetivos indubitáveis é a outra grande riqueza de “Soledad no Recife”. Além dos verbos precisos e dos substantivos fortes. Basta ver na descrição acurada que ele faz da figura do Cabo Anselmo que, àquela época se fazia passar pelo “revolucionário” Daniel. A descrição está na página 35:
“….”Passado de luta” era frase, era uma senha que denunciava o falante de 1972. Uma expressão que só poderia vir de gente subversiva, clandestina. Mas a voz que eu ouvia não encontrava coerência com a de um homem impulsivo, apaixonado. Era uma voz mansa e fina. Quase diria, suave. Dele não se poderia dizer que fosse um insensato, um terrorista louco. Senti um arrepio no braço. E a minha vida depois sempre me alertou para um futuro decisivo, no bem ou no mal, com arrepios nos braços. Embora eu não percebesse até há pouco, só um súbito frio. Na hora eu traduzi isso pelo pensamento de que aquele homem iria à forca ou mandaria enforcar com a mesma voz mansa…”
Nordestino que é, Urariano deve saber que os pistoleiros (e conheci alguns no sul do Pará) têm essa mesma voz mansa e suave mas que, na verdade, é apenas o biombo que esconde uma natureza mórbida que respinga sangue por onde quer que circule.
Talvez nem Urariano, nem a editora (Boitempo) tenham percebido um detalhe do livro. Um detalhe para mim, carregado de simbolismos. A primeira vez que o narrador descreve não mais Daniel, o moço de fala mansa e gestos delicados, mas sim Cabo Anselmo, o agenciador da morte, acontece exatamente na página 64, ano do fatídico golpe militar no Brasil. E, ao se referir ao verme, o autor faz um mea-culpa que até hoje é um mea-culpa de parte da esquerda brasileira que fez oposição armada e não reconheceu em Anselmo dos Santos o grande traidor, o homem que assinou a sentença de morte de grandes companheiros não apenas no Recife, mas no Paraná, São Paulo, Rio Grande do Sul e por onde quer que tenha circulado.
“Uma primeira explicação é que Anselmo não era sempre Anselmo. Ele era Jonas, Jônatas, Jadiel, Daniel…Devo dizer, em nome da verdade, Anselmo era sempre outro…” e, em seguida, o mea-culpa: “Como pudemos ter sido incapazes de lhe tirar a máscara antes dos seus crimes? Essa pergunta dói até hoje. Não só pelo mal físico e mortal que causou. Dói mais por uma incapacidade que tivemos em desmascará-lo antes, bem antes”.
A resposta é uma só, Urariano. Porque nós, “que tanto amávamos a revolução” não carregávamos nem ódios, nem maldades. Éramos apenas pessoas mal saídas da puberdade, generosas, sonhadoras, militantes de uma utopia que, espero, nos acompanhe até o final dos nossos dias.
Soledad no Recife é o verdadeiro diário da paixão e da infâmia e, por isso, decidi espalhar esse livro aos quatro ventos porque sua leitura é necessária tanto para aqueles que viveram a época do terror ditatorial quanto para os outros que não tinham capacidade para se apaixonar. E se alienaram.
 

P.S. Nesse quatro de novembro se completam 40 anos do assassinato de Carlos Marighella, herói da nossa resistência e assassinado por Sérgio Fleury. O mesmo que matou Soledad.

A SENHORA DO KANUMÃ

By , 3 September, 2009 10:25 am

A SENHORA DO KANUMÃ

Memélia Moreira

Começou quando temperava o frango com molho de canela, cominho, mel, azeitonas maduras e ervas finas a ser assado com fatias de maçã banhadas em calda de hortelã do jardim (a receita foi criada numa terça-feira chuvosa). Enquanto acrescentava o cominho, pensei nela, a “Senhora do Kanumã”. É uma figura ímpar, rara. Eu ainda não a conhecia quando, dias antes do assassinato do delegado Sérgio Fleury, um facínora que não deixou saudades, li numa revista que uma professora de Curitiba estava na mira dos militares. E gravei seu nome, Ana Lange.

A professora fora acusada de dar aulas de marxismo num jardim de infância. A curiosidade me manteve ocupada durante dias. Falar de luta de classes para crianças ainda não alfabetizadas? Ou alfabetizá-las discutindo a mais-valia? Será que a cartilha já trazia elementos rudimentares das relações de produção? Ficava em dúvidas, tentando decifrar a personagem. Jamais poderia supor que aquela subversiva um dia seria minha comadre e, mais que isso, minha amiga. E muito menos pensei que fosse um dia construir um pequeno paraíso chamado Kanumã.

Don´Ana é mesmo rara. E quando crio meus molhos, penso compulsoriamente nessa pessoa ímpar. A “Senhora do Kanumã” não gosta de cebolas. Entendo, sem concordar. Também não gosta de coentro. Continuo sem concordar, mas também entendo. Mas, ela não gosta de cominho. Aí nem entendo e discordo totalmente. Cominho, don´Ana? É, cominho. Mas ela faz pratos deliciosos e eu nem sinto falta das cebolas, cominho ou coentro.

Mas por que estou a falar de uma professora subversiva que não gosta de cominho? É que ela também não gosta quando escrevo sobre um determinado substantivo feminino abstrato chamado saudade. E, mesmo pronta a ouvir suas reprimendas é de saudades que vou falar.

Não, não é saudade apenas dos ovos fritos que minha doce avó, Amélinha, de quem herdei um dos meus nomes, fazia quando eu chegava de surpresa em sua casa, lá na capital de Roraima, tão perto e tão longe. Chegava de repente e ela, como se fosse um jogo de cartas conhecidas, perguntava o que eu queria comer, já sabendo a resposta. Ovos fritos com farinha d´água. Ia ao quintal, pegava os ovos e fritava na manteiga, com farinha d´água. Nem o restaurante “Vagenande”, em Paris, consegue produzir prato tão saboroso para meu paladar. E ainda por cima, com café de verdade, puro, cheiroso, forte. E, sem saber, me dava as pautas para escrever as matérias que eu tinha ido buscar. Mas Amélinha morreu e essa é uma saudade que vou guardar para sempre.

Também não é saudade do cheiro de pastel de queijo da Rodoviária de Brasília, às três da manhã, acompanhado de um caldo de cana feito na hora. Essa saudade eu recompenso quando estou na cidade. Não mais às três da manhã porque abandonei a boemia.

Muito menos saudades do Salão Verde e do plenário da Câmara dos Deputados em dia de debates acalorados em votações polêmicas. Há tempos o Congresso trocou os grandes debates por um balcão de negócios onde as consciências se vendem a preço de peixe congelado. Essa saudade talvez seja insolúvel.

Garanto que também não é saudade dos gritos de gol nas tardes de domingo, porque parecem ecoar até hoje na minha memória. Descobri que mesmo tão distante, os gritos de gol continuam a soar nos tímpanos e posso até ouvir a arquibancada soltar a voz num desabafo de alegria dizendo “Mengoooooô! Mengooooô!

Nada de saudades das palmeiras que aqui se encontram em todas as esquinas. Nem dos sabiás, porque um imponente “cardeal”, pássaro preto de peito vermelho vem, às vezes, pousar na minha frente. Não canta, mas suas cores me enfeitiçam.

Não, a saudade que me assalta vai longe. Ela dilacera as vértebras, desfibra músculos e deixa a alma desidratada. É uma saudade que dói como se um cutelo ficasse, dia e noite fatiando o coração e ele, plagiando o fígado de Prometeu, se refizesse a cada noite para no dia seguinte ser novamente fatiado.

É uma saudade difusa em que se misturam as cores do meu povo, o cheiro do pequi, a música que parece estar infiltrada em todas as partículas do ar, o falar doce ou rascante dos amigos, o dia a dia.

É, don´Ana do Kanumã, não fique brava comigo. Hoje temperei o frango com cominho e escrevo sobre essa saudade. Saudade da minha cultura.

Mas saudade sempre foi o mais saboroso tempero da vida.

A Voz Total

By , 28 July, 2009 11:02 am

MemeliaBlogfoto2

A Voz Total

Sabia, estava a sonhar. Não podia interferir no sonho, mas nada daquilo era real. Se tratava de um país rico em petróleo, um emirato qualquer do Oriente e das Mil e Uma noites, pois havia um rei usando capas de cetim e se atirando sobre enormes almofadas de penas de cisne, príncipes endinheirados rolando em limusinas e comprando inutilidades caríssimas, haréns de belas mulheres, infelizmente invisíveis.

O rei tomava todas as decisões, não saberemos se de sua própria vontade. De vez em quando reunia uma assembleia, conselhos de ministros, conselhos de Estado, coisas assim. Ficavam todos os participantes na expectativa, sem tomar a palavra nem fazer um gesto, a respiração em suspenso, até algum adivinhar pelo semblante do soberano o seu desejo. E o vivaço expressava opinião. Quando acertava, o rei sorria para ele, um sorriso muito fechado. Era suficiente para o sortudo provocar a inveja dos outros. E todos já sabiam o que dizer, repetiam quase em coro o discurso do primeiro, ajudando a sesta real. Se, pelo contrário, o primeiro atrevido dissesse algo fora da sintonia, o ar do soberano ficava ainda mais fechado e o atrevido ruminando medos atrozes. Finalmente o rei dava por encerrada a reunião, ditando as suas conclusões para a acta. Era a voz total.

Acontecia nesse tipo de reunião, portanto, alguém arriscar “sim” e o rei a seguir dizer “não”. Imediatamente muitas mãos se erguiam, pedindo a palavra. Todos para apoiarem aliviada e convictamente o não do soberano. E se alguns tinham dito sim anteriormente, corrigiam o tiro com discursos argumentando a favor do não. Havia pois consensos e mesmo unanimidade: a tal voz total.

Os príncipes assistiam a essas reuniões sem abrirem a boca a não ser para bocejos de tédio. Talvez o pai depois lhes explicasse os diferentes passos dos debates inexistentes e se manifestasse contra alguns dos membros da assembleia. Mas isso era segredo de estado, ninguém conhecia as conversas privadas do potentado. Nem a imprensa, sempre paternalmente repreendida por querer descobrir mais que o devido.

O rei morreu. Todos ficaram à espera, sem ousar uma iniciativa. Os príncipes, demasiado novos mas já prudentes, não se manifestavam. Provavelmente haveria conversas nas intimidades dos haréns. Ao fim de uma semana, um dos conselheiros, mais impaciente ou mais afoito, disse sim. Imediatamente se ouviram vozes diferentes. Uns disseram claramente não, outros talvez, um disse porventura, outro se calhar, outro obviamente, outro imagino… até que dez grupos rivais se criaram, cada um apoiando um príncipe. Os príncipes, despreparados, patrocinaram campos opostos. Como as discussões aqueciam, armas foram afiadas. E ajuda foi pedida ao estrangeiro. Um se ligou à potência do norte, outro à do leste, outro à do sul. A Oeste só havia o mar e as potências estavam longe, por esse lado não houve intervenção nem invasões. Exércitos foram formados e entraram em combate. Todos contra todos, numa balbúrdia total. Houve medianeiros estrangeiros, as ONG da praxe vivendo dos conflitos, reuniões onusianas. Ninguém parava a guerra, pois os beligerantes não aceitavam opinião diferente da sua, ou dos seus interesses. E os príncipes, em nome dos quais se combatia, morriam de tédio nos seus haréns, impedidos de passar férias nos lugares da moda.

Acordei antes de assistir ao cataclismo final. Porque se sabia haver negócios de armas e a procura da bomba nuclear por parte de vários grupos, os mais intransigentes.

Concluí para mim mesmo, com medo de falar alto naquela penumbra do despertar: a voz total se tornou numa cacofonia totalitária de vozes. É sempre assim?

Pepetela

ENCONTRO

By , 27 June, 2009 9:07 am

ENCONTRO

Acordo ao primeiro sinal de claridade e, antes mesmo de abrir os olhos, um sobressalto me sacode, a consciência subitamente alerta: é hoje o dia. Tenho um encontro com Flávio. A par da tensão, observo o leve flutuar de um fiapo que entra pela janela e baila pelo quarto em reflexos dourados. Excita-me a idéia do encontro e, ao mesmo tempo, desejo que algo impeça meu corpo de levantar da cama. Uma forte gripe talvez, quem sabe, seria um álibi perfeito. Um arrepio me percorre, enquanto o bom senso prevalece: não, óbvio, impensável não comparecer.
O registro da última vez que o vi, há trinta e quatro anos, é nítido em minha memória. Creio não haver passado uma só semana, em todo esse tempo, em que não tenha recordado aquela manhã, imersa na garoa paulista, a testemunhar o nosso abraço. Às vezes a visão tem a forma de um filme passando diante dos meus olhos, sempre a incomodar. E, por vezes, flagro-me tentando modificar o enredo daquela lembrança: se houvesse manifestado desespero, talvez ele não tivesse partido e tudo teria sido bem diferente. Inútil e fútil, que cabeça a minha, isso é passado, não se retoma. Aliás, tal tentativa de recriar o roteiro desta última cena tornou-se quase obsessiva nos primeiros tempos da separação e, confesso, começou a perseguir-me de imediato, mal tendo dobrado a esquina, nem bem sua visão me escapara.
Não pode haver passado tantos anos assim… Não pode! Momentos há em que sofro como se a cena houvesse ocorrido ontem, literalmente. Momentos há em que ela se repete seguidamente em minha cabeça. Tal como agora: uma despedida que pretende ser breve, mas que intuo definitiva. Por mais racionais que me soem seus argumentos, mais convencida fico de que eles na verdade encobrem a rejeição que envenena meu peito. Orgulhosa, não acuso a dor. Pelo contrário, balanço o rosto aquiescendo, suas razões por demais pertinentes. Mas algo insiste em me soprar a raiva de estar sendo abandonada. Flávio, sensível como sempre, percebe o que se passa em meu íntimo e não se deixa enganar pela aparente frieza com que recebo a notícia. Insiste em acarinhar-me e seu abraço é cada vez mais terno. Há uma fração de minuto em que meu corpo se deixa acolher naqueles braços, escapa-me um soluço e quase amoleço. Mas não passa de um brevíssimo momento. Logo me descolo do abraço, forço o sorriso e imponho os temas das providências objetivas e necessárias a nosso afastamento.

É incrível, agora não me ocorre qualquer desses acertos e combinações que usei para domar a emoção que me sacudia. E que desperdício, parece-me hoje, o gastar aquele último breve tempo com Flávio em minúcias mesquinhas da vida prática. Mas éramos assim mesmo: emprestávamos prioridade ao que chamávamos de questões objetivas, enquanto empurrávamos as emoções pela goela abaixo, ao final sempre muito mal digeridas. Nas oportunidades em que pude desabafar estes sentimentos, sempre ouvi, como tentativa de consolo, que teria sido impossível adivinhar que não mais o veria. Dentro de mim, contudo, sei que não é verdade: desde o primeiro momento daquela conversa tive certeza de que a despedida seria para sempre. Só não me pergunte de onde veio tal convicção. Pode-se argumentar que a realidade em volta, tão dura, impregnou-me. Sim, pode ser. Mas por que só ali, naquele episódio, fui tomada de tal clareza? É coisa que não explico, mas que aprendi, bem mais tarde, a respeitar e considerar. Na época, aos vinte anos, desqualificava intuições e as atribuía ao medo, pura e simplesmente. Na maturidade, alguns poucos episódios ensinaram-me o quanto essas certezas merecem ser levadas a sério.
Mas, enfim, urge levantar-me e ir ao encontro. Tem tempo, ainda é cedo, digo-me resistindo. Mas o que é isso agora? Por que o medo? Não estarei sozinha, certamente os amigos – aqueles que restaram – estarão todos lá. Mas os pensamentos parecem ter vida própria e torno a divagar. Sorrio com amargura ao pensar que não temo, diante dele, o estrago que os anos provocaram naquela minha figura de mocinha, que inspirava sua ternura. Não, não há o que temer. Em contrapartida, sua imagem de rapaz, congelada, me acompanha. Penso ainda, que não há como imaginar um Flávio sessentão. Simplesmente não consigo. Além disso, não é necessário. Ele está morto há trinta e quatro anos e será enterrado hoje.
A dor espeta-me e levanto finalmente da cama. Quase no mesmo instante um sentimento de vitória me invade, em paradoxo à dor que ainda me aperta o peito. Acostumada a tais ambivalências, esforço-me em concentrar os pensamentos na batalha vencida. Depois de tanto tempo, o pouco que restou de Flávio foi finalmente encontrado, escondido que estava em cova clandestina. Mas este pouco foi suficiente para provocar barulho e, como disse alguém, ajudou a desconstruir o esquecimento sobre aquele tempo de barbárie.
Mais segura de mim, por acaso volto a olhar o facho de claridade que entra da janela e percebo que a brisa suave faz ainda flutuar fiapos luminosos. Consigo aprontar-me e saio rapidamente. Ao chegar, de pronto me emociona a visão altiva e frágil de Dona Helena, a mãe de Flávio que, aos oitenta e nove anos, parece estar somente esperando enterrar o filho para poder finalmente descansar. Ao fundo, diante da urna coberta com a bandeira do Brasil, ladeada pela família, por uma pequena multidão, incluindo repórteres e inúmeros amigos, uma faixa:

PELA VIDA, PELA PAZ, TORTURA NUNCA MAIS

CRÔNICA DOS SESSENTA

By , 26 May, 2009 7:43 am

Flamengos

Flamengos

 

de Memélia Moreira

Ainda ontem brincávamos nos tamarindeiros da Quinta do Barão. E também de Sir Jerry. Alguém de vocês leu Sir Jerry? Do autor não me lembro o nome, mas o “sir” em questão, era um excelente detetive e confiava nas suspeitas de seus sobrinhos.

Antes, nas redes, brincávamos de Salustião”. Nenhuma criança, do passado, ou do presente, brincou de “Salustião. Mas isso é outra crônica. As brincadeiras aconteciam numa casa bem grande com um generoso quintal na Rua dos Veados (isso mesmo, Rua dos Veados), naquela ilha encantada que alguns chamam de “Ilha dos Amores” e outros, os que conhecem os habitantes nascidos ou adotados, a chamam de “Ilha Rebelde”, a minha para sempre amada ilha de São Luis, disputada por franceses, holandeses, portugueses e vilipendiada até hoje por tantos outros. Initerruptamente.

Mas antes, bem antes do “Salustião”, de Sir Jerry e dos tamarindeiros da Quinta do Barão, ele era um sonho acalentado. E quando nasceu, chorava, chorava muito por causa da clavícula quebrada. E seu pai dizia para sua mãe “seu sonho está chorando”. E assim, ele virou Sonsonho. Tentaram outros apelidos, “Pluto”, “Dutrinha”, mas não tinha jeito. Ele sempre incarnava o sonho. E tinha que ser Sonsonho.

A vizinhança o explorava. Faziam rodas em torno dele e lhe perguntavam “Sonsonho quanto é 484 com 293, menos 88”. Ele, olhos verdes e grandes, ficava mais quieto do que de costume e respondia sem pestanejar. A conta estava certa e ele nem tinha ainda o curso primário. Mal completara cinco anos. Era a sensação da rua. Televisão não existia e era ele quem animava a vida daquelas pessoas que passavam o dia trabalhando e, à noite, ou ouviam “Jerônimo, o herói do sertão”, enquanto suas mulheres inundavam ruas e praças chorando com “O Direito de Nascer”, num rádio que ainda exigia eletricidade ou, ficavam na porta de casa, trocando conversa com os vizinhos. Mas terminavam sempre explorando a mente brilhante daquele menino de cara séria.

Idolatrado pelas irmãs, por ser o único homem numa casa com cinco filhos foi crescendo, sempre com uma bola nos pés e o Flamengo no coração, na mente, nos poros, nas vértebras. Flamengo e “boliviano”. Sim, boliviano, como todos os demais torcedores do SPFC, a sigla do glorioso Sampaio Correia Football Club. E era capaz de escalar todo o time do Sampaio, “Dodó, Terrível e Wallace, Cacaraí, Elbert e Barradas, Gedeão, Biné, Sapeca, Henrique e Garcia”. E era mais um motivo de admiração dos vizinhos que exploravam sua mente brilhante. Escalava qualquer time, com a mesma facilidade que fazia as contas. A torcida das irmãs era tão grande que juntos, ele e as irmãs faziam planos para a Copa de 1970. Ele vestiria a camisa verdeamarela da “Seleção Canarinho”. É que ele jogava bem. Era, como se dizia na época, um craque. Jogava bem de verdade. E, claro, iria para a Seleção de 1970, quando já tivesse mais de 18. As irmãs, estariam nas arquibancadas gritando por seu nome. Porque as irmãs sempre estiveram na arquibancada da sua vida, com bandeirinhas, apitos, faixas e gargantas e corações torcendo por ele.

Mas a Matemática os traíu.

1970, foi, é, e será, depois de 1964. E aconteceu 1964 na vida de todos. E Sonsonho, que sempre teve seus próprios sonhos, não aceitou aquele 64, mas era quase uma criança e não tinha todos os instrumentos para mudar aquele 64. E, a camisa da Seleção foi se tornando distante. Ele não jogou bola naquele ano de 1970. Jogou a vida. Jogou a vida para mudar a História. E, quando ainda festejavam a Seleção que trouxe a terceira estrela na camisa, menos de um ano depois daquele histórico julho de 1970, Sonsonho, que agora dividia a bola com a História de seu país, não era mais chutado em campo, o adversário não conhecia as regras do jogo. Preferiam chutar corpos, aplicar-lhe choques elétricos. E não usavam chuteiras. Calçavam, e calçam ainda, botas pesadas que, por onde caminhavam, deixavam pegadas de sangue. O adversário não sabia jogar bola. Preferia torturar. Mas aquele menino que fazia complicadas contas mentalmente, sem necessidade de riscar os números, que era um craque na bola e, certamente vestiria a camisa verdeamarela com a terceira estrela, enfrentou o adversário que não sabia chutar a bola. Mas, se lhe tiraram o sangue, suas armas e métodos não foram suficientes para lhe arrebatar os sonhos e os amores de Sonsonho. E quando saíu daquele inferno, deixara de ser criança. E saíu na construção de mais sonhos. Teve filhos. E foi quando se descobriu que aquele menino que lia “Sir Jerry na Bretanha”, que escalava qualquer time, que era um craque, que se dividia entre a bola e a História de seus país e já não tinha mais os tamarindeiros da Quinta do Barão, mostrou que ser pai é “desdobrar fibra por fibra”. Estica e desdobra todas as fibras para os filhos, mesmo quando a História o rouba para grandes missões. E é quando se torna pai, camarada, companheiro, irmão e amigo. Como se criasse novas fibras a cada dia.

No dia 23 de maio, um sábado, o Rio de Janeiro, cidade onde nasceu, lhe brindou com uma brisa quase fria, um sol tímido, mas suficiente, para que o amigo, o irmão, o companheiro, o camarada e o pai, comemorasse uma data especial. E, naquela objetividade que nunca o abandonou, contou sua história em apenas três fotos. No meio, o centro do seu universo: a família, os filhos e netos todos dividindo o sentimento flamenguista. De um lado da sua paixão primeira, a família, exatamente à esquerda, como deveria ser, a bandeira na qual sempre acreditou. Forte e vibrante, a bandeira da Ala Vermelha do PcdoB. E à direita, sua outra grande paixão. A bandeira do Flamengo, que também traz, qual a do seu partido primeiro, a cor vermelha da luta e da resistência.

E todos dançaram em frente às paixões daquele menino que cresceu com a bola nos pés, que enfrentou aqueles que preferem torniquetes aos dribles. Dançaram samba, muito samba, dançaram rock, dançaram até “Besame Mucho” ao som de Ray Connif e sua orquestra. Todos felizes porque naquele dia o menino que fazia contas sem necessidade de lápis e papel, que com certeza usaria a camisa verdeamarela se 1970 fosse antes de 1964 comemorava uma vida de conquistas. Uma vida de alguém que sempre lutou, sem jamais se tornar um mercenário. Aquele menino comemorava 60 anos.

Mas o aniversário daquele menino é hoje, 26 de maio. E por isso eu quero dizer, Feliz Aniversário, mano. Tu mereces toda a torcida dos que te amam. E eu tenho orgulho de ser tua irmã.

Sapoti da Japaranduba

By , 20 May, 2009 4:37 pm

Mario Benedetti e o Recife

Urariano Mota

Na imprensa brasileira, as notícias sobre a morte de Mario Benedetti são lacônicas, medíocres e omissas. Peguem o google notícias em España e terão um perfil digno de um grande escritor. Já no Brasil… Uma nota do Estadão nada diz sobre o papel político da sua obra. Na Folha de São Paulo, em linhas brevíssimas, passa-se como um gato sobre brasas, na menção às idéias de fraternidade do escritor: “Devido às suas posições políticas, Benedetti exilou-se do Uruguai por doze anos, quando o país sofreu um golpe militar, em 1973. Morou na Argentina, Cuba e Espanha e voltou ao Uruguai em 1985. Benedetti foi ainda um grande crítico da política externa dos EUA”.

Pior, no G1, o espaço para a morte de Benedetti é ocupado por uma imensa foto e a informação lacônica:

“O escritor uruguaio Mario Benedetti morreu hoje em Montevidéu aos 88 anos. Considerado um dos principais autores uruguaios, ele iniciou a carreira literária em 1949 e ficou famoso em 1956, ao publicar ‘Poemas de oficina’, uma de suas obras mais conhecidas. O autor tinha um estado de saúde bastante delicado e estava em sua casa, na capital uruguaia, quando morreu”. Isso é mais que ridículo, é criminoso. Para sair desse quadro, passem o olho no El País, e leiam “El poeta del compromiso”. Um banho de informação.

Como a grande imprensa não vai lembrar, por ignorância ou omissão, divulgo um lindo poema de Mario Benedetti, que se refere ao Brasil, a Pernambuco. Perdoem a livre tradução de Muerte de Soledad Barret. O poema é um sensível registro, em Montevidéu, da dor que lhe causou a notícia da morte da bela e brava Soledad Barret Viedma. Soledad foi torturada e morta no Recife em 1973, entregue a Fleury pela marido, o cabo anselmo. Estava grávida, com cinco meses.

MORTE DE SOLEDAD BARRET

Mario Benedetti

Viveste aqui por meses ou por anos
traçaste aqui uma reta de melancolia
que atravessou as vidas e a cidade

Faz dez anos tua adolescência foi notícia
te marcaram as coxas porque não quiseste
gritar viva hitler nem abaixo fidel

eram outros tempos e outros esquadrões
porém aquelas tatuagens encheram de assombro
a certo uruguai que vivia na lua

e claro então não podias saber
que de algum modo eras
a pré-história do íbero

agora metralharam no recife
teus vinte e sete anos
de amor de têmpera e pena clandestina

talvez nunca se saiba como nem por quê

os telegramas dizem que resististe
e não haverá mais jeito que acreditar
porque o certo é que resistias
somente em te colocares à frente
só em mirá-los

só em sorrir
só em cantar cielitos com o rosto para o céu

com tua imagem segura
com teu ar de menina
podias ser modelo
atriz
miss paraguai
capa de revista
calendário
quem sabe quantas coisas

porém o avô rafael o velho anarco
te puxava fortemente o sangue
e tu sentias calada esses puxões

soledad solidão não viveste sozinha
por isso tua vida não se apaga
simplesmente se enche de sinais

soledad solidão não morreste sozinha
por isso tua morte não se chora
simplesmente a levantamos no ar

desde agora a nostalgia será
um vento fiel que flamejará tua morte
para que assim apareçam exemplares e nítido
as franjas de tua vida

ignoro se estarias
de minissaia ou talvez de jeans
quando a rajada de pernambuco
acabou completo os teus sonhos

pelo menos não terá sido fácil
cerrar teus grandes olhos claros
teus olhos onde a melhor violência
se permitia razoáveis tréguas
para tornar-se incrível bondade

e ainda que por fim os tenham encerrado
é provável que ainda sigas olhando
soledad compatriota de três ou quatro povos
o limpo futuro pelo qual vivias
e pelo qual nunca te negaste a morrer

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