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VIDRINHOS, MEMÓRIAS DE SARAH BERNHARDT

By , 12 July, 2020 3:00 pm

(Ler ouvindo “La Bohème”, na voz de Charles Aznavour)

O Vidrinho Inicial
Meus Vidrinhos

Os antropólogos Patrick Menget e Bruce Albert, que tinham lugar cativo na minha casa, costumavam me chamar de Sarah Bernhardt, uma sedutora atriz do teatro francês que reinou em Paris no final do século XIX, começo do século XX. Diz a lenda que ela até se apresentou no Teatro Amazonas, em Manáus.

Mal sabiam eles o quanto eu tinha e tenho de Sarah Bernhardt. Ela é a principal responsável por uma das minhas mais caras coleções. Coleciono vidrinhos e vidros. E, um deles, de cristal, presente de Patrick Menget nos meus 50 anos.

Começou em Paris nos anos 70. Morava na casa da família Murard, que Haroldo Saboia e Alexandre Ribondi conhecem muito bem. Família rica. Passávamos fins de semana no castelo da família, à beira do rio Loire no vilarejo chamado Sully-sur-Loire. Nous, les soixantehuitards.

De vez em quando, trabalhava. Foi Édouard Bailby, que fora correspondente do “Le Monde” no Brasil e era amigo do meu tio, Neiva Moreira, quem me arranjou um emprego de verdade, traduzir do espanhol para o francês as notícias da ‘Prensa Latina”, agência cubana de notícias.

O dinheiro era gasto em ninharias. Uma dessas, nem tanto ninharia.

É que sou apaixonada, totalmente apaixonada, por brechós. Paris é o paraíso dos brechós, tanto na margem esquerda quanto direita do Sena. Conhecia todos. E deixava, às vezes, todo meu salário em uma só peça quando ela roubava meu oxigênio. E foi assim que aconteceu.

Era um brechó perto de casa, mais exatamente na Rue St. Sulpicy. Brechó pequeno, poucas peças, e uma assim destacada. Era apenas um vidro. Um vidro vazio, cheio de vida. Bem caro, corresponderia, hoje, a uns 200 dólares. gostei do vidrinho. Fiquei intrigada pelo preço. Dinheiro eu tinha. Havia recebido naquele mesmo dia. Uma senhora de vestido verde desmaiado me olhou com suspeição. Eu tinha apenas 19 anos, cara de india e examinava sua peça valiosa com olhos de cobiça.

Noblesse oblige, a senhora de verde desmaiado, cheia de pompa, num francês antigo, me disse que aquele vidrinho que parecia insignificante, ficava no boudoir de Mademoiselle Bernhardt. Tudo bem, mas e quem é essa demoiselle. E ela, “Sarah Bernhardt”. “Oh”. Fiquei até com vergonha porque segurava o vidrinho sem o devido respeito, enquanto a senhora de verde desmaiado me olhava com suspeição.

Audaciosa, que sempre fui, atirei, “quanto é?”. Acho que ela salgou o preço. Audaciosa e, orgulhosa. Abri a bolsa, quando comecei a contar meus francos, ela pegou na minha mão e disse, “deixo por um pouco menos”. O tal pouco menos era só 20 francos a menos do que eu tinha na bolsa. Uma loucura reconheço. Mas, uma loucura a mais, uma loucura a menos, por que não. Tudo era permitido na Paris dos anos 70.

Sai triunfante daquele brechó e cheguei em casa mais triunfante ainda para mostrar meu achado para a mãe da família, Françoise Murard, uma das mais extraordinárias mulheres que conheci na vida. E minha vida é pontilhada por mulheres extraordinárias, Ela me disse. “Não lave por dentro. Assim você guarda o perfume de Sarah”. Até hoje, está lá, no fundo do vidro, uma manchinha amarelada, com a memória de Sarah Bernhardt.

Pronto, Bruce Albert, talvez agora entendas porque eu ria quando vocês brincavam comigo. Pena que Patrick morreu antes de conhecer esse segredo.

O que eu não sabia naquele setembro de 1970 era que aquele vidrinho se transformaria numa coleção. Uma coleção cuidadosa, Há outros. Não com a mesma história, mas tão valiosos quanto. Até meu primeiro Chanel 5 está aqui nessa coleção. Lindo.

PAIAKÃ E AS PIMENTEIRAS

By , 17 June, 2020 11:35 pm

Paulinho Paiakan : Foto jornalística

Minha homenagem ao guerreiro Pauklinho Paiakã, que morreu no dia 17 de junho de 2020, aos 65 anos.

Quero homenagear também os demais índios vitímas do vírus Corona e do projeto de massacre do Governo.

Desci do monomotor, numa pista de 600 metros (ou menos) ainda tonta e quase descabelada. Antes mesmo de descar do avião, vi um grupo de homens com seus calções. Cores diversas. Um deles se aproximou e perguntou quem era eu e o que estava fazendo ali.  Ainda trêmula por causa do voo, me apresentei. Em seguida tive uma crise de tosse daquelas irritantes e sem motivo aparente. Tensão do voo, talvez. Ou do ar que estava seco.

Sem nem pestanejar, aquele homem que ainda me olhava de cara fechada disse “você não pode entrar na aldeia. Está tossindo muito. E pode estar trazendo gripe para meu povo. O sol ardia e era pegajoso. O monomotor só voltaria pare me pegar às quatro da tarde.  Ainda nem era dez da manhã.

Mas tenho que escrever sobre o quê está acontecendo aqui, estão derrubando árvore e sei que vocês estão irritados, argumentei. Os demais homens ao seu redor falavam a língua de seu povo e eu não entendia nada. Eram todos fortes e me olhavam com suspeição.

Então ele mesmo me disse. Só pode entrar depois de comer as pimentas. Passou a mão no arbusto, um pimenteiro. Era malagueta. Ele me fez comer para “matar” a tosse, que foi embora na primeira pimenta que ardia até em minha medula. Eu me sentia um dragão soltando fumaça pelos olhos, pelo ouvido, pelo nariz e, principalmente pela boca. Comi.  Não havia opção. Mastiguei todas. Umas quatro. Minha pele ardia naquele sol viscoso, temperado com o fogo da pimenta.

O homem de cara séria e fechada era o chefe Paulinho Paiakã ou, me disse em sua língua, Benkaroty Kayapó. Ali mesmo debaixo daquele sol que nos atirava flechas com brasas, selamos uma amizade para sempre. E me tornei até sua confidente nos mais difícieis momentos. A última conversa que tivemos, há pouco menos de um mês, falamos dos sites de venda on-line.

Ali  na minha frente estava um chefe guerreiro com seu exército formado talvez por 20 homens, todos de calções coloridos e a pele tostada. Todos prontos a defender a intergridade territorial do povo Kayapó que se distribui de Mato Grosso ao Pará e que se consumia entre a devastação feita por madereiros, com a cumplicidade da Funai e dos garimpos que sujavam as águas do Rio Fresco,  cristalino e frio onde se localiza a aldeia de Paulinho.  

Todo esse encontro com mais um grupo Kaypó aconteceu no começo dos anos 80, 1981, para ser mais exata.  Talvez março. Não me lembro bem a data e estou com preguiça de recorrer às minhas agendas de anotações. O grande amigo Ezequias Heringer, o #Xará, meu melhor amigo, antropólogo e sertanista me dá a notícia de que os Gorotire, Kayapó do sul do Pará, estavam em pé de guerra porque o então presidente da Funai, coronel João Carlos Nobre da Veiga, havia assinado, de forma ilegal, contrato com a Madereira Sebba, de Brasília para corte de madeira na terra indígena. Não havia condições de checar e meu jornal, a Folha de São Paulo, me mandou para a aldeia.

Denúncia feita, coronel Nobre da Veiga me ameaçando -para não fugir a regra – segui adiante. Revia Paulinho de vez em quando em Brasília e voltei à terra indígena em 1984, quando se aceleraram as invasões em busca de ouro e da madeira. A  resistência indígena e  os ataques dos invasores  encharcou de sangue as terras xinguanas.  A aldeia do Aukre não ficou longe da guerra.

Um fazendeiro, de nome Expedito Macedo, dono da Fazenda Macedônia, em redenção (PA), espalhou o boato de que os garimpeiros estavam chegando na terra dos Kayapó do rio Fresco, onde vivia Paiakã. Os guerreiros se armaram com suas bordunas. E invadiram a fazenda para matar Expedito. Ele não foi encontrado. Os Kayapó se vingaram promovendo um massacre que deixou 17 mortos. Até hoje me tensiono com as cenas e me lembro da posição dos corpos mortos.

De novo num avião, dessa vez, bimotor, fomos à aldeia, Eliana Lucena, eu e mais dois jornalistas. Os guerreiros estavam retirados. Não podiam conversar com os jornalistas. Pintados de preto, eles tinham que “descarregar” o sangue que derramaram e sequer voltavam para suas malocas. Uma espécie de purgação. Dois dias voando pelo sul do Pará. A base era Conceição do Araguaia. Voltei três depois. A conversa com Paiakã foi seca. Ele não queria falar e não insisti. Então pedi a borduna que estava encostada do lado de fora da maloca. Ainda estava suja de sangue.   

 

Os anos se passaram e novamente encontro Paulinho Paiakã e mais 650 índios. Eram dias eletrizantes. Estávamos todos participando de uma reunião com a Eletronorte que queria convencer os índios a aceitarem  construção da Hidrelétrica de Kararaô, a primeira das quattro previstas pela ditadura militar para o rio da minha paixão, meu Xingu. Era o hoje célebre “encontro de Altamira”, quando índios e não índios nos reunimos para lutar contra aquele crime. Era governo Sarney e conseguimos adiar a tragédia. Foi no governo Lula quando enfim se realizou o grande desejo do general Ernesto Geisel, o ditador da anistia e que sonhava com águas jorrando das comportas enquanto o Xingu vagava pela floresta na qual um dia foi senhor quase absoluto. Só nos restou lutar contra o nome Kararaô, que é outro grupo Kaiapó. A nova denominação é Belo Monte. Essa foi nossa única vitória.

Paiakã estava lá. Almoçamos aquela comida terrível que nos serviram. Tão ruim que escapamo,s uns cinco ou seis índios para comer “comida boa”, como sempre diz Irekran, a grande companheira de Paulinho. 

Em sete de junho, de 1992, o choque. Lá está Paiakã, numa foto que toma toda a capa da revista “Veja”, portando com um soberbo cocar amarelo e o título, “O Selvagem”.  E lá conta que estuprastes Silvia Letícia,, de 18 anos. E te acusavam de além de ter estuprado terias tentado matá-lo. era choque e conflito pessoal. Como assim? Que loucura! E não conseguia falar Paiakã nem com niguém lá de Redenção (sul do Pará). Estava envolvida na minha viagem para a Eco-92 no Rio, tentando convencer as freiras da escola de minhas filhas que remarcassem as provas porque elas iriam comigo a esse encontro internacional que alertava o mundo para os riscos da destruição do planeta. A “Veja” tentou sabotar aquele encontro usando um crime hediondo para manchar a imagem de Paulinhoo que, naquele tempo era a imagem do maior defensor da floresta. A matéria tinha o dedo do governado do Pará, Jáder Barbalho. Mais que um dedo. A matéria foi toda pensada por Jáder Barbalho que tinha se transformado no inimigo número 1 de Paiakã. E, da causa ambiental, além de lucrar com os garimpos. Foi um abalo geral. 

Só duas semanas depois consegui falar com Paulinho. ele me telefonou quase em desespero porque queriam prendê-lo e pedia minha presença imediata. E mais uma vez embarquei, dessa vez, sozinha e fui para o Aukre que parecia estar de luto. Então, a história toda foi contada. Sem omitir detalhes. Eu já estava fora de jornis, mas a Folha de São Paulo me deu uma página inteira para contar o que aconteceu. 

Só fiquei serena quando em 1994, o juiz de Redençao, Elder Costa absolveu o chafe guerreiro. Na sentença contou a verdadeira história dizendo  que todo o processo foi uma “balbúrdia jurídica”. Anulou todas as provas.

E depois, pela última vez, encontrei Paulinho e Irekran no Fórum Social Mundial realizado em Belém, em 2009. Daí em diante, nossos contatos foram virtuais. Há pouco menos de um mês conversávamos pelo what´s up. ele queria saber da idoneidade de alguns sites de compras. Rimos um pouco porque contei algumas papagaiadas do Governo. mas ele estava sério. Estava assustado com a expansão do vírus Corona entre os povos indígenas. E foi essa a guerra perdida pelo líder Benkaroty Kayapó, conhecido pela sociedade ocidental pelo nome de Paulinho Paiakã, meu amigo que sonhava em ter um filho homem que o sucederia no comando do Aukre. O sonho acabou quando os médicos da sociedade dominante, à revelia da da família ligaram as trompas de Irekran.

Paulinho, hoje, ainda chorando, comecei meu ritual para te homenagear. Estou plantando flores num vaso com as cores que marcam nossas lutas. 

ACORRENTADO AO CINCO DE NOVEMBRO

By , 2 June, 2020 10:56 pm
EUA preparam reação militar contra rebelião popular - Brasil 247

O presidente do país mais poderoso da Terra, que espalha seu império sobre todos os continentes está com mãos acorrentadas à primeira quinta-feira de novembro. Ao cinco de novembro.
Pois é, Donald Trump, que ameaçou os manifestantes de convocar as Forças Armadas para conter os protestos pelo brutal asasassinato, por asfixia, do negro GEORGE FLOYD, pelo policial branco DEREK CHAUVIN, não pode cumprir sua promessa.
Trump só conta com 40% de popularidade e a curva está achatada. Dentro de 155 dias, ele vai enfrentar uma eleição que tentou adiar por causa do vírus ao qual não entendeu e, se entendeu, menosprezou. Defendeu o adiamento das eleições em nome da necessidade de isolamento social. Não colou. E nem tinha chances de colar. Afinal de contas, você pode votar sem sair de casa. Recebe o envelope com a cédula, confirma o voto e manda pelo correio, sem a menor necessidade de confrontar o Corona.
Há menos de 90 dias, a vitória de Trump era incontestável. Joe Biden, candidato do Partido Democrata parece que ia apenas cumprir o ritual da derrota para seu partido não chegar de mãos vazias. O vírus mudou o curso da História e os democratas começaram a se mexer porque sentiram a possibilidade de vencer Trump, uma espécie de Bolsonaro com verniz e cheiro de dinheiro. Aos poucos afastaram os Clinton da campanha e o ex-presidente Barack Obama assumiu o processo.
Para completar o fenômeno do achatamento da curva, as cenas da morte de George Floyd chocaram a consciência dos brancos que defendem os direitos humanos, dos hispânicos que sabem que correm risco de vida na mãos dos policias, dos índios que correspondem apenas a 1% da população e, mais. Levantou a população dos negros que não passam um ano sem ver um dos seus tombar sob as balas dos policiais. Dessa vez não foi gasta nem munição. Derek, o policial assassino, usou seu joelho como armaa e asfixiou Floyd lentamente, por exatos oito minutos.
E os Estados Unidos explodiu numa convulsoão sem precedentes. Se você está pensando ou comparando com as rebeliões de 1968, um aviso. A situação está bem pior.


Não bastasse tudo isso, Donald Trump enfrenta a oposição interna. Os inimigos estão dentro do seu partido. Na lista dos infortúnios de Mister President, a milionária Sarah Longwell, republicana da Pennsylvania, conservadora que comanda uma dissidência dentro no Partido Republicano, o “Never Trumper” e está trabalhando ativamente pela vitória de Joe Biden. Trabalhou nas eleições primárias para afastar Bernie Sanders e agora, mesmo com toda a tradição republicana de sua família, faz campanha de porta em porta nos bairros luxuosos das ricas cidades do Norte e acredita que Trump está vivendo “seu pior cenário”. Sarah financia a campanha de Biden que parece ter deslanchado.
E Trump, que tem direito legal de convocar as tropas para impor uma espécie de estado de sítio no país, ainda não conseguiu chamar as Forças Armadas, embora as pesquisas digam que ele tem 58% de apoio para apelar ao INSURRECTION ACT, lei do século XIX e que foi usada a pela primeira vez exatamente para conter rebelião de escravos e mais recentemente, no século XX, pelo Bush I, para acabar com os conflitos dos negros em Los Angeles,que protestavam contra o assassinato do #brother Rodney King.
Só não entendo porque os jornalistas de televisão insistem em desinformar dizendo que Trump só pode convocar as Forças Armadas se os governadores concordarem. Podiam ler as leis. Faz um bem danado.

P.S. Hoje seria o marco inicial da campanha para presidente da República dos Estados Unidos. Hoje seriam realizadas as convenções dos dois partidos para a escolha do seu candidato. Ainda faltam 500 votos para Biden.

O SONHO DA DIREITA É TER UM BRILHO DE ESQUERDA

By , 31 May, 2020 6:33 pm

ArtStation - dragon concept, Yongsub Song

O título soa de forma esranha? Possivelmente. Tenho base em algum estudo acadêmico ou pesquisa? Absolutamente. Apenas observação pessoal e muita leitura da História do Brasil.*

Quando vi o primeiro post no Facebook me informando do movimento #Somos70% contra os desmandos desse governo que nos atirou nesse redemoinho de crueldades, bateu aquele entusiasmo juvenil. Só não pulei de alegria porque estava um tanto cansada do dia. Ainda procurei o lugar de assinar mas tenho o hábito de não tomar atitudes na hora de dormir. E já passava das três da manhã.

´Acordei pelas dez da manhã. Literal e literariamente.

Acordei e havia mais posts sobre o Somos70%. Então, me informei melhor, quem assinava, quantas assinaturas havia, o básico. Vi, feliz, que lá estava Luiza Erundina uma das mulheres mais admiráveis da política brasileira. Lá estava Flávio Dino, meu candidfato a presidente, havia também Fernando Henrique Cardoso. Tudo bem, nunca foi de direita e tem uma história. Seus descaminhos, nesse momento, pode-se relevar.

Finalmente reuni as informações necessárias e…foi quando esbarrei no detestável. Não gostei do que vi. O movimento foi criado pelo banqueiro Eduardo Moreira. Vamos lá, engoli em seco. Mas… banqueiro? Aquele pessoal que só joga blefando? Aquele pessoal que está sempre no comando dos mercados com seus juros asfixiantes e conseguem até dissimular que apoiam governo progressista para conseguir mais benesses? Hummmcheirou a enxÔfre queimado. Onde estava Eduardo Moreira quando o povo brasileiro perdeu algumas de suas conquistas? Onde estavam todos os banqueiros quando começamos a apontar os crimes cometidos pela campanha de Jair Bolsonaro e os outros crimes ainda mais graves que cometeu depois de empossado? Só agora perceberam o que denunciávamos há mais de dois anos? E por que perceberam? Por que o Brasil se tornou uma espécie de lepra junto à comunidade internacional? Por que nos tornamos tão párias quanto a Coréia do Norte? Ou talvez porque não possam passar o fim de semana no Ritz em Paris, ao lado da “Hermès”, olhando a Place Vendôme, simplesmente porque não somos mais bem-vindos? Ou, quem sabe para dar brilho à biografia. Bingo!!!!

A esbarrada que me engasgou com o nome na lista foi o de Luciano Huck. Sim, ele, com quem FHC anda flertando ultimamente com elogios pra lá de explícitos. O que ele está fazendo nessa lista? De graça não é. Quer um lugar ao sol? Uma faixa verde-amarela no peito para chamar de sua? Ele está é tentando se tornar político. Ser ouvido. Ser citado. Errou pela Direita e agora quer escrever em sua biografia que já “até” assinou manifesto com a esquerda.

Exatamente ele que há menos três anos circulava com uma camiseta verde-amarela bem justinha, gritando “Fora Dilma”, colaborando para um dos mais sórdidos movimentos políticos que já vi – pior do que esse só o das “Senhoras de Santana”, em São Paulo, marchando com terço na mão contra o “comunismo” e incitando as Forças Armadas para um golpe contra João Goulart – e depois meio sem graça num partido que se intitula “Novo” porque se fosse chamado de “Velho” seria rejeitado. O quê? Aquele mesmo Luciano Huck, grileiro de terra da Marinha na ilha de Fernando de Noronha e que na abertura da Copa do Mundo, a ´plenos pulmões chamou a presidente da República de “filha da puta”, frente a mandatários estrangeiros?

Sim, é ele mesmo. Despiu-se da camiseta verde-amarela e agora se fotografa com com camisa cor-de-rosa só para dizer que faz oposição à ministra Damares.

Não, alguma coisa estava errada. Por que razão eu me alinharia a um movimento com essa figura. Não. Mesmo que a lógica me obrigasse, meu corpo reagiria. E eu respeito meu corpo. Respeito meus espirros porque são alergias morais.

Mas há nomes da esquerda, o diabo bom me dizia. Sim, há. Mas onde estão os “outros” nomes do campo progressista? Não foram chamados? Não são palátaveis à “nova resistência”? Ou, feito eu, não gostam de más companhias? Lula assinou? Dilma assinou? E, no entanto, eles foram as vítimas preferenciais dos #hucks que estão na lista.

Além disso, tenho certeza de que num espaço de tempo não muito distante, as pessoas que admiro e até meu candidato à presidência, ainda vão se arrepender do gesto. mesmo que não se arrependa, continuo votando em Flávio Dino.

A jornalisa Leda Flora e a professora Raimunda Monteiro, ex-reitora da Universidade Federal Oeste do Pará, amigas queridas por quem tenho amor, admiração e respeito, me falaram da unidade. Raimundinha, a combatente Raimundinha, ainda disse, que é unir para derrubar o Bolsonaro e depois põe os pingos nos iis. Não resisti à piada, amiga. Eu ponho os pingos nos iis no momento em que escrevo e não quando o texto está pronto. Leda com quem divido o prazer da leitura, preocupações sentimentais, políticas e de comporamento social foi na mesma toada.

Mas essas todas já foram gastas. Quem primeiro desmoralizou foi Delfim Neto. Primeiro cresce o bolo, depois reparte. Até hoje estou esperando ver o povo saborear sua fatia. Deve ter solado. Continuei fazendo minha mousse au chocolat.

Ainda penso nessa unidade. Unidade?? Não. Não. Mil vezes não. Isso não é unidade. É o velho e detestável hábito da política brasileira de acochambramento. É a “Síndrome de Lampedusa”.

E só para lembrar àqueles que me falaram dos acordos das unidades do passado, que se elas tivessem sido realmente funcionado, não teríamos chegado onder chegamos.

Pra encerrar, não dou palanque a Luciano Huck e ele é o principal beneficiado desse manifesto.

*Tenho 72,5 anos de idade e vivi todos os acontecimentos políticos dos últimos 65 anos da Hisória do Brasil. Sei que vão fazer as contas, mas não precisa. Explico. Tinha quase sete anos quando Getúlio deu um tiro no peito. Família historicamente de esquerda, aquele momento foi vivido com intensidade dentro de minha casa. Estava com quase oito quando uma rebelião militar contra a posse de Juscelino Kubistcheck estourou em Aragarças, Goiás. O avião que me levava do Rio de Janeiro para São Luís ficou retido. Eu era a única criança. E a tensão dos adultos era tão pegajosa que me manifestei. O comandante era responsável pela “menor”. E, no meio daquela tensão, todos riram, porque, do alto alto do meu nariz, disse, “só espero que eu não precise dormir com o piloto”. Todos riram. Estava com 14 na minha primeira pixação de parede, “Pela reforma Agrária” escrevi naquele paredão enorme. Ia fazer 15 anos quando papai me escalou para cumprir uma tarefa política. Jogar panfletos contra a visita do embaixador americano Lincoln Gordon a São Luis. Missão cumprida. Joguei os panfletos no colo do embaixador. Veio o golpe e minha família foi atingida de todas as formas possíveis. É tanta história, que o governador do Maranhão, Flávio Dino, que possivelmente terá meu voto nas eleições presidencias, falando num comício em Brasília, em agosto de 2019 em alto e bom som, disse, “Memélia Moreira, quando você fizer a festa de 50 anos de militância, quero ser convidado”. Lá no fundo da multidão, muito sem graça, gritei, “já passou muito dos 50”.

Estou fazendo esse currículum vitae só para lhes dizer que não li nenhum texto acadêmico, pesquisa, estudo, nada para dizer que o sonho da direita esclarecida do Brasil (falo da direita, não dos fascistas) é ter brilho de esquerda são apenas observações feitas ao longo de uma vida na qual não parei de lutar um só dia. E, sempre à esquerda. Sem tergiversar.

Gente, fui

A SOLIDÃO DO VERME

By , 16 May, 2019 3:25 pm

A SOLIDÃO DO VERME
Memélia Moreira
Alguns de nós já devem ter se esquecido. Mas esta não é a primeira vez que Bolsonaro procura uma lanchonete ou um fast-food quando está em viagem internacional.
A escolha não acontece apenas para exibir sua tendência populista. Para que acreditem que ele é modesto e não gasta “em vão” o nosso dinheiro (não em frente aos fotografos).
A escolha aponta para além, bem além do populismo. Ela é o cruel retrato de uma pessoa que chegou ao mais alto posto de um país que tem espaço relevante na Geopolítica internacional. Ela é o registro da solidão à qual está entregue #Bolsonaro
Em Dallas há excelentes restaurantes que servem pratos bem melhores do que a mixórdia de um hamburguer com fritas e refrigerante. Está certo que talvez ele temesse suas dificuldades idiomáticas indo a um restaurante onde ninguém fala Português ou Espanhol. Mas só de restaurantes brasileiros ele teria o “Texas do Brasil” onde, além de um buffet que gourmet nenhum poria defeitos, há uma excelente carne canadense com corte de açougueiro brasileiro. E batatas fritas. Ou podia escolher o “Fogo de Chão”, também brasileiro, também de primeira linha. Se não quisesse nenhum dos famosos, há o “Rafain’ tão brasileiro quanto os dois citados.
Mas não. Ele foi a uma lanchonete. E por que? Porque num restaurante os fregueses sentam-se com calma e observam o ambiente. E então poderiam descobrir que ali estava um presidente eleito pelo povo. E ficariam um tanto impressionados com a solidão do presidente de um importante país. 
Numa lanchonete ou num fast-food, ele não corre esse risco. Os fregueses chegam, pagam na hora do pedido, comem e vão embora. Não param para observar os arredores. Mesmo que ele não tenha bons modos à mesa, ninguém perceberá. 
A verdade é que Bolsonaro vive a solidão de um precoce ostracismo.
Cobri a presidência da República por alguns anos. Acompanhei viagens presidenciais até mesmo de presidentes que já estavam a caminho do lixo da História e nunca, nunca mesmo, vi um presidente almoçar assim, sozinho. O presidente General, Figueiredo, quando a ditadura já estava respirando por aparelhos, ainda viajou um bocado. Nos seus almoços e jantares, a mesa mesmo com aquele clima de fim de festa, ainda reunia pelo menos 20 pessoas. E havia sempre aquela enxurrada de jornalistas.
Sarney, o sucessor de Figueiredo, quando chegava a uma cidade, tanto no Brasil quanto na Europa, era cercado por personalidades políticas e alguns intelectuais, principalmente escritores. 
Mas Bolsonaro, quem estava com ele? Ninguém. 
O mesmo aconteceu em Davos. A cidade, durante o Fórum Econômico Mundial, borbulhava de mandatários. Todos procurando aqueles deliciosos fondues bourguignone que servem na Suiça. E ele num self-servce. Só.
Essa viagem nos custou caro. Não sei quantos milhões são necessários para pagar o deslocamento de dois aviões, o precursor e o presidencial. Para quê? Para mostrar que o presidente do Brasil entrou firme na rota da rejeição.
Cadê o título de “Personalidade do Ano concedido pela Câmara de Comércio Brasil-EUA? Foi entregue?
Onde a reunião com os magnatas do petróleo, os Koch, os grandes executivos tipo Max Tillerson? Onde? NADA.
Bolsonaro volta para o Brasil de mãos vazias e cabeça quente porque seu inferno astral ainda vai durar bastante. Pelo menos uns dois anos até o desfecho. 
Até mesmo seu guru, um auto-proclamado filósofo chamado Olavo Carvalho o abandonou.
O verme está só e sua solidão vai nos custar caro porque, se ele é despreparado em todos os setores, ele guarda, na mesma proporção do despreparo, uma sede de vingança que é sempre mais cruel e selvagem nos medíocres.

UMA GUANTÁNAMO SOBRE KILOMBOS

By , 19 March, 2019 5:39 pm
A base e o mar do Maranhão

Não me lembro o dia, mas era no ano de 2000. O tempo estava claro, ar suave que caracteriza o mes de maio em Brasília. A temperatura me convidou a ir de bicicleta da 105 sul, onde eu morava, até à Câmara dos Deputados. E lá, direto para o oitavo andar, onde ficava o gabinete do meu tio, deputado Neiva Moreira.

Ele me recebeu resmungando. Ele sempre resmungava quando me encontrava. Era sua manifestação de afeto e autoridade que sempre pautou nossa relação, desde muinha infância. Meu padrinho odiava me ver fumando e eu estava com meu cigarro aceso. Tio Moreira me deu uma folhas de papel e disse “Leia com atenção”, mais tarde, na hora do almoço a gente conversa”.

Não terminara a primeira página e, meu coração estava aos pulos. Parecia atacada de catatonismo. Estarrecida. Não podia acreditar naquele documento. E nem era tempo de fake news. Que horror, o Brasil assinava um acordo autorizando uma nova Guantánamo na América Latina. Dessa vez, uma Guantánamo travestida de centro de pesquisas e lançamentos de veículos espaciais.

Com dez parágrafos, ali estava, na minha frente, um acordo bilateral sobre o uso da Base de Lançamentos de Alcântara, aquela maravilhosa cidade em frente de São Luís, minha amada ilha. Na última linha, as assinaturas dos inimigos da soberania brasileira.

“Ronaldo Sardenberg Ministro de Estado da Ciência e Tecnologia PELO GOVERNO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL
Anthony S. Harrington Embaixador dos Estados Unidos da América PELO GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA”.

O tratado de entrega de nosssa soberania fora assinado em 18 de abril de 2000. Negociado pelo ministro de Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampréia. Era o segundo ano do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, desgastado pelas denúncias e pelo esgotamento do próprio Governo e seus escândalos abafados.

Meu Deus, quanta infâmia naqueles dez parágrafos. Era meu país que estava em jogo. Meu Maranhão querido que estava sendo reduzido. Não esperei a hora do almoço e sai descabelada, nem esperei o elevador e fui direto à liderança do PDT, partido do qual Neiva, meu tio, era presidente. Diz ele que entrei na sala feito um ciclone furioso.

“O que é que o senhor vai fazer com isso? Isso não pode acontecer”, era eu a ciclone enraivecida. Meu tio, como sempre, respondeu, “Calma, controle seus radicalismos” (não sei porque ele achava que eu era radical. Nunca fui). E então ele me explicou que tratados bilaterais devem ser aprovados pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara. E mais, tratados bilaterais não podiam sofrer emendas. Ou aprovado na íntegra ou rejeitado na íntegra. Precisávamos de uma Proposta de Emenda Constitucional para mudar essa regra. E, acima de tudo, precisávamos de 239 assinaturas dos deputados. “Deixe comigo”, falei.

Numa cadeira igual a essas carteiras escolares, com mesinha na frente (foi um segurança da Câmara que buscou pra mim), comecei a coletar as assinaturas sentada no Salão Verde. Aos berros (sorte que os seguranças da Câmara gostavam de mim) eu dizia,”Assine aqui contra a Guantánamo no Brasil” . Parecia vendedor ambulante gritando, sem parar, ‘Assine aqui…” Alguns deputados tentavam escapar, mas não conseguiam. Eram deputados do PFL. Mas eram também meus amigos, entre eles, José Carlos Alelulia, da Bahia; Heráclito Fortes, do Piauí, Robson Tuma, de São Paulo. Eu explicava rapidinho sobre o infame tratado e, antes das sete da noite, já estava com mais de 300 assinaturas. Ainda deu tempo de protocolar a PEC no mesmo dia.

E então começou uma linda campanha em todo o país. Além dos grandes líderes Leonel Brizola, Miguel Arraes, João Amazona e Lula, os movimentos populares (MST, principalmente), sindicatos, partidos de equerda, além da CNBB e OAB, todos estavam envolvidos na luta por nossa soberania .

Com o deputado Waldir Pires, do PT da Bahia, relator da PEC e com o coordenador do MST, João Pedro Stédile, percorri o Brasil do Rio Grande do Sul ate o Pará. E o movimento só crescia. Cresciam os protestos até em comícios. No Rio, a apoteose. Auditório cheio. O discurso mais emocionante foi o do brigadeiros Moreira Lima, herói da II Guerra Mundial. Ouvir aqueles discursos me deu certezas .

O acordo bilateral foi rejeitado pela Comissão de Relações Exteriores e seguiu para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) onde, depois de várias audiências, chegou o dia da batalha final. Nós, que éramos contra o acordo não queríamos quorum na CCJ e minha tarefa foi ficar à porta da comissão, pedindo para que os deputados não assinassem a lista de presença. Robson Tuma, de quem me tornei amiga, estava pronto para dar quórum mas ele gostava de mim. Era uma pessoa frágil, esmagado pelo poder do pai e de um irmão. E eu o tratava como devem ser tratadas todas as pessoas. Com respeito. Titubeou e eu disse, “esse é o momento da tua independência”. Ele não assinou. E aí chegou um deputado do Pará, primo ou sobrinho de Jáder Barbalho. Metido a bonito, cheio de pose. Bateu pé e disse que assinava, que era seu dever, patati-patatá. E parti para a ameaça. “Deputado vamos ali falar rapidinho”. Na esquina do corredor das comissões fui dura.”Se o senhor assinar isso eu lhe prometo que esteja eu onde estiver vou ao Pará fazer campanha contra o senhor. E vou derrotá-lo nas próximas eleições. Pode ter certeza que conto com o poder da Igreja pra isso”. Ele se irritou Fiquei com medo de uma uma agressão, mas por via das dúvidas, não assinou.

Vencemos.

O acordo foi rejeitado. Pouco tempo depois, quando nos preparávamos para virar gente grande na política espacial, eis que um foguete explode e mata 21 pessoas da Base de Alcântara (ler texto de Zanoni Antunes aqui no Facebook sobre o acidente). Eles podem até negar por uma vida inteira, mas é evidente que houve sabotagem. E nós sabemos quem foram os sabotadores.

E hoje, dia de São José, dia em que, em Roraima, a terra onde nasci, todos olham para o céu para saudar a chuva, logo hoje, quando todos nós em Roraima e no Nordeste esperamos a chuva, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, num ato de extremo servilismo, assina um novo tratado para a alegria dos Estados Unidos que quer controlar nosso continente. Dizem que modificaram um pouco. Acredito que tiraram uma ou duas linhas. Mas nada de fundamental.

O pior de tudo é não ver nenhuma reação em massa da sociedade brasileira que está cedendo seu território para uma base militar americana, sem qualquer consulta ao Congresso ou ao povo. Onde estão os movimentos populares, os sindicatos, os partidos de esquerda, onde está a OAB, a CNBB, a ABI? Que silêncio de cemitérios!

Mas, mal sabem os os gringos que aquela terra na qual plantaaram uma base foi um quilombo, de onde removeram dezenas de famílias quilombolas para um bairro em São Luís, o “Bairro da Liberdade”. E os deuses desses povos estão à espreita. Eles podem sempre se vingar.

  • DESTAQUES DE ÍTENS DO ACORDO:

Artigo4 ítem 3

Em qualquer Atividade de Lançamento, as Partes tomarão todas as medidas necessárias para assegurar que os Participantes Norte-ameircanos mantenham o controle sobre os Veículos de Lançamento, Espaçonaves, Equipamentos Afins e Dados Técnicos, a menos que de outra forma autorizado pelo Governo dos Estados Unidos da América. Para tal finalidade, o Governo da República Federativa do Brasil manterá disponível no Centro de Lançamento de Alcântara áreas restritas para o processamento, montagem, conexão e lançamentos dos Veículos de Lançamento e Espaçonaves por Licenciados Norte-americanos e permitirá que pessoas autorizadas pelo Governo dos Estados Unidos da América controlem o acesso a estas áreas.

Ou seja áreas de controle absoluto dos Estados Unidos. Inclusive de autoridades brasileiras, como estava previsto no Artigo 6 ítem 5

O Governo da República Federativa do Brasil assegurará que todos os Representantes Brasileiros portem, de forma visível, crachás de identificação enquanto estiverem cumprindo atribuições relacionadas com Atividades de Lançamento. O acesso às áreas restritas referidas no Artigo IV, parágrafo 3, e aos locais e áreas que tenham sido especificamente reservados exclusivamente para trabalhos com Veículos de Lançamento, Espaçonaves e Equipamentos Afins será controlado pelo Governo dos Estados Unidos da América ou, como autorizado na(s) licença(s) de exportação, por Licenciados Norte-americanos, por meio de crachás que serão emitidos unicamente pelo Governo dos Estados Unidos da América ou por Licenciados Norte-americanos, se autorizados pelo Governo dos Estados Unidos da América, e incluirão o nome e a fotografia do portador.

O artigo 7 letras A e B são um escárnio. O Brasil teria que pedir licença dos EUA para exportar

Letra A

Todo transporte de Veículos de Lançamento, Espaçonaves, Equipamentos Afins e de Dados Técnicos para ou a partir do território da República Federativa do Brasil deverá ser autorizado antecipadamente pelo Governo dos Estados Unidos da América, e tais itens poderão, a critério do Governo dos Estados Unidos da América, ser acompanhados durante o transporte por agentes autorizados pelo governo dos Estados Unidos da América.

Letra B:

Quaisquer Veículos de Lançamento, Espaçonaves, Equipamentos Afins, e/ou Dados Técnicos transportados para ou a partir do território da República Federativa do Brasil e acondicionados apropriadamente em “containers” lacrados não serão abertos para inspeção enquanto estiverem no território da República Federativa do Brasil. O Governo dos Estados Unidos da América fornecerá às autoridades brasileiras competentes relação do conteúdo dos “containers” lacrados, acima referidos.

Podiam nos roubar à vontade.

TECELÃO DE PONTES, ENGENHEIRO DAS LIBERDADES, OURIVES DA DEMOCRACIA*

By , 27 December, 2018 8:01 pm

Tímido, de profunda formação jurídica, galanteador, ele jamais construiria muros ou cercas.  Passou a vida tecendo pontes em teares que suportavam seda e estopa.  Com paciência e delicadeza, escolhia quais  fios de cada novelo podiam se assemelhar até torná-los um só corpo, mesmo que de texturas distintas. Com régua e compasso, medindo palavras, ele foi construindo liberdades individuais e coletivas num tempo em que a prisão, a tortura e o desaparecimento dos corpos era artigo de varejo de uma ditadura que se estendeu por mais de 20 anos no maior e mais populoso país da América do Sul. Tinha a paciência de um ourives para modelar a Democracia com a qual sonhávamos. E, acima de tudo, jamais desdenhou do adversário porque sabia encontrar nem que fosse apenas uma fibra,  a humanidade que existe até mesmo nos mais cruéis dos seres humanos.

Era assim meu amigo e compadre LUIS CARLOS SIGMARINGA SEIXAS.

Ficamos amigos no começo dos anos 70. A luta contra a ditadura nos uniu. Estreitamos a amizade quado o primeiro grito de “Anistia” , soou pelas ruas de Brasília. E depois disso nos tornamos, de fato, companheiros de luta, de sonhos, de torcida pelo Flamengo, de conversas ao redor do fogo do churrasco que a cada domingo se preparava em minha casa. Kristian, pai de minhas filhas tornou-se churrassqueiro pela convivência com Sig.

Eram tempos de dureza. Política e financeira. Então, para gastar menos, nos reuníamos num churraso no quintal de minha casa. Luis Carlos nem telefonava. Já chegava com a carne. Ele e meu ex-chefe José Paulo Sepúlveda Pertence. O whiskey e a caipirinha ficavam sob a minha irresponsável resposabilidade que nunca se lembrava da cerveja, bebida que até o cheiro me causa náuseas. Eram conversas sem fim, fofocas também. Nada nos escapava. Ou, então, nos reuníamos no Clube da Imprensa que também tinha sua churrasqueira.

Podia contar dezenas de histórias sobre Sig e nossa alegre convivência que durava toda a semana na luta, estendia-se pelos sábados e domingos. Mas vou escolher algumas. Ele era a pessoa que, a cada vez em que enfrentávamos embates, me pedia “calma. Não crie caso”. Vã esperaça desse meu amigo que espalhou tantas esperanças por onde passava.

Brasília ia eleger sua primeira bancada para a Câmara dos Deputados. Luis Carlos era candidato. Mas sua notória timidez nos obrigou a conversas sérias e duras.  Ele não queria poster de campanha. E então sugeri que encomendássemos enormes posters com sua foto e o dedo indicador na boca pedindo silêncio com os dizeres, ‘não espalha não, eu sou candidato a deputado federal”. Ríamos. O lançamento de sua campanha foi num jantar em minha casa que tinha um jardim na frente e dois jardins nos fundos. Mais de 200 pessoas. Ele se distribuía entre todas elas, que carregavam a certeza de que um dia seríamos vitoriosos. E chegou o dia da eleição. Claro que boca-de-urna em tempos de ditadura era certeza de cadeia. Mas pouco me importei. Fiz boca-de-urna descarada, a menos de 50 metros da urna.

Distribuía santinhos e gritava bem alto, com orgulho o nome do meu candidato até que…dois simpáticos rapazes me cercaram e me levaram para a sede da Polícia Federal. eu estava presa. Chegando lá, aquela coisa chata de sempre que era sujar os dedos (e eu sem um creme na bolsa para passar depois de lavar as mãos). Estava de calça comprida. E pior, jeans, para mim, um traje pra lá de bissexto. Mas foi providencial. Guardei todos os santinhos nos bolsos traseiros. E quando chegamos na delegacia eles me pediram os santinhos. Não. Não entrego. Foi minha resposta. Só entrego quando meu advogado chegar. O advogado era o meu candidato. Mas eles não sabiam. Já chegou nervoso porque eu, de novo, estava aprontando. Os agentes da PF ao ver o advogado, abriram um enorme sorriso. E então insistiram, comigo para quem a senhora está trabalhando? Quem é seu candidato? Apontei para o candidato, estufei o peito como se fosse cantar “La Habanera e disse, é ele o meu advogado. Os policiais riram sem graça. E pediram para eu devolver os santinhos. Nunca. Se quiserem vem pegar aqui. Está no bolso de trás da calça. E quem ousou? Então, num gesto de boa vontade, peguei dois santinhos e panfletei os policiais. Rimos todos e eu voltei ao local do crime para continuar meu trabalho.

Luis Carlos, com dez mil recomendações me pediu para ser sua fiscal num dos postos de apuração. Fui lá, feliz da vida em cumprir a tarefa. Até que uma desavisada e nervosa moçoila quis anulr um voto do meu candidato. “O nome está errado. O nome é Sigmaringa. Está escrito errado”, vociferava a nervosa criatura, fiscal do PT. Sig era do antigo MDB. Então fomos tirar a dúvida com o juiz. Mostramos a cédula. com letra de alguém que mal sabia escrever. Estava lá escrito “SigMarina”. Perfeito para minha argumentação. Dr. Oswaldo, falei séria,  é claro que o eleitor quis votar no Sigmaringa. Tão claro que ele escreveu o nome do candidato e da mulher do canditado na chapa. Marina, querida Marina era a mulher de Luís. Ganhei a parada, o voto e ainda botei a língua de fora para a moçoila vociferante.

Quando preocupado, Luis falava baixo, conspirando. E ele nem me precisava pedir segredo. Confiava em mim. No aniversário de 40 anos de sua afilhada, minha filha mais velha, Cristina Schiel, em março de 2016, ele estava assim, falando baixinho. Não quis entrar no salão de festas. Ficou no terraço e, com os olhos tristes,  flutando em lágrimas,  baixou a cabeça e me disse “Perdemos. E vamos perder mais”.

No meu aniversário de 70 anos, em 2017,  Luis estava longe de Brasília. No interior da Bahia. Telefonou e pediu que comemorássemos depois quando ele chegasse. Fomos almoçar. Ele, Frank  e meu ex-chefe,  Aristides Junqueira que foi Procurador Geral da República. Conversa animada. Traduções simultâneas  porque ali só eu me entendia com os três. Luis e meu chefe querendo minhas impressões sobre Trump. Rimos muito, bebemos duas garrafas de vinho e voltei para casa. Foi a última vez que o vi.

Depois disso, nos falamos apenas no sábado dia 7 de abril de 2018. Ele, gaguejando, tic nervoso que costumava estar presente nos seus momentos de tensão e aflição, me disse, “Lula vai se entregar”.  Três meses depois, meu amigo querido, meu compadre, foi diagnosticado com câncer.

E lá se foi ele, o nosso Luis Carlos que honrou o  personagem de quem herdou o nome. Lá se foi o nosso “Cavaleiro da esperança”, o tecelão de pontes, o engenheiro  das liberdades, o ourives da nossa difícil democracia. Ou, simplesmente Sig, o #Imprescindível.

*Desculpa, Luis, tu que sempre gostavas de meus escritos, desculpa não ter conseguido manifestar meu luto antes. Só hoje consegui encontrar algumas palavras para dizer de ti, de nossa fraterna convivência. Nem falei tanto de nossos sonhos que sempre foram grandiosos.

A CASA DA RESISTÊNCIA

By , 13 June, 2018 6:57 pm

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Antropólogo Bruce Albert                                Líder Pankararu Quitéria de Jesus

 

Related image  Professsor Patrick Menget

 

Esse texto foi provocado pela tristeza profunda que senti quando soube da morte da antropóloga francesa Dominique Bouchillet.

 

Não sei que lembranças vocês guardam das casas em que viveram. Porque você pode até mudar de casa, mas elas são sempre a mesma. Nossa casa, seja onde for, é a tradução dos nossos sentimentos, das nossas opções de vida, de nossa  relação com o mundo. Minha casa sempre foi uma casa aberta e gosto de pensar, sem qualquer soberba, que minha casa foi a a “casa da resistência”. A casa que abrigou a luta dos deserdados.  Pela minha casa passaram, se hospedaram, ou viveram índios, camponeses sem terra, advogados de trabalhadores, missionários, militantes dos direitos humanos, indigenistas, líderes políticos e até um lorde inglês já dormiu no sofá da sala de minha casa porque bebeu um pouquinho além da conta. Naquela noite traçamos estratégias de luta. Desenhamos o projeto de uma agência de notícias indígenas, feita por eles, escriTa e falada em suas línguas.  Tentei depois no primeiro governo Lula.  Desisti. As autoridades coçavam a cabeça e me olhavam de soslaio.

Uma histórinha para ilustrar. No primeiro governo Lula, trabalhei 126 dias na FUNAI, de graça, sem salário. Nesses 126 dias consegui formar, em uma semana, o índio Lucio Xavante para escrever matérias em sua própria língua e postar na página da Fundação Nacional do Índio. Lúcio aprendeu o básico e, na abetura dos trabalhos do Congresso, em 2003, consegui levá-lo para o Salão Verde da Câmara dos Deputados. Com um pequeno gravador, ele se tornou o primeiro índio e entrevistar um presidente da República. Nem mesmo os jornalistas credenciados na Câmara chegaram perto de Lula, que fez o discurso de abertura dos trabalhos do Legislativo. Tenho orgulho da ousadia de Lucio.

Também tenho orgulho de dizer que muitas das conquistas dos povos indígenas foram discutidas na minha casa. Mais especificamente na cozinha, onde passávamos dia e noite conspirande em defesa dos direitos das nações indígenas. Que as estratégias de  luta pela demarcação dos territórios indígenas do povo Yanomami, Xavante (Reserva de Parabubure e São Marcos),  Raposa/Serra do Sol, Apinagé, Parakategê, Kaingang de Mangueirinha (PR), Pataxó Hã-Hã-hãe, da Bahia e tantos outros foram traçadas sobre uma mesa vermelha na minha cozinha, enquanto tomávamos café e eu cozinhava alguma coisa para matar a fome das madrugadas.

Só para vocês terem uma idéia, nas noites de 30 e 31 de dezembro de 2002, véspera da posse de #Lula, que também já foi meu hóspede, no meu apartamento de três quartos na 105 sul de Brasília, alojei 23 pessoas. Na sala havia sacos de dormir e colchonetes espalhados, travesseiros espalhados. Enfim, um grande acampamento para celebrar a vitória do povo. O único lugar inviolável era o quarto das minhas filhas. E todos os hóspedes ou moradores temporários sempre souberam, porque eu me dava o cuidado de avisar, que a casa estava aberta, mas minhas filhas eram as soberanas. Até hoje são, onde quer que eu arme minha tenda de nômade.  Eu mesma dormi na sala naquelas duas noites porque assim dava espaço para mais três no meu quarto.

Foram meus hóspedes os chefes  indígenas Raoni, do povo Kayapó do Xingu, Aniceto, do povo Xavante,  Maluwaré, do povo Karajá, Quitéria do povo Pankararu, de Pernambuco, Álvaro,Tukano, do povo Desana e tantos outros líderes e guerreiros, além dos indigenistas. Um dia acordei, e vi um dos nove xavantes que haviam dormido lá em casa, amolando um facão. Não me surpreendi, apenas perguntei porque estava amolando. E ele com a confiança que depositava em mim, disse, “é que vou usar para cortar a cabeça do coronel Nobre da Veiga”, que foi o último presidente da Funai durante a ditadura. A cabeça permaneceu, mas o facão chegou bem perto do pescoço do coronel.

Havia três categorias os hóspedes. Os permanentes, que tinham praticamente residência fixa porque viajavam e deixavam suas malas comigo enquanto trabalhavam nas aldeias.  Esses chegavam sem aviso prévio e conheciam as regras da casa. Havia os temporários. Eles ficavam semanas enquanto esperavam autorização da Funai para embarcar  para a área de trabalho e, por último os hóspedes ocasionais, que chegavam a Brasília para resolver burocracias, passavam dois, três dias. Nós nos divertíamos muito. E sei que minhas filhas, apesar daquele tumulto, muito aprenderam com aquele desfilar de culturas.

Na categoria dos ocasionais estavam os antropólogos Eduardo Viveiro de Castro, Chrisitian Jeffray, Iara Ferraz, o cineastas Vincent Carelli,  Ives Billon, os fotógrafos Miguel do Rio Branco e Peter Frey, os chefes Raoni, Aniceto,  Megaron, Maluwaré, Quitéria e a indigenista Claudia Andujar.

E, dos permanentes, quatro antropólogos franceses, Patrick Menget, Bruce Albert, Nathalie Pétèsch e Dominique Buchillet, É preciso dizer que os governos da ditadura militar perseguiam os antropólogos estrangeiros, principalmente os franceses. Por quatro mêses, morou em minha casa o cacique Mário Juruna. Ele lutava para que o Governo brasileiro, seu tutor, permitisse sua viagem à Holanda onde foi presidente do Tribunal Bertrand Russel. Também permanentes os indigenistas, Sydney Possuelo e Maurício Wilke, esse último, meu mais querido amigo. Tanto eu quanto Frank Jakomeit já tentamos convencê-lo a vir morar nos EUA. Mas Maurício está lá onde deve estar, junto ao povo Krahô, no mundo das águas do Tocantins, É, de todos eles, meu maior amigo.

Mas é de Dominique Bouchillet de quem quero falar. Sua morte me fez relembrar os difíceis anos da ditadura, nossas lutas, nosas conversas sobre os acontecimentos políticos de um país que desde que me entendo, ou seja, desde Getúlio Vargas, vive aos atropelos, num turbilhão infindável. Aos “trancos e barrancos”, como dizia Darcy Ribeiro.

Ela chegou com uma pequena mochila, falando um português incompreensível, de calça de linho bege e camisa roxa. Passamos a falar só em francês, para facilitar as conversas. E chegou para ficar lá em casa. Todos os dias eu a deixava na Funai onde ela fazia a via-crucis para conseguir a autorização dos coronéis e viajar para o Alto Rio Negro onde faria sua pesquisa de doutorado. Dominque era metódica, mas uma coisa me incomodava. Ela estava sempre com aquela camiseta roxa. Não trocava. Um dia decidi comprar uma outra camiseta pra ela. Meio sem jeito, cheguei com o presente. E  disse a razão. Ela então me mostrou sua mochila. Duas calças e mais quatro camisetas. Todas roxas. Ou seja, ela trocava. Mas era sempre roxas. Fomos para a cozinha gargalhar para não fazer barulho para minha filhas e tomar vinho, enquanto ela me ensinava a fazer o molho de mostarda e mel.

Dominique foi enfermeira em Paris. Usou seu salário para construir seu sonho de ser antropóloga. Escreveu muito. Nas horas vagas, lia romance policial. Comprou uma casa na Bretanha e se refugiava na beira do mar para ler os romances policiais. Não adiantava fazer Dominique se encantar por qualquer música. Ela respondia sempre “Ou c´est Brahms ou c´est rien”. E eu provocava. “E os Beatles, e os Rolling Stones, Aznavour, Piaf?” E ela , pestanejanado muito,  com os olhos de criança que vai fazer travessura, respondia, “Baahhh”. Não sei se rompeu suas barreiras musicais, mas sei o quanto tentei.

Admirava Dominique. Ela era de poucas palavras, mas talvez a pessoa mais preservarante com quem já cruzei. Sem alardes. Ela fincava o pé e esgrimia generais e coronéis, em defesa do povo do Alto Rio Negro. Foi assim que batalhou contra a implantação do projeto Calha Norte, um sonho alucinado do general Rubem Bayma Denys, chefe do Gabinete Militar do presidente Sarney. Foi assim que evitou o quanto pode a sedução dos empresário de garimpo que queriam extrair ouro nas terras indígenas. Foi assim sempre, em todos os momentos em que se precisava de uma pessoa incapaz de tergivisar. Era ela, Dominique.

Nós nos perdemos pela vida porque me mudei para os Estados Unidos quando ela estava em Paris. Só ns comunicamos uma vez, nesse tempo que estou aqui. Ela me telefonou para dizer que a porta de madeira que comprou quando estávamos num dia de shopping, ficou perfeita no seu refúgio bretão. Era uma porta feita na Indonésia, país pelo qual ela se interessou e de lá me presentou com uma blusa preta tecida à mão. Uso até hoje.  Era assim, nossa amizade.

Pois é, ela se foi dia seis de junho. Só nesta terça-feira fiquei sabendo. E então me bateu saudades daqueles anos todos. Não saudades da ditadura, claro. Saudades de um tempo de resistência em que estávamos todos no mesmo barco contra aqueles que nos dominam há séculos. Saudades de minha casa brasileira onde cada um dos meus hóspedes enriqueceu minha vida e me preparou para ser uma idosa cheia de entusiasmo para continuar a luta.

P.S. Começo a desconfiar que o Google é machista. procurei fotos de Dominique Bouchillet e Nathalie Pétèsch e não encontrei. Só achei as fotos de Patrick menget e Bruce Albert, dois meus hóspedes franceses.

DE CHIQUINHA NAVALHADA A BOULOS

By , 3 June, 2018 9:11 pm

LA GÜERA RODRIGUEZ

Era março de 1951 e a ilha de São Luís estava em polvorosa. Uma revolta sacudia a cidade. Eram protestos pela fraude acontecida nas eleições de 1950, que deu vitória ao candidato “vitorinista” – um caudilho sanguinário, cacique do PSD,  que dominou o Maranhão por mais de 40 anos e só foi derrotado em 1965- Eugênio de Barros. Seu opositor, Saturnino Belo, sofreu um infarto durante a apuração quando o TRE maranhense anulou 16 mil votos da cidade mais populosa do estado, a ilha de São Luís e voto mais consciente. A revolta se iniciara em janeiro porque os eleitores não aceitavam a posse de Eugênio de Barros

Getúlio Vargas ameaçou mandar tropas federais.  O Vigésimo-Quarto Batalhão de Caçadores, unidade militar do Exército no Maranhão, não conseguia controlar as escaramuças. Na liderança da rebelião, um jovem de 33 anos, jornalista que acabara de ser eleito deputado estadual pelo PSP, recebe uma visita inusitada na Rua da Palma número 98, sede do jornal que o jovem acabara de criar, o “Jornal do Povo”. A visita era uma mulher um ano mais velha que o deputado e trabalhavana mesma rua do jornal.

– Deputado, nós podemos ajudar na greve.

Estupefato, o jornalista já exercendo seu mandato na Assembléia Legislativa do estado, não conseguia entender a proposta.

O novo deputado pede então à visitante que explique melhor o plano. E ela não se fez de rogada.

– As meninas cruzam as pernas.

E assim aconteceu. Os soldados enlouquecidos e as mulheres de pernas fechadas. Perdemos a briga, mas a partir daí São Luís assumiu o título de “Ilha Rebelde” porque sempre derrotava os caciques políticos.

Esse diálogo, que tantas vêzes ouvi durante minha infância e juventude, contado com todas as cores aconteceu entre meu tio, Neiva Moreira, que 13 anos depois, já deputado federal,  partiu para um longo exílio que durou 15 anos vivido em alguns países da América Latina e a prostituta Maria Ramalho Pestana, que por muitos anos, juntando suas economias no exercício da profissão, comprara a mais famosa “pensão” da Zona do Baixo Meretrício de São Luís. A “Pensão de Chiquinha Navalhada. Também conhecida como “Pensão da Maroca”, a nova dona do bordel.

Instalada num casarão da Rua da Palma, dois quarteiros depois do jornal, em direção à Praia Grande, o bordel de Chiquinha Navalhada era prestigiado por políticos, pelos ricos e pelos intelectuais daquela cidade que já foi conhecida pelo título de “Atenas Brasileira”.

Ah, as Mulheres de Atenas!

Papai e meu tio contavam muitas histórias da pensão. Tanto um quanto o outro chamavam as prostitutas de “primas”.  Eles contavam inclsuive das brigas políticas que lá aconteciam porque a pensão  era frequentada, indicriminadamente pelo Governo e Oposição. As profissionais eram bem cuidadas. Maroca exigia que todas fossem vacinadas e, principalmente, “higiênicas”. Não havia risco para os frequentadores serem surpreendidos pelas “doenças venéreas”, hoje conhecidas pela sigla DST. Ou seja, um luxo.

Conheci algumas das primas de meu pai e meu tio. Eram sempre simpáticas comigo quando, por acaso cruzávamos nas ruas de minha amada ilha de São Luís. Passei várias vêzes em frente ao casarão de quatro janelas. Minha curiosidade sempre comandou meus movimentos.

Foi esse meu primeiro contato com um mundo proibido e evitado pelas “moças de família”, nós, a classe aristocrática maranhense. Não podíamos sequer cruzar o quarteirão para ver o por do sol na Praia Grande, onde os pescadores chegavam com peixes fresquinho desde que o dia amanhecia até o fim da tarde.

Cresci e perdi o contato com aquelas histórias. Mas nós nos encontramos novamente

Nos anos 70, quando me tornei jornalista, o extinto “Diário de Brasília” (eles até hoje me devem dois mêses de salário. fechou as portas e não pagou nenhum funcionário) queria fazer propaganda dissimulada do governo e escolheu o Mobral, programa de alfabetização que a ditadura instalava a todo vapor.

Meu chefe me pediu uma missão “delicada”. Queria que eu fosse a uma casa de prostitutas que funcionava na cidade de Planaltina, arredores de Brasília. E ainda disse, olha, “mas você pode recusar. Sei que é difícil. Mas se você aceitar, vá à tarde”. Topei. Qual era o problema? Para quem convivia com aquele Governo, entrevistava aqueles homens asquerosos, ministros da ditadura que pintavam cabelo na cor acaju, entrevistar prostitutas não tinha nada de mais.

Cheguei ao bordel às duas da tarde. Elas me esperavam, mas não aceitaram fotos.  O fotógrafo, nem me lembro quem era, foi esperar num barzinho por perto. Estavam todas arrumadas, maquiadas, cabelos ainda molhados do banho, felizes porque daí a duas horas chegaria o grupo de alfabetizadores. A aula começaria às quatro.

Conversamos bem além da alfabetização. Conversamos de vida. Elas perguntaram o nome do meu perfume (na época, eu usava #Calèche), queriam saber se eu tinha namorado, se eu era virgem.  Eu e elas nos perguntávamos. E eram conversas de mulheres. Simplesmente mulheres. A mais velha de todas tinha 21 anos. Eu estava com 24. A mais nova, acabara de completar 16. Escrevi a matéria, recebi elogios e risadinhas dos boçais de sempre. Nunca mais vi aquelas meninas que me serviram café com pão-de-queijo.

Passado o teste de cobrir “Geral” – polícia, incêndio em cemitério, circo novo na cidade, show de Elis Regina, festival de cinema, crime passional, eleições no Uruguai- fui para o “Jornal de Brasília”, sangue novo na cidade. Já trazia na bagagem um experiência de três anos, inclusive pela Amazônia. E fui elevada à categoria de ter uma área fixa. A área dos meus sonhos. A área onde eu não precisava dizer “Abaixo a Ditadura” porque as reportagens diziam por mim. “Índios, Terra, Igreja”. Em outras palavras, fui para o front de guerra.

E as primas voltaram a frequentar minha vida.

Aconteceu em São Geraldo do Araguaia, a cidade da ‘Guerrilha do Araguaia”. Aqui cabe um parentêse. A guerrilha não acontecia em Xambioá, cidade que na época integrava o estado de Goiás. Os acampamentos dos gurrilheiros era na outra margem do rio, em São Geraldo do Araguaia, no lado paraense do rio. Em Xambioá foi onde o Exército instalou sua base de operações e centros de torturas contra guerrilheiros e camponêses que apoiaram a guerrilha.

Foi em 1976. Eu mal voltara da licença-maternidade. Minha filha mais velha, Cristina MoreiraSchiel só bebia o leite que nós duas, em ampla comunhão produziámos. E meu jornal me manda novamente para uma missão “espinhosa”. Ia para São Geraldo do Araguaia, onde dias antes o Exército prendera o padre Florentino Maboni. Era acusado de dar apoio à luta camponesa. As feridas da guerrilha estavam expostas e o governo foi apaziguar distribuindo uns parcos títulos de 50 hecatres de terra para os lavradores mais bem-comportados. Meu desespero: tirar leite do meu peito com bombinha para que minha primogênita se alimentasse.

Na véspera da viagem, o presidente do INCRA, o maranhense Lurenço Vieira da Silva, embora politicamente adversário, me chamou. Cortesia de conterrâneos. E me pediu, “pelo amor de Deus” que eu tomasse cuidado porque do barqueiro ao motorista eram todos militares em trajes civis. Espiões. Agradeci, mas nem seria necessário. Bastava ver os relógios que eles usavam nos braços, as camisas de xadrez novas e bem passadas para saber que ali ninguém era barqueiro ou chauffeur dos jipes Toyota. Embarquei. Coração partido por deixar minha bebê durante dois dias. Fui no avião com o jornalista Luis Cláudio Pinheiro. Mas antes, uma paradinha para  conversar na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Queria informações sobre o padre Florentino.

Em São Geraldo, banho de rio e conversa com as mulheres que lavavam roupas. Uma delas, prostituta. Tímida, ela me perguntou se podíamos conversar mais tarde. Lá fui eu novamente para a zona. E elas me contaram todas as torturas impostas ao padre e às freiras presas. Contaram detalhes porque haviam ido para a cama com os militares e com os policiais. E eles desabafavam. Fiquei trêmula e chocada com as histórias. Muitos detalhes impublicáveis sob pena de ser perseguida ou até perder meu emprego. Mas decidi escrever. Só me lembro da primeira frase do texto. Bucólica. Manobra diversionista para enganar a censura. “Na beira do Araguaia, onde a sombra da Serra das Andorinhas se despeja sobre o rio, foram distribuídos ontem títulos de terra para os posseiros da cidade-palco de uma luta…”

As prostitutas estavam revoltadas com as torturas sofridas pelo padre gaúcho. Umas choraram me dizendo que ele fora obrigado a beber urina das freiras. Outras prometiam vingança contra os fregueses. Nenhuma demonstrou o menor sinal de simpatia pelos agentes da ditadura. Foi uma lição.

A partir daquele dia, sempre que o jornal me mandava para as áreas de conflito, era com elas que eu buscava as informações alternativas. Elas sabiam mais do que todas as autoridades. Em linguagem crua, me confidenciavam as fraquezas dasqueles que nos dominavam pela força.

E foram elas, sempre elas quem me ajudaram a escrever as matérias sobre a invasão dos garimperios nas terras Yanomami, na Serra das Surucucus, incentivados pela Docegeo- Vale do Rio Doce . Foi Neméia, dona de um bordel em Boa Vista, capital de Roraima, quem me contou sobre os engenheiros da Vale medindo a terra e cavando o chão para anunciar ao mundo que ali há urânio e ouro. Nos intervalos me disse que etava fazendo economia para comprar um sítio em Nova Friburgo. Lindos olhos tinha Neméia, carioca mestiça de negro e índio.

E hoje, 3 de junho de 2018, quando o século XXI completa sua maioridade, a quatro meses e 20 dias do meu aniversáruio de 71 anos, sou surpreendida pela notícia de que Guilherme Boulos, candidato à presidência da República pelo PSOL, partido pelo qual começo a cultivar muito carinho e, principalmente, respeito, auto-censurou sua página na internet com texto em que dizia que as prostitutas são trabalhadoras. E precisava? Será que alguém discorda dessa afirmação? Parece que sim. Claro que são trabalhadoras. Muitas talvez, o façam por prazer. E daí? Sou jornalista por prazer. Mas a maioria esmagadora se torna prostituta porque só contam com o próprio corpo para vender sua força de trabalho.

Vou além, Boulos. Prostitutas são revolucionárias. Muitas dessas mulheres ajudaram a mudar a História. Veja Mata-Hari. Veja Maroca, a dona do bordel de Chiquinha Navalhada. Veja La Güera Rodriguez, mexicana que foi amante de Simon Bolívar e com sua fortuna ajudou a movimento de independência do México.  Ou mesmo as prostitutas anônimas que, no dia a dia, observam os desmandos e, quando são lembradas te contam as histórias das misérias de um povo. Sem esquecer que não fossem essas mulheres até hoje, o tango seria uma dança exclusiva dos homens.

Por favor, Boulos, devolva seu texto à página. Não se deixe levar pelas hipocrisias, mesmo se fantasiadas de defesa das mulheres. Supere esse falso moralismo porque qualquer moralismo é opressor.

PAIXÃO SEGUNDO URARIANO

By , 16 August, 2017 12:47 am

Pátio de São Pedro, Recife, que concentra uma das mais majestosas represaentações da Arquitetura Colonial brasileira e onde os revolucionários, acreditavam estar a salvo do inimigo.

Nos terríveis anos da ditadura mantive correspondência com alguns dos mais notórios presos políticos do Presídio Tiradentes, em São Paulo. Todos eles gloriosos militantes da Ala Vermelha do PCdoB. Tanto com meu irmão #Sonsonho, de quem guardo muitas cartas com o abominável sêlo do DOPS, liberando a correspondência, quanto com Hélio Cabral de Souza e, Alípio Raimundo Viana Freire. Com meu irmão, conversas familiares, rumos do país e, principalente conselhos para que eu não me desviasse na profissão de jornalista. Foi meu irmão, Antonio de Neiva Moreira Neto quem me fez fincar pé na causa indígena. Ele dizia que todas as trincheiras contra a ditadura eram valiosas. Com Hélio Cabral falávamos da guerra do Vietnam, com a certeza absoluta que a História daria vitória aos guerrilheiros #viets E de música. Foi ele quem desenvolveu em mim o gosto pela música do mais profundo Goiás. 
Com Alípio, conversávamos sobre os mais diversos assuntos. Cinema, Pintura, Guerra do Vietnam (nós dois construímos um mapa na parte debaixo do estrado de nossas camas. Eu, em Brasíilia e ele no presídio, avançávamos “nossas tropas” e sabíamos que faltava pouco para ocuparmos o Vale do Mekong. Já havíamos vencido a guerra politicamente, mas nós dois sabíamos que as pequenas e importantes vitórias militares eram necessárias.
Mas as mais longas cartas entre nós dois aconteciam quando o assunto era Literatura. E um dia, conversando sobre Gustave Flaubert (que estou relendo pela terceira vez), Alípio escreveu, “On mange bien chez Flaubert”. 
Sim, Alípio on a bien mangé avec Flaubert. Et surtout avec Proust et ces “madeleines”, toujours à la recherche du temps perdu. 
 
E agora, Alípio, meu querido baiano, passados quase 50 anos daqueles tempos horríveis, estou diante de um livro onde ao contrário de Flaubert, on ne mange pas de tout. On crève de faim.  A  fome se distribui nas 320 páginas. Estou te falando de “A mais Longa Duração da Juventude”, de Urariano Mota, colega nosso, jornalista mas, sobretudo, um escritor, um filósofo, uma pessoa sábia que em em uma página te faz viver passado-presente-futuro como se não houvesse hiatos. 
A fome daqueles jovens, personagens reais da longa duração de nossa juventude, não se limitava a franguinhos assados ou polpudos filés deixados na mesa de um bar. Eles tinham fome revolucionária. De transformar o mundo, de eliminar as injustiças sociais, de evitar que nossa sociedade caísse no abismo da barbárie. E essa fome revolucionária lhes inibia ao ponto de lhes deixar com fome de paixões. Elas eram interditas, clandestinas, quase criminosas porque na moral revolucionária vigente, deixar que a paixão explodisse significava “desvio ideológico”. 
Era o tempo dos amores interrompidos, proibidos, dos beijos roubados porque a moral ideológico-sexual era rígida. E eu me pergunto, como se pode fazer uma revolução em que o amor, a paixão deve ser jogada para um segundo plano, uma revolução que nos massacrava permitindo apenas a tortura dos amores platônicos.
E enquanto nossos mais belos sentimentos amorosos eram aniquilados pela moral revolucionária, “eles” acreditavam que vivíamos em total promiscuidade. E nós, perseguidos pelo inimigo externo, não vencíamos os dragões ideológicos. Éramos, ou tentávamos ser “puros”. Aqueles meninos, loucos de paixão, sufocavam uma exigência da natureza animal que é assegurar a manutenção da espécie. E preservavam a virgindade das namoradas. De todas as formas possíveis. Estratégias para saciar o desejo sem que isso implicasse na perda do hímen, essa película responsável por carnificinas em muitas culturas.
A tradução das estratégias vem de forma resumida e elegante num diálogo que fariam os jovens de hoje gargalhar.
O narrador e o personagem Luiz do Carmo circularam pelos bordéias à procura de prostitutas. Cheios de culpa pelo comportamento que entendiam como “exploração” da mulher.
 
“Que depressão miserável, mesquinha, caiu sobre nós. Enquanto caminhávamos sobre os paralelepipedos da Vigário Tenório, eu lhe perguntei, sem poder olhá-lo:
 
– Você não pegou nenhuma?
 
E ele, a contragosto:
 
-Não, é contra os meus princípios.
……………………………………………..
Como você faz? Não sente necessidade?
– Eu tenho namorada
…………………………….
– E você faz sexo com ela?
…………………………………..
-Sim…Não.
-Sim ou Não?
-É sim…sim,sim. Mas não é um sexo completo.
-Hum…Mas completo até onde?
……………………………………………
….Eu respeito a virgindade dela, entende? Eu respeito”
 
O diálogo é uma e vidência explícita de o quanto minha geração que fazia resistência se negou. O quanto controlou emoções que são essência da natureza humana e que deveriam fluir com a mesma naturalidade com a qual o sangue navega em nossas veias. 
Perdemos? Hoje, quando vejo minha terra esfarrapada, acredito que sim. Perdemos. Mas, penso sempre no meu mestre maior, no mestre Darcy Rbeiro com quem tive o privilégio de conviver todas as quartas-feiras à noite, num grupo que ele selecionou para pensar Brasil. Bebíamos whisky e discutíamos nossa terra, esse amor sem retorno. E, ao pensar em Darcy, relembro uma de suas mais poderosas frases. Elas são o mapa de uma vitória. A vitória de nós, os derrotados pela História. 
    
  “Fracassei em tudo que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.
 
Darcy, meu amigo, esse resumo da tua vida em sete frases é o que me ilumina quando vejo os caminhos apresentando momentos sombrios.
Bom, para analisar “A Mais Longa Duração da Juventude” livro de Urariano Mota, esse jornalista, escritor e filósofo pernambucano a quem não conheço e com quem converso muito (obrigada Mark Zuckerberge, ou, “Tio Zucka”, como diz Renata Lins, pessoa a quem muito admiro) dividi a escrita de Urariano em dois eixos. Caso contrário eu me perderia em sofrências pelas cenas que agrediram nossa geração e, pelo amor à luta que se espalha em todas as páginas. São mais de 300. Li duas vêzes as mais de 300 páginas. A segunda leitura doeu ainda mais porque eu já sabia qual cena se seguiria. E sabia também o quanto ela me daria punhaladas. 
O livro é um suceder de paixões. Paixão na sua essência do apaixonar-se. Paixão que se desdobra no sentido mais amplo, o do amor. O amor das imensidões. Amor ao povo, e aos infinitos brasis com os quais convivemos mesmo que nos pareça invisível.  Da paixão, vou ao segundo eixo. O da fome.  Fome pela transformação de uma sociedade injusta; fome da comida que era pouca e assim mesmo dividida e, principalmente, a fome de viver toda uma vida em um momento. Entre a Fome e a Paixão, incluo a alma de um poeta. Urariano Mota é poeta. Mesmo na descrição dos momentos mais trágicos a poesia está presente. O seu “Eu” profundo de poesia, um eu que também se nega quando ele tenta ignorar os mistérios da vida, entre eles, os pressentimentos que o perseguem até na mesa de um bar do pátio de São Pedro naquela cidade do Recife palco das resistências narradas em “A Mais Longa Duração da Juventu”. Um eu que filosofa e que se aproximando dos 70 anos, é aquele mesmo menino magro, que se considerava feio no passado, mas que agora descobre ser uma vida intensa dedicada à luta a fonte de sua a beleza.  
Conversei com o autor algumas vêzes e lhe disse que se tivesse capital criaria um roteiro turístico da Resistênia em Recife percorrendo as ruas, restaurantes, bordéis, pensões, a praia da Boas Viagem, Porto de Galinhas e outros logradouros que em vários momentos foram cenários daqueles meninos que carregavam no peito o ardor revolucionário; daqueles pós-adolescentes que eram feridos de morte quando cada companheiro caía nas mãos dos nossos implacáveis inimigos, entre eles Cabo Anselmo e o delegado Sérgio Fleury. E mais, que produziria um filme com inspirações de Jean-Luc Godard dos anos 60/70 e Fellini. A viagem daqueles combatentes a Porto de Galinhas é felliniana. Mais especificamente, uma “Dolce Vita” de uma juventude, que criava situações que poderiam subverter a perversa ordem social vigente e cujos instrumentos eram o sonho, a palavra, uma arma talvez enferrujada e, um simples mimeográfio guardado sob cuidados. Um dos mais revolucionários instrumentos da nossa geração. 
Todo leitor, do ocasional aos totalmente viciados, escolhe, no livro que lê os momentos mais marcantes, os parágrafos mais intensos, e também, elege seus personagens favoritos. Os favoritos do leitor nem sempre coincidem com os preferidos de quem escreveu o livro.
No meu caso, os personagens para sempre inesquecíveis são “Vargas” (leia com um “R” carregado como pronunciam os de língua espanhola), “Gordo”, uma verdadeira enciclopédia musical e Luis do Carmo. Há muitos outros. Zacarelli, por exemplo, Selene, direção da UBES (União Brasileira de Estudantes Secundaristas), Torquato de Moura, “guardião das virtudes subversivas”, Narinha, Marx, sim,  Marx e Engels, filhos de um pai comunista, já velho e o primeiro a sentir o cheiro da infâmia que exalava do Cabo Anselmo, Zé Batráquio e, Ela. Refiro-me a Soledad Barret, uma quase-menina que, dentre todos que sucumbriram naqueles anos tristes foi a mais traída. Traída pela paixão. A mulher bonita, forte, marcada em lutas pelo nosso continente, musa do poeta Mário Benedetti, apaixonou-se por um homem abjeto chamado “cabo anselmo” (com letra minúscula mesmo porque os infames não merecem ser maísculos em nenhum momento). Se em “Soledad no Recife” ele apenas abra a cortina da paixão por Soledad,  nesse segundo de sua quase-autobiografia, ele a escancara. Soledad foi e será sempre, o grande amor de Urariano. Amor confessado com todas as letras quase no final de “A mais Longa Duração da Juventude”, quando diz, “A mulher que em legítimo platonismo eu amei”. Amo.” O legítimo platonismo se transformou no amor eterno, porque agora Soledad vive na eternidade, na imortalidade.   
Há grandes e inesquecíveis momentos. Muitos, principalmente aqueles nos quais os jovens revolucionários, militantes de organizações armadas de esquerda se reuniam num bar e discutiam Música, Literatura e o lindo horizonte pelo qual lutam, a pátria socialista. Os dois momentos que mais me emocionaram foram a viagem dos revolucionários de Recife a Porto de Galinha, dentro de uma Vemaguete, às quatro da manhã de um sábado, sem sequer conhecer o caminho entre as duas cidades e passando riscos reais de morrerem num acidente porque João Alberto, o único que dirigia dormiu várias vêzes ao volante e, tudo porque, “Pasárgada não podia esperar…” 
O outro momento que me marcou e, aqui, pela tragédia, é também uma viagem. Talvez a última antes de ser atingida pelas balas da ditadura. A viagem de Vargas no ônibus que embarcou depois de dizer à advogada Gardênia que era um homem morto, que já estava sendo caçado pelos homens de ouro do delegado Fleury e pelo infame cabo anselmo. Ela o aconselha a fugir, mas ele rechaça a idéia para não abandonar “Nelinha”, sua mulher que já era mãe da menina Krupskaia. Ah, quanta paixão existe na alma revolucionária! Entra no ônibus no ponto da ponte Duarte Coelho e segue pela Avenida Guararapes, Capibaribe, Largo da Paz, Afogados, Ponte do Motocolombó num monólogo com sua consciência, com a certeza da morte, com o desespero de não poder salvar sua pequena família. Esse talvez seja o mais dramático momento do livro. “Vargas” foi preso, morto e carregado para a Chácara São Bento onde os torturadores de Fleury o posicionaram ao lado de Soledad, alterando a cena do crime. Nenhum dos mortos da Chacina da Chácara São Bento, em janeiro de 1973, morreu naquele lugar. 
Os fatos são todos reais, mas os nomes são fictícios. Ou, como diríamos na época, todos codinomes.  
 Convido a quem me lê nesse momento a ligar um aparelho que toque música. Youtube, Ipod, CDPlayer, o que for, até mesmo uma vitrola, toca-discos ou um gravador com as já jurássicas fitas K-7. Não precisa por o som no último volume. Deixe apenas o suficiente para não interromper a leitura do livro. E, do começo ao fim das 320 páginas de “A Longa Duração da Juventude” ouça Ella Fitzgerald. Sugiro que “I Wonder Why” seja a primeira música. E, se pensarem em mim, ouçam “Dream, a Little Dream of Me”. Vamos, me dê sua mão e vamos passear por Recife, aquela linda cidade do Recife que se espelha sobre um rio cruzado pelas pontes que, de tantas,  fazem inveja a Veneza. Recife, cidade que ao lado de Belém e Porto Alegre simbolizam, para mim, a rebeldia do nosso povo, protege uma pérola. Olinda. E é lá onde Urarinao Mota, esse poeta, escritor, guerreiro a quem admiro sem nunca tê-lo encontrado vive hoje. Morar em Olinda não deixa de ser uma recompensa por uma vida entregua à resistência.
 
“Quando reflito o que vi, noto que nossa vida começa a partir de um instante fora do nascimento. Ela começa naquele minuto que define nossos dias, que ilumina o passado, presente e futuro. O instante definidor como a linha da vida, na palma da mão lida por uma cartomante que não esperávamos”.
 
Essas são as três primeiras frases do livro do jornalista e escritor (mais que isso, poeta) Urariano Mota, pernambucano. E a partir dessa frase pode-se dizer que a vida desse homem começou no instante em que ele inicia sua luta revolucionária para derrubar a ditadura que se instalara no Brasil quando ele atingia a puberdade. E dá seus primeiros passos de consciência um pouco mais tarde.
Quantos anos tinham Urariano, ou Júlio, quando aconteceu a primeira paixão? Exatos 19. E também, foi sua primeira paixão platônica. Houve outras. Urariano apaixonou-se por Ella Fitzgerald. Comprou um LP com suas músicas. Amor platônico, irrealizável porque Urariano não tinha dinheiro para comprar uma “vitrola”. A compra provocou protestos de Luís do Carmo, um sonhador de pés no chão. E Urariano, naquela miserável pensão “Treze de Maio”, na Avenida Princesa Isabel, em Recife, sob um calor intenso do verão nos trópicos, sem vitrola, acariciava a capa do LP como se acariciasse o corpo de uma mulher. O corpo de Ella, talvez. Ou o corpo da mulher que viria. A capa é quase a pele da cantora, da mulher que não podia ter.
E ele solta aquela dor antiga dizendo, “quero ter Ella, acariciar sua capa (que pobreza, meu Deus, dói até a lembrança neste instante. Quero antegozar a sua voz, a doçura que apenas ouvi por segundos e me derrubou num encanto…”
I wonder why. Urariano ainda busca as respostas para essa pergunta sussurada na voz de mel de Ella Fitzgerald.
Urariano foi de muitas paixões. Não sei quantas. Mas em seu leque, apenas uma das peças não estava integrada à resistência brasileira e é justamente a figura de Ella Fitzgerald. Porque Selene, a quase-menina, dirigente da UBES cujos joelhos e parte das pernas foram quimadas por ácido jogado pelos estudante de direita da Universidade Mackenzie, na “Batalha da Maria Antonia” em São Paulo, estava na resistência. Com fome, pedia uma sopa, depois de exibir o quadro da pauperidade com a qual convivia o movimento da oposição armada. Ela estava com fome. E sem cigarros. Rígida nos códigos da conduta revolucionária, ela atraíu a paixão dos que a cercavam. Exibia belas coxas. exibia as coxas na minissaia para que não percebessem as cicatrizes do ácido que a mutilou. E Soledad, a paixão maior e eterna, bem, Soledad era uma revolucionária latino-americana que já circulara por outros países do nosso pedaço americano dedicando-se à luta. Essas três paixões foram todas vividas platonicamente, em segredo, silenciadas. Em Soledad ele deu um beijo roubado no rosto e pediu desculpas. Não resistiu, recolheu as desculpas e passou as mãos nos lábios daquela mulher discreta e forte cujo nome deveria ser sinônimo de “revolucionária”.
Mas se as paixões eram platônicas, a fome era real. E Urariano, o único entre os demais a ter um emprego. Ele datilografava  (E percebo, nesse momento que as gerações que hoje estão na faixa dos 30, 40, jamais conjugará o verbo “datilografar”) guias de transporte de material elétrico, num galpão coberto com telhas de zinco, pagava a sopa da dirigente estudantil. Datilografava guias e era “suspeito de gostar de gostar de poesia”. Sim, gostar de poesia sempre nos colocou entre os suspeitos. Não havia dinheiro nos bolsos ou nas contas bancárias dos heróis da resistência. E a fome os perseguia. 
 
 “Em 1970 o almoço era pouco, dividi-lo era o mesmo que ficar com meia-fome . E meia-fome ainda é fome”. Apesar dessa penúria, Julio/Urariano e seus companheiros mesmo com o estômago vazio tinha consciência de que “quem possui o que sonha não é pobre. Nós nos alimentávamos do sonho uns aos outros”.
E o sonho era tão sonhado, tão vivido, que a “companheira Selene”, das pernas queimadas com ácido, ao expor a situação do movimento, com a firmeza de quem guarda a convicção da vitória pela luta diz,
 “Companheiros, temos sérias dificulddes de sobrevivência. Física, grana, alimentação, tudo…Mas o que são as dificuldades do Socialismo, companheiro? O que são as dificuldades diante do heróismo do vietcong?”.
O heróismo não era apenas do povo Viet. O heróismo era daqueles brasileiros pessoas que se encontravam na faixa cinzenta entre o fim da adolescência e o início da idade da adulta que entregaram sua juventude para a construção de uma sociedade menos injusta. Quem sabe, socialista. E aí penso nos meus irmãos #Sonsonho e #Gagocha que, sem passar por essas necessidades também sonharam, também entregaram sua juventude porque sonharam. 
Os trechos de “A Mais Longa Duração da Juventude” onde se expõem as as carências do mínimo derrubam um mito. A Direita na sua incansável campanha para desqualificar a luta que nos concederia um mínimo de Democracia espalhava a idéia de que os guerrilheiros do Brasil eram todos brancos e “fihinhos de papai”, filhotes da burguesia. NÃO e NÃO. Havia pessoas pobres, operários, desempregados, professores mal-pagos, mas incansáveis, trabalhadores de um barracão coberto de zinco que estavam imersos na luta política e na luta pela sobrevivência. E havia negros. porque a resistência não tem cor.
E essa verdade aprendida no livro de Urariano Mota teve para mim, não um gosto de vingança contra os ditadores e seus capatazes, mas uma esperança de que um dia, num futuro que talvez eu não alcance, os pobres, os miseráveis, tomem, retomem as rédeas de um mundo com a qual ainda sonho. 
Mas mesmo real, não cinematográfica à Charles Chaplin no magistral “Em Busca do Ouro”, onde querido “Vagabundo”, delirando de fome degusta sola de sapato como se fosse um prato apetitoso, o fato acontecido no “Restaurante Coqueirinho”, nos faz rir e chorar. A churrascaria me remete a Carlitos.
 Aqueles jovens que discutiam T.S. Elliot, Balzac, Proust,  dostoievski, Kafka, que ouviam Milton nascimento, frevos clássicos, frevos anônimos, que liam e discutiam Marx, Engels e outros filósofos, voltando do Cine Coliseu, tinham fome. Ou dividiam uma cerveja ou comiam. Mas cerveja provoca fome. Nesse momento, um casal na mesa vizinha, come um churrasco. Comem um pouco e deixam a mesa. E os revolucionários criam uma pequena dissidência entre a dignidade e a fome. A comida já estava paga. A fome impagável. A agilidade era fundamental. Pegar a comida deixada e paga antes que “Topo Gigio”, o  garçon conhecido, chegasse. Venceu a fome. Quase saciados, o choque seguido da vergonha. . O casal retornou à mesa. Um pedido de desculpas. E o homem do casal, sentencia, “Podem ficar”. 
“Estava escrito e não sabíamos. É do gênero da felicidade durar menos do que esperamos”, reflete consigo o poeta-guerrilheiro.
Eles eram assim, os guerrilheiros, aqueles pós-adolescentes que se preparavam com ardor para o momento de pegar nas armas, de sacrificar até à morte pela derrubada de uma ditadura e construir a pátria socialistaque. 
Os fatos estão narrados como se fossem um jorro, um desabafo. Não falta no livro observações com característica de auto-crítica. Não falta também um tanto de desengano com o comportamento de quem ainda estampa o rótulo de “esquerda” enquanto exercita práticas da direita. 
Além dos fatos da triste História de um país que entrou em decadência antes de chegar à maturidade, Urariano Mota nos concede reflexões de quem já encontrou as respostas exigidas, mas sabe que ainda a mais a questionar e responder. De todas as reflexões, transcrevo aquela que também me responde alguns questionamentos.
 “A vida lembra a intensidadede uma canção. Na reconstrução pela minha memória, a vida é intensa, profunda e breve. Mais próximo do que desejo dizer: a memória da vida é uma brevidade que não termina. Há um ponto e uma repetição indefinida. Melhor, não um ponto, são retincências…”
Mas vamos em frente companheiro porque, diria meu mestre Darcy Ribeiro, 
“Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”.
Nós também não, amigo. 
Obrigada pelas lições aprendidas nessa nossa longa duração da juventude.

 

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