DIÁRIO DA PAIXÃO E DA INFÂMIA

By , 3 November, 2009 1:45 pm

Soledad Barret

Soledad Barret
(06/01/1945 – 08/01/1973)        

 
 

 DIÁRIO DA PAIXÃO E DA INFÂMIA.
Memélia Moreira
Se alguém souber sobre uma tese, brochura ou mesmo esses manuais que se proclamam de “auto-ajuda” sobre o comportamento de um leitor no momento da leitura, me informe. Já procurei em catálogos de livros raros, em almanaques, monografias universitária e nada. Parece que esse representante de uma tribo quase em extinção diante de tantas tecnologias, ainda não sensibilizou psicólogos, psicanalistas e nem mesmo antropólogos. E juro que o estudo do comportamento e dos hábitos dos leitores no momento em que se dedicam à prática merecem considerações. Quem sabe até descubram novas psicopatias. Ou mesmo rituais dignos de palestras e conferências.
Por exemplo, minha Mãe. Intelectual elegante e de gosto refinado na leitura, costumava ler descalça, de perna cruzada, esfregando o polegar e o indicador do pé. Mesmo descalça, escapou de morrer envenenada porque o dedo inquieto tocou em alguma coisa fria que foi repelida rapidamente. A “coisa fria” era uma cobra coral verdadeira tão comum naquela Brasília dos anos 60, ainda coberta da rica vegetação do Cerrado. Ela deve ter outros hábitos. Mas jamais confessou.
Os meus, decidi confessar agora. Nunca, em hipótese alguma, leio deitada ou dobro a página do livro para marcar o ponto em que parei. Leio sentada e com um lápis na mão. Porque livros são salas de aula e, por isso, vou sublinhando o que me interessa e anoto o número da página. Depois, copio tudo isso, num caderno. Quanto mais sublinhado um livro, mais aprendi com ele. E estudo a frase, disseco uma por uma, como se estivesse diante de um corpo num curso de Anatomia. Parece coisa de doido? Admito que sim. É um hábito. E jamais, sob hipótese alguma, leio a apresentação ou introdução antes de ler o livro. As críticas também não.
Mas, o pior dos hábitos é por os livros em fila. Fila mesmo. Quem chega primeiro é lido primeiro. Às vezes um fura a fila porque gosto de fazer leitura casada (essa é uma linguagem pessoal). Ou seja, se estou relendo “A Guerra Civil Espanhola”, de Hugh Thomas, releio “Por quem os sinos dobram”, de Hemingway. E releio. Releio muito, principalmente livros que li na adolescência. Machado de Assis, por exemplo. Li as obras completas entre meus 15 e 17 anos. Reli aos 50. O mesmo acontece com Dostoievsky. Li aos 20, seus livros e contos. Releio agora, com mais de 60. Outros livros costumam furar a fila. Eles se impõem de tal forma usando toda sua sedução e, pimba, furam a fila. Em geral não me arrependo desse pecado venial. 
O outro hábito chega a ser quase uma autoflagelação. Vou confessar, mas conto com a discrição de vocês. Não espalhem. Eu economizo livros. É isso mesmo que vocês estão lendo. Eu E-CO-NO-MI-ZO livros. Explico. Sou leitora voraz. Leio, em média, de quatro a cinco livros por mês. Mas economizo. É assim. Quando o livro é bom, daqueles que dá vontade de ler sem parar até a última página, eu leio bem devagar, vou sorvendo cada palavra como se fosse a mais delicada mousse de chocolate. Ou ainda um vinho finíssimo desses que nos conduz pelos jardins do paraíso. Foi assim com “Grande Sertão: Veredas”. Foi assim com “La Vie devant soi”, de Romain Gary , “O Amor nos Tempos do Cólera”, de Gabriel Garcia Márquez e muitos outros.
Apesar de tanta intimidade com livros nunca me atrevi a escrever críticas sobre esta ou aquela obra. Nos jornais onde trabalhei insistiam muito para eu me tornar crítica literária. Sem chance. Sou repórter e gosto de escrever reportagens. Livros, principalmente os bons, são entes sublimes e devem ser reverenciados. No máximo, comentados en petit comité para que não se quebre o encanto.
Mas, quero abrir uma exceção. E também quero lhes dizer que me sinto intimidada diante dessa tarefa que me impus. A tarefa de dizer dos meus sentimentos ao ler “Soledad no Recife”. Me desculpem. Pela ousadia e por iniciar uma frase com pronome reflexivo. Soledad furou a fila.
Nunca me encontrei com o autor, mas nossa troca de mensagens é quase intensa e por isso me arrrisco considerá-lo amigo. Trata-se de um pernambucano chamado Urariano Mota. Ele me mandou o livro por uma agência dos Correios de Olinda, onde vive. E já me deu inveja. Invejo os moradores de Olinda, mesmo os desafortunados. Viver ali é privilégio. O livro chegou na véspera da morte de Mercedes Sosa e apenas desfiz o pacote, porque estava de olhos grudados no noticiário acompanhando sua agonia. Depois entrei em luto fechado e só chorava e ouvia as músicas daquela que foi a verdadeira “Voz da América”. De todas as Américas. Da opressora às oprimidas.
 Levei uns quatro dias para abrir o livro. E abri com os cuidados de amantes na primeira noite. Comecei a ler e veio aquela voracidade que me obriga à disciplina. Então, adotei a minha usada técnica de poupança. Primeiro economizei parágrafos. Insatisfeita, passei a economizar frases. Para que a leitura se eternizasse.
Mas o livro chegou ao fim e eu queria mais. A única forma que encontrei de continur a conviver com ele foi desabafar com vocês. Por isso, pela primeira vez, em 62 anos, ouso comentar um livro.
Para começar, “Soledad no Recife” é um livro sonoro. Sim, o narrador não apenas tinha vontade de cantar quando via Soledad, como nos faz ouvir Gal Costa cantando “Mamãe, mamãe, não chore, a vida é assim mesmo…” E quantas mães até hoje ainda não enxugaram suas lágrimas porque seus filhos se foram e sequer os corpos apareceram?
Além de sonoro, o livro tem perfume. Alguém conhece livro perfumado? Soledad no Recife cheira a jasmin e patchuli, essa raíz tão usada para dissimular odores ilegais.
Os fatos acontecem num espaço de onze meses, entre a sexta-feira de Carnaval de 1972, no Pátio de São Pedro, em Recife (onde aprendi a dançar ciranda), a janeiro de 1973, quando Soledad Barret e mais cinco jovens, entre eles Pauline Reichstul, militantes da Vanguarda Popular Revolucionária, foram torturados e chacinados na cidade do Recife, pelo delegado Fleury e sua tropa de matadores profissionais. Generosos, como todos os jovens que entregaram a vida e os sonhos para libertar um Brasil que vivia sob as botas dos facínoras, eles foram traídos por uma pessoa chamada Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo a quem o autor de “Soledad no Recife” compara a um réptil. Particularmente acho que comparar essa nefasta criatura a um réptil é boa vontade. Os répteis, mesmo os mais repugnantes, cuidam de suas crias. Cabo Anselmo era o pai da criança que Soledad carregava. O feto morreu sob a tortura a qual a mãe foi submetida e, encontrado aos pés de Soledad. Anselmo entregou seu filho (ou filha, nunca vamos saber) e a mulher a quem, em algum momento, prometeu amor. E os entregou aos carrascos. Anselmo não chega a ser um réptil. Jamais conseguiu ultrapassar o nível dos vermes. E um verme com inteligência é mais nocivo que um vírus mortal.
 São 113 páginas (há outras tantas com fotos, mas essas eu não contei. Apenas admirei a força dessa paraguaia que foi uma verdadeira guerreira latino-americana). Das 113 páginas, sublinhei e fiz anotações em exatas 34. Em outras palavras o livro me provocou um bouleversement . Peço desculpas por usar a palavra em francês, mas só ela traduz fielmente essa mistura de agitação, encantamento e perplexidade que nos invade em muitos momentos da vida.
 Mas, vamos lá. Tomei coragem porque, afinal de contas, não é uma crítica literária, apenas a maneira que encontrei de extravasar meus sentimentos em relação a esse livro que me obrigou a uma longa reflexão sobre aqueles tempos terríveis que marcaram e destruiram boa parte das gerações que tentavam florescer durante a ditadura militar. Tempos que nos impôs até mesmo às clandestinades internas porque, como diz Urariano na página 29, “naqueles anos, o amor era uma alienação”.
O primeiro sentimento a me assaltar mal começada a leitura foi o da força do texto, como se Urariano escrevesse com o fuoco nelle vene, fogo nas veias, essa sintética expressão que os italianos usam para explicar como deve ser a paixão pela vida.
E a paixão na escrita é apenas o reflexo da paixão do narrador pelo personagem principal. Se a história é ficção ou não, se o narrador é ou não Urariano, a resposta ficará a critério de quem estiver lendo. Particularmente, prefiro acreditar que autor e narrador são uma única pessoa. E toda a história é mais real que a própria realidade que vivemos naqueles anos quando o amor era uma alienação. Porque, para mim, é quase impossível tanta paixão, tanto erotismo sem que o autor tenha, pelo menos por algum momento, convivido com Soledad. Se bem que sou apaixonada por Emiliano Zapata sem nunca tê-lo encontrado.
O erotismo, que se desenrola em toda a história não chega em nenhum momento ao vulgar, ao chulo. É que Urariano sabe temperar rusticidade com elegância.
 Cito apenas dois exemplos desse erotismo: ” ‘Como é bela’, eu me disse, quando na verdade eu traduzi para beleza o que era graça, graça e terna feminilidade”. Um pouco mais adiante, o narrador anônimo e apaixonado diz “- Sério? – voltou Soledad. Então ela se virou e pude ver suas pernas grossas, a se baterem, como se represasse coxas em fúria”. Há muitos outros, mas não posso citar um por um para que não se perca o encanto.
“Coxas em fúria” . A expressão é de um erotismo profundo e resgata uma parte do corpo feminino há muito em desuso diante de peitos siliconados e bumbuns trabalhados em laboratórios que são mostrados por algumas senhoritas de profissão indefinida que se apresentam como “modeloatriz” (tomo emprestado a expressão usada por minha filha caçula, Helena, ao se referir a essas mulheres que inundam revistas de TV e sites da internet. E ela fala assim mesmo, modeloatriz, sem hífen).
Mas essa é apenas uma das expressões e comparações onde o adjetivo é usado com tal propriedade que se pode vislumbrar as coxas de Soledad sob uma saia hippie, longa e solta. E o uso dos adjetivos indubitáveis é a outra grande riqueza de “Soledad no Recife”. Além dos verbos precisos e dos substantivos fortes. Basta ver na descrição acurada que ele faz da figura do Cabo Anselmo que, àquela época se fazia passar pelo “revolucionário” Daniel. A descrição está na página 35:
“….”Passado de luta” era frase, era uma senha que denunciava o falante de 1972. Uma expressão que só poderia vir de gente subversiva, clandestina. Mas a voz que eu ouvia não encontrava coerência com a de um homem impulsivo, apaixonado. Era uma voz mansa e fina. Quase diria, suave. Dele não se poderia dizer que fosse um insensato, um terrorista louco. Senti um arrepio no braço. E a minha vida depois sempre me alertou para um futuro decisivo, no bem ou no mal, com arrepios nos braços. Embora eu não percebesse até há pouco, só um súbito frio. Na hora eu traduzi isso pelo pensamento de que aquele homem iria à forca ou mandaria enforcar com a mesma voz mansa…”
Nordestino que é, Urariano deve saber que os pistoleiros (e conheci alguns no sul do Pará) têm essa mesma voz mansa e suave mas que, na verdade, é apenas o biombo que esconde uma natureza mórbida que respinga sangue por onde quer que circule.
Talvez nem Urariano, nem a editora (Boitempo) tenham percebido um detalhe do livro. Um detalhe para mim, carregado de simbolismos. A primeira vez que o narrador descreve não mais Daniel, o moço de fala mansa e gestos delicados, mas sim Cabo Anselmo, o agenciador da morte, acontece exatamente na página 64, ano do fatídico golpe militar no Brasil. E, ao se referir ao verme, o autor faz um mea-culpa que até hoje é um mea-culpa de parte da esquerda brasileira que fez oposição armada e não reconheceu em Anselmo dos Santos o grande traidor, o homem que assinou a sentença de morte de grandes companheiros não apenas no Recife, mas no Paraná, São Paulo, Rio Grande do Sul e por onde quer que tenha circulado.
“Uma primeira explicação é que Anselmo não era sempre Anselmo. Ele era Jonas, Jônatas, Jadiel, Daniel…Devo dizer, em nome da verdade, Anselmo era sempre outro…” e, em seguida, o mea-culpa: “Como pudemos ter sido incapazes de lhe tirar a máscara antes dos seus crimes? Essa pergunta dói até hoje. Não só pelo mal físico e mortal que causou. Dói mais por uma incapacidade que tivemos em desmascará-lo antes, bem antes”.
A resposta é uma só, Urariano. Porque nós, “que tanto amávamos a revolução” não carregávamos nem ódios, nem maldades. Éramos apenas pessoas mal saídas da puberdade, generosas, sonhadoras, militantes de uma utopia que, espero, nos acompanhe até o final dos nossos dias.
Soledad no Recife é o verdadeiro diário da paixão e da infâmia e, por isso, decidi espalhar esse livro aos quatro ventos porque sua leitura é necessária tanto para aqueles que viveram a época do terror ditatorial quanto para os outros que não tinham capacidade para se apaixonar. E se alienaram.
 

P.S. Nesse quatro de novembro se completam 40 anos do assassinato de Carlos Marighella, herói da nossa resistência e assassinado por Sérgio Fleury. O mesmo que matou Soledad.

A SENHORA DO KANUMÃ

By , 3 September, 2009 10:25 am

A SENHORA DO KANUMÃ

Memélia Moreira

Começou quando temperava o frango com molho de canela, cominho, mel, azeitonas maduras e ervas finas a ser assado com fatias de maçã banhadas em calda de hortelã do jardim (a receita foi criada numa terça-feira chuvosa). Enquanto acrescentava o cominho, pensei nela, a “Senhora do Kanumã”. É uma figura ímpar, rara. Eu ainda não a conhecia quando, dias antes do assassinato do delegado Sérgio Fleury, um facínora que não deixou saudades, li numa revista que uma professora de Curitiba estava na mira dos militares. E gravei seu nome, Ana Lange.

A professora fora acusada de dar aulas de marxismo num jardim de infância. A curiosidade me manteve ocupada durante dias. Falar de luta de classes para crianças ainda não alfabetizadas? Ou alfabetizá-las discutindo a mais-valia? Será que a cartilha já trazia elementos rudimentares das relações de produção? Ficava em dúvidas, tentando decifrar a personagem. Jamais poderia supor que aquela subversiva um dia seria minha comadre e, mais que isso, minha amiga. E muito menos pensei que fosse um dia construir um pequeno paraíso chamado Kanumã.

Don´Ana é mesmo rara. E quando crio meus molhos, penso compulsoriamente nessa pessoa ímpar. A “Senhora do Kanumã” não gosta de cebolas. Entendo, sem concordar. Também não gosta de coentro. Continuo sem concordar, mas também entendo. Mas, ela não gosta de cominho. Aí nem entendo e discordo totalmente. Cominho, don´Ana? É, cominho. Mas ela faz pratos deliciosos e eu nem sinto falta das cebolas, cominho ou coentro.

Mas por que estou a falar de uma professora subversiva que não gosta de cominho? É que ela também não gosta quando escrevo sobre um determinado substantivo feminino abstrato chamado saudade. E, mesmo pronta a ouvir suas reprimendas é de saudades que vou falar.

Não, não é saudade apenas dos ovos fritos que minha doce avó, Amélinha, de quem herdei um dos meus nomes, fazia quando eu chegava de surpresa em sua casa, lá na capital de Roraima, tão perto e tão longe. Chegava de repente e ela, como se fosse um jogo de cartas conhecidas, perguntava o que eu queria comer, já sabendo a resposta. Ovos fritos com farinha d´água. Ia ao quintal, pegava os ovos e fritava na manteiga, com farinha d´água. Nem o restaurante “Vagenande”, em Paris, consegue produzir prato tão saboroso para meu paladar. E ainda por cima, com café de verdade, puro, cheiroso, forte. E, sem saber, me dava as pautas para escrever as matérias que eu tinha ido buscar. Mas Amélinha morreu e essa é uma saudade que vou guardar para sempre.

Também não é saudade do cheiro de pastel de queijo da Rodoviária de Brasília, às três da manhã, acompanhado de um caldo de cana feito na hora. Essa saudade eu recompenso quando estou na cidade. Não mais às três da manhã porque abandonei a boemia.

Muito menos saudades do Salão Verde e do plenário da Câmara dos Deputados em dia de debates acalorados em votações polêmicas. Há tempos o Congresso trocou os grandes debates por um balcão de negócios onde as consciências se vendem a preço de peixe congelado. Essa saudade talvez seja insolúvel.

Garanto que também não é saudade dos gritos de gol nas tardes de domingo, porque parecem ecoar até hoje na minha memória. Descobri que mesmo tão distante, os gritos de gol continuam a soar nos tímpanos e posso até ouvir a arquibancada soltar a voz num desabafo de alegria dizendo “Mengoooooô! Mengooooô!

Nada de saudades das palmeiras que aqui se encontram em todas as esquinas. Nem dos sabiás, porque um imponente “cardeal”, pássaro preto de peito vermelho vem, às vezes, pousar na minha frente. Não canta, mas suas cores me enfeitiçam.

Não, a saudade que me assalta vai longe. Ela dilacera as vértebras, desfibra músculos e deixa a alma desidratada. É uma saudade que dói como se um cutelo ficasse, dia e noite fatiando o coração e ele, plagiando o fígado de Prometeu, se refizesse a cada noite para no dia seguinte ser novamente fatiado.

É uma saudade difusa em que se misturam as cores do meu povo, o cheiro do pequi, a música que parece estar infiltrada em todas as partículas do ar, o falar doce ou rascante dos amigos, o dia a dia.

É, don´Ana do Kanumã, não fique brava comigo. Hoje temperei o frango com cominho e escrevo sobre essa saudade. Saudade da minha cultura.

Mas saudade sempre foi o mais saboroso tempero da vida.

CRÔNICA DOS SESSENTA

By , 26 May, 2009 7:43 am

Flamengos

Flamengos

 

de Memélia Moreira

Ainda ontem brincávamos nos tamarindeiros da Quinta do Barão. E também de Sir Jerry. Alguém de vocês leu Sir Jerry? Do autor não me lembro o nome, mas o “sir” em questão, era um excelente detetive e confiava nas suspeitas de seus sobrinhos.

Antes, nas redes, brincávamos de Salustião”. Nenhuma criança, do passado, ou do presente, brincou de “Salustião. Mas isso é outra crônica. As brincadeiras aconteciam numa casa bem grande com um generoso quintal na Rua dos Veados (isso mesmo, Rua dos Veados), naquela ilha encantada que alguns chamam de “Ilha dos Amores” e outros, os que conhecem os habitantes nascidos ou adotados, a chamam de “Ilha Rebelde”, a minha para sempre amada ilha de São Luis, disputada por franceses, holandeses, portugueses e vilipendiada até hoje por tantos outros. Initerruptamente.

Mas antes, bem antes do “Salustião”, de Sir Jerry e dos tamarindeiros da Quinta do Barão, ele era um sonho acalentado. E quando nasceu, chorava, chorava muito por causa da clavícula quebrada. E seu pai dizia para sua mãe “seu sonho está chorando”. E assim, ele virou Sonsonho. Tentaram outros apelidos, “Pluto”, “Dutrinha”, mas não tinha jeito. Ele sempre incarnava o sonho. E tinha que ser Sonsonho.

A vizinhança o explorava. Faziam rodas em torno dele e lhe perguntavam “Sonsonho quanto é 484 com 293, menos 88”. Ele, olhos verdes e grandes, ficava mais quieto do que de costume e respondia sem pestanejar. A conta estava certa e ele nem tinha ainda o curso primário. Mal completara cinco anos. Era a sensação da rua. Televisão não existia e era ele quem animava a vida daquelas pessoas que passavam o dia trabalhando e, à noite, ou ouviam “Jerônimo, o herói do sertão”, enquanto suas mulheres inundavam ruas e praças chorando com “O Direito de Nascer”, num rádio que ainda exigia eletricidade ou, ficavam na porta de casa, trocando conversa com os vizinhos. Mas terminavam sempre explorando a mente brilhante daquele menino de cara séria.

Idolatrado pelas irmãs, por ser o único homem numa casa com cinco filhos foi crescendo, sempre com uma bola nos pés e o Flamengo no coração, na mente, nos poros, nas vértebras. Flamengo e “boliviano”. Sim, boliviano, como todos os demais torcedores do SPFC, a sigla do glorioso Sampaio Correia Football Club. E era capaz de escalar todo o time do Sampaio, “Dodó, Terrível e Wallace, Cacaraí, Elbert e Barradas, Gedeão, Biné, Sapeca, Henrique e Garcia”. E era mais um motivo de admiração dos vizinhos que exploravam sua mente brilhante. Escalava qualquer time, com a mesma facilidade que fazia as contas. A torcida das irmãs era tão grande que juntos, ele e as irmãs faziam planos para a Copa de 1970. Ele vestiria a camisa verdeamarela da “Seleção Canarinho”. É que ele jogava bem. Era, como se dizia na época, um craque. Jogava bem de verdade. E, claro, iria para a Seleção de 1970, quando já tivesse mais de 18. As irmãs, estariam nas arquibancadas gritando por seu nome. Porque as irmãs sempre estiveram na arquibancada da sua vida, com bandeirinhas, apitos, faixas e gargantas e corações torcendo por ele.

Mas a Matemática os traíu.

1970, foi, é, e será, depois de 1964. E aconteceu 1964 na vida de todos. E Sonsonho, que sempre teve seus próprios sonhos, não aceitou aquele 64, mas era quase uma criança e não tinha todos os instrumentos para mudar aquele 64. E, a camisa da Seleção foi se tornando distante. Ele não jogou bola naquele ano de 1970. Jogou a vida. Jogou a vida para mudar a História. E, quando ainda festejavam a Seleção que trouxe a terceira estrela na camisa, menos de um ano depois daquele histórico julho de 1970, Sonsonho, que agora dividia a bola com a História de seu país, não era mais chutado em campo, o adversário não conhecia as regras do jogo. Preferiam chutar corpos, aplicar-lhe choques elétricos. E não usavam chuteiras. Calçavam, e calçam ainda, botas pesadas que, por onde caminhavam, deixavam pegadas de sangue. O adversário não sabia jogar bola. Preferia torturar. Mas aquele menino que fazia complicadas contas mentalmente, sem necessidade de riscar os números, que era um craque na bola e, certamente vestiria a camisa verdeamarela com a terceira estrela, enfrentou o adversário que não sabia chutar a bola. Mas, se lhe tiraram o sangue, suas armas e métodos não foram suficientes para lhe arrebatar os sonhos e os amores de Sonsonho. E quando saíu daquele inferno, deixara de ser criança. E saíu na construção de mais sonhos. Teve filhos. E foi quando se descobriu que aquele menino que lia “Sir Jerry na Bretanha”, que escalava qualquer time, que era um craque, que se dividia entre a bola e a História de seus país e já não tinha mais os tamarindeiros da Quinta do Barão, mostrou que ser pai é “desdobrar fibra por fibra”. Estica e desdobra todas as fibras para os filhos, mesmo quando a História o rouba para grandes missões. E é quando se torna pai, camarada, companheiro, irmão e amigo. Como se criasse novas fibras a cada dia.

No dia 23 de maio, um sábado, o Rio de Janeiro, cidade onde nasceu, lhe brindou com uma brisa quase fria, um sol tímido, mas suficiente, para que o amigo, o irmão, o companheiro, o camarada e o pai, comemorasse uma data especial. E, naquela objetividade que nunca o abandonou, contou sua história em apenas três fotos. No meio, o centro do seu universo: a família, os filhos e netos todos dividindo o sentimento flamenguista. De um lado da sua paixão primeira, a família, exatamente à esquerda, como deveria ser, a bandeira na qual sempre acreditou. Forte e vibrante, a bandeira da Ala Vermelha do PcdoB. E à direita, sua outra grande paixão. A bandeira do Flamengo, que também traz, qual a do seu partido primeiro, a cor vermelha da luta e da resistência.

E todos dançaram em frente às paixões daquele menino que cresceu com a bola nos pés, que enfrentou aqueles que preferem torniquetes aos dribles. Dançaram samba, muito samba, dançaram rock, dançaram até “Besame Mucho” ao som de Ray Connif e sua orquestra. Todos felizes porque naquele dia o menino que fazia contas sem necessidade de lápis e papel, que com certeza usaria a camisa verdeamarela se 1970 fosse antes de 1964 comemorava uma vida de conquistas. Uma vida de alguém que sempre lutou, sem jamais se tornar um mercenário. Aquele menino comemorava 60 anos.

Mas o aniversário daquele menino é hoje, 26 de maio. E por isso eu quero dizer, Feliz Aniversário, mano. Tu mereces toda a torcida dos que te amam. E eu tenho orgulho de ser tua irmã.

UMA HERÓICA BRASILEIRA

By , 13 May, 2009 5:29 pm

UMA HERÓICA BRASILEIRA

Seu nome raramente aparece no noticiário. Ela é uma dessa pessoas que trabalha nos bastidores, o quê significa, na invisibilidade. Mas é uma brasileira heróica. Chama-se Myrian, com ípsilon mesmo. Paulistana descendente de italianos (comme il faut) e índios. Myrian Luiz Alves, é assim que ela assina o nome.
Nosso primeiro contato, há mais de dez anos, não foi exatamente amistoso. Claro, nós duas temos temperamento forte e somos desconfiadas e alertas.
Mãe de quatro filhos, três mulheres e um homem, ela é dessas pessoas que são necessárias. E mesmo na intimidade de sua casa, que tenho o privilégio de usufruir, é dura, mas segue os conselhos de Che e sabe ser a mais terna das mães, companheira e amiga. E só os deuses sabem o quanto é difícil cuidar de quatro filhos, sem a presença do pai (ela já foi casada, separou, ficou viúva) e, muitas vezes, sem saber como sustentar a prole. Mas eu repito, Myriam é uma heróica brasileira.
Há bem mais de dez anos, antes de conhecê-la, Myriam já estava na batalha que até hoje é motor de sua vida: a busca dos desaparecidos da ditadura militar brasileira. Foi ela, por exemplo, quem trabalhou incansavelmente para a descoberta das ossadas do cemitério de Perus, na sua São Paulo. Mas, sempre, nos bastidores, na assessoria de políticos. Na época, assessorava um vereador do PDT de São Paulo, que presidia a comissão de inquérito.
Mas São Paulo é pequena demais para Myriam e assim ela chegou a Brasília. E, sem tirar os sapatos de salto, começou uma luta sem tréguas para identificar os mortos e desaparecidos da Guerrilha do Araguaia. Viaja a Marabá, que foi o QG dos militares da ditadura no combate à guerrilha, com seus próprios recursos, vai de carro, volta de carro, dirigindo, às vezes sozinha, tudo para buscar mais uma informação. Desloca-se com passagem aérea emprestada quando sabe que lá nos confins de Rondônia, ou no Ceará, provavelmente se encontre mais um elo da sua busca. E mesmo numa reunião social, quando as pessoas estão falando de rock, ou cinema, Myriam consegue voltar ao tema principal. O direito à História, as chaves para a identificação das ossadas do Araguaia, as covas sem nome daqueles que lutaram para, quem sabe, libertar o Brasil e dar melhores condições aos brasileiros…
Sua maior revolta em todos esses anos tem sido contra muitos políticos que ocupam páginas de jornais dizendo-se empenhados em desvendar os bem guardados segredos dos militares que fizeram a campanha do Araguaia, enquanto conviviam, e nos faziam conviver, com ossadas guardadas em sacos plásticos nos armários da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Nem mesmo mesmo a fabulosa imaginação de Gabriel Garcia Márquez seria capaz de supor esse cenário surreal.
E mais, além da revolta, ela guardava uma certeza. A ossada é de Bergson Gurjão Farias, líder estudantil no Ceará nos nossos anos de chumbo, que depois aderiu à guerrilha e lá foi morto e barbarizado, porque seu corpo foi chutado e vilipendiado mesmo depois da morte.
Tanta era a convicção de Myrian que ela me convenceu.
Mas só agora, esta semana, Myrian teve o reconhecimento “científico” de suas convicções. O perito Domingos Tocchetto, professor de Criminalísitica na Escola Superior de Magistratura, admite que os ossos do armário são do guerrilheiro Bergson. E tenho certeza de que ele não foi influenciado por Myrian, afinal de contas, é um perito. Por coincidência, foi mais um parlamentar do PDT, Pompeo de Mattos, gaúcho e presidente da Comissão de Direitos Humanos quem possibilitou a perícia.
Hoje, quando acordei e li nos jornais a certeza de Myriam estampadas, não tive dúvidas. Telefonei e lhe dei parabéns. Mas achei pouco. Um telefonema, mesmo sujeito a escutas clandestinas, é pouco para agradecer o trabalho desta mulher. Por isso, escrevo. E escrevo com os pelos arrepiados pela emoção.
Myrian, obrigada. Acho que não só eu, mas a História do Brasil deve agradecer tua obstinação. E, quem sabe, te por uma medalha no peito. Medalha que ainda não tem nome mas, quem sabe, poderia se chamar “Medalha dos Guerreiros”, ou do “Mérito de Luta”.
Obrigada, Myrian. Obrigada por nos dar o direito de conhecer nossa História

SIM, NERUDA, CONFESSO!

By , 10 May, 2009 5:50 pm

SIM, NERUDA, CONFESSO!
Confesso que vivi e vivo na mesma intensidade e com todas as emoções. A certeza me veio quando vi a foto de um homem de cabelos brancos sendo condecorado com a “Ordem de Ipiranga”, honraria máxima do estado de São Paulo. O homenageado era um ex-presidente dos Estados Unidos que parecia ter um sorriso grudado ao rosto, todos os dentes à mostra. Recebeu a faixa porque foi um aliado da luta pela anistia no Brasil.
A foto que vi, num dos sites de jornal, era pequenina e por isso, impossível perceber que até suas cílios já estão totalmente brancos. E então me veio à lembrança a única vez que estive próxima de um Carter. Era o tempo dos medos e sussurros. Minha terra vivia sobressaltada. Qualquer palavra a mais poderia significar masmorras, torturas e até mesmo o desaparecimento de quem a proferisse. Aquele tempo ficou conhecido pelo nome de ditadura. Das histórias que sei e que presenciei, “ditadura” talvez seja uma palavra branda. Vivíamos um tirania total. Direitos Humanos? Nem pensar. A palavra fora arrancada das páginas do dicionário e triturada em algum dos porões mantidos pelos facínoras. Mas voltemos a Carter.
78 ou 79? Acho que era 79 e lutávamos pela anistia daqueles que se exilaram ou foram simplesmente banidos pelos militares. O presidente da época era um general, chamado João Batista Figueiredo. E então se anunciou a vinda do presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter e sua mulher, Rosalynn. Eu trabalhava num jornal importante, a Folha de São Paulo.
Na embaixada, pronta para receber o “comandante em chefe”, houve um sorteio para a escolha dos jornais que participariam da entrevista com Rosalynn Carter. Meu jornal foi sorteado e, imediatamente, me transferiu a tarefa de ir à Câmara dos Deputados, onde ela falaria com os jornalistas.
Na época meu inglês cabia numa caixinha de fósforos e até hoje não entendo porque o chefe me mandou fazer a entrevista. Talvez porque eu sempre perguntasse além da conta. Mas ainda hoje desconfio que a decisão do editor obedeceu a esses mistérios da vida.
E explico.
Jamais acreditei na chamada neutralidade jornalística. Isso já me custou empregos, prisões, mas manteve minha dignidade no devido lugar. Cada vez que algum jornalista vem me falar de neutralidade, lembro de um jovem militar do exército do Egito que lutava contra o colonialismo inglês no seu país que um dia disse, “eles nos querem neutros para que sejamos cúmplices”. O jovem militar se chamava Gamal Abdel Nasser. Bom, foi com esse espírito que sempre exerci a profissão e por isso acredito que minha escolha para aquela entrevista deve-se mesmo aos mistérios da vida. Nenhum outro jornalista ousaria, em plena ditadura, assumir a tarefa que assumi. Não, não pensem que isso me envaidece. Foi apenas uma tarefa de quem tem convicções na luta contra as tiranias.
Quando cheguei à Câmara, alguns deputados do chamado grupo “Autêntico” do MDB, ficaram felizes porque eu fora escalada para a entrevista. Eles tinham necessidade de se aproximar da primeira-dama dos EUA e não podiam entrar na Comissão de Constituição e Justiça, onde aconteceria a entrevista.
E então me deram um envelope branco, retangular que deveria ser entregue ao presidente, e ninguém melhor do que a esposa para a função de carteiro. Do grupo eu me lembro que estavam Aírton Soares, de São Paulo, o deputado Duque, do Paraná, Odacir Klein, Getúlio Dias e João Gilberto, do Rio Grande do Sul.
Guardei a carta dentro da agenda e fui para o lugar designado para a entrevista. Uns seis brutamontes gringos cercavam Rosalynn Carter, além dos temíveis policiais federais brasileiros. Não fiz perguntas. Havia outros para fazer e, desde a hora que recebi a missão, só me preocupava em cumpri-la. Entre os jornalistas e a primeira-dama havia um cordão de isolamento. Quatro ou cinco perguntas foram feitas e então, um representante da embaixada anunciou que a próxima seria a última pergunta. Ela respondeu, e eu corri para o cordão gritando “Mrs. Carter, Mrs. Carter”. O suficiente para uma cotovelada nas costelas, dada por um brutamontes. Fui logo cercada pelos demais. Com 159 centímetros de comprimento, desapareci no meio daqueles homens enormes, mas continuei gritando “Mrs. Carter, Mrs. Carter”. Na verdade, eu me esgoelava. E ela, num gesto de elegância, ou talvez benevolência, ordenou que me deixassem passar. Entreguei a carta dizendo que era da “oposição brasileira no Congresso” e que todos estávamos lutando pela anistia. Ela pegou a carta da minha mão, antes que os brutamontes o fizessem, abriu, leu, me concedeu um sorriso e um “thank you”.
Do lado de fora, os deputados também sorriam de alívio. E eu, com a missão que poderia ter custado meu emprego, saí da sala saltitante. Mesmo sem ter feito perguntas, criara o “lead”, ou seja, a abertura da matéria, preocupação diária de todos os jornalistas.
Não sei se o presidente Carter ajudou na conquista da nossa anistia, mas só sei que tempos depois eu me deslocava pelo Brasil afora para receber nossos exilados. Para Carázinho, no Rio Grande do Sul, onde me juntei à massa que esperava o querido Leonel Brizola, para Recife, receber Miguel Arraes, para o Rio, onde me sentei no chão do aeroporto e ouvi as palavras do “Cavaleiro da Esperança”, Luís Carlos Prestes, e para minha inesquecível ilha de São Luis, para encerrar a longa espera do meu tio, Neiva Moreira. Eles estavam voltando. Quem sabe tudo entraria nos eixos novamente.
Por isso, Neruda, não tenho pudor em repetir a sua frase tão famosa e ainda acrescentar versos de Roberto Carlos quando diz, “se chorei ou se sofri, o importante é que emoções eu vivi”.
Memélia Moreira

Volto com novo blog

By , 3 May, 2009 12:36 pm

Olá, vocês!
Volto com novo blog.
O primeiro “Entrelinhas”, morreu de inanição. Claro, as dificuldades de alimentar um noticiário a mais de oito mil quilômetros de distância dos temas sufocaram a idéia.
Depois veio o “Beyond the Parks”. Morreu de desinteresse. Difícil escrever sobre as atrações que existem além dos parques, em Orlando, na Flórida. Elas existem, mas não me motivaram o suficiente para acompanhá-las.Finalmente, acredito que cheguei onde pretendia. Um blog onde posso escrever crônicas, comentar notícias, postar minha poesias e poesias dos poetas, dar dicas de culinária, desabafar, enfim, uma colcha de retalhos. Fiquei em dúvida sobre o nome. Primeiro pensei realmente em “Colcha de retalhos”. São coloridas e de diferentes texturas. Mas é um nome duplo e gosto de substantivos simples. Depois, veio “bric-a-brac”. Legal! Mas me soou pretensioso.
Finalmente, cortando ervas daninhas no meu jardim e com as cores de todas as flores, o título saíu naturalmente.
Optei por Mosaico, que não deixa de ser uma colcha de retalhos só que no lugar de tecido, fragmentos esmaltados.
Resta dizer que sou apaixonada por mosaicos, essa arte que foi criada pelos sumérios 2.500 anos antes de Cristo e resiste a todas as artes que se seguiram.
Finalmente quero pedir aos amigos que escrevam. Os poetas, que mandem poesias; os cronistas, as crônicas e aqueles que querem apenas expressar indignação ou tristeza, usem as letras e me mandem. Prometo que só vou censurar as ofensivas, aquelas que atentem contra as liberdades.
Com carinho
Memélia
P.S. A cada mês, uma frase será escohida entre as dezenas de minha coleção guardadas em cadernos.

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