NOITE EM CUERNAVACA

By , 17 April, 2014 10:17 am

 

 NOITE EM CUERNAVACA

 Memélia Moreira

 Era sábado e fazia muito frio na cidade do México naquele fevereiro de 1978. Meu tio, Neiva Moreira, que ainda amargava o exílio, acordou cedo e anunciou que íamos sair antes das nove da manhã para viajar. No caminho, compramos um bolo confeitado para comemorar o aniversário de uma das figuras que mais admiro na História do Brasil, Francisco Julião, que desde sempre fez parte do meu imaginário com suas lutas pela Reforma Agrária. O bolo parecia um arco-íris tantas e tão fortes eram as cores. No México, todas as cores e sentimentos são fortes. Até mesmo o dia dos mortos é comemorado com cores. O bolo seguia a tradição.

Subimos e descemos montanhas num “carro de praça”, antiga denominação para táxi, ainda usado por Neiva. Era confortável, mas mesmo assim não consegui continuar o sono interrompido. Seria quase um sacrilégio dormir e perder todos os momentos e paisagens daquele que é um dos países mais fascinantes que conheci. E só no caminho fui informada de que seguíamos para Cuernavaca, a capital do Estado de Morelos. Pronto, foi o suficiente para me deixar em crescente excitação. Morelos! Terra de Emiliano Zapata, outro personagem que reverencio. O homem que comandou a revolução mexicana. E mais montanhas e vales. E a terra seca, cinza, deserta. De vez em quando ultrapassávamos ônibus que gemiam nas subidas ou assoviavam nas descidas. E a terra continuava seca e cinza.

Ainda não era meio-dia quando chegamos à cidade. O táxi nos deixou em frente a uma casa singela, toda branca. Branca mesmo. Por dentro e por fora. E, na minha frente, tranquilo e amável, Julião, nome que era o terror de latifundiários e grileiros que ainda hoje infestam o Brasil. Pouco depois chegou mais um convidado, com sua esposa. Vestido de “guayabera”, branca, calças largas e voz tonitruante, ali estava para meu deslumbramento, o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez. De verdade. Trouxe petiscos para o almoço porque ali, ele era apenas “Gabo”, e naquele dia, pouco lhe interessava a fama porque naquele sábado, o importante era o aniversário de Julião. E ali estavam entre amigos, todos exilados das tantas ditaduras de nossa América.

Chegou a hora do almoço, mas não me lembro qual foi o prato principal. Só estava interessada na rica conversa entre aqueles três homens e na sobremesa. Era o famoso bolo enfeitado com flores açucaradas, vermelhas, verdes, amarelas, alaranjadas e até azuis. E recheado com chocolate e ameixas. Cantamos parabéns e tomamos suco de uva com o bolo.

Não saímos de casa. Nada de conhecer o “Palácio de Cortéz” ou o “Capitel do Calvário”. Não. Definitivamente, não. Para que conhecer monumentos construídos pelos invasores espanhóis e perder tanto conhecimento transmitido nas conversas? Não, o melhor era ficar ao redor da mesa aprendendo. Além disso, pensava eu, teria uma bela história a escrever para meu jornal. Na época, trabalhava no “Jornal de Brasília”.

Nem vi a tarde escorrer e, quando a noite começou a chegar foi que Julião nos contou que sua casa – construída com suas mãos – não tinha luz elétrica. Durante o dia, a iluminação era natural. E ao escurecer, velas e lampiões. Assim, dizia o homem que tanto sonhou e lutou pela Reforma Agrária, “economizo energia”. Francisco Julião era homem pobre.

E continuavam conversando, sem parar. Eu, calada, sorvendo cada vírgula, cada travessão, cada parágrafo. Neiva entusiasmado com a queda de Reza Pahalevi no Iran, destronado pelo aiatolá Khomeini. Gabo provocava Julião, que buscava seus cadernos com poesias escritas à mão. E confessava que ao se separar de uma mulher, sempre lhe deixava uma poesia. E Gabo queria saber se já havia poesia para a companheira do momento. Os dois riam, Nas pausas, Julião nos fazia ouvir fitas que ele mesmo gravou com os remanescentes da revolução mexicana. E os dois combinavam escrever um grande romance sobre a revolução. O personagem principal seria Gregório, um dos sobreviventes que morreu com mais de 90 anos e fora entrevistado por Julião,que tinha milhares de horas gravadas com os revolucionários. Não sei o que foi feito das fitas. Parece que foram entregues à Universidade Federal de Pernambuco. Mas delas não tenho mais notícias.

A conversa varou a noite. Nem vi meu tio deixando a sala para dormir. Mal levantava para beber água, totalmente magnetizada pela conversa, que em nenhum momento caíu nas amarguras de exilados. Riam, contavam piadas sobre os ditadores, comentavam o impacto da visita do Papa João Paulo II à cidade do México mas, falavam principalmente de poesia e política.

Quando o domingo começou a raiar, os dois, sem interromper a conversa, prepararam o café e foram acordar suas mulheres. Foi aí que Julião nos deu uma ordem. Não podíamos perder a missa. “É a maior atração dessa cidade”, dizia com um ar grave. Então conheci a Catedral, que começou a ser construída em 1526. Imponente como todas as catedrais embora sua principal riqueza fosse mesmo a conhecida “Missa Panamericana”, celebrada pelo cardeal espanhol Sérgio Mendez Arceo. Mais que missa, um libelo em defesa dos direitos sociais dos povos dominados pelo Império, vizinho ao México.

Depois da missa, como se tivesse vivido um sonho, voltamos para a Cidade do México. Peguei então minha agenda de anotações, que não ousara abrir durante a conversa e escrevi as histórias daquela noite encantada. Feliz porque tinha uma boa matéria para meu jornal.

Doce ilusão!

 Ao chegar, entusiasmada, fui direto ao chefe dizendo que tinha diálogos inteiros entre Neiva Moreira, Francisco Julião e Gabriel Garcia Márquez. O chefe, jovem jornalista de boa família e boa formação acadêmica, olhou com total desdém e respondeu: “Essa matéria não interessa ao jornal”. Quase chorei de raiva, mas meu desprezo foi tanto, que preferi dar de ombros. Não o sabia medíocre mas, agora, 31 anos depois, foi que tive certeza de sua pequenez, quando vi que seu nome era um dos citados para diretor-geral do Senado, que vive sua mais profunda degradação. E então entendi porque minha rica história não o interessou. O chefe estava apenas fazendo sua carreira. Obviamente, a noite encantada de Cuernavaca não acrescentaria ítens no seu currículo.

Que pena!


 

 

A Voz Total

By , 28 July, 2009 11:02 am

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A Voz Total

Sabia, estava a sonhar. Não podia interferir no sonho, mas nada daquilo era real. Se tratava de um país rico em petróleo, um emirato qualquer do Oriente e das Mil e Uma noites, pois havia um rei usando capas de cetim e se atirando sobre enormes almofadas de penas de cisne, príncipes endinheirados rolando em limusinas e comprando inutilidades caríssimas, haréns de belas mulheres, infelizmente invisíveis.

O rei tomava todas as decisões, não saberemos se de sua própria vontade. De vez em quando reunia uma assembleia, conselhos de ministros, conselhos de Estado, coisas assim. Ficavam todos os participantes na expectativa, sem tomar a palavra nem fazer um gesto, a respiração em suspenso, até algum adivinhar pelo semblante do soberano o seu desejo. E o vivaço expressava opinião. Quando acertava, o rei sorria para ele, um sorriso muito fechado. Era suficiente para o sortudo provocar a inveja dos outros. E todos já sabiam o que dizer, repetiam quase em coro o discurso do primeiro, ajudando a sesta real. Se, pelo contrário, o primeiro atrevido dissesse algo fora da sintonia, o ar do soberano ficava ainda mais fechado e o atrevido ruminando medos atrozes. Finalmente o rei dava por encerrada a reunião, ditando as suas conclusões para a acta. Era a voz total.

Acontecia nesse tipo de reunião, portanto, alguém arriscar “sim” e o rei a seguir dizer “não”. Imediatamente muitas mãos se erguiam, pedindo a palavra. Todos para apoiarem aliviada e convictamente o não do soberano. E se alguns tinham dito sim anteriormente, corrigiam o tiro com discursos argumentando a favor do não. Havia pois consensos e mesmo unanimidade: a tal voz total.

Os príncipes assistiam a essas reuniões sem abrirem a boca a não ser para bocejos de tédio. Talvez o pai depois lhes explicasse os diferentes passos dos debates inexistentes e se manifestasse contra alguns dos membros da assembleia. Mas isso era segredo de estado, ninguém conhecia as conversas privadas do potentado. Nem a imprensa, sempre paternalmente repreendida por querer descobrir mais que o devido.

O rei morreu. Todos ficaram à espera, sem ousar uma iniciativa. Os príncipes, demasiado novos mas já prudentes, não se manifestavam. Provavelmente haveria conversas nas intimidades dos haréns. Ao fim de uma semana, um dos conselheiros, mais impaciente ou mais afoito, disse sim. Imediatamente se ouviram vozes diferentes. Uns disseram claramente não, outros talvez, um disse porventura, outro se calhar, outro obviamente, outro imagino… até que dez grupos rivais se criaram, cada um apoiando um príncipe. Os príncipes, despreparados, patrocinaram campos opostos. Como as discussões aqueciam, armas foram afiadas. E ajuda foi pedida ao estrangeiro. Um se ligou à potência do norte, outro à do leste, outro à do sul. A Oeste só havia o mar e as potências estavam longe, por esse lado não houve intervenção nem invasões. Exércitos foram formados e entraram em combate. Todos contra todos, numa balbúrdia total. Houve medianeiros estrangeiros, as ONG da praxe vivendo dos conflitos, reuniões onusianas. Ninguém parava a guerra, pois os beligerantes não aceitavam opinião diferente da sua, ou dos seus interesses. E os príncipes, em nome dos quais se combatia, morriam de tédio nos seus haréns, impedidos de passar férias nos lugares da moda.

Acordei antes de assistir ao cataclismo final. Porque se sabia haver negócios de armas e a procura da bomba nuclear por parte de vários grupos, os mais intransigentes.

Concluí para mim mesmo, com medo de falar alto naquela penumbra do despertar: a voz total se tornou numa cacofonia totalitária de vozes. É sempre assim?

Pepetela

ENCONTRO

By , 27 June, 2009 9:07 am

ENCONTRO

Acordo ao primeiro sinal de claridade e, antes mesmo de abrir os olhos, um sobressalto me sacode, a consciência subitamente alerta: é hoje o dia. Tenho um encontro com Flávio. A par da tensão, observo o leve flutuar de um fiapo que entra pela janela e baila pelo quarto em reflexos dourados. Excita-me a idéia do encontro e, ao mesmo tempo, desejo que algo impeça meu corpo de levantar da cama. Uma forte gripe talvez, quem sabe, seria um álibi perfeito. Um arrepio me percorre, enquanto o bom senso prevalece: não, óbvio, impensável não comparecer.
O registro da última vez que o vi, há trinta e quatro anos, é nítido em minha memória. Creio não haver passado uma só semana, em todo esse tempo, em que não tenha recordado aquela manhã, imersa na garoa paulista, a testemunhar o nosso abraço. Às vezes a visão tem a forma de um filme passando diante dos meus olhos, sempre a incomodar. E, por vezes, flagro-me tentando modificar o enredo daquela lembrança: se houvesse manifestado desespero, talvez ele não tivesse partido e tudo teria sido bem diferente. Inútil e fútil, que cabeça a minha, isso é passado, não se retoma. Aliás, tal tentativa de recriar o roteiro desta última cena tornou-se quase obsessiva nos primeiros tempos da separação e, confesso, começou a perseguir-me de imediato, mal tendo dobrado a esquina, nem bem sua visão me escapara.
Não pode haver passado tantos anos assim… Não pode! Momentos há em que sofro como se a cena houvesse ocorrido ontem, literalmente. Momentos há em que ela se repete seguidamente em minha cabeça. Tal como agora: uma despedida que pretende ser breve, mas que intuo definitiva. Por mais racionais que me soem seus argumentos, mais convencida fico de que eles na verdade encobrem a rejeição que envenena meu peito. Orgulhosa, não acuso a dor. Pelo contrário, balanço o rosto aquiescendo, suas razões por demais pertinentes. Mas algo insiste em me soprar a raiva de estar sendo abandonada. Flávio, sensível como sempre, percebe o que se passa em meu íntimo e não se deixa enganar pela aparente frieza com que recebo a notícia. Insiste em acarinhar-me e seu abraço é cada vez mais terno. Há uma fração de minuto em que meu corpo se deixa acolher naqueles braços, escapa-me um soluço e quase amoleço. Mas não passa de um brevíssimo momento. Logo me descolo do abraço, forço o sorriso e imponho os temas das providências objetivas e necessárias a nosso afastamento.

É incrível, agora não me ocorre qualquer desses acertos e combinações que usei para domar a emoção que me sacudia. E que desperdício, parece-me hoje, o gastar aquele último breve tempo com Flávio em minúcias mesquinhas da vida prática. Mas éramos assim mesmo: emprestávamos prioridade ao que chamávamos de questões objetivas, enquanto empurrávamos as emoções pela goela abaixo, ao final sempre muito mal digeridas. Nas oportunidades em que pude desabafar estes sentimentos, sempre ouvi, como tentativa de consolo, que teria sido impossível adivinhar que não mais o veria. Dentro de mim, contudo, sei que não é verdade: desde o primeiro momento daquela conversa tive certeza de que a despedida seria para sempre. Só não me pergunte de onde veio tal convicção. Pode-se argumentar que a realidade em volta, tão dura, impregnou-me. Sim, pode ser. Mas por que só ali, naquele episódio, fui tomada de tal clareza? É coisa que não explico, mas que aprendi, bem mais tarde, a respeitar e considerar. Na época, aos vinte anos, desqualificava intuições e as atribuía ao medo, pura e simplesmente. Na maturidade, alguns poucos episódios ensinaram-me o quanto essas certezas merecem ser levadas a sério.
Mas, enfim, urge levantar-me e ir ao encontro. Tem tempo, ainda é cedo, digo-me resistindo. Mas o que é isso agora? Por que o medo? Não estarei sozinha, certamente os amigos – aqueles que restaram – estarão todos lá. Mas os pensamentos parecem ter vida própria e torno a divagar. Sorrio com amargura ao pensar que não temo, diante dele, o estrago que os anos provocaram naquela minha figura de mocinha, que inspirava sua ternura. Não, não há o que temer. Em contrapartida, sua imagem de rapaz, congelada, me acompanha. Penso ainda, que não há como imaginar um Flávio sessentão. Simplesmente não consigo. Além disso, não é necessário. Ele está morto há trinta e quatro anos e será enterrado hoje.
A dor espeta-me e levanto finalmente da cama. Quase no mesmo instante um sentimento de vitória me invade, em paradoxo à dor que ainda me aperta o peito. Acostumada a tais ambivalências, esforço-me em concentrar os pensamentos na batalha vencida. Depois de tanto tempo, o pouco que restou de Flávio foi finalmente encontrado, escondido que estava em cova clandestina. Mas este pouco foi suficiente para provocar barulho e, como disse alguém, ajudou a desconstruir o esquecimento sobre aquele tempo de barbárie.
Mais segura de mim, por acaso volto a olhar o facho de claridade que entra da janela e percebo que a brisa suave faz ainda flutuar fiapos luminosos. Consigo aprontar-me e saio rapidamente. Ao chegar, de pronto me emociona a visão altiva e frágil de Dona Helena, a mãe de Flávio que, aos oitenta e nove anos, parece estar somente esperando enterrar o filho para poder finalmente descansar. Ao fundo, diante da urna coberta com a bandeira do Brasil, ladeada pela família, por uma pequena multidão, incluindo repórteres e inúmeros amigos, uma faixa:

PELA VIDA, PELA PAZ, TORTURA NUNCA MAIS

Sapoti da Japaranduba

By , 20 May, 2009 4:37 pm

Mario Benedetti e o Recife

Urariano Mota

Na imprensa brasileira, as notícias sobre a morte de Mario Benedetti são lacônicas, medíocres e omissas. Peguem o google notícias em España e terão um perfil digno de um grande escritor. Já no Brasil… Uma nota do Estadão nada diz sobre o papel político da sua obra. Na Folha de São Paulo, em linhas brevíssimas, passa-se como um gato sobre brasas, na menção às idéias de fraternidade do escritor: “Devido às suas posições políticas, Benedetti exilou-se do Uruguai por doze anos, quando o país sofreu um golpe militar, em 1973. Morou na Argentina, Cuba e Espanha e voltou ao Uruguai em 1985. Benedetti foi ainda um grande crítico da política externa dos EUA”.

Pior, no G1, o espaço para a morte de Benedetti é ocupado por uma imensa foto e a informação lacônica:

“O escritor uruguaio Mario Benedetti morreu hoje em Montevidéu aos 88 anos. Considerado um dos principais autores uruguaios, ele iniciou a carreira literária em 1949 e ficou famoso em 1956, ao publicar ‘Poemas de oficina’, uma de suas obras mais conhecidas. O autor tinha um estado de saúde bastante delicado e estava em sua casa, na capital uruguaia, quando morreu”. Isso é mais que ridículo, é criminoso. Para sair desse quadro, passem o olho no El País, e leiam “El poeta del compromiso”. Um banho de informação.

Como a grande imprensa não vai lembrar, por ignorância ou omissão, divulgo um lindo poema de Mario Benedetti, que se refere ao Brasil, a Pernambuco. Perdoem a livre tradução de Muerte de Soledad Barret. O poema é um sensível registro, em Montevidéu, da dor que lhe causou a notícia da morte da bela e brava Soledad Barret Viedma. Soledad foi torturada e morta no Recife em 1973, entregue a Fleury pela marido, o cabo anselmo. Estava grávida, com cinco meses.

MORTE DE SOLEDAD BARRET

Mario Benedetti

Viveste aqui por meses ou por anos
traçaste aqui uma reta de melancolia
que atravessou as vidas e a cidade

Faz dez anos tua adolescência foi notícia
te marcaram as coxas porque não quiseste
gritar viva hitler nem abaixo fidel

eram outros tempos e outros esquadrões
porém aquelas tatuagens encheram de assombro
a certo uruguai que vivia na lua

e claro então não podias saber
que de algum modo eras
a pré-história do íbero

agora metralharam no recife
teus vinte e sete anos
de amor de têmpera e pena clandestina

talvez nunca se saiba como nem por quê

os telegramas dizem que resististe
e não haverá mais jeito que acreditar
porque o certo é que resistias
somente em te colocares à frente
só em mirá-los

só em sorrir
só em cantar cielitos com o rosto para o céu

com tua imagem segura
com teu ar de menina
podias ser modelo
atriz
miss paraguai
capa de revista
calendário
quem sabe quantas coisas

porém o avô rafael o velho anarco
te puxava fortemente o sangue
e tu sentias calada esses puxões

soledad solidão não viveste sozinha
por isso tua vida não se apaga
simplesmente se enche de sinais

soledad solidão não morreste sozinha
por isso tua morte não se chora
simplesmente a levantamos no ar

desde agora a nostalgia será
um vento fiel que flamejará tua morte
para que assim apareçam exemplares e nítido
as franjas de tua vida

ignoro se estarias
de minissaia ou talvez de jeans
quando a rajada de pernambuco
acabou completo os teus sonhos

pelo menos não terá sido fácil
cerrar teus grandes olhos claros
teus olhos onde a melhor violência
se permitia razoáveis tréguas
para tornar-se incrível bondade

e ainda que por fim os tenham encerrado
é provável que ainda sigas olhando
soledad compatriota de três ou quatro povos
o limpo futuro pelo qual vivias
e pelo qual nunca te negaste a morrer

COMÍCIO NO SERTÃO

By , 17 May, 2009 1:45 pm

COMÍCIO NO SERTÃO

Risomar Fasanaro (*)
A mãe serviu a sopa de palavras e toda a família tomou-a em silêncio. Era noite. Uma noite de névoa e trevas. Tão escura que os escombros da vida se escondiam entre as frestas do silêncio. Por isso, nem o pai nem os filhos perceberam que ela lhes servira o que de último lhe restara: palavras.
O pai voltava mais uma vez dos longos túneis de suas buscas, sem encontrar sequer a si mesmo. De todos os males talvez o desemprego fosse, para ele, o de menor importância.
Todos tomaram a sopa e foram dormir. No meio da madrugada, um dos filhos passou mal; suava frio e sentia dores abdominais. Só poderia ser conseqüência daquela sopa, pensou a mulher. E se nem isso pudessem mais comer, o que seria da família?
Resolveu que no dia seguinte iria escolher melhor as palavras, lavá-las muito bem; quem sabe ficara alguma impureza e por isso o pequeno passara mal?
Serviu um chá ao filho que logo melhorou e voltou a deitar-se, pensando no que prepararia para o almoço do dia seguinte. Não permitiria que suas revoltas substantivas, nem as (des) conjunções da vida prejudicassem sua grande descoberta.
Agora, mais segura, poderia dar-se ao luxo de demorar-se nessa escolha, de aprimorar suas receitas. E foi então que escolheu a palavra de que mais gostava: saudade. Por certo, uma palavra tão bonita não faria mal a ninguém.
Tomou-a entre as mãos, sentindo a maciez e a doçura que dela emanavam. Lavou-a bem, deixando que reluzisse ao sol cada curva, cada haste das letras que a compunham. Depois a temperou com sal e limão, e sozinha, colocou-a na boca e saboreou cada letra, cada sílaba. Sentiu-a fria na boca, e quando tentou engoli-la, foi como se de repente ela crescesse, formasse um nó, fechando a garganta. Fez força e conseguiu engoli-la, provocando no mesmo instante um frio, um peso no estômago que lhe tomou o peito, como travo de fruta verde…
Algum tempo depois o mal-estar passou, mas quando menos esperava voltou a sentir o nó na garganta e a dor no peito dificultando-lhe a respiração, como se fosse morrer. Sentiu medo. Ainda bem que experimentara antes de servi-la ao marido e aos filhos. E pensou: se depender de mim, jamais eles comerão isso.
Já não sabia o que cozinhar, mas decidiu insistir, pois nada havia para comer, até encontrar uma forma de servir as palavras de modo que não fizessem mal.
Escolheu os vocábulos attonitta, inamorare, inodio e acumene. Com uma faca bem afiada, provocou aférese em todas elas. Depois, lavou-as bem em uma bacia de ágata que ganhara de uma ex-patroa, cozinhou-as com alho, sal, pôs coentro e serviu à família.
Mesmo com todos esses cuidados, algumas palavras ainda eram indigestas, e no final da tarde o marido estava com febre. Foi aí que ela resolveu podar, limpar todas as arestas, provocando síncope, crase, haplologia e sinalefa. Ia cortando tudo e de malu fez mal, de amare fez, amar e continuou com lepore, manica, liberare, atroce, legale, dolore, rodador, idolatria….
O dia e a noite transcorreram tranqüilos. A família, enfim, acostumara-se à nova alimentação, e como já não recolhia os restos da feira, passou a ser motivo de curiosidade. O que estava acontecendo? Alguém estava lhes doando alimentos?
A mulher, sem nenhum mistério, contou o que descobrira, e ante a descrença dos vizinhos, explicou como preparava os pratos. Ali mesmo explicou às outras mulheres como fazer um refogado de dígrafos, com molho de consoantes.
É claro que ela não dava aos ingredientes os mesmos nomes que eles receberam dos gramáticos. Jamais em toda sua vida tivera entre as mãos uma gramática, muito menos histórica. Se lhe dissessem que servira metaplasmos à família, por certo ficaria horrorizada, ou riria…
-Mas onde a gente encontra esses negócios? – perguntaram-lhe os vizinhos.
-Ora, e vocês não sabem?
Depois de ensinar onde buscar palavras advertiu:
-Vão com cuidado.. Comecem do jeitinho que eu falei. Primeiro a, e, i, o, u. Façam sopa, depois usem as outras letras, vão juntando, e só depois de bem-acostumados, usem palavras inteiras, e depois as grandes.? Vão cortando, limpando… Depois de um tempo vão poder comer qualquer uma. Nada mais vai fazer mal a vocês.
A partir daquele dia, os estômagos daquele lugarejo nos confins do sertão, acostumaram-se àqueles novos alimentos. Alguns dentro de pouco tempo puderam dar-se ao luxo de comer palavras que haviam sofrido prótese, epêntese, paragoge e anaptixe.
Tudo corria bem, nem mesmo houve qualquer ocorrência policial durante vários dias. E assim continuaria se um incidente, durante um comício, não viesse atrapalhar a vida daqueles moradores.
Finalmente chegou o dia do comício e vieram os candidatos às eleições para deputado, senador, e até, um ao governo do Estado. O comício teve início às dezessete horas, mas desde as oito as pessoas começaram a chegar com suas sacolas, para guardar lugar. Postaram-se em frente ao palanque à espera deles. Houve empurrões, xingamentos e provocações, desde o início da aglomeração. Todos queriam ficar bem na gente, na primeira fila.
Um adolescente com ginga e feição de quem não perde uma briga por nada desse mundo, gritava:
– Eu vou ficar é aqui, na fila do gargarejo. E quero ver se tem valente aqui que me tire.
E enquanto dizia isso, deixava que reluzisse ao sol o brilho de uma peixeira. Quando os candidatos chegaram e viram toda aquela multidão reunida, gritando e pulando, ficaram maravilhados, pois se há coisa que político gosta de ver é platéia para seus discursos. Era preciso saber quem era o cabo eleitoral que organizara tão bem aquele comício.
Subiram ao palanque, e deram início aos discursos. Um deles dizia:
– Exigiremos do governo federal uma reforma tributária e um rígido controle dos juros. Não permitiremos que se comprometa o crescimento.
Logo depois outro dizia:
– Jamais permitiremos que a crise nos alcance. Ela que fique por lá, pelos Estados Unidos, pela Europa, aqui ela não entra. Nosso povo não merece e não quer mais sofrer, e a vontade do povo é soberana. Pelo povo, tudo sacrificaremos. Cortaremos até nossa própria carne, se preciso for!
Em seguida, o que pretendia o cargo de governador do Estado, um sujeito magrinho, raquítico, inflamava-se todo e, na ponta dos pés, gesticulando muito, prometia:
-Nenhuma criança ficará sem escola, e as secretarias da Saúde e da Educação irão receber, no meu governo, as maiores verbas do orçamento do estado. Nenhuma criança ficará sem escola. NE-NHU-MA, eu repito. Este é um compromisso que eu assumo e que vocês poderão cobrar lá no Palácio. Sim, porque serei eleito, com toda certeza, e então, meus amigos, farei daquele palácio a casa do povo!
As pessoas pulavam, gritavam agarravam as palavras, as frases e as guardavam nas sacolas. Algumas eram tão espertas, que conseguiam alcançar parágrafos inteiros. Os oradores estavam eufóricos com aquele público tão vibrante, e que manifestava seu entusiasmo com as mãos, os pés, o corpo todo. E continuavam os discursos:
-Vamos restaurar a tranqüilidade. Não haverá mais seca, pois construiremos um açude a cada quilômetro deste município. Também não haverá enchentes, pois não permitiremos que vocês percam seus pertences, suas casas, seus familiares. Para isso temos projetos de abastecimento de água durante o verão e de escoamento da água na época das chuvas.
Com  voz forte, um candidato a deputado estadual dizia:
-Vamos restaurar a tranqüilidade. A população não sofrerá mais ataques de bandidos. Para isso nosso governador aqui presente já assumiu que colocará centenas de policiais  nas ruas…
Uma velhinha sentada à porta de um armazém murmurou baixinho: mas aqui nunca houve ataque de bandidos…
 Lá embaixo, o público se engalfinhava:
-Sai daí, seu vagabundo, essa população aí eu vi primeiro. Num toma não. É minha, dá aqui. E puxava a palavra pela cedilha, tomando-a do outro.
-Conversa, seu filho da puta, eu é que vi primeiro e já tinha até enfiado na sacola.. Num dou mesmo!
-E você aí, vai ficar dando chute em mim, vai? Tomou a inflação que eu tinha agarrado no começo do comício e agora ainda quer o crescimento, é?
-Cuidado, sua ordinária, não vem me dando soco não. Passa o tempo todo dormindo e agora quer tirar o atraso, é? O controle é meu.
– Eu peguei pra fazer uma omelete pro meu menino que tá com vontade faz dias…Sai daí, já avisei. Eu te dou um chute nesse bucho que tu vai ver!
-Por que tu não pegou os policiais que caíram ainda há pouco nos teus pés? Tu tava bem embaixo do homem que tava falando neles…….
-Tu pensa que eu sou besta, é? Pega tu, seu lazarento!
Em poucos minutos a confusão era tamanha, que não era possível entender mais nada do que se dizia no palanque. A pancadaria foi tão grande que atingiu também os políticos, e esses tentaram com seus seguranças, controlar a situação. Inútil. Todos se agrediam, e de longe só se enxergava a poeira correndo solta.
A velhinha que estava na porta do armazém, quando viu que um dos oradores estava caído, criou coragem e foi devagarinho até o palanque, enfiou a mão na boca do candidato, e conseguiu recolher ainda quentinhas, e molhadas de saliva o parágrafo inteiro:
-Puta merda, que miséria! Bando de marginais! Tinha que ter trazido mais seguranças. Pra essa corja, só no pau!
A velhinha, ainda apanhou mais algumas palavras daquele discurso do homem ferido, que escorreram pela terra, envolveu-as no avental, já que não levara sacola, por considerar-se incapaz de concorrer com os jovens no recolhimento das palavras. Depois desceu calmamente, rindo muito, e seguiu o caminho, para o seu mocambo, com seu almoço do dia seguinte garantido.
O restante do povo continuou ainda brigando, e já era madrugada quando a polícia chegou e levou muita gente presa. Uns apresentavam hematomas, outros sangravam e apresentavam fraturas. Clareava o dia quando os menos atingidos voltaram para casa.
No dia seguinte, todos, mesmo os detidos na noite anterior, felizes com a abundância, trocavam receitas pelas ruas da cidadezinha. Esquecidos das brigas, como se nada houvesse acontecido. Um dia de felicidade e fartura..
A lua começava a subir no horizonte quando as primeiras pessoas começaram a passar mal: vômitos, diarréia, convulsões, e uma fortíssima erupção no corpo todo. Em pouco tempo todos no pequeno lugarejo tinham sido atingidos.
Chamaram o único médico do lugar que, sozinho, não conseguiu atender a todos. Vieram ambulâncias da capital e dos municípios vizinhos. Conduziram os doentes aos hospitais da região que ficaram lotados com tantos pacientes. Entre os muitos internados 134 morreram, embora os jornais noticiassem a morte de 27. Entre os mortos estavam a velhinha do avental e a primeira mulher que descobrira as receitas e ensinara a todo o lugarejo que era possível se alimentar com palavras.
Contudo, o mistério permaneceu: como é que pessoas tão fortes, acostumadas a comer até os restos que recolhiam das feiras, tinham morrido tão rápido? Para os médicos aquelas pessoas tinham sido vítimas de algum vírus desconhecido, e embora os cientistas tenham pesquisado muito, jamais descobriram o que causara a intoxicação e a morte de tantas pessoas…
(*) Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.

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