QUANDO OS CORONÉIS TREMERAM…

By , 5 May, 2013 4:58 am

DAVID YANOMAMI ÍNDIO KARAJÁ Mário Juruna_thumb[3] raoni_trocadero

QUANDO OS CORONÉIS TREMERAM

Memélia Moreira

(Segue aqui minha homenagem a líderes indígenas que escreveram e ainda escrevem a história da resistências dos povos dominados: Mário Juruna, Raoni, Aniceto Tsvadzére, Celestino Xavante, Arutana, Modesto Terena, Maluwaré, Híbes Menino, Bedjai, Kokrid Panará, Ângelo Kretã, David Kopenawa Yanomami, Krumari, Marçal Tupã-í, Kremuro, Pio Suruí, Getúlio Krahô, Pio Tapirapé, Daniel Matenho Cabixi, Álvaro Tukano, Marcos Terena. Todos eles, em algum momento,  frequentaram minha casa e me deixaram um legado para a vida.)

Já é madrugada de uma fresca primavera nessa tórrida Flórida, que flerta à distância com minha América, a América do Sul, piscando seus olhos de cobiça sobre o Caribe. Entre saudades das filhas e neta, da família e dos amigos, leio as notícias da recente ocupação do canteiro de obras da faraônica barragem de Belo Monte. A repressão, a censura, a tentativa de esmagar povos que defendem sua própria sobrevivência e a sobrevivência do planeta me fazem lembrar tantas outras resistências e o dia em que os coronéis da ditadura tremeram. De medo.

Era noite de domingo, quatro de maio de 1982. Estava em casa com minhas filhas, ainda crianças, quando o telefone toca. Do outro lado da linha uma voz conhecida diz “venha aqui pra casa agora. Temos uma reunião de emergência. E você vai ter que viajar hoje à noite”. Respondi ser impossível porque não tinha com quem deixar minhas filhas. E então a voz, responde “estamos mandando alguém para ficar com as meninas”.

A reunião era na casa de Cláudio Romero, antropólogo e indigenista. Um combatente. Havia outros indigenistas e funcionários na Funai. Conspirávamos. Foi quando decidiram ser eu a “pessoa certa” para uma missão delicada e quase arriscada. Fui designada, por ser jornalista de um importante veículo (Folha de São Paulo), a escoltar um ônibus que transportava 60 índios do povo Xavante. E eles estavam pintados de vermelho. Só exigi levar o fotógrafo que sempre me acompanhava. Concordaram. Embarquei no bravo fusquinha AD-1715, sem carteira de motorista, documento que só tirei depois dos 50 anos. Sem mapa, porque conheço os caminhos que me levam à Amazônia, segui viagem.

Já era tempo de frio nos sertões de Goiás. O encontro foi marcado no trevo de São Luís dos Montes Belos. E lá nos esperava o saudoso Antonio Moura, jornalista do Porantim.

A madrugada  esfriava cada vez mais. O jeito era recorrer a uma cachaça para não congelar dentro do carro.

Ser mulher e ter a ousadia de entrar num restaurante de beira de estrada, às 3 da manhã para pedir uma “azuladinha” é igual brincar na montanha-russa. Mas, alertada por Guimarães Rosa, sei que viver é perigoso. Muito perigoso. Tomei uns goles e até exorbitei,  puxando conversa no balcão.

Pelas quatro da manhã, surge nosso ônibus. O fotógrafo dormia no carro, Moura tentava se concentrar na matéria que escreveria, enquanto eu fumava um charuto, planejando o quê dizer se fôssemos interceptados pela Polícia Federal. Foi para essa tarefa que me convocaram. Tinha que levá-los a Brasília. E cumpriria a missão.

Extasiada com o espetáculo do alvorecer, que nos sertões do Goiás na época da seca leva qualquer um à poesia,  acompanhei o ônibus. As barreiras policias de um país sitiado pela ditadura não se movimentaram. Chegamos a Brasília por volta das sete da manhã. O destino era o centro de estudos mantido pelos jesuítas, ao norte da cidade.

Voltei para casa. Precisava tomar um banho, sentar à mesa do café da manhã com minhas filhas e, descansar um pouco. Foi pouco mesmo. Elas foram para o parquinho. Às nove da manhã, quando mal começava a dormir, o chefe de redação do jornal telefona: “Memélia, vá direto para a Funai. Os índios cercaram o bloco A do Setor de Autarquias Sul. Há um batalhão de choque da PM. Mas, toma cuidado.” Que saudades dos chefes que tanto me conheciam.

Em menos de 15 minutos e com uma xícara de café forte na mão, já estava no fusquinha. E nem precisava me apressar. Afinal de contas, só Antonio Moura, e eu, tínhamos  a história completa. Mas  jamais perderia um minuto daquele dia.

O prédio borbulhava. Na calçada da entrada principal, 180 policiais militares com capacete, escudo, cassetete, armas no coldre, esperavam a ordem para atacar. Lá dentro, o pandemônio.

Aos 60 xavantes se juntaram mais 40 de 16 etnias diferentes. Pankararu, Makuxi, Suyá, Karajá, Kaingang, Terena, Nambiquara, Trumai, Parakategê, Guarani, Kaxinawá, enfim, todos os índios que estavam em Brasília reivindicando seus direitos se uniram naquele momento de resistência.

O presidente da Funai era o coronel João Carlos Nobre da Veiga. Naquele mesmo ano ele foi envolvido no escândalo da Capemi (lembram do caso Baumgarten, do travesti Polica e do coronel Newton Cruz? Pois é) e na venda ilegal de madeira derrubada para a construção da farônica e inútil hidrelétrica de Tucuruí. Nobre da Veiga presidia a Funai, vendia madeira de terra dos índios, ia a Paris dançar bolero no “Le 78”  e ainda comandava outros 19 coronéis todos com altos salários empoleirados em “funções de confiança”.

Do seu time, figuravam os coronéis da Aeronáutica, Roberto Guaranys, do grupo  que queria explodir o Gasômetro do Rio de Janeiro. A explosão serviria para  endurecer o poder militar que  vinha perdendo suas forças. E também o coronel Ivan Zanoni Hausen, conhecido como “doutor da mata” nas sessões de tortura contra os guerrilheiros do Araguaia. Um circo de horrores.

No oitavo andar, ocupado pela Funai, gavetas eram esvaziadas, processos do DSI  (Departamento de Segurança e Informação) rasgados e atirados pela janela. Os muitos servidores que eram subservientes e cúmplices dos coronéis se encostavam pelas paredes, olhos arregalados de medo, sem bússola, sem proteção dos chefes, sem saber o quê fazer.

Com pouco mais de um metro e meio de altura e medalha no peito por ter combatido nos campos da Itália durante a II Guerra Mundil, o coronel Nestor  andava de botas de montaria dentro da Funai. Sem qualquer razão específica agredia índios, jornalistas e qualquer um que se atrevesse a cruzar seus passos barulhentos. Ele foi içado por quatro índios. Carregando o coronel, entoavam a contagem regressiva. “3..2…”  Iam jogá-lo pela janela. Cheguei no exato momento em que o coronel, com voz de caniço rachado e chorando, gritava pedindo ajuda. “Ezequias, Ezequias, me socorre”. Ezequias era nada menos do que meu querido amigo. O  Xará de todos nós, um resistente que, por sua generosidade e senso político, evitou a  cena com uma cabeça de coronel virando farinha suja de sangue no asfalto do estacionamento…

Eu subia e descia os oito andares do Bloco A. Cheguei à porta principal e o coronel Hausen, cabelos eriçados, em total desespero, me pergunta, “o que é que se pode fazer”. Com o mais singelo sorriso (e uma vontade imensa de dizer “que se danem vocês”) respondi, “só resta negociar, coronel”.

Rodeado por seus seguranças, Nobre da Veiga, o presidente, homem irritadiço que quando perdia a paciência puxava a perna da calça até chegar à altura do joelho, e depois desenrolava até o tornozelo, ouve o coronel Hausen e pergunta se eu podia ajudar. Assumo imediatamente a famosa “neutralidade jornalística” e digo, “coronel, não posso fazer nada. Vim aqui só para fazer matéria para meu jornal”.

Que maravilha devolver aos dominadores os mitos que eles criaram para sufocar os povos que se levantam!

Os boatos começam a circular. “Mandaram prender Cláudio Romero”. Ou, então “Odenir está preso”. Odenir Pinto de Oliveira é  indigenista, apelidado “Xavantão”. Xavante mesmo. Mestiço. Criado em aldeia, fala a língua do seu povo tão bem quanto fala a língua portuguesa.

Já perto de meio-dia, o chefe xavante Aniceto Tsvadzére vai ao encontro dos policiais. Para em frente de cada um e diz as mesmas palavras. “Quando nós recebemos vocês na nossa terra, nós não mandamos guerreiro com arma para assustar vocês. Estamos aqui só para lutar pelos nossos direitos”. E apertava a mão do soldado. Foram 180 aperto de mãos. Aniceto era o diplomata do seu povo.

A situação continuava em descontrole. A essa altura, a imprensa internacional já subia e descia as escadas, câmeras no ombro, pedindo tradução das palavras de ordem, também assustados com os gritos e os corpos dos índios pintados de urucum.

Odenir e Cláudio Romero chegam. Para não receberem voz de prisão, entram protegidos por deputados do PMDB. Dante de Oliveira, que depois apresentou a emenda constitucional pelas eleições diretas para presidência da República, vinha na frente do grupo. Todos de braços dados.

Faz-se a negociação.

Volto para minha Olivetti e descrevo, com detalhes, o  dia que começara na noite de quatro de maio e se estendera por todo o dia 5. Matéria de primeira página de todos os grandes jornais do país.

Vou para casa levando cinco índios que passaram a noite tramando a nova ocupação. Ela aconteceria menos de 12 horas depois.  Minhas filhas dormiram na minha cama, aconchegadas ao meu corpo para matar as saudades da mãe sempre ausente. E, na biblioteca, armamos redes para os hóspedes insones.

Aquela foi a primeira ocupação de uma propriedade do Governo. Uma ação inédita que depois se repetiria pelo Brasil ao longo das resistências.

Por que será que tantas lembranças turbilhonam minha cabeça nessa madrugada de cinco de maio? Por que não jogar essas lembranças no fundo da arca? Porque Belo Monte, essa hidrelétrica planejada pelos ditadores do regime militar e executada por um Governo que prometia mudar a história dos povos deserdados, é a refilmagem de um momento que vivi e que se repete como um pesadelo contínuo. Porque as cenas da ocupação dessa obra criminosa, que vai destruir meu mágico Xingu são o testemunho mais vivo de que a luta na defesa da sobrevivência humana será prolongada. E só derrotaremos o seleto grupo de convidados para o banquete quando as palavras de Giuseppe Tomasi, duque de Palma, príncipe de Lampedusa, – “se queremos continuar como está, vamos mudar para que nada se transforme”- , enxovalhada pelo excesso de uso, seja atirado ao lixo não-reciclável da História. Caso contrário, o desabafo feito por David Yanomami, perplexo e triste, sentado no sofá da minha sala será citada como profecia: “Eles fazem tanto buraco no chão para buscar ouro que um dia a terra vai cair porque a riqueza do fundo da terra é que segura o mundo para não despencar tudo”.

PAPAI, CHICO MEIRELES E OS GAYS

By , 30 April, 2013 11:14 am

PAPAI, CHICO MEIRELES E OS GAYS

Memélia Moreira

Papai se chamava Geraldo Guimarães Moreira. Era boêmio, libertário amoroso e dava o sangue e a alma pelo “Jornal do Povo”, fundado por seu irmão, meu tio, Neiva Moreira, em 1950 e   fechado dias depois do golpe de abril de 1964. Papai nasceu em 15 de janeiro de 1920, na cidade de Barão de Grajaú, no Maranhão.  Morreu em janeiro de 1971.

Francisco Meireles era amoroso, libertário, não sei sobre suas boemias, sertanista, entregou a vida aos índios. Nasceu em 21 de fevereiro de 1908, na cidade do Recife e morreu em junho de 73.

Não me debrucei sobre os vícios e defeitos de nenhum dos dois. Nem me interessa. Guardo deles lições de vida que me moldaram e hoje são importantes para que eu assuma algumas bandeiras atuais.

Antes de mais nada, me apresento. Nasci em 23 de outubro de 1947, na cidade de Boa Vista, capital de Roraima e cresci entre Rio de Janeiro, São Luís do Maranhão, minha paixão, e Brasília, paixão igual.  Sou jornalista, libertária, de formação intelectual errática. Hoje leio István Mészaros e em seguida, abro Marie Claire, Vogue ou Elle e mergulho intensamente nas frivolidades ditas. Tenho paixão por Machado de Assis, Marcel Proust, Dostoievsky. Baudelaire, Bandeira Tribuzi, Sousândrade, Rimbaud, Pepetela, Mia Couto e tantos outros. Os amigos dizem que sou generosa. Pode ser. Dos meus defeitos, eu sei. Sou impaciente com pessoas neutras, intolerantes de qualquer natureza, mal-humoradas e, principalmente com aquelas que carregam o que chamo de “pollyanismo’, essa mania de acreditar que tudo está bem e querer agradar todo mundo o tempo todo. Bato de frente com quem se escuda atrás de qualquer religião, mas rezo sempre que me lembro. E, antes que me esqueça: heteroessexual bem resolvida.

Que traços em comum teriam Papai, Chico Meirelles e os gays.  Calma, mais adiante vocês vão saber. E se alguém estiver esperando por um tratado sobre gays, esqueça. Não tenho nenhuma tese sobre o assunto e nem sei citar os clássicos que tentam explicar porque um homem ou uma mulher é homossexual. Acho que a natureza, os fez assim. A mim me basta essa certeza.

Estou escrevendo tudo isso porque fui provocada por uma história contada por um jornalista de quem gosto muito. Chama-se Carlos Marchi.  Há dias ele postou no Facebook, esse grande ponto de encontro, militâncias, onde se debate desde o mais recente botox da Esplanada dos Minsitérios, passando pelas piadas, poesias, manifestações governistas e anti-governistas, intrigas políticas nacionais e internacionais e, principalmente, assuntos da ordem do dia uma pequena notícia.

Pois bem, Carlos Marchi nos conta história que aconteceu num parque público em São Paulo. Dois homens se beijavam na boca e uma criança assistiu a cena. Curiosa, como devem ser as crianças, perguntou à mãe o significado da cena. A mãe, sem responder, pegou o filho e se afastou correndo do beijo. Marchi disse que não saberia responder a pergunta se ela fosse feita por um filho seu. E eu sugeri ao meu amigo que a mãe respondesse apenas, “ele se beijam porque querem se beijar”. Nada mais simples.

Meus questionamentos me importunavam. E eu me dizia, que sorte a dessa criança e de sua mãe. Nenhum dos dois viveu o tempo em que o beijo público entre um homem e uma mulher também era uma cena vamos dizer, imoral, escandalosa. Nem precisa ir muito longe. “Cinema Paradiso” me resgatou. A herança deixada por Alfredo, que juntou no mesmo celulóide todas as cenas de beijo, entre um homem e uma mulher, cortadas pela censura religiosa de uma Itália da primeira metade do século XX me deu um alívio sobre a evolução da humanidade.

Mas os neuroniozinhos ainda não estavam satisfeitos. A história e a tentativa de montar a cena do parque continuavam beliscando meus pensamentos. E então, um filme, sem celulose, me transportou à minha infância tão rica em experiências. E, também, aos aprendizados que o Jornalismo me concedeu.

Era final dos anos 50, eu andava aí pelos 11, 12 anos, na minha ilha de São Luís, chamada de “Ilha dos Amores” ou, “Ilha Rebelde”. Seu Frauzino era um líder da comunidade do Sacavém, bairro proletário.  Negro retinto (no Maranhão, a pele negra tem vários tons: “negro retinto”, ou seja, puro; o “Roxinho”, com aquela tonalidade de pele comum aos indianos, paquistaneses; “Mulato claro”, ‘Mulato escuro” e outras subdivisões das quais já me esqueci), e olhos amendoados, ele era também nosso cabo eleitoral.

Um dia, alguém contou ao Papai que seu Frauzino, figura que frequentava muito nossa casa, era “maricas” (denominação socialmente aceita para denominar os “qualiras”, regionalismo maranhense para gays). O assunto foi lembrado na hora do almoço. E Papai, aquele homem que nasceu na segunda década do século XX apenas respondeu, “Isso não interessa. E daí, muda alguma coisa? Ele não é homem, nem mulher, ele só é diferente. É assim. E, pronto”. A discussão morreu. Não para mim que a guardei em alguma gaveta da memória.

Nos início dos anos 70, já com meus 24, 25 anos, convivi de perto com o sertanista Chico Meireles. Tenho dele grandes lembranças de ensinamentos que só depois de madura percebi a grandeza do que aprendera. Lembro de Chico Meireles deitado na rede num apartamento modestamente mobiliado na 205 Sul, em Brasília. Jornais espalhados pelo chão e o cheiro da caldeirada de peixe que borbulhava na cozinha integram essas lembranças. Ali, entre jornais e goles de cachaça, se escrevia a história de alguns dos povos indígenas da Amazônia, principalmente a da nação Xavante.

Seu Chico participou de muitas frentes de atração de índios sem contato com a sociedade nacional.  Era sertanista desde os tempos do SPI (Serviço de Proteção aos Índios) e se aposentou pela Funai.

Numa dessa frentes de contato, estava com seu filho Apoena Meireles e seu genro, Ezequias Heringer, o “Xará”. Filho e genro também sertanistas. Xará foi meu querido amigo desde a adolescência até meus 40 anos, quando um acidente de carro o matou. Era meu confidente, pai, irmão. E brigávamos muito. Muito mesmo. O machista mais carinhoso com quem convivi.

Da frente de atração, além de Chico Meireles, Apoena e Xará, havia um indigenista apelidado “Campinas”. Gay.

Um dia, em plena floresta, nas proximidades do rio Peixoto de Azevedo, Mato Grosso, terra dos Krena-Karore (Panará), Xará e Apoena chegam esbaforidos perto da rede de seu Chico e contam, indignados e atropeladamente, que Campinas, o indigenista gay, “estava comendo os índios”. E eles não falavam exatamente de canibalismos.

O velho Chico, mais indignado ainda, senta-se na beira da rede e pergunta: “Apoena, o cu é seu?”. Apoena, já de cabeça baixa, responde “Não”. Vira-se para “Xará e refaz a pergunta, “Xará, o cu é seu?”. Quieto, mas trincando os dentes, Xará responde “Não”. E aí aquele homem que nasceu no começo do século XX, deu a lição: “O cu é dele. Vocês dois não tem que reclamar de nada. Deixem o Campinas em paz e não me encham o saco”. Era assim, seu Chico Meireles.

Agora, já nos meus 65 anos aquela lição de respeito ao outro que esses dois homens me deram em épocas tão diferentes da minha vida me devolvem à criança do beijo. E não mais acredito que ela é uma criança de sorte. Vai atravessar o século XXI sem ter  vivido a oportunidade de receber uma aula  de respeito quando viu dois homens se beijando. E lamento mais ainda pela mãe do garoto que jamais entenderá as tantas variedades de amor manifestadas pelo ser humano.

Marchi, meu amigo, eu te agradeço muita aquela postagem. Tu reavivastes momentos esquecidos.  Até agora nem eu sabia a razão pela qual defendo a bandeira dos gays. Não é apenas porque minha militância política está sempre a postos para lutar em defesa dos discriminados de um modo geral. Mas porque, no passado, dois homens tão diferentes entre si imprimiram em mim a noção da alteridade. E, mais ainda, a respeitar essa alteridade.

Que se beijem todos!

Que se beijem homens e mulheres, mulheres e mulheres, homens e homens, anjos e demônios, todos. Eu prefiro vê-los aos beijos que entre quatro paredes construindo bombas ou planejando a destruição do planeta que me serve de moradia. E   porque, canta o poeta…

 

“…Eles amaram de qualquer maneira, vera

Qualquer maneira de amor vale a pena

Qualquer maneira de amor vale amar

 

…Qualquer maneira de amor vale aquela

Qualquer maneira de amor vale amar

………………………………………

Qualquer maneira de amor valerá”

CAÇADA HUMANA, ESPETÁCULO EM CINCO ATOS (OU, CINCO DIAS)

By , 21 April, 2013 5:25 pm

BostonCAÇADA HUMANA,

ESPETÁCULO EM CINCO ATOS (OU, CINCO DIAS)

Roteiro, Direção e Sonoplastia – CIA, FBI, POLÍCIA DE BOSTON

Participação Especial – Sociedade Americana

Narração – Fox News

 

Memélia Moreira

Era Boston, início da tarde de 15 de abril, numa primavera sonolentae e ainda fria, quando dois irmãos sairam de casa. Nas costas carregavam um elemento cada dia mais demonizado pela sociedade americana: mochila. E essa tinha seus perigos. Ela transportava uma bomba. Caseira, rudimentar, de baixo impacto, de fácil feitura, feita em panela de pressão.  Mas continuava sendo uma bomba. E bombas, de nêutrons ou caseiras, são construídas com o mesmo objetivo. Para matar.  Sempre.

Os jornais da cidade de Boston naquela segunda-feira, dia da “segunda maratona do mundo” (a primeira continua sendo a grega) trazem notícias corriqueiras., além do assunto do dia, a maratona . Nas primeiras páginas do jornais de Boston, New York, Washington, Chicago, Miami, nenhuma linha sobre o que acontecera na véspera, domingo, 14 de abril. Naquele dia, 30 pessoas, entre elas oito crianças,foram mortas por um drone no Afeganistão. A máquina da morte confundiu uma cerimônia de casamento com ato terrorista. Há quem concorde.

São 2h17 minutos da tarde de 15 de abril na bela e culta cidade de Boston. Correrias, sirenes, multidão em polvorosa.  A bomba havia explodido. Quatro pessoas são envolvidas em sacos plásticos. Mortas. Outras 160  se espalham pela rua interditada e pelas calçadas. Feridas. Comoção nacional. Não pelo drone que matou 30 pessoas inocentes. Mas pelo “ato terrorista” que matou quatro pessoas, inocentes, entre eles um garoto,  e mais 160 feridos. Um deles, com pernas amputadas.

24 horas do atentado, nenhum suspeito. Nada.  Nenhuma testemunha mas (as conjunções adversativas sempre mudam a história do mundo), surge a primeira imagem, um primeiro suspeito. Alguém que andava sobre os telhados na hora da maratona.

As especulações qual coriscos ensandecidos, riscam os céus de Miami, Chicago, Washington, New York e Boston.  “Isso é coisa do Tea Party”, reclamam uns. “Parece que foi ação de quem é contra a alta de impostos”, bradam outros. Ninguém se lembra de que o Congresso dos EUA está, nesse momento, discutindo uma Lei de Migração menos draconiana. A discussão arrepia e traz pesadelos para a  extrema direita e seu atual líder, senador pela Flórida, Marco Rúbio. Filho de cubanos fugidos da ilha nos 60.

Quarta-feira, 17 de abril. A câmera de um “anônimo” traz, finalmente, aquilo que mais de 300 milhões de americanos esperavam. A imagem de dois rapazes. Eles e suas e suas mochilas.  Os dois próximo à lixeira onde a bomba fora deixada.

Ainda é 17 de abril. A voz da âncora da Fox News ecoa pelos ares de um país em pânico. Mas, antes de qualquer pronunciamento oficial, a âncora da Fox News canal de televisão de Rupert Murdoch  (a mesma que se recusou a acreditar na reeleição de Obama) deixa escapar o cheiro da panela. Um cheiro de Islam servido num samovar.

17 de abril, em Boston, a câmera com imagem dos dois irmãos, de nomes impronunciáveis no Ocidente, se junta a outras câmeras. A CIA entra em ação para ampliar as imagens que mais a interessavam A dos dois irmãos.  A Polícia de Boston nega ter feito a captura de qualquer suspeito.

Já é quinta-feira, 18 de abril. CNN, com seu noticiário desbotado e Fox News exigindo vingança passam a centralizar o noticiário na busca dos “terroristas”. Às nove da noite desse dia, as imagens dos dois irmãos surge nas telas das redes sociais com a tarja “Wanted” (Procurados). A mesma tarja utilizada na colonização da costa Oeste do país para encontrar pistoleiros ou ladrões de gado, de banco…

Ainda é quinta-feira. Dez da noite. O lado Leste dos EUA   já se entregou ao sono.  A sociedade estadunidense dorme cedo. Mantém até hoje hábitos rurais, com algumas exceções. Na Fox News, uma voz embargada de emoção anuncia que uma loja de conveniências foi assaltada. Eram os dois irmãos. Eles também fizeram um refém, o dono de uma Mercedes SUV (Sport Utility Vehicule), um jeep possante. O refém escapa enquanto os irmãos assaltam a loja. Nem o FBI, nem a CIA, nem a Polícia de Boston mostra a loja do assalto e muito menos o cidadão sequestrado.

A partir daí, a tarja “Wanted” pode ser substituída pela tarja “Fiction”. Ou, com o aviso de acredite, se quiser. Porque, nessa tragédia, com cinco mortos (os quatro pela bomba e um dos irmãos pela polícia) a verdade de substantivo abstrato, torna-se substantivo volátil.

10h30 minutos da noite de quinta-feira, os dois irmãos, mesmo num carro possante, não tinham se afastado tanto do local do sequestro seguido de roubo. A Polícia cerca o carro. Uma câmera imóvel filma o tiroteio. O som dos tiros são nitidamente de armas do mesmo calibre.  Mas a versão oficial informa que a polícia foi recebida com bombas, embora o vídeo de câmara parada não mostre nenhuma explosão.

O mais velho dos irmãos é preso (ou se entrega, ninguém sabe). E morre “a caminho do hospital”. Ou vocês pensavam que só bandido brasileiro morre a caminho do hospital depois de “intensa troca de tiros”.

O irmão caçula, ferido, consegue escapar. Deixa um rastro de sangue, mas a polícia não segue as pegadas frescas. Desloca-se para uma pacata cidadezinha, Watertown para vasculhar a casa onde, afirmam as autoridades, viviam  os irmãos. A essa altura, o telespectador já sabe que eles são estrangeiros. Vieram da sofrida Chechênia, país localizado numa região onde a morte chega pelas mãos das tropas de ocupação estacionadas no Afeganistão, pelos russos ou, pela arma mais abjeta criada pela indústria armamentista dos Estados Unidos, o drone.

Os repórteres, âncoras e comentaristas se entreolham decepcionados. Por que Chechenia? Afinal de contas,  Chechenia, é um país invadido pela Rússia. Seus imigrantes têm direito ao status de “refugiados”. Ou seja, os dois estavam fugindo do antigo inimigo número um dos EUA, a poderosa União Soviética. Um fantasma que por mais de cinco décadas povoou os pesadelos dos americanos. Não fazia sentido, bradavam os analistas e especialistas em Segurança e Terrorismo.

Helicópteros, carros anti-bomas, agentes com colete do FBI, Polícia de Boston, sirenes incessantes. A casa é cercada. São 10h30 da manhã de 19 de abril. A caçada fora iniciada doze horas antes. O movimento é acompanhado por centenas de jornalistas e canais de TV. As ruas da cidade foram fechadas. Ninguém entra ou saí. Os vôos, cancelados. Boston e seus arredores transformam-se em cidades sitiadas. “Estou no meio da guerra” dizia ao microfone um repórter da Fox News num cenário onde não se via carros ou pessoas.

Pé ante-pé, rodeados por câmeras de grandes e pequenos canais de TV, batalhões de policiais, agentes do FBI, especialistas em desarmar bombas, helicópteros de guerra sobrevoam a pacata Watertown.

A âncora da Fox News baixa o tom de voz dramaticamente para dizer, “o procurado é uma pessoa de extrema periculosidade”. Ela está rouca e muito excitada. A polícia, qual seriado de TV, põe a arma em diagonal (nunca entendi porque as armas ficam na diagonal da mão quando a polícia busca criminosos). Chegam à casa onde viveriam os dois irmãos. Não se ouve nada. Nenhum som.

Frustração. Os policiais abandonam a busca. E saem declarando que havia um verdadeiro arsenal dentro da casa vazia. E muitas bombas, algumas delas de alto poder destrutivo e que “exigem treinamento para sua fabricação. . ,Não há imagens do arsenal.

Só um protesto diante da cena. A tia dos dois irmãos é advogada. Sem papas na língua. E vive no Canadá. Quando uma jornalista lhe pergunta o que acha do fato de seus sobrinhos terem bomba em casa, ela, voz firme, com forte sotaque do Leste europeu, responde “Evidências. Quero evidências de que havia bombas. Quem está está informando sobre as bombas é o FBI e a CIA. Mas não há evidências”. E até agora as evidências continuam no anonimato.

Ninguém contesta a informação. Ninguém se pergunta porque os dois irmãos, “pessoas de extrema periculosidade” deixaram em casa bombas potentes e usaram uma outra de baixo impacto.

“Necessidade de treinamento para a fabricação”. A frase, parece solta ao acaso. Mas não se iludam. É o primeiro passo, o primeiro elo com o “terrorismo” (leia-se “terrorismo islâmico”).

14h30 minutos de 19 de abril. A caçada continua sem pistas da pessoa de “extrema periculosidade”. A essa altura, na cozinha da Fox News, a panela de pressão assovia. Na tela o sinal de “Alert”, ou seja, vem notícia bombástica (sem trocadilhos).

E, para um público que, passivamente se deixa impregnar pelo noticiário como se fossem gansos alimentados para que seus fígados engordem e se transformem em paté de “foie gras”, a voz que alicia multidões diz que…tchan…tchan…tchan, o mais velho dos irmãos passou “seis meses na Chechenia.

Que absurdo! Como é que um checheno tem a ousadia de passar seis meses na Chechenia, mesmo morando no país mais rico e poderso do planeta? Isso é crime. É sinal explícito de militância terrorista.

Mas ainda não era tudo. Os ponteiros do relógio avançavam. A caçada ia a passos de um velho celacanto. Nessa época do ano, o dia invade a noite. Só se deixa vencer quando não mais consegue provar o poder do sol.

As tropas tomam outra direção. Agora procuram um barco ancorado na terra. Lá está um adolescente. Ferido. Sangrando.

São 19h30 em Boston e seus arredores. A claridade é suficiente para encontrar filhotes de esquilo em mata fechada. Os helicópteros continuam vasculhando céu, terra. As tropas do país mais armado do mundo  parecem perdidas. O bombardeio da Fox News sobre os gansos repete exaustivamente as mesmas informações.  Em tons de filme macabro ou novela policial, os âncoras se revezam em adjetivos. Os gansos estão quase a ponto de virar paté de foie gras, explodindo de ódio contra os seguidores do Alcorão.

A luminosidade cede lugar às primeiras escuridões. A Fox News, num tom solene anuncia que o aparato policial “avança com cautela” porque quer pegar o irmão sobrevivente “vivo”. Como se fosse uma grande concessão.

21 horas. Já é noite de 19 de abril em Boston, em Watertown, Miami, New York e Washington. Em Chicago ainda há luz. A escuridão impede imagens nítidas mesmo para câmeras poderosas. E…”cantemos ao senhor”, a pessoa de “extrema periculosidade” é capturada. Está ferida. Perdeu muito sangue por quase 24 horas. Debruçados sobre um corpo magro, os paramédicos impedem telespectadores de olhar a cara do “terrorista” que é levado para o hospital. Os helicópteros com luzes infra-vermelho retornam à base.

Cai a cortina.  E, como em qualquer espetáculo teatral, o público aplaude os atores. Eles desfilam em seus carros com luzes que piscam vermelhas e azuis, os tanques anti-bombas passam sob um frenesi de uma sociedade que,  desde 11 de setembro de 2001 vive a frustração por não ter conseguido caçar os terroristas que abalaram o orgulho nacional quando explodiram as Torres do WTC.

O espetáculo se encerra com os habitantes de toda uma cidade. Carregando  flores ou velas protegidas por saco de papel cantam God save America. My home, sweet home/ God save America/ my home sweet home, numa verdadeira catarse nacional.

Dos 30 mortos no Afeganistão, entre eles, oito crianças, nenhuma linha até domigo, 21 de abril, uma semana depois do massacre.

A COR DO ASCO

By , 2 April, 2013 9:51 am

A COR DO ASCO

Memélia Moreira

Na simbologia das cores ao vermelho, minha cor favorita, coube o significado da luta, da vivacidade; ao amarelo, a riqueza; ao verde, a esperança; ao branco, a paz e ao preto, o luto. Mas não encontro, nessas simbologias  a cor que signifique o asco. Porque, sim,  o asco tem cor. E só a percebi quando estava com 25 anos de idade.

Tudo começou no primeiro semestre de 1964.

Era o primeiro dia de abril. Naquela manhã  já se anunciavam as ondas do frio ameno que ainda existia no inverno de Brasília, antes de ser devorada pela especulação imobiliária. Na minha escola, onde estudavam muitas filhas de congressistas, havia eletricidade no ar. Adolescentes em polvorosa.  Cruzei o portão de saída sem ser autorizada pela  “irmã superiora”. Fui pelas ruas disposta a defender meu país contra um golpe de estado. Ia em busca das armas que, segundo os boatos da principal avenida de uma capital ainda em construção, seriam entregues aos resistentes no Teatro Nacional, monumento do genial Niemeyer.

Não havia armas. Só uma fila imensa para recrutar combatentes de uma guerra que nos parecia de curta duração. E, venceríamos. Eu tinha direito de pensar assim. Estava com apenas 16 anos.

Passaram-se quatro anos e “eles”, os golpistas, insatisfeitos em desestruturar famílias, prender, torturar e matar, impuseram o silêncio na tarde de 13 de dezembro de 1968.  Era o AI-5.  Naquele momento, a oposição armada já se organizara nas imensidões do país.  E então, fugi.  Fugi para uma Paris que abrigava muitos exilados. E,  entre livros e longas conversas com uma requintada parcela da intelligentsia francesa,  exilei meus medos. O medo de ser covarde por não ter coragem de mergulhar numa clandestinidade que parecia não ter volta e o medo de me deixar engolir pela alienação. Paris não foi meu exílio. Foi minha luta particular com meus conflitos.

E quando os derrotei, descobri que havia outras trincheiras de luta. Escolhi uma a qual  se transformou em militância que até hoje carrego para onde quer que a Rosa dos Ventos me transporte.  Foi na defesa dos povos indígenas e de todos aqueles que sob balas disputavam, e ainda disputam,  um pedaço de terra contra os latifúndios da fome que me construí  jornalista e assim lutei, com papel e caneta contra “eles”, os ditadores. Essa é e sempre será minha trincheira. Um campo de batalha onde não se admite neutralidade, apesar desse mito tão difundido por todos aqueles que esperam da nossa profissão apenas a concordância com os poderosos. Nunca fui neutra. Jamais serei. E para que os poderosos e seus aliados não tenham dúvidas da minha opção, repito, minha luta, que a princípio era apenas contra aqueles que usurparam o poder no meu país, ampliou-se à defesa dos que são submetidos à opressões. Por todo e qualquer deserdado da Terra.

E foi a opção que fiz quem me levou à descoberta da cor do asco. É acajou. Um acajou intenso que escorre da cabeça pela testa, vai ao pescoço e, às vezes, se instala numa das orelhas como se fosse uma cicatriz nauseabunda. Acajou era a cor preferida dos pequenos e grandes déspotas que governaram o país durante a ditadura militar iniciada pelo golpe de 64.

A cor do asco me veio por acaso. Foi em 1971. E eu nem estava preparada.

Era a inauguração da BR-O80 (Brasília-Manaus), uma estrada inacabada e que estuprou o até então inviolável Parque Indígena do Xingu. Dias antes da viagem, o coronel Costa Cavalcanti, ministro do Interior, deu entrevista coletiva. Fui escalada e era, praticamente, minha primeira entrevista importante.

Fiz uma ou duas perguntas mesmo sentindo um terrível desconforto  com os olhares gulosos do coronel-ministro. Acabada a entrevista enfrentei o primeiro dos muitos assédios daqueles homens que, insatisfeitos em desestruturar famílias, em prender, torturar, matar, calar, também se sentiam à vontade para exercer seu poder de macho diante de, quem sabe, prováveis presas assustadas.   O ministro me chamou e, com aquela voz melosa de locutor de rádio dos anos 50, disse “ô, benvinda, minha jovem (odiava quem me chamasse de minha jovem ou querida). Você vai me acompanhar nessa viagem. Meu avião sempre tem lugar para belas mulheres”. Disfarcei com um quase sorriso e então, sem querer,  olhei para a cabeça do coronel. E vi. Uma  tinta escorria dos seus ralos cabelo. E era acajou. Fui invadida pelo asco.

Asco daqueles poderosos que levaram meu pai e meu tio para longe,  mantinham meu irmão Sonsonho na cadeia, depois de torturá-lo e, minha irmã Gagocha na clandestinidade. Senti ânsia de vômito. Controlei. Não ali. Não naquela hora.

A entrevista do dia seguinte foi ainda pior. A investida veio do chefe da Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (SUDECO), órgão destinado a beneficiar os grandes fazendeiros que começavam a desmatar Mato Grosso e Goiás (na época não existia, Mato Grosso do Sul e Tocantins),  Sebastião Camargo. Ele, integrante da comitiva que viajaria para a inauguração da BR-080,   fez parecer o convite do coronel Costa Cavalcanti apenas um escorregão de  um cavalheiro.  O acajou dos seus cabelos já estava desbotando. Só  as pontas ainda mantinham a cor do asco. E usava um perfume ordinário.

Sebastião Camargo, também fazendeiro, como todos que dirigiram a SUDECO, não contente de  em plena entrevista coletiva, me  jogar no rosto palavras que pretendiam ser galanterias mas que pecavam pela vulgaridade e absoluta falta de originalidade, depois de insistir que viajasse em seu avião, decidiu que me daria um abraço ou coisa parecida. A cena chegou às raias do ridículo. Em frente aos meus colegas, eu corria ao redor da mesa para escapar do cheiro daquele homem. E ele corria atrás de mim. O espetáculo durou menos de um minuto, tempo bastante para me ensinar que, a partir daí, o jogo seria pesado.

O aprendizado foi rápido.

As viagens de jornalistas eram sempre de útima hora. E numa dessas, acordei às quatro da manhã para embarcar num bimotor, novamente para minha Amazônia. Peguei a primeira camiseta disponível. Era amarela, com dois gorilas e um deles dizia “I feel sexy”.

Na cidade de Xavantina, Mato Grosso, que a qualquer hora do dia ou da noite faz um calor insuportável, estavam inaugurando uma ponte sobre o rio das Mortes. E  lá vem um outro coronel (na época, os coronéis se empoleiravam nos cabides de emprego do Ministério do Interior, principalmente Funai, Ministério dos Transportes e Ministério das Comunicações). Esse devia ter pintado o cabelo na véspera. Não limpou direito e a cor acajou escorria pela testa. Nojo. De novo. E desse, sequer me lembro o nome. Ele chegou com aquele sorriso de cabaré de garimpo e me perguntou, “Você sente o que esse macaquinho (não era macaquinho, era gorila) está dizendo?”. Rosnei e respondi, “Coronel, sinto. E muito. Depende do gorila que estiver do meu lado”.  Ele me olhou ainda com sorriso de cabaré de garimpo e disse, “você é perigosamente espirituosa…” . Suei de nervosismo.

Eu sabia os riscos que estava enfrentando. Sabia que podia perder meu emprego com apenas um telefonema dos gorilas poderosos. Mas estava decidida não apenas a continuar trabalhando mas, principalmente, reagir a qualquer investida. Uma dessas poderia ter custado minha liberdade. Aconteceu em Santa Isabel do Morro, ilha do Bananal.

Eram 20 pessoas, das quais 17 homens e três mulheres. Estava com a também jornalista Eliana Lucena, do jornal “Estado de São Paulo” e  minha melhor amiga. A terceira mulher era uma loura.  Eliana e eu logo a apelidamos de “agente da Gestapo”. Ela estava com os coronéis e sua função era nos acompanhar. Estava ali para nos espionar. Não podíamos contar com ela.

Depois de um dia de reuniões por Mato Grosso, dentro de um DC-3 da FAB, decolando e pousando em pistas improváveis, a comitiva pernoitou no Hotel JK (originalmente se chamava Hotel Juscelino Kubistcheck. Depois do golpe passou a ser chamado oficialmente de Hotel John Kennedy), na beira do Araguaia, esse que é um dos rios da minha vida.

Os homens da comitiva eram todos coronéis. Todos com os cabelos pintados de acajou com a tinta escorrendo pelo pescoço,  todos usavam óculos escuros. E todos, sem exceção, bêbados. E, trôpegos. Foi então que um deles, Oscar Jerônimo Bandeira de Mello, presidente da Funai, com a voz pastosa de whisky barato e ainda de óculos escuros em plena noite, falou, “Temos três mulheres aqui. Vamos fazer uma festa”. Meu sangue não gelou. Ferveu. Asco e ódio. Fui para o apartamento que dividia com Eliana, empurramos o pesado armário contra a porta, abri minha valise, tirei a gilete com a qual raspava as pernas  e disse para Eliana, “o primeiro que tentar abrir essa porta, eu capo”. Foi uma noite de pânico e insônias, mas acho que os coronéis estavam tão bêbados que não conseguiram subir as escadas que davam acesso ao nosso apartamento. Ufa! Escapamos.

Cada viagem para a Amazônia, o sabor da aventura de estar naquela que é uma das mais belas regiões do mundo que conheço vinha sempre temperado de   pânico. Pânico  pelas reações que poderiam ter aqueles homens inescrupulosos. Diante do fracasso de suas investidas passavam então a fazer insinuações sobre nossas sexualidades porque percebiam que nem o poder de vida ou morte sobre todo um povo era suficiente para nos curvar e ceder às suas exibições de masculinidade hesitante.

A descoberta da cor do asco me mostrou que aqueles que detinham o poder absoluto duranta a ditadura mlitar eram tão conscientes de sua força que acreditavam que esse poder também lhes concedia a capacidade de exercerem a delicada arte da sedução. E para essa arte é exigida a habilidades de ourives e não a brutalidade de quem aciona o “pau-de-arara”.

 

Esses e outros episódios semelhantes, estão ainda engasgados dentro do meu eu mais profundo. São meu  testemunho da relação entre aqueles homens que desestruturavam famílias, prendiam, torturavam, matavam, silenciavam e nós, mulheres que estavam apenas querendo exercer nossa perigosa profissão de jornalista.

 

http://desarquivandobr.wordpress.com/2013/03/24/vii-blogagem-coletiva-desarquivandobr/

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