UMA BOMBA

By , 10 June, 2022 11:45 am

Memélia Moreira

Era começo da noite de 28 de dezembro de 1988, quando recebi um telefonema que horas depois se transformaria numa bomba de alto poder.

No telefone, a antropóloga Ana Lange, minha comadre, só disse três palavras, “Mataram Chico Mendes”. Fui pro sofá para assimilar a notícia e começar a moblização a partir de Brasília. Logo fiquei sabendo que Lula, sim, o ex-presidente Lula e o camponês Avelino Ganzer estavam se deslocando para Xapuri, lá no Acre. Foi lá que mataram o seringueiro FRANCISCO ALVES MENDES FILHO que no seu aniversário de 44 anos, quatro dias antes de sua morte, disse que não viveria até o ano seguinte. Morreu a três dias antes de 1989.

Chico Mendes vinha sendo sistematicamente ameaçado pelos fazendeiros do Acre, inclusive políticos que foram poupados do julgamento. Em novembro, 35 dias antes de ser assassinado, o líder concedeu uma entrevista coletiva na sede da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) denunciando as ameaças. O chefe da Polícia Fedral no Acre, Mauro Spósito foi alertado várias vezes sobre os bilhetes e os cochichos informando que Chico seria morto.

Eu estava nessa entrevista e nós todos sentamos numa mureta interna da CONTAG para contar a história de mais uma crime anunciado.

NENHUMA MEDIDA FOI TOMADA PELO ESTADO BRASILEIRO. Um estado que é sempre cúmplice nos assassinatos daqueles que o incomodam.

Consegui carona no avião de Lula e Avelino e chegamos em Rio Branco quase de madrugada. Impossível continuar a viagem de Rio Branco a Xapuri que, embora sejam apenas 120 km de distância,era um lamaçal só.

Lá estava, morto, um homem de fartos bigodes tão negros quanto sua cabeleira. Lá estava um homem que defendia a floresta não apenas por ser um bem do planeta mas, porque precisava sobreviver. Era da floresta que ele recolhia seu sustento, com apenas uma cuia e pequenas incisões nas árvores que devolviam um leite branco, espêsso, o látex.

Chico virou símbolo internacional e os olhos do mundo, por algum tempo, se voltaram para aquele pequeno e bravo Estado – costumo dizer que o Acre, geograficamente, é o oposto do Chile. Um gorducho onde norte e sul se confundem com leste e oeste e o outro magricelo feito vara de bambu onde o traçado do leste e oeste são dominados pela nitidez do norte e do sul – para onde ondas humanas se revezavam na minúscula Xapuri que, na época, tinha 26 ruas.

Mas por que Chico Mendes agora?

Porque simplesmente, o desaparecimento do sertanista BRUNO ARAUJO PEREIRA e do jornalista DOM PHILLIPS tem características semelhantes. Bruno vinha recebendo constantes ameças, cada dia mais intensas. DOM porque amplificava a luta pela sobrevivência da Amazônia. Todos sabiam que os dois eram incômodos ao Estado brasileiro.

E esse mesmo Estado, desacreditado, fraco, covarde tenta, com suas notas mequetrefes manchar a imagem dessas pessoas que lutaram e lutam contra a ruína de um país e a extinção de um planeta. Mas é tempo perdido porque as biografias dos homens desse estado já estão emporcalhadas.

O Estado brasileiro está podre.

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