OCULTAÇÃO DE CADÁVER, DIPLOMATAS, ESPIÕES

By , 14 June, 2022 2:27 pm

OCULTAÇÃO DE CADÁVER, DIPLOMATAS, ESPIÕES

A tragédia do Javari, onde desapareceram, para sempre, o indigenista Bruno Araújo e o jornalista Dom Phillips, carrega todos os ingredientes para um filme “baseado em fatos reais”. Naquelas bandas, onde a floresta chega a ser assustadora e soturna, personagens dignos de um OO7 tropical se tropeçam em informações verdadeiras, contra-informações, ocultação de cadáver, diplomatas, espiões da rainha, ABIN, índios de diferentes nações, alguns amedrontados porque o Estado brasileiro quando aparece é para reprimir ou ameaçar, e até jornalistas esperando e acreditando que as autoridades serão bondosas para lhes dar “um furo” que os leve à glória. Enfim, o roteiro ideal para uma produção cinematográfica.

Vamos começar pelos personagens.

DIPLOMATAS

Quando Alessandra Phillips atendeu o telefonema lhe dando a informação de que o corpo de seu marido fora encontrado, não era trote. Do outro lado da linha estava nada mais, nada menos que o diplomata Roberto Doring e não “um funcionário” como divulgou o Itamaraty. Doring não é de esquerda. É um direitista de ampla circulação nos meios políticos. Trabalhou no gabinete de Antonio Patriota, ministro das Relações Exteriores no governo de Dilma Roussef. Ou seja, uma pessoa altamente bem informada sobre problemas nacionais e internacionais, que é para isso que se educam os diplomatas. Depois foi assessor de Michel Temer.

Para quem conhece os intrincados meandros da corte brasiliense, ser assessor do presidente da República mesmo sendo este um impostor ou um ditador, abre as portas das salas escuras onde se conspiram o inimaginável, abrem possibilidades de conhecer os grandes espiões das embaixadas de países amigos, enfim, gregos, romanos, turcos, o que quer seja, está nesse grande balaio. E, nesse ambiente, informação é a mais preciosa das moedas.

Roberto Doring é o segundo na embaixada do Brasil em Londres. Acima dele só está o embaixador Fred Arruda que, inclusive foi cotado para ser ministro das Relações Exteriore, antes mesmo do desastrado Ernesto Araújo.

Doring jamais e repito, jamais, teria cometido esse erro de ligar para Alessandra Phillips para lhe dar essa notícia. se não tivesse uma informação sólida. Ele é só de direita. Não é um doidivanas. Ele estava informado. Bem informado. Não pela PF, obviamente. Mas há outras hipóteses. ABIN? Espiões do MI 6? Sim esses espiões levam vida tranquila nos pontos-chave do país. Amazônia, Rio, SP, Brasília.

POLÍCIA FEDERAL

Aí se instala o grande nó. A PF está numa saia justíssima, sem elastano. Ordens estritas de só passar as informações ao ministro da Justiça e para o presidente da República. Filtradas essas informações, elas são distribuídas para a imprensa.

Podem observar que todas as informações dos jornais são semelhantes. Nenhum jornal tem informação diferente. E isso não é bom sinal. Mas há jornalistas correndo por fora. Esses também recebem as informações filtradas, mas fazem suas próprias investigações. São lobos solitários que mutas vezes se confrontam com ameaças e vão em frente. Dom era desse time. E há mais de um desses na área da tragédia. De todos os personagens, a Polícia Federal está na situação mais delicada porque, quando lá na frente esse cipoal for desvendado pela História, eles podem ser acusados de ocultação de cadáver. E não acredito que todos eles sejam da mesma cepa.

ESPIÕES

Bom, desses não posso dizer nada. Afinal de contas espião que se preza não deixa pistas.

ÍNDIOS

Algumas pessoas me perguntam porque os índios guardariam silêncio.

Levantei duas hipóteses.

Uma, o medo de retaliações por parte de autoridades armadas e desarmadas. Medo também dos narcotraficantes que se confundem coma população dos municípios da área do Javari (Benjamin Constant, Atalaia do Norte e Tabatinga). Eles sabem até onde podem falar.

A segunda hipótese são as rivalidadse entre as diferentes organizações indígenas. A APIB chegou a divulgar nota dizendo que só se deve falar que estão mortos e já foram encontradios “com confirmação oficial”. Ele não me responderam querm é a “informação oficial”.

PERSONAGEM OCULTO

Governo brasileiro.

POR QUE?

Não vou me surpreender se daqui a algum tempo seja descoberto nomes do primeiro escalão do Estado brasileiro envolvidos nas denúncias feitas por Bruno Araújo.

O resto, a Históia vai escrever

PS- O narcotráfico entra de forma periférica nesse roteiro. Porque é sua presença é difusa e envolve pessoas que só querem sobreviver e lutamm contra a ausência do Estado

UMA BOMBA

By , 10 June, 2022 11:45 am

Memélia Moreira

Era começo da noite de 28 de dezembro de 1988, quando recebi um telefonema que horas depois se transformaria numa bomba de alto poder.

No telefone, a antropóloga Ana Lange, minha comadre, só disse três palavras, “Mataram Chico Mendes”. Fui pro sofá para assimilar a notícia e começar a moblização a partir de Brasília. Logo fiquei sabendo que Lula, sim, o ex-presidente Lula e o camponês Avelino Ganzer estavam se deslocando para Xapuri, lá no Acre. Foi lá que mataram o seringueiro FRANCISCO ALVES MENDES FILHO que no seu aniversário de 44 anos, quatro dias antes de sua morte, disse que não viveria até o ano seguinte. Morreu a três dias antes de 1989.

Chico Mendes vinha sendo sistematicamente ameaçado pelos fazendeiros do Acre, inclusive políticos que foram poupados do julgamento. Em novembro, 35 dias antes de ser assassinado, o líder concedeu uma entrevista coletiva na sede da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) denunciando as ameaças. O chefe da Polícia Fedral no Acre, Mauro Spósito foi alertado várias vezes sobre os bilhetes e os cochichos informando que Chico seria morto.

Eu estava nessa entrevista e nós todos sentamos numa mureta interna da CONTAG para contar a história de mais uma crime anunciado.

NENHUMA MEDIDA FOI TOMADA PELO ESTADO BRASILEIRO. Um estado que é sempre cúmplice nos assassinatos daqueles que o incomodam.

Consegui carona no avião de Lula e Avelino e chegamos em Rio Branco quase de madrugada. Impossível continuar a viagem de Rio Branco a Xapuri que, embora sejam apenas 120 km de distância,era um lamaçal só.

Lá estava, morto, um homem de fartos bigodes tão negros quanto sua cabeleira. Lá estava um homem que defendia a floresta não apenas por ser um bem do planeta mas, porque precisava sobreviver. Era da floresta que ele recolhia seu sustento, com apenas uma cuia e pequenas incisões nas árvores que devolviam um leite branco, espêsso, o látex.

Chico virou símbolo internacional e os olhos do mundo, por algum tempo, se voltaram para aquele pequeno e bravo Estado – costumo dizer que o Acre, geograficamente, é o oposto do Chile. Um gorducho onde norte e sul se confundem com leste e oeste e o outro magricelo feito vara de bambu onde o traçado do leste e oeste são dominados pela nitidez do norte e do sul – para onde ondas humanas se revezavam na minúscula Xapuri que, na época, tinha 26 ruas.

Mas por que Chico Mendes agora?

Porque simplesmente, o desaparecimento do sertanista BRUNO ARAUJO PEREIRA e do jornalista DOM PHILLIPS tem características semelhantes. Bruno vinha recebendo constantes ameças, cada dia mais intensas. DOM porque amplificava a luta pela sobrevivência da Amazônia. Todos sabiam que os dois eram incômodos ao Estado brasileiro.

E esse mesmo Estado, desacreditado, fraco, covarde tenta, com suas notas mequetrefes manchar a imagem dessas pessoas que lutaram e lutam contra a ruína de um país e a extinção de um planeta. Mas é tempo perdido porque as biografias dos homens desse estado já estão emporcalhadas.

O Estado brasileiro está podre.

Panorama Theme by Themocracy