VIDRINHOS, MEMÓRIAS DE SARAH BERNHARDT

By , 12 July, 2020 3:00 pm

(Ler ouvindo “La Bohème”, na voz de Charles Aznavour)

O Vidrinho Inicial
Meus Vidrinhos

Os antropólogos Patrick Menget e Bruce Albert, que tinham lugar cativo na minha casa, costumavam me chamar de Sarah Bernhardt, uma sedutora atriz do teatro francês que reinou em Paris no final do século XIX, começo do século XX. Diz a lenda que ela até se apresentou no Teatro Amazonas, em Manáus.

Mal sabiam eles o quanto eu tinha e tenho de Sarah Bernhardt. Ela é a principal responsável por uma das minhas mais caras coleções. Coleciono vidrinhos e vidros. E, um deles, de cristal, presente de Patrick Menget nos meus 50 anos.

Começou em Paris nos anos 70. Morava na casa da família Murard, que Haroldo Saboia e Alexandre Ribondi conhecem muito bem. Família rica. Passávamos fins de semana no castelo da família, à beira do rio Loire no vilarejo chamado Sully-sur-Loire. Nous, les soixantehuitards.

De vez em quando, trabalhava. Foi Édouard Bailby, que fora correspondente do “Le Monde” no Brasil e era amigo do meu tio, Neiva Moreira, quem me arranjou um emprego de verdade, traduzir do espanhol para o francês as notícias da ‘Prensa Latina”, agência cubana de notícias.

O dinheiro era gasto em ninharias. Uma dessas, nem tanto ninharia.

É que sou apaixonada, totalmente apaixonada, por brechós. Paris é o paraíso dos brechós, tanto na margem esquerda quanto direita do Sena. Conhecia todos. E deixava, às vezes, todo meu salário em uma só peça quando ela roubava meu oxigênio. E foi assim que aconteceu.

Era um brechó perto de casa, mais exatamente na Rue St. Sulpicy. Brechó pequeno, poucas peças, e uma assim destacada. Era apenas um vidro. Um vidro vazio, cheio de vida. Bem caro, corresponderia, hoje, a uns 200 dólares. gostei do vidrinho. Fiquei intrigada pelo preço. Dinheiro eu tinha. Havia recebido naquele mesmo dia. Uma senhora de vestido verde desmaiado me olhou com suspeição. Eu tinha apenas 19 anos, cara de india e examinava sua peça valiosa com olhos de cobiça.

Noblesse oblige, a senhora de verde desmaiado, cheia de pompa, num francês antigo, me disse que aquele vidrinho que parecia insignificante, ficava no boudoir de Mademoiselle Bernhardt. Tudo bem, mas e quem é essa demoiselle. E ela, “Sarah Bernhardt”. “Oh”. Fiquei até com vergonha porque segurava o vidrinho sem o devido respeito, enquanto a senhora de verde desmaiado me olhava com suspeição.

Audaciosa, que sempre fui, atirei, “quanto é?”. Acho que ela salgou o preço. Audaciosa e, orgulhosa. Abri a bolsa, quando comecei a contar meus francos, ela pegou na minha mão e disse, “deixo por um pouco menos”. O tal pouco menos era só 20 francos a menos do que eu tinha na bolsa. Uma loucura reconheço. Mas, uma loucura a mais, uma loucura a menos, por que não. Tudo era permitido na Paris dos anos 70.

Sai triunfante daquele brechó e cheguei em casa mais triunfante ainda para mostrar meu achado para a mãe da família, Françoise Murard, uma das mais extraordinárias mulheres que conheci na vida. E minha vida é pontilhada por mulheres extraordinárias, Ela me disse. “Não lave por dentro. Assim você guarda o perfume de Sarah”. Até hoje, está lá, no fundo do vidro, uma manchinha amarelada, com a memória de Sarah Bernhardt.

Pronto, Bruce Albert, talvez agora entendas porque eu ria quando vocês brincavam comigo. Pena que Patrick morreu antes de conhecer esse segredo.

O que eu não sabia naquele setembro de 1970 era que aquele vidrinho se transformaria numa coleção. Uma coleção cuidadosa, Há outros. Não com a mesma história, mas tão valiosos quanto. Até meu primeiro Chanel 5 está aqui nessa coleção. Lindo.

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