PAIAKÃ E AS PIMENTEIRAS

By , 17 June, 2020 11:35 pm

Paulinho Paiakan : Foto jornalística

Minha homenagem ao guerreiro Pauklinho Paiakã, que morreu no dia 17 de junho de 2020, aos 65 anos.

Quero homenagear também os demais índios vitímas do vírus Corona e do projeto de massacre do Governo.

Desci do monomotor, numa pista de 600 metros (ou menos) ainda tonta e quase descabelada. Antes mesmo de descar do avião, vi um grupo de homens com seus calções. Cores diversas. Um deles se aproximou e perguntou quem era eu e o que estava fazendo ali.  Ainda trêmula por causa do voo, me apresentei. Em seguida tive uma crise de tosse daquelas irritantes e sem motivo aparente. Tensão do voo, talvez. Ou do ar que estava seco.

Sem nem pestanejar, aquele homem que ainda me olhava de cara fechada disse “você não pode entrar na aldeia. Está tossindo muito. E pode estar trazendo gripe para meu povo. O sol ardia e era pegajoso. O monomotor só voltaria pare me pegar às quatro da tarde.  Ainda nem era dez da manhã.

Mas tenho que escrever sobre o quê está acontecendo aqui, estão derrubando árvore e sei que vocês estão irritados, argumentei. Os demais homens ao seu redor falavam a língua de seu povo e eu não entendia nada. Eram todos fortes e me olhavam com suspeição.

Então ele mesmo me disse. Só pode entrar depois de comer as pimentas. Passou a mão no arbusto, um pimenteiro. Era malagueta. Ele me fez comer para “matar” a tosse, que foi embora na primeira pimenta que ardia até em minha medula. Eu me sentia um dragão soltando fumaça pelos olhos, pelo ouvido, pelo nariz e, principalmente pela boca. Comi.  Não havia opção. Mastiguei todas. Umas quatro. Minha pele ardia naquele sol viscoso, temperado com o fogo da pimenta.

O homem de cara séria e fechada era o chefe Paulinho Paiakã ou, me disse em sua língua, Benkaroty Kayapó. Ali mesmo debaixo daquele sol que nos atirava flechas com brasas, selamos uma amizade para sempre. E me tornei até sua confidente nos mais difícieis momentos. A última conversa que tivemos, há pouco menos de um mês, falamos dos sites de venda on-line.

Ali  na minha frente estava um chefe guerreiro com seu exército formado talvez por 20 homens, todos de calções coloridos e a pele tostada. Todos prontos a defender a intergridade territorial do povo Kayapó que se distribui de Mato Grosso ao Pará e que se consumia entre a devastação feita por madereiros, com a cumplicidade da Funai e dos garimpos que sujavam as águas do Rio Fresco,  cristalino e frio onde se localiza a aldeia de Paulinho.  

Todo esse encontro com mais um grupo Kaypó aconteceu no começo dos anos 80, 1981, para ser mais exata.  Talvez março. Não me lembro bem a data e estou com preguiça de recorrer às minhas agendas de anotações. O grande amigo Ezequias Heringer, o #Xará, meu melhor amigo, antropólogo e sertanista me dá a notícia de que os Gorotire, Kayapó do sul do Pará, estavam em pé de guerra porque o então presidente da Funai, coronel João Carlos Nobre da Veiga, havia assinado, de forma ilegal, contrato com a Madereira Sebba, de Brasília para corte de madeira na terra indígena. Não havia condições de checar e meu jornal, a Folha de São Paulo, me mandou para a aldeia.

Denúncia feita, coronel Nobre da Veiga me ameaçando -para não fugir a regra – segui adiante. Revia Paulinho de vez em quando em Brasília e voltei à terra indígena em 1984, quando se aceleraram as invasões em busca de ouro e da madeira. A  resistência indígena e  os ataques dos invasores  encharcou de sangue as terras xinguanas.  A aldeia do Aukre não ficou longe da guerra.

Um fazendeiro, de nome Expedito Macedo, dono da Fazenda Macedônia, em redenção (PA), espalhou o boato de que os garimpeiros estavam chegando na terra dos Kayapó do rio Fresco, onde vivia Paiakã. Os guerreiros se armaram com suas bordunas. E invadiram a fazenda para matar Expedito. Ele não foi encontrado. Os Kayapó se vingaram promovendo um massacre que deixou 17 mortos. Até hoje me tensiono com as cenas e me lembro da posição dos corpos mortos.

De novo num avião, dessa vez, bimotor, fomos à aldeia, Eliana Lucena, eu e mais dois jornalistas. Os guerreiros estavam retirados. Não podiam conversar com os jornalistas. Pintados de preto, eles tinham que “descarregar” o sangue que derramaram e sequer voltavam para suas malocas. Uma espécie de purgação. Dois dias voando pelo sul do Pará. A base era Conceição do Araguaia. Voltei três depois. A conversa com Paiakã foi seca. Ele não queria falar e não insisti. Então pedi a borduna que estava encostada do lado de fora da maloca. Ainda estava suja de sangue.   

 

Os anos se passaram e novamente encontro Paulinho Paiakã e mais 650 índios. Eram dias eletrizantes. Estávamos todos participando de uma reunião com a Eletronorte que queria convencer os índios a aceitarem  construção da Hidrelétrica de Kararaô, a primeira das quattro previstas pela ditadura militar para o rio da minha paixão, meu Xingu. Era o hoje célebre “encontro de Altamira”, quando índios e não índios nos reunimos para lutar contra aquele crime. Era governo Sarney e conseguimos adiar a tragédia. Foi no governo Lula quando enfim se realizou o grande desejo do general Ernesto Geisel, o ditador da anistia e que sonhava com águas jorrando das comportas enquanto o Xingu vagava pela floresta na qual um dia foi senhor quase absoluto. Só nos restou lutar contra o nome Kararaô, que é outro grupo Kaiapó. A nova denominação é Belo Monte. Essa foi nossa única vitória.

Paiakã estava lá. Almoçamos aquela comida terrível que nos serviram. Tão ruim que escapamo,s uns cinco ou seis índios para comer “comida boa”, como sempre diz Irekran, a grande companheira de Paulinho. 

Em sete de junho, de 1992, o choque. Lá está Paiakã, numa foto que toma toda a capa da revista “Veja”, portando com um soberbo cocar amarelo e o título, “O Selvagem”.  E lá conta que estuprastes Silvia Letícia,, de 18 anos. E te acusavam de além de ter estuprado terias tentado matá-lo. era choque e conflito pessoal. Como assim? Que loucura! E não conseguia falar Paiakã nem com niguém lá de Redenção (sul do Pará). Estava envolvida na minha viagem para a Eco-92 no Rio, tentando convencer as freiras da escola de minhas filhas que remarcassem as provas porque elas iriam comigo a esse encontro internacional que alertava o mundo para os riscos da destruição do planeta. A “Veja” tentou sabotar aquele encontro usando um crime hediondo para manchar a imagem de Paulinhoo que, naquele tempo era a imagem do maior defensor da floresta. A matéria tinha o dedo do governado do Pará, Jáder Barbalho. Mais que um dedo. A matéria foi toda pensada por Jáder Barbalho que tinha se transformado no inimigo número 1 de Paiakã. E, da causa ambiental, além de lucrar com os garimpos. Foi um abalo geral. 

Só duas semanas depois consegui falar com Paulinho. ele me telefonou quase em desespero porque queriam prendê-lo e pedia minha presença imediata. E mais uma vez embarquei, dessa vez, sozinha e fui para o Aukre que parecia estar de luto. Então, a história toda foi contada. Sem omitir detalhes. Eu já estava fora de jornis, mas a Folha de São Paulo me deu uma página inteira para contar o que aconteceu. 

Só fiquei serena quando em 1994, o juiz de Redençao, Elder Costa absolveu o chafe guerreiro. Na sentença contou a verdadeira história dizendo  que todo o processo foi uma “balbúrdia jurídica”. Anulou todas as provas.

E depois, pela última vez, encontrei Paulinho e Irekran no Fórum Social Mundial realizado em Belém, em 2009. Daí em diante, nossos contatos foram virtuais. Há pouco menos de um mês conversávamos pelo what´s up. ele queria saber da idoneidade de alguns sites de compras. Rimos um pouco porque contei algumas papagaiadas do Governo. mas ele estava sério. Estava assustado com a expansão do vírus Corona entre os povos indígenas. E foi essa a guerra perdida pelo líder Benkaroty Kayapó, conhecido pela sociedade ocidental pelo nome de Paulinho Paiakã, meu amigo que sonhava em ter um filho homem que o sucederia no comando do Aukre. O sonho acabou quando os médicos da sociedade dominante, à revelia da da família ligaram as trompas de Irekran.

Paulinho, hoje, ainda chorando, comecei meu ritual para te homenagear. Estou plantando flores num vaso com as cores que marcam nossas lutas. 

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