O SONHO DA DIREITA É TER UM BRILHO DE ESQUERDA

By , 31 May, 2020 6:33 pm

ArtStation - dragon concept, Yongsub Song

O título soa de forma esranha? Possivelmente. Tenho base em algum estudo acadêmico ou pesquisa? Absolutamente. Apenas observação pessoal e muita leitura da História do Brasil.*

Quando vi o primeiro post no Facebook me informando do movimento #Somos70% contra os desmandos desse governo que nos atirou nesse redemoinho de crueldades, bateu aquele entusiasmo juvenil. Só não pulei de alegria porque estava um tanto cansada do dia. Ainda procurei o lugar de assinar mas tenho o hábito de não tomar atitudes na hora de dormir. E já passava das três da manhã.

´Acordei pelas dez da manhã. Literal e literariamente.

Acordei e havia mais posts sobre o Somos70%. Então, me informei melhor, quem assinava, quantas assinaturas havia, o básico. Vi, feliz, que lá estava Luiza Erundina uma das mulheres mais admiráveis da política brasileira. Lá estava Flávio Dino, meu candidfato a presidente, havia também Fernando Henrique Cardoso. Tudo bem, nunca foi de direita e tem uma história. Seus descaminhos, nesse momento, pode-se relevar.

Finalmente reuni as informações necessárias e…foi quando esbarrei no detestável. Não gostei do que vi. O movimento foi criado pelo banqueiro Eduardo Moreira. Vamos lá, engoli em seco. Mas… banqueiro? Aquele pessoal que só joga blefando? Aquele pessoal que está sempre no comando dos mercados com seus juros asfixiantes e conseguem até dissimular que apoiam governo progressista para conseguir mais benesses? Hummmcheirou a enxÔfre queimado. Onde estava Eduardo Moreira quando o povo brasileiro perdeu algumas de suas conquistas? Onde estavam todos os banqueiros quando começamos a apontar os crimes cometidos pela campanha de Jair Bolsonaro e os outros crimes ainda mais graves que cometeu depois de empossado? Só agora perceberam o que denunciávamos há mais de dois anos? E por que perceberam? Por que o Brasil se tornou uma espécie de lepra junto à comunidade internacional? Por que nos tornamos tão párias quanto a Coréia do Norte? Ou talvez porque não possam passar o fim de semana no Ritz em Paris, ao lado da “Hermès”, olhando a Place Vendôme, simplesmente porque não somos mais bem-vindos? Ou, quem sabe para dar brilho à biografia. Bingo!!!!

A esbarrada que me engasgou com o nome na lista foi o de Luciano Huck. Sim, ele, com quem FHC anda flertando ultimamente com elogios pra lá de explícitos. O que ele está fazendo nessa lista? De graça não é. Quer um lugar ao sol? Uma faixa verde-amarela no peito para chamar de sua? Ele está é tentando se tornar político. Ser ouvido. Ser citado. Errou pela Direita e agora quer escrever em sua biografia que já “até” assinou manifesto com a esquerda.

Exatamente ele que há menos três anos circulava com uma camiseta verde-amarela bem justinha, gritando “Fora Dilma”, colaborando para um dos mais sórdidos movimentos políticos que já vi – pior do que esse só o das “Senhoras de Santana”, em São Paulo, marchando com terço na mão contra o “comunismo” e incitando as Forças Armadas para um golpe contra João Goulart – e depois meio sem graça num partido que se intitula “Novo” porque se fosse chamado de “Velho” seria rejeitado. O quê? Aquele mesmo Luciano Huck, grileiro de terra da Marinha na ilha de Fernando de Noronha e que na abertura da Copa do Mundo, a ´plenos pulmões chamou a presidente da República de “filha da puta”, frente a mandatários estrangeiros?

Sim, é ele mesmo. Despiu-se da camiseta verde-amarela e agora se fotografa com com camisa cor-de-rosa só para dizer que faz oposição à ministra Damares.

Não, alguma coisa estava errada. Por que razão eu me alinharia a um movimento com essa figura. Não. Mesmo que a lógica me obrigasse, meu corpo reagiria. E eu respeito meu corpo. Respeito meus espirros porque são alergias morais.

Mas há nomes da esquerda, o diabo bom me dizia. Sim, há. Mas onde estão os “outros” nomes do campo progressista? Não foram chamados? Não são palátaveis à “nova resistência”? Ou, feito eu, não gostam de más companhias? Lula assinou? Dilma assinou? E, no entanto, eles foram as vítimas preferenciais dos #hucks que estão na lista.

Além disso, tenho certeza de que num espaço de tempo não muito distante, as pessoas que admiro e até meu candidato à presidência, ainda vão se arrepender do gesto. mesmo que não se arrependa, continuo votando em Flávio Dino.

A jornalisa Leda Flora e a professora Raimunda Monteiro, ex-reitora da Universidade Federal Oeste do Pará, amigas queridas por quem tenho amor, admiração e respeito, me falaram da unidade. Raimundinha, a combatente Raimundinha, ainda disse, que é unir para derrubar o Bolsonaro e depois põe os pingos nos iis. Não resisti à piada, amiga. Eu ponho os pingos nos iis no momento em que escrevo e não quando o texto está pronto. Leda com quem divido o prazer da leitura, preocupações sentimentais, políticas e de comporamento social foi na mesma toada.

Mas essas todas já foram gastas. Quem primeiro desmoralizou foi Delfim Neto. Primeiro cresce o bolo, depois reparte. Até hoje estou esperando ver o povo saborear sua fatia. Deve ter solado. Continuei fazendo minha mousse au chocolat.

Ainda penso nessa unidade. Unidade?? Não. Não. Mil vezes não. Isso não é unidade. É o velho e detestável hábito da política brasileira de acochambramento. É a “Síndrome de Lampedusa”.

E só para lembrar àqueles que me falaram dos acordos das unidades do passado, que se elas tivessem sido realmente funcionado, não teríamos chegado onder chegamos.

Pra encerrar, não dou palanque a Luciano Huck e ele é o principal beneficiado desse manifesto.

*Tenho 72,5 anos de idade e vivi todos os acontecimentos políticos dos últimos 65 anos da Hisória do Brasil. Sei que vão fazer as contas, mas não precisa. Explico. Tinha quase sete anos quando Getúlio deu um tiro no peito. Família historicamente de esquerda, aquele momento foi vivido com intensidade dentro de minha casa. Estava com quase oito quando uma rebelião militar contra a posse de Juscelino Kubistcheck estourou em Aragarças, Goiás. O avião que me levava do Rio de Janeiro para São Luís ficou retido. Eu era a única criança. E a tensão dos adultos era tão pegajosa que me manifestei. O comandante era responsável pela “menor”. E, no meio daquela tensão, todos riram, porque, do alto alto do meu nariz, disse, “só espero que eu não precise dormir com o piloto”. Todos riram. Estava com 14 na minha primeira pixação de parede, “Pela reforma Agrária” escrevi naquele paredão enorme. Ia fazer 15 anos quando papai me escalou para cumprir uma tarefa política. Jogar panfletos contra a visita do embaixador americano Lincoln Gordon a São Luis. Missão cumprida. Joguei os panfletos no colo do embaixador. Veio o golpe e minha família foi atingida de todas as formas possíveis. É tanta história, que o governador do Maranhão, Flávio Dino, que possivelmente terá meu voto nas eleições presidencias, falando num comício em Brasília, em agosto de 2019 em alto e bom som, disse, “Memélia Moreira, quando você fizer a festa de 50 anos de militância, quero ser convidado”. Lá no fundo da multidão, muito sem graça, gritei, “já passou muito dos 50”.

Estou fazendo esse currículum vitae só para lhes dizer que não li nenhum texto acadêmico, pesquisa, estudo, nada para dizer que o sonho da direita esclarecida do Brasil (falo da direita, não dos fascistas) é ter brilho de esquerda são apenas observações feitas ao longo de uma vida na qual não parei de lutar um só dia. E, sempre à esquerda. Sem tergiversar.

Gente, fui

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