A SOLIDÃO DO VERME

By , 16 May, 2019 3:25 pm

A SOLIDÃO DO VERME
Memélia Moreira
Alguns de nós já devem ter se esquecido. Mas esta não é a primeira vez que Bolsonaro procura uma lanchonete ou um fast-food quando está em viagem internacional.
A escolha não acontece apenas para exibir sua tendência populista. Para que acreditem que ele é modesto e não gasta “em vão” o nosso dinheiro (não em frente aos fotografos).
A escolha aponta para além, bem além do populismo. Ela é o cruel retrato de uma pessoa que chegou ao mais alto posto de um país que tem espaço relevante na Geopolítica internacional. Ela é o registro da solidão à qual está entregue #Bolsonaro
Em Dallas há excelentes restaurantes que servem pratos bem melhores do que a mixórdia de um hamburguer com fritas e refrigerante. Está certo que talvez ele temesse suas dificuldades idiomáticas indo a um restaurante onde ninguém fala Português ou Espanhol. Mas só de restaurantes brasileiros ele teria o “Texas do Brasil” onde, além de um buffet que gourmet nenhum poria defeitos, há uma excelente carne canadense com corte de açougueiro brasileiro. E batatas fritas. Ou podia escolher o “Fogo de Chão”, também brasileiro, também de primeira linha. Se não quisesse nenhum dos famosos, há o “Rafain’ tão brasileiro quanto os dois citados.
Mas não. Ele foi a uma lanchonete. E por que? Porque num restaurante os fregueses sentam-se com calma e observam o ambiente. E então poderiam descobrir que ali estava um presidente eleito pelo povo. E ficariam um tanto impressionados com a solidão do presidente de um importante país. 
Numa lanchonete ou num fast-food, ele não corre esse risco. Os fregueses chegam, pagam na hora do pedido, comem e vão embora. Não param para observar os arredores. Mesmo que ele não tenha bons modos à mesa, ninguém perceberá. 
A verdade é que Bolsonaro vive a solidão de um precoce ostracismo.
Cobri a presidência da República por alguns anos. Acompanhei viagens presidenciais até mesmo de presidentes que já estavam a caminho do lixo da História e nunca, nunca mesmo, vi um presidente almoçar assim, sozinho. O presidente General, Figueiredo, quando a ditadura já estava respirando por aparelhos, ainda viajou um bocado. Nos seus almoços e jantares, a mesa mesmo com aquele clima de fim de festa, ainda reunia pelo menos 20 pessoas. E havia sempre aquela enxurrada de jornalistas.
Sarney, o sucessor de Figueiredo, quando chegava a uma cidade, tanto no Brasil quanto na Europa, era cercado por personalidades políticas e alguns intelectuais, principalmente escritores. 
Mas Bolsonaro, quem estava com ele? Ninguém. 
O mesmo aconteceu em Davos. A cidade, durante o Fórum Econômico Mundial, borbulhava de mandatários. Todos procurando aqueles deliciosos fondues bourguignone que servem na Suiça. E ele num self-servce. Só.
Essa viagem nos custou caro. Não sei quantos milhões são necessários para pagar o deslocamento de dois aviões, o precursor e o presidencial. Para quê? Para mostrar que o presidente do Brasil entrou firme na rota da rejeição.
Cadê o título de “Personalidade do Ano concedido pela Câmara de Comércio Brasil-EUA? Foi entregue?
Onde a reunião com os magnatas do petróleo, os Koch, os grandes executivos tipo Max Tillerson? Onde? NADA.
Bolsonaro volta para o Brasil de mãos vazias e cabeça quente porque seu inferno astral ainda vai durar bastante. Pelo menos uns dois anos até o desfecho. 
Até mesmo seu guru, um auto-proclamado filósofo chamado Olavo Carvalho o abandonou.
O verme está só e sua solidão vai nos custar caro porque, se ele é despreparado em todos os setores, ele guarda, na mesma proporção do despreparo, uma sede de vingança que é sempre mais cruel e selvagem nos medíocres.

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