TECELÃO DE PONTES, ENGENHEIRO DAS LIBERDADES, OURIVES DA DEMOCRACIA*

By , 27 December, 2018 8:01 pm

Tímido, de profunda formação jurídica, galanteador, ele jamais construiria muros ou cercas.  Passou a vida tecendo pontes em teares que suportavam seda e estopa.  Com paciência e delicadeza, escolhia quais  fios de cada novelo podiam se assemelhar até torná-los um só corpo, mesmo que de texturas distintas. Com régua e compasso, medindo palavras, ele foi construindo liberdades individuais e coletivas num tempo em que a prisão, a tortura e o desaparecimento dos corpos era artigo de varejo de uma ditadura que se estendeu por mais de 20 anos no maior e mais populoso país da América do Sul. Tinha a paciência de um ourives para modelar a Democracia com a qual sonhávamos. E, acima de tudo, jamais desdenhou do adversário porque sabia encontrar nem que fosse apenas uma fibra,  a humanidade que existe até mesmo nos mais cruéis dos seres humanos.

Era assim meu amigo e compadre LUIS CARLOS SIGMARINGA SEIXAS.

Ficamos amigos no começo dos anos 70. A luta contra a ditadura nos uniu. Estreitamos a amizade quado o primeiro grito de “Anistia” , soou pelas ruas de Brasília. E depois disso nos tornamos, de fato, companheiros de luta, de sonhos, de torcida pelo Flamengo, de conversas ao redor do fogo do churrasco que a cada domingo se preparava em minha casa. Kristian, pai de minhas filhas tornou-se churrassqueiro pela convivência com Sig.

Eram tempos de dureza. Política e financeira. Então, para gastar menos, nos reuníamos num churraso no quintal de minha casa. Luis Carlos nem telefonava. Já chegava com a carne. Ele e meu ex-chefe José Paulo Sepúlveda Pertence. O whiskey e a caipirinha ficavam sob a minha irresponsável resposabilidade que nunca se lembrava da cerveja, bebida que até o cheiro me causa náuseas. Eram conversas sem fim, fofocas também. Nada nos escapava. Ou, então, nos reuníamos no Clube da Imprensa que também tinha sua churrasqueira.

Podia contar dezenas de histórias sobre Sig e nossa alegre convivência que durava toda a semana na luta, estendia-se pelos sábados e domingos. Mas vou escolher algumas. Ele era a pessoa que, a cada vez em que enfrentávamos embates, me pedia “calma. Não crie caso”. Vã esperaça desse meu amigo que espalhou tantas esperanças por onde passava.

Brasília ia eleger sua primeira bancada para a Câmara dos Deputados. Luis Carlos era candidato. Mas sua notória timidez nos obrigou a conversas sérias e duras.  Ele não queria poster de campanha. E então sugeri que encomendássemos enormes posters com sua foto e o dedo indicador na boca pedindo silêncio com os dizeres, ‘não espalha não, eu sou candidato a deputado federal”. Ríamos. O lançamento de sua campanha foi num jantar em minha casa que tinha um jardim na frente e dois jardins nos fundos. Mais de 200 pessoas. Ele se distribuía entre todas elas, que carregavam a certeza de que um dia seríamos vitoriosos. E chegou o dia da eleição. Claro que boca-de-urna em tempos de ditadura era certeza de cadeia. Mas pouco me importei. Fiz boca-de-urna descarada, a menos de 50 metros da urna.

Distribuía santinhos e gritava bem alto, com orgulho o nome do meu candidato até que…dois simpáticos rapazes me cercaram e me levaram para a sede da Polícia Federal. eu estava presa. Chegando lá, aquela coisa chata de sempre que era sujar os dedos (e eu sem um creme na bolsa para passar depois de lavar as mãos). Estava de calça comprida. E pior, jeans, para mim, um traje pra lá de bissexto. Mas foi providencial. Guardei todos os santinhos nos bolsos traseiros. E quando chegamos na delegacia eles me pediram os santinhos. Não. Não entrego. Foi minha resposta. Só entrego quando meu advogado chegar. O advogado era o meu candidato. Mas eles não sabiam. Já chegou nervoso porque eu, de novo, estava aprontando. Os agentes da PF ao ver o advogado, abriram um enorme sorriso. E então insistiram, comigo para quem a senhora está trabalhando? Quem é seu candidato? Apontei para o candidato, estufei o peito como se fosse cantar “La Habanera e disse, é ele o meu advogado. Os policiais riram sem graça. E pediram para eu devolver os santinhos. Nunca. Se quiserem vem pegar aqui. Está no bolso de trás da calça. E quem ousou? Então, num gesto de boa vontade, peguei dois santinhos e panfletei os policiais. Rimos todos e eu voltei ao local do crime para continuar meu trabalho.

Luis Carlos, com dez mil recomendações me pediu para ser sua fiscal num dos postos de apuração. Fui lá, feliz da vida em cumprir a tarefa. Até que uma desavisada e nervosa moçoila quis anulr um voto do meu candidato. “O nome está errado. O nome é Sigmaringa. Está escrito errado”, vociferava a nervosa criatura, fiscal do PT. Sig era do antigo MDB. Então fomos tirar a dúvida com o juiz. Mostramos a cédula. com letra de alguém que mal sabia escrever. Estava lá escrito “SigMarina”. Perfeito para minha argumentação. Dr. Oswaldo, falei séria,  é claro que o eleitor quis votar no Sigmaringa. Tão claro que ele escreveu o nome do candidato e da mulher do canditado na chapa. Marina, querida Marina era a mulher de Luís. Ganhei a parada, o voto e ainda botei a língua de fora para a moçoila vociferante.

Quando preocupado, Luis falava baixo, conspirando. E ele nem me precisava pedir segredo. Confiava em mim. No aniversário de 40 anos de sua afilhada, minha filha mais velha, Cristina Schiel, em março de 2016, ele estava assim, falando baixinho. Não quis entrar no salão de festas. Ficou no terraço e, com os olhos tristes,  flutando em lágrimas,  baixou a cabeça e me disse “Perdemos. E vamos perder mais”.

No meu aniversário de 70 anos, em 2017,  Luis estava longe de Brasília. No interior da Bahia. Telefonou e pediu que comemorássemos depois quando ele chegasse. Fomos almoçar. Ele, Frank  e meu ex-chefe,  Aristides Junqueira que foi Procurador Geral da República. Conversa animada. Traduções simultâneas  porque ali só eu me entendia com os três. Luis e meu chefe querendo minhas impressões sobre Trump. Rimos muito, bebemos duas garrafas de vinho e voltei para casa. Foi a última vez que o vi.

Depois disso, nos falamos apenas no sábado dia 7 de abril de 2018. Ele, gaguejando, tic nervoso que costumava estar presente nos seus momentos de tensão e aflição, me disse, “Lula vai se entregar”.  Três meses depois, meu amigo querido, meu compadre, foi diagnosticado com câncer.

E lá se foi ele, o nosso Luis Carlos que honrou o  personagem de quem herdou o nome. Lá se foi o nosso “Cavaleiro da esperança”, o tecelão de pontes, o engenheiro  das liberdades, o ourives da nossa difícil democracia. Ou, simplesmente Sig, o #Imprescindível.

*Desculpa, Luis, tu que sempre gostavas de meus escritos, desculpa não ter conseguido manifestar meu luto antes. Só hoje consegui encontrar algumas palavras para dizer de ti, de nossa fraterna convivência. Nem falei tanto de nossos sonhos que sempre foram grandiosos.

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