A CASA DA RESISTÊNCIA

By , 13 June, 2018 6:57 pm

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Antropólogo Bruce Albert                                Líder Pankararu Quitéria de Jesus

 

Related image  Professsor Patrick Menget

 

Esse texto foi provocado pela tristeza profunda que senti quando soube da morte da antropóloga francesa Dominique Bouchillet.

 

Não sei que lembranças vocês guardam das casas em que viveram. Porque você pode até mudar de casa, mas elas são sempre a mesma. Nossa casa, seja onde for, é a tradução dos nossos sentimentos, das nossas opções de vida, de nossa  relação com o mundo. Minha casa sempre foi uma casa aberta e gosto de pensar, sem qualquer soberba, que minha casa foi a a “casa da resistência”. A casa que abrigou a luta dos deserdados.  Pela minha casa passaram, se hospedaram, ou viveram índios, camponeses sem terra, advogados de trabalhadores, missionários, militantes dos direitos humanos, indigenistas, líderes políticos e até um lorde inglês já dormiu no sofá da sala de minha casa porque bebeu um pouquinho além da conta. Naquela noite traçamos estratégias de luta. Desenhamos o projeto de uma agência de notícias indígenas, feita por eles, escriTa e falada em suas línguas.  Tentei depois no primeiro governo Lula.  Desisti. As autoridades coçavam a cabeça e me olhavam de soslaio.

Uma histórinha para ilustrar. No primeiro governo Lula, trabalhei 126 dias na FUNAI, de graça, sem salário. Nesses 126 dias consegui formar, em uma semana, o índio Lucio Xavante para escrever matérias em sua própria língua e postar na página da Fundação Nacional do Índio. Lúcio aprendeu o básico e, na abetura dos trabalhos do Congresso, em 2003, consegui levá-lo para o Salão Verde da Câmara dos Deputados. Com um pequeno gravador, ele se tornou o primeiro índio e entrevistar um presidente da República. Nem mesmo os jornalistas credenciados na Câmara chegaram perto de Lula, que fez o discurso de abertura dos trabalhos do Legislativo. Tenho orgulho da ousadia de Lucio.

Também tenho orgulho de dizer que muitas das conquistas dos povos indígenas foram discutidas na minha casa. Mais especificamente na cozinha, onde passávamos dia e noite conspirande em defesa dos direitos das nações indígenas. Que as estratégias de  luta pela demarcação dos territórios indígenas do povo Yanomami, Xavante (Reserva de Parabubure e São Marcos),  Raposa/Serra do Sol, Apinagé, Parakategê, Kaingang de Mangueirinha (PR), Pataxó Hã-Hã-hãe, da Bahia e tantos outros foram traçadas sobre uma mesa vermelha na minha cozinha, enquanto tomávamos café e eu cozinhava alguma coisa para matar a fome das madrugadas.

Só para vocês terem uma idéia, nas noites de 30 e 31 de dezembro de 2002, véspera da posse de #Lula, que também já foi meu hóspede, no meu apartamento de três quartos na 105 sul de Brasília, alojei 23 pessoas. Na sala havia sacos de dormir e colchonetes espalhados, travesseiros espalhados. Enfim, um grande acampamento para celebrar a vitória do povo. O único lugar inviolável era o quarto das minhas filhas. E todos os hóspedes ou moradores temporários sempre souberam, porque eu me dava o cuidado de avisar, que a casa estava aberta, mas minhas filhas eram as soberanas. Até hoje são, onde quer que eu arme minha tenda de nômade.  Eu mesma dormi na sala naquelas duas noites porque assim dava espaço para mais três no meu quarto.

Foram meus hóspedes os chefes  indígenas Raoni, do povo Kayapó do Xingu, Aniceto, do povo Xavante,  Maluwaré, do povo Karajá, Quitéria do povo Pankararu, de Pernambuco, Álvaro,Tukano, do povo Desana e tantos outros líderes e guerreiros, além dos indigenistas. Um dia acordei, e vi um dos nove xavantes que haviam dormido lá em casa, amolando um facão. Não me surpreendi, apenas perguntei porque estava amolando. E ele com a confiança que depositava em mim, disse, “é que vou usar para cortar a cabeça do coronel Nobre da Veiga”, que foi o último presidente da Funai durante a ditadura. A cabeça permaneceu, mas o facão chegou bem perto do pescoço do coronel.

Havia três categorias os hóspedes. Os permanentes, que tinham praticamente residência fixa porque viajavam e deixavam suas malas comigo enquanto trabalhavam nas aldeias.  Esses chegavam sem aviso prévio e conheciam as regras da casa. Havia os temporários. Eles ficavam semanas enquanto esperavam autorização da Funai para embarcar  para a área de trabalho e, por último os hóspedes ocasionais, que chegavam a Brasília para resolver burocracias, passavam dois, três dias. Nós nos divertíamos muito. E sei que minhas filhas, apesar daquele tumulto, muito aprenderam com aquele desfilar de culturas.

Na categoria dos ocasionais estavam os antropólogos Eduardo Viveiro de Castro, Chrisitian Jeffray, Iara Ferraz, o cineastas Vincent Carelli,  Ives Billon, os fotógrafos Miguel do Rio Branco e Peter Frey, os chefes Raoni, Aniceto,  Megaron, Maluwaré, Quitéria e a indigenista Claudia Andujar.

E, dos permanentes, quatro antropólogos franceses, Patrick Menget, Bruce Albert, Nathalie Pétèsch e Dominique Buchillet, É preciso dizer que os governos da ditadura militar perseguiam os antropólogos estrangeiros, principalmente os franceses. Por quatro mêses, morou em minha casa o cacique Mário Juruna. Ele lutava para que o Governo brasileiro, seu tutor, permitisse sua viagem à Holanda onde foi presidente do Tribunal Bertrand Russel. Também permanentes os indigenistas, Sydney Possuelo e Maurício Wilke, esse último, meu mais querido amigo. Tanto eu quanto Frank Jakomeit já tentamos convencê-lo a vir morar nos EUA. Mas Maurício está lá onde deve estar, junto ao povo Krahô, no mundo das águas do Tocantins, É, de todos eles, meu maior amigo.

Mas é de Dominique Bouchillet de quem quero falar. Sua morte me fez relembrar os difíceis anos da ditadura, nossas lutas, nosas conversas sobre os acontecimentos políticos de um país que desde que me entendo, ou seja, desde Getúlio Vargas, vive aos atropelos, num turbilhão infindável. Aos “trancos e barrancos”, como dizia Darcy Ribeiro.

Ela chegou com uma pequena mochila, falando um português incompreensível, de calça de linho bege e camisa roxa. Passamos a falar só em francês, para facilitar as conversas. E chegou para ficar lá em casa. Todos os dias eu a deixava na Funai onde ela fazia a via-crucis para conseguir a autorização dos coronéis e viajar para o Alto Rio Negro onde faria sua pesquisa de doutorado. Dominque era metódica, mas uma coisa me incomodava. Ela estava sempre com aquela camiseta roxa. Não trocava. Um dia decidi comprar uma outra camiseta pra ela. Meio sem jeito, cheguei com o presente. E  disse a razão. Ela então me mostrou sua mochila. Duas calças e mais quatro camisetas. Todas roxas. Ou seja, ela trocava. Mas era sempre roxas. Fomos para a cozinha gargalhar para não fazer barulho para minha filhas e tomar vinho, enquanto ela me ensinava a fazer o molho de mostarda e mel.

Dominique foi enfermeira em Paris. Usou seu salário para construir seu sonho de ser antropóloga. Escreveu muito. Nas horas vagas, lia romance policial. Comprou uma casa na Bretanha e se refugiava na beira do mar para ler os romances policiais. Não adiantava fazer Dominique se encantar por qualquer música. Ela respondia sempre “Ou c´est Brahms ou c´est rien”. E eu provocava. “E os Beatles, e os Rolling Stones, Aznavour, Piaf?” E ela , pestanejanado muito,  com os olhos de criança que vai fazer travessura, respondia, “Baahhh”. Não sei se rompeu suas barreiras musicais, mas sei o quanto tentei.

Admirava Dominique. Ela era de poucas palavras, mas talvez a pessoa mais preservarante com quem já cruzei. Sem alardes. Ela fincava o pé e esgrimia generais e coronéis, em defesa do povo do Alto Rio Negro. Foi assim que batalhou contra a implantação do projeto Calha Norte, um sonho alucinado do general Rubem Bayma Denys, chefe do Gabinete Militar do presidente Sarney. Foi assim que evitou o quanto pode a sedução dos empresário de garimpo que queriam extrair ouro nas terras indígenas. Foi assim sempre, em todos os momentos em que se precisava de uma pessoa incapaz de tergivisar. Era ela, Dominique.

Nós nos perdemos pela vida porque me mudei para os Estados Unidos quando ela estava em Paris. Só ns comunicamos uma vez, nesse tempo que estou aqui. Ela me telefonou para dizer que a porta de madeira que comprou quando estávamos num dia de shopping, ficou perfeita no seu refúgio bretão. Era uma porta feita na Indonésia, país pelo qual ela se interessou e de lá me presentou com uma blusa preta tecida à mão. Uso até hoje.  Era assim, nossa amizade.

Pois é, ela se foi dia seis de junho. Só nesta terça-feira fiquei sabendo. E então me bateu saudades daqueles anos todos. Não saudades da ditadura, claro. Saudades de um tempo de resistência em que estávamos todos no mesmo barco contra aqueles que nos dominam há séculos. Saudades de minha casa brasileira onde cada um dos meus hóspedes enriqueceu minha vida e me preparou para ser uma idosa cheia de entusiasmo para continuar a luta.

P.S. Começo a desconfiar que o Google é machista. procurei fotos de Dominique Bouchillet e Nathalie Pétèsch e não encontrei. Só achei as fotos de Patrick menget e Bruce Albert, dois meus hóspedes franceses.

3 Responses to “A CASA DA RESISTÊNCIA”

  1. Clarice says:

    Como não dá para editar o comentário anterior, mando outro.
    Soube por esse seu belo texto, da morte da Dominique. Também fiquei passada. Ela foi quem me incentivou a conhecer São Gabriel da Cachoeira e me fez olhar com mais acuidade para causa indígena. Mas nos perdemos ainda aqui no Brasil. De São Paulo e nunca mais.

  2. Eu também já dormi na sua casa. Mais de uma vez. Em Brasília. Na época do impeachment do Collor (acabou virando moda). E passei todos esses anos pensando para onde será que você havia ido depois da PRG. Mas nem pensei em procurar na internet (sei lá porque). Aí, recentemente estava conversando – pela internet – com a Zab, filha do Alain Moreau (que também não vejo há anos), e me veio o insight da busca no Grande Oráculo. Achei! Good vibes Memélia!

  3. belo texto! estou esperando vôce me mandar seu mail…
    beijos P.

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