DE CHIQUINHA NAVALHADA A BOULOS

By , 3 June, 2018 9:11 pm

LA GÜERA RODRIGUEZ

Era março de 1951 e a ilha de São Luís estava em polvorosa. Uma revolta sacudia a cidade. Eram protestos pela fraude acontecida nas eleições de 1950, que deu vitória ao candidato “vitorinista” – um caudilho sanguinário, cacique do PSD,  que dominou o Maranhão por mais de 40 anos e só foi derrotado em 1965- Eugênio de Barros. Seu opositor, Saturnino Belo, sofreu um infarto durante a apuração quando o TRE maranhense anulou 16 mil votos da cidade mais populosa do estado, a ilha de São Luís e voto mais consciente. A revolta se iniciara em janeiro porque os eleitores não aceitavam a posse de Eugênio de Barros

Getúlio Vargas ameaçou mandar tropas federais.  O Vigésimo-Quarto Batalhão de Caçadores, unidade militar do Exército no Maranhão, não conseguia controlar as escaramuças. Na liderança da rebelião, um jovem de 33 anos, jornalista que acabara de ser eleito deputado estadual pelo PSP, recebe uma visita inusitada na Rua da Palma número 98, sede do jornal que o jovem acabara de criar, o “Jornal do Povo”. A visita era uma mulher um ano mais velha que o deputado e trabalhavana mesma rua do jornal.

– Deputado, nós podemos ajudar na greve.

Estupefato, o jornalista já exercendo seu mandato na Assembléia Legislativa do estado, não conseguia entender a proposta.

O novo deputado pede então à visitante que explique melhor o plano. E ela não se fez de rogada.

– As meninas cruzam as pernas.

E assim aconteceu. Os soldados enlouquecidos e as mulheres de pernas fechadas. Perdemos a briga, mas a partir daí São Luís assumiu o título de “Ilha Rebelde” porque sempre derrotava os caciques políticos.

Esse diálogo, que tantas vêzes ouvi durante minha infância e juventude, contado com todas as cores aconteceu entre meu tio, Neiva Moreira, que 13 anos depois, já deputado federal,  partiu para um longo exílio que durou 15 anos vivido em alguns países da América Latina e a prostituta Maria Ramalho Pestana, que por muitos anos, juntando suas economias no exercício da profissão, comprara a mais famosa “pensão” da Zona do Baixo Meretrício de São Luís. A “Pensão de Chiquinha Navalhada. Também conhecida como “Pensão da Maroca”, a nova dona do bordel.

Instalada num casarão da Rua da Palma, dois quarteiros depois do jornal, em direção à Praia Grande, o bordel de Chiquinha Navalhada era prestigiado por políticos, pelos ricos e pelos intelectuais daquela cidade que já foi conhecida pelo título de “Atenas Brasileira”.

Ah, as Mulheres de Atenas!

Papai e meu tio contavam muitas histórias da pensão. Tanto um quanto o outro chamavam as prostitutas de “primas”.  Eles contavam inclsuive das brigas políticas que lá aconteciam porque a pensão  era frequentada, indicriminadamente pelo Governo e Oposição. As profissionais eram bem cuidadas. Maroca exigia que todas fossem vacinadas e, principalmente, “higiênicas”. Não havia risco para os frequentadores serem surpreendidos pelas “doenças venéreas”, hoje conhecidas pela sigla DST. Ou seja, um luxo.

Conheci algumas das primas de meu pai e meu tio. Eram sempre simpáticas comigo quando, por acaso cruzávamos nas ruas de minha amada ilha de São Luís. Passei várias vêzes em frente ao casarão de quatro janelas. Minha curiosidade sempre comandou meus movimentos.

Foi esse meu primeiro contato com um mundo proibido e evitado pelas “moças de família”, nós, a classe aristocrática maranhense. Não podíamos sequer cruzar o quarteirão para ver o por do sol na Praia Grande, onde os pescadores chegavam com peixes fresquinho desde que o dia amanhecia até o fim da tarde.

Cresci e perdi o contato com aquelas histórias. Mas nós nos encontramos novamente

Nos anos 70, quando me tornei jornalista, o extinto “Diário de Brasília” (eles até hoje me devem dois mêses de salário. fechou as portas e não pagou nenhum funcionário) queria fazer propaganda dissimulada do governo e escolheu o Mobral, programa de alfabetização que a ditadura instalava a todo vapor.

Meu chefe me pediu uma missão “delicada”. Queria que eu fosse a uma casa de prostitutas que funcionava na cidade de Planaltina, arredores de Brasília. E ainda disse, olha, “mas você pode recusar. Sei que é difícil. Mas se você aceitar, vá à tarde”. Topei. Qual era o problema? Para quem convivia com aquele Governo, entrevistava aqueles homens asquerosos, ministros da ditadura que pintavam cabelo na cor acaju, entrevistar prostitutas não tinha nada de mais.

Cheguei ao bordel às duas da tarde. Elas me esperavam, mas não aceitaram fotos.  O fotógrafo, nem me lembro quem era, foi esperar num barzinho por perto. Estavam todas arrumadas, maquiadas, cabelos ainda molhados do banho, felizes porque daí a duas horas chegaria o grupo de alfabetizadores. A aula começaria às quatro.

Conversamos bem além da alfabetização. Conversamos de vida. Elas perguntaram o nome do meu perfume (na época, eu usava #Calèche), queriam saber se eu tinha namorado, se eu era virgem.  Eu e elas nos perguntávamos. E eram conversas de mulheres. Simplesmente mulheres. A mais velha de todas tinha 21 anos. Eu estava com 24. A mais nova, acabara de completar 16. Escrevi a matéria, recebi elogios e risadinhas dos boçais de sempre. Nunca mais vi aquelas meninas que me serviram café com pão-de-queijo.

Passado o teste de cobrir “Geral” – polícia, incêndio em cemitério, circo novo na cidade, show de Elis Regina, festival de cinema, crime passional, eleições no Uruguai- fui para o “Jornal de Brasília”, sangue novo na cidade. Já trazia na bagagem um experiência de três anos, inclusive pela Amazônia. E fui elevada à categoria de ter uma área fixa. A área dos meus sonhos. A área onde eu não precisava dizer “Abaixo a Ditadura” porque as reportagens diziam por mim. “Índios, Terra, Igreja”. Em outras palavras, fui para o front de guerra.

E as primas voltaram a frequentar minha vida.

Aconteceu em São Geraldo do Araguaia, a cidade da ‘Guerrilha do Araguaia”. Aqui cabe um parentêse. A guerrilha não acontecia em Xambioá, cidade que na época integrava o estado de Goiás. Os acampamentos dos gurrilheiros era na outra margem do rio, em São Geraldo do Araguaia, no lado paraense do rio. Em Xambioá foi onde o Exército instalou sua base de operações e centros de torturas contra guerrilheiros e camponêses que apoiaram a guerrilha.

Foi em 1976. Eu mal voltara da licença-maternidade. Minha filha mais velha, Cristina MoreiraSchiel só bebia o leite que nós duas, em ampla comunhão produziámos. E meu jornal me manda novamente para uma missão “espinhosa”. Ia para São Geraldo do Araguaia, onde dias antes o Exército prendera o padre Florentino Maboni. Era acusado de dar apoio à luta camponesa. As feridas da guerrilha estavam expostas e o governo foi apaziguar distribuindo uns parcos títulos de 50 hecatres de terra para os lavradores mais bem-comportados. Meu desespero: tirar leite do meu peito com bombinha para que minha primogênita se alimentasse.

Na véspera da viagem, o presidente do INCRA, o maranhense Lurenço Vieira da Silva, embora politicamente adversário, me chamou. Cortesia de conterrâneos. E me pediu, “pelo amor de Deus” que eu tomasse cuidado porque do barqueiro ao motorista eram todos militares em trajes civis. Espiões. Agradeci, mas nem seria necessário. Bastava ver os relógios que eles usavam nos braços, as camisas de xadrez novas e bem passadas para saber que ali ninguém era barqueiro ou chauffeur dos jipes Toyota. Embarquei. Coração partido por deixar minha bebê durante dois dias. Fui no avião com o jornalista Luis Cláudio Pinheiro. Mas antes, uma paradinha para  conversar na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Queria informações sobre o padre Florentino.

Em São Geraldo, banho de rio e conversa com as mulheres que lavavam roupas. Uma delas, prostituta. Tímida, ela me perguntou se podíamos conversar mais tarde. Lá fui eu novamente para a zona. E elas me contaram todas as torturas impostas ao padre e às freiras presas. Contaram detalhes porque haviam ido para a cama com os militares e com os policiais. E eles desabafavam. Fiquei trêmula e chocada com as histórias. Muitos detalhes impublicáveis sob pena de ser perseguida ou até perder meu emprego. Mas decidi escrever. Só me lembro da primeira frase do texto. Bucólica. Manobra diversionista para enganar a censura. “Na beira do Araguaia, onde a sombra da Serra das Andorinhas se despeja sobre o rio, foram distribuídos ontem títulos de terra para os posseiros da cidade-palco de uma luta…”

As prostitutas estavam revoltadas com as torturas sofridas pelo padre gaúcho. Umas choraram me dizendo que ele fora obrigado a beber urina das freiras. Outras prometiam vingança contra os fregueses. Nenhuma demonstrou o menor sinal de simpatia pelos agentes da ditadura. Foi uma lição.

A partir daquele dia, sempre que o jornal me mandava para as áreas de conflito, era com elas que eu buscava as informações alternativas. Elas sabiam mais do que todas as autoridades. Em linguagem crua, me confidenciavam as fraquezas dasqueles que nos dominavam pela força.

E foram elas, sempre elas quem me ajudaram a escrever as matérias sobre a invasão dos garimperios nas terras Yanomami, na Serra das Surucucus, incentivados pela Docegeo- Vale do Rio Doce . Foi Neméia, dona de um bordel em Boa Vista, capital de Roraima, quem me contou sobre os engenheiros da Vale medindo a terra e cavando o chão para anunciar ao mundo que ali há urânio e ouro. Nos intervalos me disse que etava fazendo economia para comprar um sítio em Nova Friburgo. Lindos olhos tinha Neméia, carioca mestiça de negro e índio.

E hoje, 3 de junho de 2018, quando o século XXI completa sua maioridade, a quatro meses e 20 dias do meu aniversáruio de 71 anos, sou surpreendida pela notícia de que Guilherme Boulos, candidato à presidência da República pelo PSOL, partido pelo qual começo a cultivar muito carinho e, principalmente, respeito, auto-censurou sua página na internet com texto em que dizia que as prostitutas são trabalhadoras. E precisava? Será que alguém discorda dessa afirmação? Parece que sim. Claro que são trabalhadoras. Muitas talvez, o façam por prazer. E daí? Sou jornalista por prazer. Mas a maioria esmagadora se torna prostituta porque só contam com o próprio corpo para vender sua força de trabalho.

Vou além, Boulos. Prostitutas são revolucionárias. Muitas dessas mulheres ajudaram a mudar a História. Veja Mata-Hari. Veja Maroca, a dona do bordel de Chiquinha Navalhada. Veja La Güera Rodriguez, mexicana que foi amante de Simon Bolívar e com sua fortuna ajudou a movimento de independência do México.  Ou mesmo as prostitutas anônimas que, no dia a dia, observam os desmandos e, quando são lembradas te contam as histórias das misérias de um povo. Sem esquecer que não fossem essas mulheres até hoje, o tango seria uma dança exclusiva dos homens.

Por favor, Boulos, devolva seu texto à página. Não se deixe levar pelas hipocrisias, mesmo se fantasiadas de defesa das mulheres. Supere esse falso moralismo porque qualquer moralismo é opressor.

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