PAIXÃO SEGUNDO URARIANO

By , 16 August, 2017 12:47 am

Pátio de São Pedro, Recife, que concentra uma das mais majestosas represaentações da Arquitetura Colonial brasileira e onde os revolucionários, acreditavam estar a salvo do inimigo.

Nos terríveis anos da ditadura mantive correspondência com alguns dos mais notórios presos políticos do Presídio Tiradentes, em São Paulo. Todos eles gloriosos militantes da Ala Vermelha do PCdoB. Tanto com meu irmão #Sonsonho, de quem guardo muitas cartas com o abominável sêlo do DOPS, liberando a correspondência, quanto com Hélio Cabral de Souza e, Alípio Raimundo Viana Freire. Com meu irmão, conversas familiares, rumos do país e, principalente conselhos para que eu não me desviasse na profissão de jornalista. Foi meu irmão, Antonio de Neiva Moreira Neto quem me fez fincar pé na causa indígena. Ele dizia que todas as trincheiras contra a ditadura eram valiosas. Com Hélio Cabral falávamos da guerra do Vietnam, com a certeza absoluta que a História daria vitória aos guerrilheiros #viets E de música. Foi ele quem desenvolveu em mim o gosto pela música do mais profundo Goiás. 
Com Alípio, conversávamos sobre os mais diversos assuntos. Cinema, Pintura, Guerra do Vietnam (nós dois construímos um mapa na parte debaixo do estrado de nossas camas. Eu, em Brasíilia e ele no presídio, avançávamos “nossas tropas” e sabíamos que faltava pouco para ocuparmos o Vale do Mekong. Já havíamos vencido a guerra politicamente, mas nós dois sabíamos que as pequenas e importantes vitórias militares eram necessárias.
Mas as mais longas cartas entre nós dois aconteciam quando o assunto era Literatura. E um dia, conversando sobre Gustave Flaubert (que estou relendo pela terceira vez), Alípio escreveu, “On mange bien chez Flaubert”. 
Sim, Alípio on a bien mangé avec Flaubert. Et surtout avec Proust et ces “madeleines”, toujours à la recherche du temps perdu. 
 
E agora, Alípio, meu querido baiano, passados quase 50 anos daqueles tempos horríveis, estou diante de um livro onde ao contrário de Flaubert, on ne mange pas de tout. On crève de faim.  A  fome se distribui nas 320 páginas. Estou te falando de “A mais Longa Duração da Juventude”, de Urariano Mota, colega nosso, jornalista mas, sobretudo, um escritor, um filósofo, uma pessoa sábia que em em uma página te faz viver passado-presente-futuro como se não houvesse hiatos. 
A fome daqueles jovens, personagens reais da longa duração de nossa juventude, não se limitava a franguinhos assados ou polpudos filés deixados na mesa de um bar. Eles tinham fome revolucionária. De transformar o mundo, de eliminar as injustiças sociais, de evitar que nossa sociedade caísse no abismo da barbárie. E essa fome revolucionária lhes inibia ao ponto de lhes deixar com fome de paixões. Elas eram interditas, clandestinas, quase criminosas porque na moral revolucionária vigente, deixar que a paixão explodisse significava “desvio ideológico”. 
Era o tempo dos amores interrompidos, proibidos, dos beijos roubados porque a moral ideológico-sexual era rígida. E eu me pergunto, como se pode fazer uma revolução em que o amor, a paixão deve ser jogada para um segundo plano, uma revolução que nos massacrava permitindo apenas a tortura dos amores platônicos.
E enquanto nossos mais belos sentimentos amorosos eram aniquilados pela moral revolucionária, “eles” acreditavam que vivíamos em total promiscuidade. E nós, perseguidos pelo inimigo externo, não vencíamos os dragões ideológicos. Éramos, ou tentávamos ser “puros”. Aqueles meninos, loucos de paixão, sufocavam uma exigência da natureza animal que é assegurar a manutenção da espécie. E preservavam a virgindade das namoradas. De todas as formas possíveis. Estratégias para saciar o desejo sem que isso implicasse na perda do hímen, essa película responsável por carnificinas em muitas culturas.
A tradução das estratégias vem de forma resumida e elegante num diálogo que fariam os jovens de hoje gargalhar.
O narrador e o personagem Luiz do Carmo circularam pelos bordéias à procura de prostitutas. Cheios de culpa pelo comportamento que entendiam como “exploração” da mulher.
 
“Que depressão miserável, mesquinha, caiu sobre nós. Enquanto caminhávamos sobre os paralelepipedos da Vigário Tenório, eu lhe perguntei, sem poder olhá-lo:
 
– Você não pegou nenhuma?
 
E ele, a contragosto:
 
-Não, é contra os meus princípios.
……………………………………………..
Como você faz? Não sente necessidade?
– Eu tenho namorada
…………………………….
– E você faz sexo com ela?
…………………………………..
-Sim…Não.
-Sim ou Não?
-É sim…sim,sim. Mas não é um sexo completo.
-Hum…Mas completo até onde?
……………………………………………
….Eu respeito a virgindade dela, entende? Eu respeito”
 
O diálogo é uma e vidência explícita de o quanto minha geração que fazia resistência se negou. O quanto controlou emoções que são essência da natureza humana e que deveriam fluir com a mesma naturalidade com a qual o sangue navega em nossas veias. 
Perdemos? Hoje, quando vejo minha terra esfarrapada, acredito que sim. Perdemos. Mas, penso sempre no meu mestre maior, no mestre Darcy Rbeiro com quem tive o privilégio de conviver todas as quartas-feiras à noite, num grupo que ele selecionou para pensar Brasil. Bebíamos whisky e discutíamos nossa terra, esse amor sem retorno. E, ao pensar em Darcy, relembro uma de suas mais poderosas frases. Elas são o mapa de uma vitória. A vitória de nós, os derrotados pela História. 
    
  “Fracassei em tudo que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.
 
Darcy, meu amigo, esse resumo da tua vida em sete frases é o que me ilumina quando vejo os caminhos apresentando momentos sombrios.
Bom, para analisar “A Mais Longa Duração da Juventude” livro de Urariano Mota, esse jornalista, escritor e filósofo pernambucano a quem não conheço e com quem converso muito (obrigada Mark Zuckerberge, ou, “Tio Zucka”, como diz Renata Lins, pessoa a quem muito admiro) dividi a escrita de Urariano em dois eixos. Caso contrário eu me perderia em sofrências pelas cenas que agrediram nossa geração e, pelo amor à luta que se espalha em todas as páginas. São mais de 300. Li duas vêzes as mais de 300 páginas. A segunda leitura doeu ainda mais porque eu já sabia qual cena se seguiria. E sabia também o quanto ela me daria punhaladas. 
O livro é um suceder de paixões. Paixão na sua essência do apaixonar-se. Paixão que se desdobra no sentido mais amplo, o do amor. O amor das imensidões. Amor ao povo, e aos infinitos brasis com os quais convivemos mesmo que nos pareça invisível.  Da paixão, vou ao segundo eixo. O da fome.  Fome pela transformação de uma sociedade injusta; fome da comida que era pouca e assim mesmo dividida e, principalmente, a fome de viver toda uma vida em um momento. Entre a Fome e a Paixão, incluo a alma de um poeta. Urariano Mota é poeta. Mesmo na descrição dos momentos mais trágicos a poesia está presente. O seu “Eu” profundo de poesia, um eu que também se nega quando ele tenta ignorar os mistérios da vida, entre eles, os pressentimentos que o perseguem até na mesa de um bar do pátio de São Pedro naquela cidade do Recife palco das resistências narradas em “A Mais Longa Duração da Juventu”. Um eu que filosofa e que se aproximando dos 70 anos, é aquele mesmo menino magro, que se considerava feio no passado, mas que agora descobre ser uma vida intensa dedicada à luta a fonte de sua a beleza.  
Conversei com o autor algumas vêzes e lhe disse que se tivesse capital criaria um roteiro turístico da Resistênia em Recife percorrendo as ruas, restaurantes, bordéis, pensões, a praia da Boas Viagem, Porto de Galinhas e outros logradouros que em vários momentos foram cenários daqueles meninos que carregavam no peito o ardor revolucionário; daqueles pós-adolescentes que eram feridos de morte quando cada companheiro caía nas mãos dos nossos implacáveis inimigos, entre eles Cabo Anselmo e o delegado Sérgio Fleury. E mais, que produziria um filme com inspirações de Jean-Luc Godard dos anos 60/70 e Fellini. A viagem daqueles combatentes a Porto de Galinhas é felliniana. Mais especificamente, uma “Dolce Vita” de uma juventude, que criava situações que poderiam subverter a perversa ordem social vigente e cujos instrumentos eram o sonho, a palavra, uma arma talvez enferrujada e, um simples mimeográfio guardado sob cuidados. Um dos mais revolucionários instrumentos da nossa geração. 
Todo leitor, do ocasional aos totalmente viciados, escolhe, no livro que lê os momentos mais marcantes, os parágrafos mais intensos, e também, elege seus personagens favoritos. Os favoritos do leitor nem sempre coincidem com os preferidos de quem escreveu o livro.
No meu caso, os personagens para sempre inesquecíveis são “Vargas” (leia com um “R” carregado como pronunciam os de língua espanhola), “Gordo”, uma verdadeira enciclopédia musical e Luis do Carmo. Há muitos outros. Zacarelli, por exemplo, Selene, direção da UBES (União Brasileira de Estudantes Secundaristas), Torquato de Moura, “guardião das virtudes subversivas”, Narinha, Marx, sim,  Marx e Engels, filhos de um pai comunista, já velho e o primeiro a sentir o cheiro da infâmia que exalava do Cabo Anselmo, Zé Batráquio e, Ela. Refiro-me a Soledad Barret, uma quase-menina que, dentre todos que sucumbriram naqueles anos tristes foi a mais traída. Traída pela paixão. A mulher bonita, forte, marcada em lutas pelo nosso continente, musa do poeta Mário Benedetti, apaixonou-se por um homem abjeto chamado “cabo anselmo” (com letra minúscula mesmo porque os infames não merecem ser maísculos em nenhum momento). Se em “Soledad no Recife” ele apenas abra a cortina da paixão por Soledad,  nesse segundo de sua quase-autobiografia, ele a escancara. Soledad foi e será sempre, o grande amor de Urariano. Amor confessado com todas as letras quase no final de “A mais Longa Duração da Juventude”, quando diz, “A mulher que em legítimo platonismo eu amei”. Amo.” O legítimo platonismo se transformou no amor eterno, porque agora Soledad vive na eternidade, na imortalidade.   
Há grandes e inesquecíveis momentos. Muitos, principalmente aqueles nos quais os jovens revolucionários, militantes de organizações armadas de esquerda se reuniam num bar e discutiam Música, Literatura e o lindo horizonte pelo qual lutam, a pátria socialista. Os dois momentos que mais me emocionaram foram a viagem dos revolucionários de Recife a Porto de Galinha, dentro de uma Vemaguete, às quatro da manhã de um sábado, sem sequer conhecer o caminho entre as duas cidades e passando riscos reais de morrerem num acidente porque João Alberto, o único que dirigia dormiu várias vêzes ao volante e, tudo porque, “Pasárgada não podia esperar…” 
O outro momento que me marcou e, aqui, pela tragédia, é também uma viagem. Talvez a última antes de ser atingida pelas balas da ditadura. A viagem de Vargas no ônibus que embarcou depois de dizer à advogada Gardênia que era um homem morto, que já estava sendo caçado pelos homens de ouro do delegado Fleury e pelo infame cabo anselmo. Ela o aconselha a fugir, mas ele rechaça a idéia para não abandonar “Nelinha”, sua mulher que já era mãe da menina Krupskaia. Ah, quanta paixão existe na alma revolucionária! Entra no ônibus no ponto da ponte Duarte Coelho e segue pela Avenida Guararapes, Capibaribe, Largo da Paz, Afogados, Ponte do Motocolombó num monólogo com sua consciência, com a certeza da morte, com o desespero de não poder salvar sua pequena família. Esse talvez seja o mais dramático momento do livro. “Vargas” foi preso, morto e carregado para a Chácara São Bento onde os torturadores de Fleury o posicionaram ao lado de Soledad, alterando a cena do crime. Nenhum dos mortos da Chacina da Chácara São Bento, em janeiro de 1973, morreu naquele lugar. 
Os fatos são todos reais, mas os nomes são fictícios. Ou, como diríamos na época, todos codinomes.  
 Convido a quem me lê nesse momento a ligar um aparelho que toque música. Youtube, Ipod, CDPlayer, o que for, até mesmo uma vitrola, toca-discos ou um gravador com as já jurássicas fitas K-7. Não precisa por o som no último volume. Deixe apenas o suficiente para não interromper a leitura do livro. E, do começo ao fim das 320 páginas de “A Longa Duração da Juventude” ouça Ella Fitzgerald. Sugiro que “I Wonder Why” seja a primeira música. E, se pensarem em mim, ouçam “Dream, a Little Dream of Me”. Vamos, me dê sua mão e vamos passear por Recife, aquela linda cidade do Recife que se espelha sobre um rio cruzado pelas pontes que, de tantas,  fazem inveja a Veneza. Recife, cidade que ao lado de Belém e Porto Alegre simbolizam, para mim, a rebeldia do nosso povo, protege uma pérola. Olinda. E é lá onde Urarinao Mota, esse poeta, escritor, guerreiro a quem admiro sem nunca tê-lo encontrado vive hoje. Morar em Olinda não deixa de ser uma recompensa por uma vida entregua à resistência.
 
“Quando reflito o que vi, noto que nossa vida começa a partir de um instante fora do nascimento. Ela começa naquele minuto que define nossos dias, que ilumina o passado, presente e futuro. O instante definidor como a linha da vida, na palma da mão lida por uma cartomante que não esperávamos”.
 
Essas são as três primeiras frases do livro do jornalista e escritor (mais que isso, poeta) Urariano Mota, pernambucano. E a partir dessa frase pode-se dizer que a vida desse homem começou no instante em que ele inicia sua luta revolucionária para derrubar a ditadura que se instalara no Brasil quando ele atingia a puberdade. E dá seus primeiros passos de consciência um pouco mais tarde.
Quantos anos tinham Urariano, ou Júlio, quando aconteceu a primeira paixão? Exatos 19. E também, foi sua primeira paixão platônica. Houve outras. Urariano apaixonou-se por Ella Fitzgerald. Comprou um LP com suas músicas. Amor platônico, irrealizável porque Urariano não tinha dinheiro para comprar uma “vitrola”. A compra provocou protestos de Luís do Carmo, um sonhador de pés no chão. E Urariano, naquela miserável pensão “Treze de Maio”, na Avenida Princesa Isabel, em Recife, sob um calor intenso do verão nos trópicos, sem vitrola, acariciava a capa do LP como se acariciasse o corpo de uma mulher. O corpo de Ella, talvez. Ou o corpo da mulher que viria. A capa é quase a pele da cantora, da mulher que não podia ter.
E ele solta aquela dor antiga dizendo, “quero ter Ella, acariciar sua capa (que pobreza, meu Deus, dói até a lembrança neste instante. Quero antegozar a sua voz, a doçura que apenas ouvi por segundos e me derrubou num encanto…”
I wonder why. Urariano ainda busca as respostas para essa pergunta sussurada na voz de mel de Ella Fitzgerald.
Urariano foi de muitas paixões. Não sei quantas. Mas em seu leque, apenas uma das peças não estava integrada à resistência brasileira e é justamente a figura de Ella Fitzgerald. Porque Selene, a quase-menina, dirigente da UBES cujos joelhos e parte das pernas foram quimadas por ácido jogado pelos estudante de direita da Universidade Mackenzie, na “Batalha da Maria Antonia” em São Paulo, estava na resistência. Com fome, pedia uma sopa, depois de exibir o quadro da pauperidade com a qual convivia o movimento da oposição armada. Ela estava com fome. E sem cigarros. Rígida nos códigos da conduta revolucionária, ela atraíu a paixão dos que a cercavam. Exibia belas coxas. exibia as coxas na minissaia para que não percebessem as cicatrizes do ácido que a mutilou. E Soledad, a paixão maior e eterna, bem, Soledad era uma revolucionária latino-americana que já circulara por outros países do nosso pedaço americano dedicando-se à luta. Essas três paixões foram todas vividas platonicamente, em segredo, silenciadas. Em Soledad ele deu um beijo roubado no rosto e pediu desculpas. Não resistiu, recolheu as desculpas e passou as mãos nos lábios daquela mulher discreta e forte cujo nome deveria ser sinônimo de “revolucionária”.
Mas se as paixões eram platônicas, a fome era real. E Urariano, o único entre os demais a ter um emprego. Ele datilografava  (E percebo, nesse momento que as gerações que hoje estão na faixa dos 30, 40, jamais conjugará o verbo “datilografar”) guias de transporte de material elétrico, num galpão coberto com telhas de zinco, pagava a sopa da dirigente estudantil. Datilografava guias e era “suspeito de gostar de gostar de poesia”. Sim, gostar de poesia sempre nos colocou entre os suspeitos. Não havia dinheiro nos bolsos ou nas contas bancárias dos heróis da resistência. E a fome os perseguia. 
 
 “Em 1970 o almoço era pouco, dividi-lo era o mesmo que ficar com meia-fome . E meia-fome ainda é fome”. Apesar dessa penúria, Julio/Urariano e seus companheiros mesmo com o estômago vazio tinha consciência de que “quem possui o que sonha não é pobre. Nós nos alimentávamos do sonho uns aos outros”.
E o sonho era tão sonhado, tão vivido, que a “companheira Selene”, das pernas queimadas com ácido, ao expor a situação do movimento, com a firmeza de quem guarda a convicção da vitória pela luta diz,
 “Companheiros, temos sérias dificulddes de sobrevivência. Física, grana, alimentação, tudo…Mas o que são as dificuldades do Socialismo, companheiro? O que são as dificuldades diante do heróismo do vietcong?”.
O heróismo não era apenas do povo Viet. O heróismo era daqueles brasileiros pessoas que se encontravam na faixa cinzenta entre o fim da adolescência e o início da idade da adulta que entregaram sua juventude para a construção de uma sociedade menos injusta. Quem sabe, socialista. E aí penso nos meus irmãos #Sonsonho e #Gagocha que, sem passar por essas necessidades também sonharam, também entregaram sua juventude porque sonharam. 
Os trechos de “A Mais Longa Duração da Juventude” onde se expõem as as carências do mínimo derrubam um mito. A Direita na sua incansável campanha para desqualificar a luta que nos concederia um mínimo de Democracia espalhava a idéia de que os guerrilheiros do Brasil eram todos brancos e “fihinhos de papai”, filhotes da burguesia. NÃO e NÃO. Havia pessoas pobres, operários, desempregados, professores mal-pagos, mas incansáveis, trabalhadores de um barracão coberto de zinco que estavam imersos na luta política e na luta pela sobrevivência. E havia negros. porque a resistência não tem cor.
E essa verdade aprendida no livro de Urariano Mota teve para mim, não um gosto de vingança contra os ditadores e seus capatazes, mas uma esperança de que um dia, num futuro que talvez eu não alcance, os pobres, os miseráveis, tomem, retomem as rédeas de um mundo com a qual ainda sonho. 
Mas mesmo real, não cinematográfica à Charles Chaplin no magistral “Em Busca do Ouro”, onde querido “Vagabundo”, delirando de fome degusta sola de sapato como se fosse um prato apetitoso, o fato acontecido no “Restaurante Coqueirinho”, nos faz rir e chorar. A churrascaria me remete a Carlitos.
 Aqueles jovens que discutiam T.S. Elliot, Balzac, Proust,  dostoievski, Kafka, que ouviam Milton nascimento, frevos clássicos, frevos anônimos, que liam e discutiam Marx, Engels e outros filósofos, voltando do Cine Coliseu, tinham fome. Ou dividiam uma cerveja ou comiam. Mas cerveja provoca fome. Nesse momento, um casal na mesa vizinha, come um churrasco. Comem um pouco e deixam a mesa. E os revolucionários criam uma pequena dissidência entre a dignidade e a fome. A comida já estava paga. A fome impagável. A agilidade era fundamental. Pegar a comida deixada e paga antes que “Topo Gigio”, o  garçon conhecido, chegasse. Venceu a fome. Quase saciados, o choque seguido da vergonha. . O casal retornou à mesa. Um pedido de desculpas. E o homem do casal, sentencia, “Podem ficar”. 
“Estava escrito e não sabíamos. É do gênero da felicidade durar menos do que esperamos”, reflete consigo o poeta-guerrilheiro.
Eles eram assim, os guerrilheiros, aqueles pós-adolescentes que se preparavam com ardor para o momento de pegar nas armas, de sacrificar até à morte pela derrubada de uma ditadura e construir a pátria socialistaque. 
Os fatos estão narrados como se fossem um jorro, um desabafo. Não falta no livro observações com característica de auto-crítica. Não falta também um tanto de desengano com o comportamento de quem ainda estampa o rótulo de “esquerda” enquanto exercita práticas da direita. 
Além dos fatos da triste História de um país que entrou em decadência antes de chegar à maturidade, Urariano Mota nos concede reflexões de quem já encontrou as respostas exigidas, mas sabe que ainda a mais a questionar e responder. De todas as reflexões, transcrevo aquela que também me responde alguns questionamentos.
 “A vida lembra a intensidadede uma canção. Na reconstrução pela minha memória, a vida é intensa, profunda e breve. Mais próximo do que desejo dizer: a memória da vida é uma brevidade que não termina. Há um ponto e uma repetição indefinida. Melhor, não um ponto, são retincências…”
Mas vamos em frente companheiro porque, diria meu mestre Darcy Ribeiro, 
“Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”.
Nós também não, amigo. 
Obrigada pelas lições aprendidas nessa nossa longa duração da juventude.

 

One Response to “PAIXÃO SEGUNDO URARIANO”

  1. Judith Athade says:

    Emocionada com a leitura desse texto. Eu também nunca vou me resignar.

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