DE PECADOS E MODUS OPERANDIS BY TANIA FUSCO

By , 18 February, 2017 7:04 pm
Vocês se lembram daqueles cinemas de antigamente, que ficavam com luzes minúsculas piscando para anunciar o filme do dia? Aquelas luzes exerciam um fascínio especial na minha imaginação. E vem daí meu amor pelo “Cinema”. O fascínio pelas luzinhas cresceram comigo e até hoje piscam e piscam no meu universo amoroso que guardo intacto desde a infância.
Pois bem eu queria ter aquelas luzes-pisca-pisca para fixar ao redor da tela  e emoldurar o texto de Tania Fusco. É uma reflexão sobre o significado dos pecados capitais na leitura de uma jornalista que tem o dom de transformar assuntos corriqueiros em Literatura.
E eu preservo com todos os cuidados o carinho que nos liga.
Por isso, orgulhosamente, o Blog #MOSAICO lhes apreenta TÂAANIA FUSCO!
De pecados a modus operandi
TANIA FUSCO
Os (ex-pecados) capitais são sete: gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça e soberba. Há variações. Um e outro santo ou pensador do ramo amplia a lista. A heresia e a mentira, por exemplo, estão no inferno em funil de Dante, de nove andares, onde quanto mais fundo, pior.
No penúltimo andar está a heresia – culto ao demônio ou a outros deuses que não o Deus verdadeiro, aí incluído a idolatria ao dinheiro. O que seria uma variante da avareza e da soberba. Dante reservou o fundo do fundo à mentira. Distorcer a verdade seria pecado gravíssimo. Foi. Não é mais.
Andamos a pecá-los todos – os sete capitais e outros mais – de uma vez só e desavergonhadamente. Sem qualquer medo do inferno – presencial ou virtual.
A Gula, que é compulsão insaciável de comer e beber, além de fazer o mundo gordo, doente e alterado, ainda resulta também em egoísmo e cobiça. Mas corre solta, exercida de norte a sul do planeta.
A Avareza, que é o apego excessivo e descontrolado aos bens materiais, leva juros e impostos às alturas, faz Estados cada vez mais gulosos e perdulários, ricos cada vez mais ricos, impondo fome e pobreza a muitos.
Esse tal prazer de somar dinheiro a dinheiro, que alarga os limites da luxúria para muito além do desejo passional e egoísta por todo o prazer corporal e material, não mete mais medo. Rende selfie. 
Como incontido e disseminado desejo de causar mal a outrem, a velha IRA responde pela maior parte dos conflitos humanos, desde o início dos tempos. 
Nos dias de hoje, bomba. Quebra a banca. Saiu completamente da caixinha e do controle. Banalizou de um tanto que, sob a forma de raiva, ódio ou cólera por alguém ou alguma causa, é hoje o sentimento humano mais praticado. Não há Deus que nos livre da ira. É ex-pecado estabelecido e prática juramentada. 
Na cola da ira, ou antecedendo a ela, vem a Inveja, que é o desejo exagerado por posses, poder, status, habilidades e tudo que o outro tenha. O invejoso é um perigo. Odeia sem declarar. Pode estar longe ou até ali na sua sala, à mesa, sob os seus lençóis, só cobiçando e vuduzando o que é seu. 
O invejoso, Deus e o mundo sabem, quer sempre o que não tem. É parasita da sorte alheia, que pelas redes sociais afora destila sua cobiça por tudo que o outro tenha e ele não – particularmente, sucesso e dinheiro. Na forma de ciúme, a inveja costuma matar. E cai matando.
A Preguiça é definida como a prática permanente de negligência, falta de capricho, de esmero, de empenho, desleixo, morosidade, lentidão, descaso. Ex-pecado muito praticado nos nossos serviços públicos. Alcança com voracidade os mais necessitados de atenção e socorro – doentes, crianças e idosos, os frágeis todos preferencialmente. 
No modo descaso, a preguiça costuma debochar dos cidadãos em geral. Nos derradeiros meses, a permanente negligência das administrações de estados brasileiros, que é outra modalidade da preguiça, deixa sem salários servidores públicos de áreas essenciais – professores, médicos e policiais, por exemplo. O povo que se exploda.
Chegamos à Soberba, também conhecida como vaidade ou orgulho, sentimento siamês da arrogância, que dispensa descrição. É plena de exemplos. Com ela vimos esbarrando em volume cada vez maior. Para sairmos da esfera nacional, que é farta em soberbas, vamos nominar um estrangeiro: Trump, o presidente americano, em quem até o topete (capilar) espelha soberba. 
Para piorar a cadeia dos pecados caídos no modo desuso, como leis que não pegam, há ainda novos pecados capitais made in século 21. Igualmente praticados sem cerimônia. Por exemplo:
A Pressa. Os apressados não têm tempo para coisas de Deus, como solidariedade e compaixão. A pressa também alimenta as iras. Os efeitos colaterais mais visíveis da pressa são a impaciência e a ansiedade, que fazem matar e morrer.
Há ainda o Causar Injustiça Social. Ou seja, manifestar e praticar preconceitos e bullying. Dispensa explicações. 
Por falta de vaga no purgatório ou no inferno, pecados, antes capitais, foram promovidos a corriqueiro modus operandi. Ou praticamos, ou toleramos. Ou sobramos.
PS.: Há quem garanta que, apesar de descriminalizados e reduzidos à categoria de ex, os velhos pecados capitais mantém seus apadrinhamentos no alto clero infernal. Assim, Asmodeus cuida do bloco da luxúria, Belzebu da gula, Mommon da ganância, Belphegor da preguiça, Zazazel da ira, Leviatã da inveja, e Lúcifer da soberba. 
E haja água benta!

PILOTOS SEM BÚSSOLA NA AMAZÔNIA INFINITA

By , 13 February, 2017 3:07 pm

Nestas caixa estampadas com mapa-mundi, guardo histórias de minha vida

Confesso que fui inspirada a escrever a partir do baú de fotos de minha amiga Eliana Lucena, companheira de tantas viagens e, com certeza, minha única confidente. Por muito mais de dez anos, palmilhamos, ou melhor, voamos, em monomotores, bimotores, DC-3, e até aviões que insistiam em voar sem motor algum porque eles silenciavam em pleno ar, sobre aquele mar de árvores que de tão verdes pareciam um negro profundo pela Amazônia infinita. Quer dizer, na época em que ela parecia infinita porque estava apenas sendo ameaçada de destruição. E nós já denunciávamos essa destruição no início da década de 70.

Eliana guarda mais fotos dessa época. Eu guardo as histórias numa já legendária coleção de agendas onde anoto o dia a dia desse nosso país. As agendas estão catalogadas, guardadas em lindas caixas no alto da minha biblioteca. Suas páginas trazem histórias e entrevistas que remontam aos tempos em que o conceito da palavra #honra ainda era conhecido e praticado. Tempos em que as denúncias de corrupção de uma ditadura que nos fraturou para sempre eram abafadas sob tacos de botas ou ameaças explícitas contra os jornalistas. Não éramos heroicas. Não buscávamos fama ou prêmios nacionais ou internacionais. Sequer nos passava pela cabeça escrever livros imediatistas. Não. Nós apenas ousávamos praticar nossa profissão com um mínimo de decência. E era um exercício com risco de vida. Mas era necessário.

Algum de vocês já foi obrigado a empurrar um avião para ele “pegar”, ou seja, para que as hélices se movessem e sair correndo para sentar e decolar? Sim, já nos aconteceu. E mais de uma vez. Nem me lembro quantas.

Piloto perdido então, era o que não faltava. Piloto desmaiar em pleno voo foi a mais surrealista das nossas aventuras. Até porque, nessa viagem do piloto perdido, tudo começou errado, desde a saída e Brasília até Conceição do Araguaia (cidade grande daquelas bandas do sul do Pará).

O ano era 1980. Os Kayapó de norte a sul do Xingu decretaram uma guerra contra a proliferação das fazendas, contra as estradas iniciada nos anos 70 e com uma realidade agravada com a explosão dos garimpos e madereiras. Foi uma guerra de “efeito dominó”. Começou entre os Kayapó do Kretire, dentro do Parque Indígena do Xingu e se estendeu até o sul do Pará, com os Kayapó do Gorotire, no hoje município de Rio Maria.

Na viagem de ida, o piloto apenas se perdeu. Tenho um pânico irracional de aviões. Nos últimos três anos, minha médica tem receitado seis comprimidos quando vou ao Brasil. Viagem de ida e volta a Brasília, ida e volta ao Rio e ida e volta a Santarém. Se eu fizer mais de seis percursos de avião, vou de ônibus. Os comprimidos me deixam totalmente lesa. Não reajo nem sob uma tempestade.

Perdido e sem co-piloto. Era eu quem ocupava a poltrona do co-piloto. Ele voava e voava. Voava em círculos. Só percebi que estávamos voando em círculos quando pela terceira ou quarta vez ele sobrevoou a mesma fazenda.

Nossa viagem era para cobrir um acontecimento trágico. Os Kayapó do Gorotire tinham promovido uma chacina na “Fazenda Espadilha”, município de Rio Maria. Eram 17 mortos, entre estes, duas crianças e a babá, Aparecida. Uma das crianças tinha o nome da minha filha caçula, Helena.

Cansado de voar no mesmo espaço, o piloto, um jovem ainda imberbe e uma tanto amarelado, resolveu pedir ajuda aos outros pilotos que circulavam pelo mesmo espaço aéreo. Na qualidade de co-piloto, anotei as indicações na contracapa de minha agenda. E lá está escrito, “segue rumo norte, 50 graus de latitude. Passa um morro e depois duas fazenda. A terceira é Espadilha.

Mas não teríamos acesso á Fazenda Espadilha. O acesso só seria dado pelo famoso e mal-afamado Major Curió, o “homem do helicóptero vermelho”, senhor das terras do Araguaia desde a época da guerrilha. Encontramos o sorridente Curió no Hotel Tucumã, em Conceição do Araguaia. O horário já não permitia voo de aviões de pequeno porte. No dia seguinte, autorizados, chegamos ao local do massacre. Tento apagar a imagem da carnificina e ela insiste em permanecer viva na minha memória. Eles estavam mortos há mais de três dias. Desde a entrada principal da fazenda até os quartos, havia corpos. E muito sangue. Sangue para todos os lados. Muito, muito, muito sangue. Sangue humano. Sangue de vítimas da invasão da Amazônia. E as vítimas sempre foram os deserdados, índios, sem-terra, garimpeiros esfomeados.

Não havia tempo para passar matéria completa. Passei por telefone do hotel apenas dez linhas. E foi a única vez que tive matéria de dez linhas na primeira página da Folha de São Paulo, assinada. Que vergonha, assinar na primeira página e apenas dez linhas. Estávamos todas, Sandra Carvalho junto, em choque, apesar de já termos experiências com massacres e corpos espalhados sem vida.

Na volta, foi pior. Mal o avião decolou, nem dez minutos de voo e o piloto, a troco de nada, desmaiou. Desmaiou de fome. Sim, porque as empresas de táxi-aéreo pagam um salário tão baixo que os pilotos economizam as diárias recebidas e não almoçam ou não jantam. Ou então, não almoçam, nem jantam. Alguém providenciou sal e o piloto se recuperou. Eliana, Sandra e eu, devidamente alimentadas, apenas lixávamos nossas unhas, verdes de medo. Eu já quase sem sobrancelhas porque levo sempre uma pinça e vou tirando a sobrancelha cada vez mais rápido, à medida que o pânico aumenta.

Sã e salva, voltamos para contar os horrores da guerra de destruição da Amazônia.

Numa outra viagem, quando Eliana Lucena mostrou o quanto é leal às amizades, só chegamos por reconhecer os sinais de fumaça. Literalmente.

O presidente da Funai, general Ismarth de Araújo, pessoa de quem eu gostava muito, resolveu me punir me mandando num pequeno avião, o Minuano. Era dezembro, quando chuvas torrenciais desabavam do Cerrado à pré-Amazônia. Nosso destino era o Parque do Xingu, posto Diauarum, onde vivem os Kajabi, Suyá, Juruna.

A situação em Diauarum estava delicada. Os irmãos Villas-Boas haviam se aposentado e o sertanista Apoena Meirelles fora nomeado para dirigir o parque. Seu nome não era unanimidade. Os índios rejeitavam. Escrevi sobre isso e o general me puniu. Os jornalistas seguiriam todos no avião Bandeirante da Funai. E eu, no “Minuano”, um bimotor até ajeitadinho. Eliana, numa solidariedade inesquecível, prontamente disse que iria comigo. Fiquei comovida.

O Minuano estava com uma carga tão grande que nós duas íamos imprensadas entre caixas. Tudo bem na saída. Voamos tranquilamente até a ilha do Bananal, para abastecer. Daí em diante foi pauleira. Chuva sem trégua, tempestade e o Minuano parecia uma folha seca voando ao sabor do vento. Eu já estava morta. Confesso. Totalmente morta. Ressuscitei quanto o piloto, já um tanto nervoso, nos disse, “estou perdido”. Ai, meu Deus. Piloto perdido. Onde andará meu brevet?

Bom, orientamos o piloto. Já estávamos em terras xinguanas. Eu, como sempre, na poltrona do co-piloto. Ressuscitada disse, “segue por cima do rio maior. E o piloto, “mas como distinguir o rio maior se está tudo igual”. Confesso que quase morri de novo. Era 22 de dezembro de 1978. Natal seria daí a três dias e eu só pensava em estar em casa para o Natal com minhas duas paixões, Cristina e Helena.

Foi Eliana, que também ressuscitou discretamente quem disse, “lá está, o maior. É visível”. E então vimos o Xingu em sua majestade se destacando naquele mundo de água. Mas nem o piloto, nem nós sabíamos se estávamos mais ao sul ou mais ao norte do parque. E então falei, vai por cima do rio, em voo baixo até ver fumaça. Onde tiver fumaça, deve ter uma pista de pouso. Ueba! Viva! Chegamos a Diauarum e as negociações de paz já estavam a pleno vapor. Mas chegamos inteiras, com nossas agendas de anotações e nossas insuperáveis Bic´s. Azuis.

Tive o direito de voltar no “Bandeirante” da Funai, olhando Cláudio Villas-Boas com um ar triste porque foi naquele dia que ele e seu irmão Orlando, esses dois valorosos Villas-Boas cortaram seu cordão umbilical do Xingu que tanto amavam.

Essas são apenas duas das dezenas de outras histórias com pilotos, monomotores e essa nossa Amazônia tão amada e vilipendiada pela codícia.

Há uma que não conto nem amarrada. deixo para Eliana. Só ela conhece o segredo do vaso Karajá, dentro de um avião perdido na chuva.

 

 

 

 

 

 

 

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