O JAGUNÇO DA ESPLANADA*

By , 25 May, 2016 10:26 am
romero-juca
Corria o ano de 83.
No Rio, Brizola, do PDT, fora eleito, meses antes, governador do estado, depois de quase duas décadas de governadores biônicos. Em Pernambuco, Roberto Magalhães, do PFL, comandava um dos estados mais aguerridos do Brasil. 
Recém-formado em Economia, mais exatamente em Engenharia Econômica, um jovem criado dentro das usinas da direita nacional já despontava. E bem equipado.
Foi no começo do ano. Magalhães decidiu desalojar os sem teto do Conjunto Maranguape. Para esta operação foram deslocados 800 policiais militares. E é ocioso falar da brutalidade das PM´s no país. Prenderam o vereador do Recife, Pandolfe Rodrigues, na época dos quadros do PMDB enquanto esperava seu partido, o PCdoB, sair da clandestinidade. O episódio passou á História pelo nome de “Batalha de Maranguape”. E a palavra‪ #‎maranguape‬, na língua do povo Potiguara, que hoje se restringe à Paraíba, significa “vale da batalha”.
O jovem bem equipado trajava uma jaqueta de estilo aviador e portava, na cintura, sem qualquer escrúpulo, uma arma de alto calibre. Esse jovem, secretário de Roberto Magalhães atende pelo nome de ROMERO JUCÁ. E foi assim que ele iniciou sua carreira política.
Daí em diante só cresceu e encheu seu próprio cofre com dinheiro público, com maracutaias, propinas, chantagens e todas as demais palavras que integram o mundo do crime. 
Em 1985 saiu da esfera estadual e já era condutor de um programa nacional, o Projeto Rondon. Não demorou muito e foi levado, pelas mãos de Marco Maciel, para Brasília. mais exatamente para dirigir a Conab. Lá deixou seu primeiro rastro de corrupção na figura de ‪#‎Jucázinho‬, como é conhecido seu irmão Oscar Jucá Neto. O irmão do diminutivo até hoje responde processo na Companhia Nacional de Abastecimento, onde também trabalhou. 
Da Conab, e sempre por indicação de Marco Maciel, foi nomeado pelo presidente José Sarney para dirigir a Fundação Nacional do Índio. E foi ali, na Funai, que ‪#‎Jucá‬ revelou sua mente brilhante para as atividades do Mal. Envolveu-se com venda de madeira ilegalmente extraída do território do povo Kayapó. Foi indiciado, mas jamais condenado. E a este seguiram-se mais 21 processos. Com suas estratégias de chantagens, Jucá nunca foi pego nem na primeira nem na última instância do Judiciário brasileiro
Mas seus crimes se espalharam quando decidiu abrir o território da nação Yanomami para o garimpo de ouro. Na ocasião, Jucá proibiu a entrada de jornalistas, missionários e antropólogos na terra dos Yanomami. Só entrava garimpeiro. E ele lucrava sobre os corpos dos índios que tombavam com desnutrição e malária (doença quase desconhecida em Roraima, antes da devastação). Foram cerca de mil índios mortos. Um verdadeiro genocídio de um povo que até então tinha relações intermitentes com a sociedade nacional. 
O crime foi denunciado internacionalmente. O nome Jucá passou a ser repetido em mais de cinco línguas. E em todas elas seu nome era sinônimo de morte. Porque “Morte é o verdadeiro significado da palavra “Jucá”, na língua Tupi.
Feito estrela de primeira grandeza, ele começa a brilhar. E Jucá, agora homem de confiança de Sarney, foi nomeado governador de Roraima. O último governador nomeado do antigo Território Federal de Roraima, alçado depois à categoria de Estado. Completou sua obra de avançar sobre os territórios indígenas e fincou, definitivamente, as estacas de sua fortuna, toda ela meticulosamente construída com dinheiro público.
Não satisfeito de ser o único corrupto da família, dividiu seus bens com os próprios filhos. 
Em 1996, fez o loteamento da corrupção com seu filho Rodrigo Jucá que, em 2011, aos 29 anos, já contava com um patrimônio nove vezes maior do que o patrimônio de seu próprio pai. Rodrigo, deputado estadual pelo PMDB em Roraima, responde a processos de grillagem de terra pública urbana em Boa Vista. Entrou para o ramo imobiliário e “comprou” terrenos para construir condomínios.
Para sua filha, Marina Jucá, a jóia da coroa, a Boa Vista Mineração, criada em abril de 2012 e cujos sócios são, além do próprio pai, duas outras pessoas ligadas ao agora ex-ministro do Planejamento. Em 2 de abril de 2012, a empresa entrou com pedido de exploração de minério junto ao DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral) em “novas terras”, leia-se “terras indígenas”. Não por coincidência, em 17 de maio, o senador Romero Jucá sobe à tribuna da casa para convencer seus colegas a aprovar seu próprio projeto de lei que abre os territórios indígenas à exploração de minérios o que, em Roraima significa ouro, diamantes e, principalmente, nióbio, um dos mais raros minérios do planeta Terra. No seu discurso, “em defesa do Brasil”, esse que sempre foi o Mensageiro da Morte dizia:
“Quero aqui registrar a importância deste debate. Para o Brasil, é muito importante (a aprovação da lei)”.
E passou, então, a explicar os benefícios da proposta:
“Haverá pagamento de royalties ao Poder Público e também à população indígena. Ganhará o direito à mineração aquele que pagar mais à comunidade indígena. Haverá uma licitação. Haverá todo o cuidado ambiental, todo o cuidado antropológico da Funai”. E para comover os demais senadores encerrou seu apelo dizendo que o projeto observaria a “licitação”, “cuidado ambiental” e “cuidado antropológico”.
Tinha pressa, o senador. Urgência em pôr as mãos nas maiores reservas minerais do Brasil. O projeto rola até hoje nas comissões do Senado e Jucá planejava (é um “planejador” nato) votá-lo agora, quando voltou à Esplanada dos Ministérios cavalgando um movimento chamado ‪#‎golpedeEstado‬.
Versátil, ele também foi escolhido líder do governo de FHC. Tem as manhas das negociações baseadas em chantagens, promessas de propinas e outros elementos que nós brasileiros comuns desconhecemos.
As podres alianças do PT sustentaram a escalada de crimes dessa figura. E foi assim que Jucá se manteve líder do governo de Lula e Dilma. Só uma miopia política de um partido que um dia foi o sonho de mudanças podia abrigar em seus governos essa biografia manchada de sangue e corrupção. 
E não foi só líder do Governo. Lula teve a ousadia de nomeá-lo ministro da Previdência, outra frente de verbas para alimentar esse senador que continua impune afrontando a sociedade. Ele tomou posse no Ministério da Previdência em março de 2005 e caiu em julho do mesmo ano. Foi ancorado por Lula que ainda gozava de muita popularidade. E caíu porque o jornalista Rubens Valente publicou uma série de reportagens sob o selo “Fazendeiro do Ar”, pela Folha de São Paulo. Caiu e voltou para seu ninho no Senado no gabinete de espessas paredes já ouviram quase todas as estratégias de corrupção planejadas, montadas e executadas por essa figura que desde sua aparição na cena pública sempre atuou ora como ‪#‎jagunço‬, ora como simples ‪#‎gangster‬
E para a surpresa de muitos, suas vísceras foram novamente expostas. Dessa vez não só nos seus negócios excusos. Ele foi bem além, planejando um golpe de Estado. Um golpe para que não investigassem sua vida de crimes.
A carreira de Jucá não se encerrou. Seus tentáculos vão muito longe. E nem se encerrará com uma simples cadeia. É necessário e, sabemos que não acontecerá, que ele seja condenado à expropriação de seus bens, porque todos eles trazem a marca do esbulho de nossas riquezas e das poucas sobras que se despejam em programas sociais. Para Jucá, e família, nem um presídio de segurança máxima será suficientemente impenetrável para que ele seja impedido de cometer os mesmos crimes.
* Esse texto, em parte,  só foi possível graças às valiosas memórias de ‪#‎ChicoPreto‬, um valente militante comunista de Recife, homem simples e um filósofo do comportamento político brasileiro. Obrigada Chico.

Panorama Theme by Themocracy