UMA JARARACA ENFRENTA O LATIM

By , 10 March, 2016 12:46 pm

Memélia Moreira 

Quem escreveu a matéria que está colada aí embaixo conhece bem pouco as engrenagens do Vaticano. E essa falha distorceu a informação.  
A Folha de São Paulo, meu querido jornal, jornal que me deu espaço para denunciar todas as violências contra índios, camponeses e os demais deserdados da terra, #esmagalhou (era assim que meu irmão #Sonsonho dizia a palavra “esmagou” porque tinha certeza que esmagalhou parecia um trator passando sobre o objeto a ser destruído) a notícia.
Dom Jararaca, que atende pelo codinome de Dom Darcy Nicioli, foi removido de Aparecida do Norte para Diamantino. A Folha, num canto de baixo à esquerda da página na internet disse, na quarta-feira, nove de março,  que o bispo foi promovido. Como assim?
Vamos tentar entender. 
1) Qual a importância, no cenário nacional do bispado de Diamantina (MG)? 
Até onde eu saiba, aquela bela cidade, cheia de histórias e que preserva uma reliquía arquitetônica riquíssima, povoada de músicas e serenatas, além de ser berço de Juscelino Kubistcheck, não tem quase nenhuma importância política no cenário nacional. Menos ainda, no xadrez internacional. 
2) Qual a importância de Aparecida do Norte?
Além de estar localizada no estado de São Paulo, a megalópolis mais pulsante e rica da América Latina, o que não lhe confere mais importância do que estar situada em Minas Gerais,  Aparecida é um dos maiores centros de peregrinação religiosa, do mundo. E isso sim lhe dá importância. Quero dizer, importância para os seguidores da Igreja Católica Apostólica Romana. Por lá passaram inclusive cardeais, no caso de Dom Aloísio Lorsheider, que foi nada menos do que presidente da CELAM (Conferência Episcopal Latino-Americana) e presidente da CNBB Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 
Conclusão: é muito mais importante ser bispo-auxiliar em Aparecida do Norte, porque sempre há a possibilidade de um dia substituir o próprio comandante do episcopado e até se tornar cardeal do que ser bispo de Diamantina.
O que aconteceu com Dom Darcy Nicioli foi uma das práticas mais usadas pelo Vaticano, conhecido pelo termo latino “promoveatur ad removeatur” ou, no italiano “prumoevere per rimouvere”. Quando um bispo-auxiliar é promovido para uma diocese sem tanta importância política essa é a estratégia mais usada usada pelo Vaticano. Uma outra é obrigar o bispo ao “silêncio obsequioso”, muito utilizado pelo Papa Joãp Paulo II quando quis calar vozes incômodas para o Sumo Pontífice. Foi o caso de Dom Pedro Casaldáliga. A delicada figura do catalão que fala baixinho foi submetida duas vezes aos silêncio obsequioso porque bradava contra a ditadura militar do Brasil. Uma ditadura apoiada por João Paulo II e seu aliado preferencial, o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. 
O Papa Francisco é o antônimo de João Paulo II. Essa sua primeira intervenção no episcopado brasileiro é uma pequena amostra da disposição política de Francisco. E foi ditada por uma experiência pessoal. Ele conhece as entranhas das ditaduras sangrentas que se abateram no nosso continente. Viveu a Argentina dos generais. 
No começo dos anos 80, João Paulo II destroçou a Arquidiocese de São Paulo, retirando partes do território comandado por Dom Paulo Evaristo Arns que combatia com muita doçuura e firmeza uma ditadura que vivia seus estertores. E assim afastou também Dom Luciano Mendes de Almeida. Ele era bispo-auxiliar de São Paulo e foi nomeado bispo de Mariana (MG). Evidentemente, jamais recebeu o anel cardinalício, promoção que era esperada por todos que acompanham o jogo político do Vaticano. 
João Paulo II também “promoveu” vários bispos da região do Araguaia quando forte eram os clamores pós-anistia na busca dos desaparecidos da guerrilha. Os bispos da região, a começar por São Félix, dirigida por Dom Pedro Casaldáliga se juntavam aos clamores. O Papa polonês manteve Dom Pedro, mas promoveu, mandando para o ostracismo seus principais apoios, o bispo de Conceição do Araguaia, Dom Estevão Cardoso de Avellar e o de Marabá Dom Alano Pena (que foi torturado pelos militares na época da guerrilha). Para o lugar de Dom Estevão, acreditou que seu substituto, Dom Patrick Hanharan, se manteria distante das lutas camponesas. Antes dos 30 dias depois de sua consagração, Dom Patrick já respondia o primeiro IPM (Inquérito Policial-Militar) por dar apoio aos lavradores. Ele, que era um irlandês conservador, foi convertido à causa do povo. E morreu envenenado a mando dos fazendeiros da região.
Bom, mas aí é outra história. Fiz um parêntese muito longo. Voltemos, pois.
Daí se pode concluir, sem muitos questionamentos,  que Dom Jararaca  foi afastado. E isso significa que Francisco, esse papa que chegou para tirar toda a poeira que há séculos se acumulava sobre os móveis, as paredes, lustres e, principalmente, as idéias do Vaticano, não chegou exatamente a esmagar a cabeça da cobra, mas deu-lhe um pontapé certeiro. Ou, em outras palavras, mandou o recado de que pode ser traduzido a “recolha-se ao seu lugar”.
 Portanto, senhor editor da Folha de São Paulo, pouco me importa que o senhor e seus chegados estejam numa ferrenha luta levar o PT a ser um partido proscrito.  Jogá-lo na clandestinidade e banir seus presidentes eleitos. Essa é uma opção ideológica e não estou aqui para ditar opções ideológicas.  O senhor não é o primeiro chefe desse jornal, que foi minha casa por mais de 10 anos, a apoiar movimentos que não se contentam apenas em ser oposição, mas que pregam abertamente um golpe de Estado. Talvez não seja o último também. Conheci outros.
Mas não se esqueça que um dia esse jornal que o senhor dirige foi porta-voz de outro golpe, ajudando inclusive os torturadores, até que passou para o papel de vítima porque ninguém cultiva ninhos de serpentes impunemente.  
Há um escritor grego, cujo nome brinca de esconde-esconde na minha memória que diz “nada mais fácil do que iniciar uma conspiração”. É verdade. Conspiração golpista é fácil de comandar ou apoiar. É igual criar corvos. O problema é que um dia eles te devoram os olhos.
Senhor editor, me parece que o senhor está alimentando seu corvinho. É uma ave linda de plumas negro-azuladas. Mas lembre-se que só um estado democrático aceita diatribes golpistas. Não se esqueça disso. Mas, por favor, não distorça e nem permita que seus repórteres distorçam uma informação. E estude um pouco mais sobre a diplomacia do Vaticano. Além de ser instrutivo, é uma verdadeuira riqueza para quem gosta de Geopolítica e das engrenagens das guerras mantidas pelos impérios. 
 
P.S. Começo a desconfiar que Diamantina é também uma espécie de exílio de bispos golpistas. Pela Arquidiocesa daquela bela cidade já passou também Dom Geraldo Proença Sigaud, grande esteio da ditadura militar e que foi fiel aos homens de verde-oliva até o momento final. A Anistia cehgou em 1979. Dom digaud só agüentou até 1980.
 

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