NOITE EM CUERNAVACA

By , 17 April, 2014 10:17 am

 

 NOITE EM CUERNAVACA

 Memélia Moreira

 Era sábado e fazia muito frio na cidade do México naquele fevereiro de 1978. Meu tio, Neiva Moreira, que ainda amargava o exílio, acordou cedo e anunciou que íamos sair antes das nove da manhã para viajar. No caminho, compramos um bolo confeitado para comemorar o aniversário de uma das figuras que mais admiro na História do Brasil, Francisco Julião, que desde sempre fez parte do meu imaginário com suas lutas pela Reforma Agrária. O bolo parecia um arco-íris tantas e tão fortes eram as cores. No México, todas as cores e sentimentos são fortes. Até mesmo o dia dos mortos é comemorado com cores. O bolo seguia a tradição.

Subimos e descemos montanhas num “carro de praça”, antiga denominação para táxi, ainda usado por Neiva. Era confortável, mas mesmo assim não consegui continuar o sono interrompido. Seria quase um sacrilégio dormir e perder todos os momentos e paisagens daquele que é um dos países mais fascinantes que conheci. E só no caminho fui informada de que seguíamos para Cuernavaca, a capital do Estado de Morelos. Pronto, foi o suficiente para me deixar em crescente excitação. Morelos! Terra de Emiliano Zapata, outro personagem que reverencio. O homem que comandou a revolução mexicana. E mais montanhas e vales. E a terra seca, cinza, deserta. De vez em quando ultrapassávamos ônibus que gemiam nas subidas ou assoviavam nas descidas. E a terra continuava seca e cinza.

Ainda não era meio-dia quando chegamos à cidade. O táxi nos deixou em frente a uma casa singela, toda branca. Branca mesmo. Por dentro e por fora. E, na minha frente, tranquilo e amável, Julião, nome que era o terror de latifundiários e grileiros que ainda hoje infestam o Brasil. Pouco depois chegou mais um convidado, com sua esposa. Vestido de “guayabera”, branca, calças largas e voz tonitruante, ali estava para meu deslumbramento, o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez. De verdade. Trouxe petiscos para o almoço porque ali, ele era apenas “Gabo”, e naquele dia, pouco lhe interessava a fama porque naquele sábado, o importante era o aniversário de Julião. E ali estavam entre amigos, todos exilados das tantas ditaduras de nossa América.

Chegou a hora do almoço, mas não me lembro qual foi o prato principal. Só estava interessada na rica conversa entre aqueles três homens e na sobremesa. Era o famoso bolo enfeitado com flores açucaradas, vermelhas, verdes, amarelas, alaranjadas e até azuis. E recheado com chocolate e ameixas. Cantamos parabéns e tomamos suco de uva com o bolo.

Não saímos de casa. Nada de conhecer o “Palácio de Cortéz” ou o “Capitel do Calvário”. Não. Definitivamente, não. Para que conhecer monumentos construídos pelos invasores espanhóis e perder tanto conhecimento transmitido nas conversas? Não, o melhor era ficar ao redor da mesa aprendendo. Além disso, pensava eu, teria uma bela história a escrever para meu jornal. Na época, trabalhava no “Jornal de Brasília”.

Nem vi a tarde escorrer e, quando a noite começou a chegar foi que Julião nos contou que sua casa – construída com suas mãos – não tinha luz elétrica. Durante o dia, a iluminação era natural. E ao escurecer, velas e lampiões. Assim, dizia o homem que tanto sonhou e lutou pela Reforma Agrária, “economizo energia”. Francisco Julião era homem pobre.

E continuavam conversando, sem parar. Eu, calada, sorvendo cada vírgula, cada travessão, cada parágrafo. Neiva entusiasmado com a queda de Reza Pahalevi no Iran, destronado pelo aiatolá Khomeini. Gabo provocava Julião, que buscava seus cadernos com poesias escritas à mão. E confessava que ao se separar de uma mulher, sempre lhe deixava uma poesia. E Gabo queria saber se já havia poesia para a companheira do momento. Os dois riam, Nas pausas, Julião nos fazia ouvir fitas que ele mesmo gravou com os remanescentes da revolução mexicana. E os dois combinavam escrever um grande romance sobre a revolução. O personagem principal seria Gregório, um dos sobreviventes que morreu com mais de 90 anos e fora entrevistado por Julião,que tinha milhares de horas gravadas com os revolucionários. Não sei o que foi feito das fitas. Parece que foram entregues à Universidade Federal de Pernambuco. Mas delas não tenho mais notícias.

A conversa varou a noite. Nem vi meu tio deixando a sala para dormir. Mal levantava para beber água, totalmente magnetizada pela conversa, que em nenhum momento caíu nas amarguras de exilados. Riam, contavam piadas sobre os ditadores, comentavam o impacto da visita do Papa João Paulo II à cidade do México mas, falavam principalmente de poesia e política.

Quando o domingo começou a raiar, os dois, sem interromper a conversa, prepararam o café e foram acordar suas mulheres. Foi aí que Julião nos deu uma ordem. Não podíamos perder a missa. “É a maior atração dessa cidade”, dizia com um ar grave. Então conheci a Catedral, que começou a ser construída em 1526. Imponente como todas as catedrais embora sua principal riqueza fosse mesmo a conhecida “Missa Panamericana”, celebrada pelo cardeal espanhol Sérgio Mendez Arceo. Mais que missa, um libelo em defesa dos direitos sociais dos povos dominados pelo Império, vizinho ao México.

Depois da missa, como se tivesse vivido um sonho, voltamos para a Cidade do México. Peguei então minha agenda de anotações, que não ousara abrir durante a conversa e escrevi as histórias daquela noite encantada. Feliz porque tinha uma boa matéria para meu jornal.

Doce ilusão!

 Ao chegar, entusiasmada, fui direto ao chefe dizendo que tinha diálogos inteiros entre Neiva Moreira, Francisco Julião e Gabriel Garcia Márquez. O chefe, jovem jornalista de boa família e boa formação acadêmica, olhou com total desdém e respondeu: “Essa matéria não interessa ao jornal”. Quase chorei de raiva, mas meu desprezo foi tanto, que preferi dar de ombros. Não o sabia medíocre mas, agora, 31 anos depois, foi que tive certeza de sua pequenez, quando vi que seu nome era um dos citados para diretor-geral do Senado, que vive sua mais profunda degradação. E então entendi porque minha rica história não o interessou. O chefe estava apenas fazendo sua carreira. Obviamente, a noite encantada de Cuernavaca não acrescentaria ítens no seu currículo.

Que pena!


 

 

3 Responses to “NOITE EM CUERNAVACA”

  1. Cristina says:

    Achei essa mesma história, deste encontro, num outro site, só que não está contada com todo o seu tempero. O site é: http://www.ozildo.com.br/?ct=dtl&id=67
    Que encontro mais fantástico! Beijos, Tina.

  2. Uraiano Mota says:

    “Mais deliciosa” eu quis dizer.

  3. Uraiano Mota says:

    Memélia, essa crônica, essa recordação, está ,ais deliciosa que qualquer molho que você possa inventar.
    O livro foi lançado, está disponível, aqui

    Abração.

Leave a Reply

Panorama Theme by Themocracy