O CAMINHÃO DA NOITE DE NATAL, UM CONTO DA DITADURA

By , 29 March, 2014 12:36 pm
2014-03-29 MAMÃE COM QUATRO FILHOSb

Mamãe com quatro dos cinco filhos. Verinha ainda não havia nascido e eu estava com a boca cheia de pirulito.

2014-03-29 Memfam1970s

Pouco tempo depois daquele sombrio 71. Nós cinco por ordem de chegada ao mundo: Eu, Sonsonho, Gagocha, Goretti e Verinha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O CAMINHÃO DA NOITE E NATAL, UM CONTO DA DITADURA

Memélia Moreira

As esperanças pareciam agonizar no ano de 1971, o mais sombria de minha vida. Eu acabara de chegar de Paris e, logo no começo de janeiro, meu pai morreu. Estava com 50 anos. No hospital assinaram o documento dizendo que a morte fora provocada por um brutal e irreversível AVC. Mas se a Medicina soubesse ouvir as profundezas dos corações, no espaço pontilhado para descrever a causa mortis,  os médicos assinariam, sem erro, “morreu de tristeza”.  Sim, meu pai morreu de tristeza. Não conseguia dormir e acordar cercado pela ditadura e pelo medo, sabendo que os telefones estavam sob escuta permanente. Não se adaptava ao Uruguai sem redes penduradas nas paredes e o frio dos invernos rigorosos.  Vagava como se fosse um apátrida. Mas com a consciência de que aqueles militares que usurparam o poder, silenciaram, prenderam, torturaram e mataram, lograram também na tarefa de desestruturar as famílias. Sua família.

As flores da sepultura de papai ainda não haviam murchado quando um telefonema de São Paulo nos informou que meu irmão, Sonsonho, havia “caído”, código eufemístico para dizer que alguém fora preso. Paradeiro desconhecido. Sequer se podia dizer se vivo ou morto. A primeira providência era buscar um deputado que anunciasse em plenário a prisão do mano. Não havia garantias, mas se estivesse vivo, um discurso no plenário de certa forma inibia a soulção final aplicada em muitos casos. Porque ditaduras quando atingem o extremo de sua incapacidade em derrotar as idéias, eliminam seus opositores. O primeiro deputado a ser procurado, e  que outrora fora amigo da família, recusou-se. Coube ao deputado Pedroso Horta, ex-udenista e filiado ao então MDB de São Paulo, e sempre disposto a ajudar os prisioneiros políticos, fazer a comunicação no horário do “pequeno expediente” da Câmara.

Enquanto a família se mobilizava para encontrar meu irmão, Sonsonho, foi a vez de Goretti, a irmã que ocupou o posto de caçula por alguns anos e a primeira criança pela qual me apaixonei. Ela sofreu um acidente. Cirurgia, coma, passou 72 horas de sua vida lutando contra a morte. Venceu. Com menos 90 centímetros de intestino, vértebras espatifadas e um colete de gesso que usou por muito tempo para ajudar na recuperação da coluna vertebral. Até hoje sofre sequelas.

Os acontecimentos se acumulavam em velocidade impossível de ser assimilada. E era a vez de Gagocha, minha segunda irmã, aquela a quem desde criança me sinto na obrigação de proteger. Diante da possibilidade real de ser presa porque toda a organização na qual militava, a aguerridas Ala Vermelha do PcdoB , estava se desmantelando, ela deveria submergir. Outra palavra da nossa linguagem de resistência para dizer, desaparecer por um certo perído. Aqueles generosos meninos e meninas que fizeram a oposição armadas nas lutas de guerrilha tombavam dia a dia. E mamãe não queria correr o risco de ter mais um filho preso. Mandou Gagocha para São Luís, nosso refúgio.

Sem fraturas externas e de paradeiro conhecido, só minha mãe, uma ilha de fibras tecidas na coragem e cercada de coração por todos os lados, minha irmã Verinha, pessoa que me fez conhecer o sentimento de mãe desde que nasceu, e que ainda nem tinha dez anos mas já sabia o significado das palavras  “guerrilha’, “ditadura”, “terrorismo” , “escuta telefônica”, silêncio”, “medo”. E eu, que tentava me manter inteira entre as aulas da Universidade de Brasília e a redação da revista “Veja”.  No fim do dia, quando voltava para jantar, o eco do silêncio perturbava minhas lembranças de uma casa cheia da buliçosa infância.

Goretti saíu do coma no mesmo dia em que tivemos a resposta da pergunta que nos angustiava. Meu irmão estava vivo. Nas dependência da OBAN, uma casa de horrores. Era 71. Era Médici, o mais sanguinário dos ditadores,  um facínora de olhos miúdos e cruéis. E era meu irmão vivo. Sonsonho é o único homem entre nós, as quatro filhas mulheres. Passara pelas manoplas  impiedosas do Delegado Fleury, o mais temido dos assassinos da ditadura, e  estava vivo.  Torturado com todos os requintes das máquinas de morte dos ditadores, ele continuava vivo. Num mesmo dia, mamãe, culta e bela, que enfrentou os militares bravamente, de cabeça erguida,  respostas precisas, recuperou dois dos seus filhos.

Faltava pouco para o ano acabar.  E, finalmente, Natal.

Detesto lagosta na mesma intensidade com a qual me debruço vorazmente sobre um prato de camarões ou lagostins. Mas escolhi lagosta para a ceia de Natal. Queria ver minha mãe feliz pelo menos naquela noite. Ela nunca exibia sua tristeza, mas seus olhos viviam ausentes, enevoados. Tomamos vinho branco, eles comeram a lagosta e foi tirada uma foto. Não gosto de rever essa imagem de um momento sombrio. Ela expressa uma tal desolação que revivo todos os instantes daquele ano infindável.

Terminada a ceia, a celebração, foram, aos poucos, para seus quartos. Quando todos dormiam, peguei uma sobra de garrafa de vinho, caminhei até o Eixo Rodoviário e me sentei no meio fio. Chorei lágrimas de um ano inteiro. Bebi  as lágrimas que se misturaram ao vinho. E continuei a chorar.

Ainda sentada naquele silêncio do Cerrado que tanto me faz falta, quase duas horas da manhã, sózinha, vi duas luzes potentes bem longe,  e se aproximando. Mais perto e mais perto. Era um caminhão da Fábrica Nacional de Motores, que já foi um orgulho da indústria nacional, faróis enormes apontando o caminho. Quando olhei as três letras inscritas na cabine, enxuguei as lágrimas, consegui soltar um suspiro longo e sorri para o caminhão. As três letras, FNM,  me diziam “Feliz Natal, Memélia”. Foi uma das mais belas mensagens que recebi ao longo da vida. Tive então a certeza de que nenhuma dominação ditatorial nos deteria e que continuaríamos nas nossas lutas. Cada um na sua trincheira.

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