NAMORADAS COLORIDAS OU, ESCOLHAS AMOROSAS DE JOAQUIM

By , 3 January, 2014 8:43 pm

lovings1Richard Loving and Mildred Jetter

NAMORADAS COLORIDAS OU, ESCOLHAS AMOROSAS DE JOAQUIM

Memélia Moreira

Há alguns anos, uma das mais importantes empresas da indústria de cosméticos do Brasil fez uma pesquisa sobre a cor dos brasileiros. Eles queriam acrescentar novos tons à linha de maquiagem. Mais especificamente, ao pó-de-arroz. O resultado, sem tanto destaque na Imprensa, na Antropologia ou na Sociologia, me deixou cheia de orgulho da “nossa pátria mãe gentil”.  Há, na população brasileira, 125 diferentes tonalidades de pele. E esse é um dos meus trunfos quando, aqui longe do Brasil e também do centro do meu mundo, um gringo qualquer me pergunta porque nós, brasileiros, somos tão bonitos. A resposta vem igual “brado retumbante”.

Respondo com o peito estufado, “porque miscigenamos. Porque é o país que tem a cara de todo mundo. Porque qualquer pessoa, de Gisele Bündchen a Pelé, de qualquer lugar do mundo, de qualquer etnia,  pode dizer “sou brasileiro”.  E a resposta cala principalmente aqueles que nasceram e se criaram num país onde há bem pouco tempo se proibia casamento entre negros e brancos.  Ou brancos e índios. Que o digam Richard Loving (branco) e Mildred Jeter (negra). Eles  percorreram todas as instâncias judiciais para exigirem o direito de ter o casamento reconhecido. O caso foi parar na suprema corte dos Estados Unidos. E venceram a discriminação. A persistência do casal desembocou na revogação da lei que proibia “casamentos interraciais”.

No país onde vivo, bem longe do centro do meu mundo, vigorou, até 1967, uma lei que proibia qualquer casamento interétnico.  Mas os EUA não foi o único. A  Alemanha, que para muitos deve integrar o “centro do mundo”, se igualou aos EUA. Sob o governo Nacional-Socialista, em 15 de setembro de 1935, foi aprovada a lei “Gesetz zum Schutze des deutschen Blutes und der deutschen Ehre”  que pretendia proteger o sangue e a honra dos alemães. Há outros exemplos tão abomináveis quanto os citados, mas esse texto não quer ser um tratado. Escrevo apenas para externar minha indignação e perplexidade.

2013 agonizava quando eu, cercada pela família e minhas mais recentes paixões (os netos Luísa e Diego), sem tempo para ler jornal ou frequentar as redes sociais, num fim de noite, passei rapidamente pelo Twitter. Estava lá o tal texto que me deixou perplexa.

Estava lá, em letras de forma (ainda se diz isso?) uma das mais patéticas e rasteiras das demonstrações de racismo que tenho visto.  O autor, um jornalista, na sua ânsia de criticar o ministro Joaquim Barbosa, açoita o negro e presidente do Supremo Tribunal Federal  por suas escolhas amorosas. Diz ele que o  ministro Joaquim está namorando uma pessoa que – vejam o tamanho da ousadia, do pecado, do crime –  não é negra.  E compara o ministro ao jogador Pelé, esse que tantas alegrias  levou ao povo brasileiro. Pelé –vejam o tamanho da ousadia, do pecado, do crime – também se casou com uma mulher não negra.

O jornalista então faz elogios ao lutador Cassius Clay, o Muhamed Ali, considerado o maior boxeador de todos os tempos e que, negro, se casou com uma negra. Admiro Muhamed Ali. Não apenas porque por ter se casado com mulheres negras, mas sim porque recusou ser recrutado para o Exército do seu país que, naqule tempo, 1968, tentava massacrar a soberania do povo Viet. Clay, amargou um tempo na cadeia, mas não abriu mão de sua consciência.

Li e reli o texto que tanta indignação e perplexidade me provocou.  Tenho pouco conhecimento do autor.Então reli para entender o que não estava escrito. Foi fácil.

O ministro Joaquim Barbosa vem sendo alvo de diferentes manifestações de racismo desde o momento em quê, exercendo seu papel de relator da ação Penal 470, conhecida também pelo codinome de “Mensalão”, foi favorável à condenação de políticos de diferentes partidos, entre estes, o PT. Os adjetivos pejorativos já se esgotaram. Já foi chamado inclusive de “Macaco” até mesmo por pessoas que se consideram defensoras dos direitos humanos. Jogam no ministro todas as mágoas pela condenação de uma das figuras mais simbólicas do PT, o ex-presidente do partido, José Dirceu. Nunca ouvi ou li qualquer crítica contra a ministra Rosa Weber que ao votar acompanhou o relator da ação penal. Ela é branca e tem sobrenome de gente que vem do “centro do mundo”. Também não ouvi ou li críticas aos demais ministros que votaram pela condenação.  Não. É como se o ministro Joaquim Barbosa tivesse tomado uma decisão monocrática.  Seus críticos praticam o exercício da memória seletiva. Esquecem que os réus da AP-470 foram condenados por um colegiado e perderam por 5×4.  Não houve empate. Não houve necessidade da partida ser decidida nos penalties.

O jornalista chega ao cúmulo de comentar a idade da namorada do ministro Joaquim Barbosa. Diz que ela tem idade para ser filha do presidente do Supremo. E aí se traíu porque, mesmo bem informado,  se “esqueceu” de criticar a recente escolha do ex-ministro José Dirceu, a quem defende. Em pleno julgamento do “Mensalão”, os jornais noticiaram que ex-líder estudantil e agora preso por decisão da mais alta corte do país, está namorando uma moça de 26 anos. Dirceu está chegando aos 70.

Depois das releituras do texto foi então que percebi e entrei em sintonia com o nome do blog.  O jornalista, que mora na Europa, não deixa por menos. É o centro do mundo. Ou seja, o centro do seu mundo é branco, louro e fala inglês, de preferência. Uma escolha típica daqueles que sofrem o complexo de colonizado. Daqueles que acreditam ser a miscigenação uma bactéria ou um vírus que ataca os pobres da periferia do mundo.

O autor se esqueceu do fato de  que ele mesmo é fruto da diversidade étnica do Brasil. Que em algum momento, seus antepassados praticaram a ousadia, o pecado, ou crime,  de manter relações sexuais com pessoas “de cor”. E repete, quase como se fosse um mantra, as palavras de um juíz que se pronunciou no caso Richard e Mildred Loving: “O Deus Todo-Poderoso criou as raças branca, preta, amarela e vermelha e as colocou em continentes separados. Senão por interferência em seu arranjo não haverá causa para tais casamentos. O fato dele ter separado as raças mostra que ele não pretendia que raças se misturassem”.

Que 2014 limpe a poeira das intolerâncias porque “qualquer maneira de amor vale a pena/Qualquer maneira de amor valerá”

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