SONS DA MINHA INFÂNCIA

By , 24 November, 2013 7:28 pm

 

SaoLuis Map

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SONS DA MINHA INFÂNCIA

“Todos cantam sua terra

Eu também vou

Cantar a minha

Modéstia à parte,

seu moço…

Minha terra é uma belezinha

……………………………………..

………………………………………

Acho bonito inté

O jornaleiro a gritar

Imparcial, Diário,

Olha  O Globo

Jornal do Povo.

Descobriu novo roubo.

E os meninos vendendo

O derresol a cantar.

Derresol, deêê-êr-resol.”

(Baião de João do Vale, maranhense)

 

Foi no número 32 da Rua Coronel Mota, em Boa Vista, capital do antigo Território Federal do Rio Branco, hoje Roraima, que nasci na madrugada de 23 de outubro. Boa Vista era quase uma vila com menos de 30 mil habitantes e que eu só conheci aos 27 anos. Mas sou maranhense. De São Luís, “terra das palmeiras, terra das ladeiras, dos babaçuais”, canta o hino da cidade.

Digo que sou maranhense porque foi naquela ilha misteriosa e encantada pelas lendas e fantasmas que assutam as crianças que aprendi a ver o mundo. Aprendi a ler, aprendi a ouvir o som da chuva nos telhados e a acompanhar o movimento das águas do mar. Aprendi a pisar nas matas da Quinta do Barão de Itapary, sem fazer barulho e me esconder nos galhos mais altos das mangueiras e tamarindeiros. E lá ouvia o vento com seu murmúrio e as folhas que suavemente se despregavam dos galhos. E o som estacado das matracas do bumba-meu-boi. Salve salve, Mãe Catarina.

Nem precisava ver as ondas para saber se o mar estava bravio. Bastava ouvi-lo. Se manso, era um xuá-xuá, a escorrer para o infinito.

Da janela de minha escola, via os barcos de velas coloridas ancorados na areia porque a maré chega a ser tão baixa que era até possível atravessar o mar caminhando, como se fora terra firme, até chegar à praia Ponta D´Areia, trilha palmilhada pelas pegadas dos carangueijos. Sempre digo que quem teve o privilégio de olhar para um mar cheio de de barcos e suas velas coloridas se dirigindo ao Cais da Sagração, enquanto Madre Cabral, dorotéia do Colégio Santa Teresa, explicava, inutilmente, uma raíz quadrada, não tem o direito de ser infeliz.

Meus sonhos saltavam pela janela e se aninhavam entre as velas que tinham o poder de carregar minhas fantasias para todos os mares do mundo. E a raíz quadrada continuava lá, no quadro-negro. Imóvel, imutável, estéril. De números só me interessei por aqueles que me dizem em que latitude estou. Mas faço contas de cabeça, sem qualquer dificuldade e ainda sei que a raíz quadrada de 5 é 25.

É de São Luís que guardo os primeiros, e para sempre inesquecíveis, sons da minha infância e começo da adolescência. Sonoridade que vinha das ruas na voz dos vendedores. Sons do rádio ouvido pelas empregadas da casa. Som dos mambos, boleros e sambas-canção, fados, assoviavados pelo meu pai ou cantados por minha mãe. Som das serenatas feitas sob nossa janela e o som seco, dos linotipos sendo enfileirados na máquina para imprimir as folhas de papel do “Jornal do Povo”.  Era matutino e  mantido graças à tenacidade de meu pai, Geraldo, ou Gegê Moreira e meu tio, Neiva Moreira, o propritário incansável na sua luta contra todos os desmandos cometidos pelos governantes.

Os sons das ruas ressoavam na esquina de nossa casa, que por acaso era de propriedade do poeta Ferreira Gullar. Sons pontuais. Ninguém precisava de relógio. Infalíveis. Sempre.

Antes das oito da manhã, homens simples, quase sempre de pés descalços carregavam “cofos” (cestos de palha), de peixes e poesia. Lá vinham eles, roupa sem cor, gritando pelas ruas “Peeeeixe pedra natural/ quem pescou foi o Lourival”. Pelas dez da manhã, outros cofos carregados por outros homens também simples, pobres,  descalços e poetas anunciavam aos brados…”Banana macia, dona Maria…É uma beleza, dona Teresa”. No cesto, banana-maçã, banana roxa, a melhor de todas as bananas, banana-nanica e, de vez em quando, banana-prata. Todas elas macias, para todas as Marias. Todas elas perfumadas ostentando beleza e sabor para o paladar de Teresas, Jandiras, Raimundas, Cândidas, Nazarés…

Mas o som mais esperado do dia, aquele que desestabilizava os papilos e antecipava a visão de um banquete no paraíso ecoava na hora da sesta.”….veeeeete de co´o….. Com um pequeno barril em forma de cone, que protegia uma lata cercada de panos grossos, o sorveteiro trazia na sua cabeça sobre uma rodilha quase imunda o legítimo manjar dos deuses. Sorvete de côco. E a casquinha desse sorvete é única. Só existe em São Luís. Nem mesmo os chineses conseguiram imitá-la. Artesanal, assada, crocante, adocicada. Quem teve o privilégio de tomar sorvete de côco naquela casquinha não tem o direito de ser infeliz.

Até hoje, quando chego em São Luís busco pelas ruas um sorveteiro gritando “….veeeete de co´o….”. Mas não. Eles não mais circulam pelas ruas da minha infância e me dou por vencida. Entro numa sorveteria perto do Colégio Santa Teresa, peço sorvete de côco na casquinha assada e me debruço no parapeito da avenida Beira-Mar para ver as velas dos barcos que transportaram minhas fantasias.  As velas foram minha bússola e traçaram meus caminhos por tantos mares já “dantes navegados”.

“Fica comigo esta noite/E não te arrependerás/Lá fora o frio é um açoite/calor aqui tu terás….”. Era Nélson Goçalves cantando no rádio enquanto a engomadeira (hoje são apenas passadeiras, perderam a elegância das roupas engomadas e usam fone de ouvido para o celular), que era crente, fechava os olhos, quem sabe sonhando naquela proposta  com sabor de fruto proibido.

Na cozinha,”tum-tum,ticu-tum-tumtum, paranpanpan”. Lá reinava Maria Raimunda, cozinheira que uma noite me levou, clandestinamente, para um tambor de mina. E ela requebrava os quadris sob o batuque frenético, às vezes repreendida por minha doce Vovó Amélia que preferia cantar valsinhas como se estivesse chilreando.

Bastava pegar a bicicleta e ir ao largo em frente à Biblioteca Municipal. Tinha orgulho daquela imponente construção, hoje entregue à inépcia das autoridades. E lá,  ouvidos atentos escutavam a poesia de outros ambulantes. “Cocada, cocada da Bahia. Quem tem dinheiro compra, quem não tem espia. Olha a cocada, cocada da Bahia…” Eu me fartava naquela doçura incomparável.  E me digo baixinho, quem teve o privilégio de deixar uma cocada da Bahia derretar no céu da boca não tem o direito de ser infeliz.

Lá pelos oito, nove anos, ás vezes saía da escola e ia para a sede do “Jornal do Povo”, um casarão antigo.  Ficava um pouco na sala de papai, e descia, quase aos pulos, a escada que me levava ao porão onde estavam os linotipos. Clac-clac-clac os tipos (placas de chumbo com letras, sinais gráficos) estavam sendo posicionados, disciplinados e daí a pouco  impressos em folhas de jornal. Era pura magia. Na tentativa de ajudar os linotipistas, sujava  as mãos de tinta preta com cheiro forte. Agora, quando fecho os olhos para me lembrar daqueles momentos, o clac-clac-clac se espalha, inunda meus tímpanos, enquanto o cheiro da tinta preta invade meus sentidos e me devolve a doçura de um tempo de inocências. Quem teve o privilégio de sujar as mãos de tinta preta posicionando os tipos na máquina quente para imprimir um jornal combativo e ouvir o clac-clac-clac ritmado dos linotipos, não tem direito de ser infeliz.

Papai assoviava músicas de Nat King Cole. Era “Catito Mio”, “Que será, será”. Algumas vezes, cantarolava músicas do portorriquenho Perez Prado. Não me entediava com a repetição do “Mambo número 5” ainda mais sensual do que o famoso perfume Chanel usado por Marilyn Monroe para dormir. O mambo se infiltrava por minhas entranhas e, involuntariamete, me fazia dançar.

Cresci e me assalta a sensação de que ele assoviava quando estava preocupado com algum problema. Mas nunca cheguei a perguntar. Às crianças não era permitido conhecer os problemas dos adultos. Ele gostava de dançar e, quem sabe, o assovio o ajudava a ensaiar passos imaginárias. Nunca ouvi  mamãe assoviando. Ela preferia cantar.  Mas, bloqueada por um tipo de timidez que a impede de “soltar a voz na estrada”, nem sempre se fazia ouvir. Seu repertório é vasto e com ela aprendi muitas músicas belas e de rimas ricas.  Cantava boleros, mambos, músicas românticas, gostava de ouvir o Trio Irakitan que, no meu aniversário de dez anos, tocou na nossa casa. E se bem me lembro, cantaram “Aquellos ojos verdes”.

“Lindo capullo de aleli. Se tú supieras mi dolor. Correspondieras a mi amor. E calmaras mi sufrir. Porque tú sabes que sin ti. La vida es nada para mi. Tú bien lo sabes. Capullito de aleli.” Ah…essa música do cubano Rafael Hernandez me traz as mais belas lembranças. Quantos anos eu tinha? Dez, onze, doze? Não sei. Só sei que era de madrugada e acordei quando papai e mamãe chegaram do baile.

Papai assoviava e conhecia bem o repertório do cubano Rafael Hernandez. Assoviava com todas as notas da escala musical o “Capullito de Aleli”. Sem parar. Os dois pareciam felizes. Deviam ter dançado muito. Eram bailes no Clube Jaguarema ou no Grêmio  Lítero-Recreativo Português ou, simplesmente, Lítero.

Nossa casa era assim, cheia de música e um dos meus maiores prazeres era ver papai e mamãe se arrumando para ir a uma festa. Elegantes, perfumados, glamourosos, os dois provocavam admiração dos vizinhos que muitas vezes iam para suas janelas ver o casal saindo para noites de gala. E eles dançavam. Dançavam muito. E até cheiravam “rodó” (lança-perfume) no Carnaval. Não era proibido e nunca tive notícias de alguém ter morrido com uma overdose cheirando aquelas latinhas douradas da Rhodia. E sempre havia festas. Mamãe deslumbrante ao lado de papai que era vaidoso e usava camisas impecavelmente engomadas.

Além dos bailes, papai gostava de serenatas. Mais de uma vez fui acordada pelos irresistíveis violões. Mas não eram serenatas típicas porque no fim os músicos, acompanhados por meu pai sentavam-se à mesa da copa, comiam, bebiam e continuavam a cantar. Mesmo sonada, mamãe fazia as honras da casa. Não sei quantas vezes aconteceu. Não quero apostar quantas serenatas ouvi porque talvez seja traída pela fantasia infantil.

Na sala, no quarto, no banheiro, ou qualquer outro compartimento da casa,  mamãe, se não estava debruçada sobre os livros, cantava. De todas as músicas aquela que diz “Acuerdate de Acapulco de aquella noche/Maria Bonita. Maria del Alma/Acuerdate que en la playa/con tuas manitas, las estrellitas/las enguajabas….”, do mexicano Agustin Lara é a que me traz as mais desencontradas emoções. Ela também cantarolava  “Noche de Ronda”. E gostava de fados, essa música que não deixa dúvidas sobre a origem árabe do mundo português.

E quando nas longas marchas, algumas vezes solitárias, pelas matas da Amazônia,  descubro que  todos esses sons, essas músicas, os diferentes rítmos, a poesia dos vendedores de peixe, de bananas, sorvete, cocada, o radinho das empregadas, as matracas e tambores do bumba-meuboi, das folhas balançando na copa das mangueiras, tamarindeiros e abacateiros , do mar bravio ou manso, os assovios de papai, o cantar de mamãe e de vovó se impregnaram nas minhas células. E hoje distante da minha ilha, mantenho a certeza de que minha vocação para a felicidade foi moldada pelas doces sonoridades de uma infância venturosa.  E peço vênia, poeta,  mas eu era feliz e já sabia. E essa felicidade é tão profundamente enraizada que me permite sorrir das lembranças.

P.S.  Até hoje, canto ou assovio e não me incomodo em desafinar.

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