Manifesto

By , 22 June, 2013 8:14 am
O texto a seguir já pode estar defasado embora tenha menos de uma semana de vida. Mas o processo das ruas é vertiginoso e o que é novidade hoje pode se envelhecer em até duas horas.
O blog “Mosaico” traz hoje um “Manifesto” em forma de análise sob o olhar de uma antropóloga.
Manifesto.
HELENA M.SCHIEL*
Em vista dos acontecimentos, não posso conceber essa minha manifestação senão como um manifesto.
 
Desde o início das manifestações em São Paulo, e logo que elas ganharam corpo e notoriedade com a repressão brutal e desmedida da polícia militar paulistana, as redes sociais foram tomadas de mensagens de apoio, críticas, algumas ridicularizações, outras preocupações, de qualquer forma, ninguém mais ficou indiferente.
Um início de indiferença por ser “mais uma manifestação” foi rapidamente substituído por muitas tentativas de entender o movimento. E o Movimento, que começou organizado por uma entidade chamada Movimento Passe Livre, rapidamente deixou de ser pelo passe livre, pelos vinte centavos (ora, diriam uns, quatro moedinhas de cinco!), por algo imediatamente acessível. E deixou de ser feito por um grupo palpável. O mais desesperador, para a polícia, pala a imprensa pega de surpresa pelos antes vândalos, agora manifestantes, é que o movimento não parece ter cabeça. Levem-me ao seu chefe? Quem é o chefe?
 
Muitas velhas bandeiras ficaram desbotadas e se agora está fácil ser chamado de fascista, ninguém sabe exatamente quem é o que e está aonde. Bandeiras de partidos são hostilizadas e os hostilizados chamam isso de atitude fascista. Outra palavra que estava meio soterrada pelo tempo, burguês, e outra, reaça, também vieram à tona da parte de quem sempre esteve em manifestações (e nesses eu me incluo).
Para alguns, uma experiência nova, para outros, uma velha, mas com algo de impalpável que a torna um tanto indomável. Preocupantes infiltrados (da polícia? De onde?) fazendo real arruaça e quebra-quebra, desconfiança, hino nacional, bandeira mais o que? O que está acontecendo? E por que tanta ojeriza aos partidos?
 
Uma novidade gritante nesse Movimento é um fenômeno difuso que eu ousaria chamar de individualismo de massas. “Eu estive lá, eu vi, tirei fotos com meu celular, filmei policiais quebrando seus próprios carros, o vândalo que quebrou sozinho os vidros da prefeitura de São Paulo tinha o rosto coberto e apagou seu perfil… no facebook, estou aqui contando pra vocês, meus amigos, que replicam”. Muitos estiveram lá, e as mídias tradicionais não dão conta de acompanhar o que se passa agora: todos somos repórteres e temos opiniões e relatamos abusos da polícia, vimos gente inocente sendo presa sem mais. Há uma extensão ruas-redes que parece fora de controle, ou uma ignóbil tentativa de controle com a ousadia de tirar o facebook do ar por algumas horas na noite do 18 de junho em represália aos ataques de hackers ao blog da presidente e twitter da revista Veja.
 
Não, o movimento ainda não tem forma. Mas ele é profundamente contemporâneo e está experimentando as múltiplas formas de democracia possíveis no agora. Há múltiplos estranhamentos e múltiplas tentativas de aproveitar o potencial transformador dessa forma ainda sem forma que estou chamando de individualismo de massas. Partidos e políticos tradicionais acusados de oportunistas, atores novos, individuais, acusados de fascistas por não querer partidos. Experiências, experiências, experiências. “Reaça, saia dessa marcha”? O que estamos fazendo com a nossa democracia adolescente? Experimentando. E se o dito reaça não puder ficar na marcha, isso é democracia? E se um partidário à moda antiga com sua bandeira não puder ficar na marcha, isso é democracia? Quem somos nós que estamos na rua? Será que não há espaço para todos, com suas diferenças, nessa rua? E se essa rua, se essa rua fosse nossa?
 
Todas as tentativas de classificar ou domesticar o movimento têm sido infrutíferas. Uma única coisa é certa: nenhum esquema velho é capaz de dar conta do que está acontecendo agora. Porque ainda é (somos) uma massa amorfa que está sendo experimentada e está se experimentando. E nada é tão estimulante para quem quer mudanças do que a possibilidade de experimentação.
 
Há ainda os que, de fora, tentam encaixar no nosso referencial anterior, até mesmo chamando de hipocrisia daqueles que ontem vaiaram a Dilma e respiraram o gás que faz chorar e hoje estão desesperados para que o Brasil faça um gol.
 
Aqui entro eu de antropóloga. Preciso dizer que esse movimento tem TUDO a ver com a Copa do Mundo. A Copa é para o Brasil aquilo que um genial antropólogo francês do início do séc. XX chamou de Fato Social Total. O francês se chamava Marcel Mauss e Fato Social Total é aquele momento em que todas as instituições da sociedade estão envolvidas, são evocadas, todos os papéis sociais do indivíduo vêm a tona. Como a briga de galos em Bali, a Copa do Mundo para nós, brasileiros, envolve as instituições políticas, religiosas (quem não faz uma fezinha?), partidos, indústria (né, cerveja?) rede de amigos, família, rede de vizinhos, comércio (quem nunca comprou uma televisão nova porque ia ter jogo?), tudo. E aquele que recusa, foge por mato e não assiste nenhum jogo, está inteiramente inserido no fato social total como aquele que recusa a Copa do Mundo “como é que eu posso ler se eu não consigo concentrar minha atenção? Se o que me preocupa no banheiro ou no trabalho é a Seleção!”, diria Raulzito.
 
O que vivemos nos últimos vinte anos? A estabilização da economia após experiências dolorosas para a população em geral, a ascensão de uma experiência nova de governo com o que conhecíamos como esquerda, o esfacelamento das nossas referências sobre o que achávamos que era essa esquerda (as Ilusões Perdidas), a massificação do ensino fundamental e médio, junto com uma abertura de portas ao ensino superior [não pretendo emitir juízos de valor sobre a qualidade dos mesmos, apenas enunciar os fenômenos], a massificação do acesso a estruturas básicas como água, luz e esgoto, o acesso a bens de consumo de uma parcela da população que era antes relegada ou lembrada em períodos de eleição. Paralelas a essas mudanças, a tecnologia de informação trouxe uma modificação enorme na maneira das pessoas se comunicarem.
 
Isso inclui o que agora chamamos de redes sociais. A televisão – agora para todos – não é mais a fonte da verdade e as mídias tradicionais ainda não encontraram uma forma de se adaptar a essas tantas mudanças. O resultado é que as redes sociais hoje em dia funcionam como um clipping espontâneo em que todos compartilham de tudo um pouco e cabe a cada um, se quiser, selecionar qual deles vai ler (ou, se quiser, postar sua própria foto diante do espelho) e isso funciona como um acesso à própria imprensa tradicional assim como à blogosfera. Essa última, sem as redes sociais, não teria o impacto que tem.
 
Voltando ao agora: um movimento que começou pequeno (dele só ouvi falar por amigos auto-declarados anarquistas) e rechaçado em seu primeiro momento pela maioria das pessoas e essencialmente pela mídia, encontrou o temor dos governantes de que viesse a estourar diante da nossa vitrine, a Copa. Ainda não é a do mundo, mas é o ensaio geral para ela: a das Confederações. E resolveram reprimir de uma forma brutal algo que era inicialmente pequeno e objetivo. Há quem creia em conspiração contra um partido, há quem atribua ao outro lado o “problema”. Como diz um mote de Raul Seixas, “é sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”. Pouco importa. Importa que os desavisados foram empurrados a golpes de cassetete, apesar de sua indiferença, para dentro do movimento e de repente ele é um movimento de todos.
 
E de repente, na esteira do “não me representa”, mote que ficou famoso depois do anacrônico pastor evangélico que assumiu a presidência de uma comissão de Direitos Humanos, de repente ninguém me representa. Há algo de profundamente anárquico, e por isso potencialmente prenhe de algo novo, no individualismo massificado do “não me representa”. E àqueles que ainda se estão agarrando aos esquemas velhos para explicar o momento, desde os “sabotagem ao PT”, os “vandalismo de baderneiros”, aos “fascismo anti-partidos”, uma tentativa particular (porque aqui também sou eu, indivíduo me dirigindo a algum você, indivíduo) de ir além do “não me representa”, digo-lhes, como na música do Belchior: o novo sempre vem. (e que bom estar vivendo esse momento)
 
É o que faz desse texto um manifesto. Sim, estamos todos experimentando e nesse momento nada parece nos representar. Deposito aqui minha confiança, ou esperança, de que consigamos nós – indivíduos sim, porque é esse o Zeitgeist, o espírito do tempo em que vivemos e negá-lo é infrutífero – dar à nossa forma amorfa, nas trincheiras de ruas ou de teclas, algo de novo, não apenas na representatividade, mas na maneira que exigimos daqueles que nos representam. Exigimos o quê? Não, não se trata de quebrar tudo e ver o que se faz com os cacos. É de consolidar nossa democracia. E isso significa exigir seja nas fronteiras pequenas de municípios ou vizinhanças, seja na estrutura maior, federal, a participação de todos (ou todos os interessados) nas gestões: 1) na qualidade do ensino, esse que já é quase universal, na 2) valorização dos profissionais que nos servem, professores por exemplo, na 3) qualidade do transporte público – e aqui meu adendo contra as soluções anti-indivíduo e pró-consumidor de automóveis: alargamento de pistas e isenção de impostos para equilibrar números da economia não nos representam! Transportem pessoas e não automóveis e aí vocês nos representarão; na 4) transparência em execução de obras públicas; na 5) qualidade da saúde pública que sim, é atenciosa, mas não, não é nada ágil e prioriza a indústria farmacêutica em vez da prevenção; 6) respeito às diferenças, sejam elas de opção religiosa, orientação sexual, pertencimento étnico; 7) respeito ao direito de manifestação, oras! As bandeiras são velhas? Sim, parecem velhas, mas o momento é novo. A Copa do mundo realizada no Brasil é sim um momento de lutas novas. Estamos falando de união em torno de causas comuns e consolidação da nossa democracia. Sim, o MPL me representa.
 
Continuemos a experiência!!!!
 
Aos que querem calar os outros, minha frase preferida de Voltaire: “Não concordo com uma palavra do que você diz. Mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la”.
 
 
Com saudações ao rapaz que se auto-denominou playboyzinho e descobriu na manifestação que era de união que se tratava.
Helena Moreira Schiel.

*Antropóloga

One Response to “Manifesto”

  1. Bárbara says:

    Manifesto assinadíssimo. Definiu tudo que tava transitando embaralhadamente aqui na minha cabeça, juntou todas as pontas.

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