A SENHORA DO KANUMÃ

By , 3 September, 2009 10:25 am

A SENHORA DO KANUMÃ

Memélia Moreira

Começou quando temperava o frango com molho de canela, cominho, mel, azeitonas maduras e ervas finas a ser assado com fatias de maçã banhadas em calda de hortelã do jardim (a receita foi criada numa terça-feira chuvosa). Enquanto acrescentava o cominho, pensei nela, a “Senhora do Kanumã”. É uma figura ímpar, rara. Eu ainda não a conhecia quando, dias antes do assassinato do delegado Sérgio Fleury, um facínora que não deixou saudades, li numa revista que uma professora de Curitiba estava na mira dos militares. E gravei seu nome, Ana Lange.

A professora fora acusada de dar aulas de marxismo num jardim de infância. A curiosidade me manteve ocupada durante dias. Falar de luta de classes para crianças ainda não alfabetizadas? Ou alfabetizá-las discutindo a mais-valia? Será que a cartilha já trazia elementos rudimentares das relações de produção? Ficava em dúvidas, tentando decifrar a personagem. Jamais poderia supor que aquela subversiva um dia seria minha comadre e, mais que isso, minha amiga. E muito menos pensei que fosse um dia construir um pequeno paraíso chamado Kanumã.

Don´Ana é mesmo rara. E quando crio meus molhos, penso compulsoriamente nessa pessoa ímpar. A “Senhora do Kanumã” não gosta de cebolas. Entendo, sem concordar. Também não gosta de coentro. Continuo sem concordar, mas também entendo. Mas, ela não gosta de cominho. Aí nem entendo e discordo totalmente. Cominho, don´Ana? É, cominho. Mas ela faz pratos deliciosos e eu nem sinto falta das cebolas, cominho ou coentro.

Mas por que estou a falar de uma professora subversiva que não gosta de cominho? É que ela também não gosta quando escrevo sobre um determinado substantivo feminino abstrato chamado saudade. E, mesmo pronta a ouvir suas reprimendas é de saudades que vou falar.

Não, não é saudade apenas dos ovos fritos que minha doce avó, Amélinha, de quem herdei um dos meus nomes, fazia quando eu chegava de surpresa em sua casa, lá na capital de Roraima, tão perto e tão longe. Chegava de repente e ela, como se fosse um jogo de cartas conhecidas, perguntava o que eu queria comer, já sabendo a resposta. Ovos fritos com farinha d´água. Ia ao quintal, pegava os ovos e fritava na manteiga, com farinha d´água. Nem o restaurante “Vagenande”, em Paris, consegue produzir prato tão saboroso para meu paladar. E ainda por cima, com café de verdade, puro, cheiroso, forte. E, sem saber, me dava as pautas para escrever as matérias que eu tinha ido buscar. Mas Amélinha morreu e essa é uma saudade que vou guardar para sempre.

Também não é saudade do cheiro de pastel de queijo da Rodoviária de Brasília, às três da manhã, acompanhado de um caldo de cana feito na hora. Essa saudade eu recompenso quando estou na cidade. Não mais às três da manhã porque abandonei a boemia.

Muito menos saudades do Salão Verde e do plenário da Câmara dos Deputados em dia de debates acalorados em votações polêmicas. Há tempos o Congresso trocou os grandes debates por um balcão de negócios onde as consciências se vendem a preço de peixe congelado. Essa saudade talvez seja insolúvel.

Garanto que também não é saudade dos gritos de gol nas tardes de domingo, porque parecem ecoar até hoje na minha memória. Descobri que mesmo tão distante, os gritos de gol continuam a soar nos tímpanos e posso até ouvir a arquibancada soltar a voz num desabafo de alegria dizendo “Mengoooooô! Mengooooô!

Nada de saudades das palmeiras que aqui se encontram em todas as esquinas. Nem dos sabiás, porque um imponente “cardeal”, pássaro preto de peito vermelho vem, às vezes, pousar na minha frente. Não canta, mas suas cores me enfeitiçam.

Não, a saudade que me assalta vai longe. Ela dilacera as vértebras, desfibra músculos e deixa a alma desidratada. É uma saudade que dói como se um cutelo ficasse, dia e noite fatiando o coração e ele, plagiando o fígado de Prometeu, se refizesse a cada noite para no dia seguinte ser novamente fatiado.

É uma saudade difusa em que se misturam as cores do meu povo, o cheiro do pequi, a música que parece estar infiltrada em todas as partículas do ar, o falar doce ou rascante dos amigos, o dia a dia.

É, don´Ana do Kanumã, não fique brava comigo. Hoje temperei o frango com cominho e escrevo sobre essa saudade. Saudade da minha cultura.

Mas saudade sempre foi o mais saboroso tempero da vida.

10 Responses to “A SENHORA DO KANUMÔ

  1. Cindy says:

    I much prefer initfmaorve articles like this to that high brow literature.

  2. Marcinha says:

    Memélia, memélia, memélia, não é nome próprio, é adjetivo. Saudades me deram de sua agitada sensibilidade. Escreva livros, memelize muito, serei leitora voraz. Beijo na buchecha.

  3. Paulo Vidal says:

    Preciso da receita, dona Memélia. Urgente!

  4. Cristina M. Schiel says:

    Saudade também. Da sua primogênica, com c mesmo, não com t.
    Beijo, Tina.

  5. margot Queiroz says:

    Nossa Memélia, senti o gosto da canela e fiquei com vontade de provar o frango.Ao mesmo tempo me veio na cabeça a figura da Ana e do marido dela, aquele que trabalhou com o Darci Ribeiro.Agora não me recordo o apelido dele.E aí criatura, que bom ler este artigo.Fiquei contente de saber notícias suas.Quando será que voce vem de vez para o Brasile? e aí a saudade será curada e nós também vamos poder dar boas risadas, com as histórias que voce nos faz lembrar.Memélia voce tem uma memória privilegiada!!!!!!!!!
    bjs,Margot

  6. Ieda Raro says:

    Memélia, saudade também de você…

  7. Nossa Memélia, senti o gosto da canela e fiquei com vontade de provar o frango.Ao mesmo tempo me veio na cabeça a figura da Ana e do marido dela, aquele que trabalhou com o Darci Ribeiro.Agora não me recordo o apelido dele.E aí criatura, que bom ler este artigo.Fiquei contente de saber notícias suas.Quando será que voce vem de vez para o Brasile? e aí a saudade será curada e nós também vamos poder dar boas risadas, com as histórias que voce nos faz lembrar.Memélia voce tem uma memória privilegiada!!!!!!!!!
    bjs,Margot

  8. Ieda Raro says:

    Memélia, saudade também de você…

  9. Risomar Fasanaro says:

    Memelia

    Estava aqui, com um pouco de gripe, lendo alguns poemas de Mario Benedetti e tive de interromper para escrever um poema, movida por uma saudade imensa do Recife. Chorando, tossindo, assoando o nariz, já não via o papel- tinha fechado o computador- fechei o bloquinho, tomei agua, andei pela casa, e resolvi abrir novamente o computador. Li tua mensagem e vim correndo pro teu Portal.

    Que que é isso, Memelia???Que texto maravilhoso. Voltei a chorar e estou aqui, com o peito apertado, quase sem ver o teclado. A forma como você desenvolveu a crônica falando das coisas que te tocam…Incrível. Tua comadre está certa, também não gosto de cominho. Acho que cominho estraga qualquer comida.Concordo com você: a melhor comida do mundo é ovo frito, pra mim com feijão e arroz. E saudade, Memelia, não é o melhor tempero da vida não. É triste, doi, mata, e o pior: enruga os olhos da gente…

    Obrigada minha amiga, por este texto maravilhoso.

    Beijos

    Riso

  10. Guilherme says:

    Gostei da crônica,
    ter amiga e ser amiga é muito bom,
    lembra de coisas boas muito bom também
    um beijo e grande abraço em voces…

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