CRÔNICA DOS SESSENTA

By , 26 May, 2009 7:43 am

Flamengos

Flamengos

 

de Memélia Moreira

Ainda ontem brincávamos nos tamarindeiros da Quinta do Barão. E também de Sir Jerry. Alguém de vocês leu Sir Jerry? Do autor não me lembro o nome, mas o “sir” em questão, era um excelente detetive e confiava nas suspeitas de seus sobrinhos.

Antes, nas redes, brincávamos de Salustião”. Nenhuma criança, do passado, ou do presente, brincou de “Salustião. Mas isso é outra crônica. As brincadeiras aconteciam numa casa bem grande com um generoso quintal na Rua dos Veados (isso mesmo, Rua dos Veados), naquela ilha encantada que alguns chamam de “Ilha dos Amores” e outros, os que conhecem os habitantes nascidos ou adotados, a chamam de “Ilha Rebelde”, a minha para sempre amada ilha de São Luis, disputada por franceses, holandeses, portugueses e vilipendiada até hoje por tantos outros. Initerruptamente.

Mas antes, bem antes do “Salustião”, de Sir Jerry e dos tamarindeiros da Quinta do Barão, ele era um sonho acalentado. E quando nasceu, chorava, chorava muito por causa da clavícula quebrada. E seu pai dizia para sua mãe “seu sonho está chorando”. E assim, ele virou Sonsonho. Tentaram outros apelidos, “Pluto”, “Dutrinha”, mas não tinha jeito. Ele sempre incarnava o sonho. E tinha que ser Sonsonho.

A vizinhança o explorava. Faziam rodas em torno dele e lhe perguntavam “Sonsonho quanto é 484 com 293, menos 88”. Ele, olhos verdes e grandes, ficava mais quieto do que de costume e respondia sem pestanejar. A conta estava certa e ele nem tinha ainda o curso primário. Mal completara cinco anos. Era a sensação da rua. Televisão não existia e era ele quem animava a vida daquelas pessoas que passavam o dia trabalhando e, à noite, ou ouviam “Jerônimo, o herói do sertão”, enquanto suas mulheres inundavam ruas e praças chorando com “O Direito de Nascer”, num rádio que ainda exigia eletricidade ou, ficavam na porta de casa, trocando conversa com os vizinhos. Mas terminavam sempre explorando a mente brilhante daquele menino de cara séria.

Idolatrado pelas irmãs, por ser o único homem numa casa com cinco filhos foi crescendo, sempre com uma bola nos pés e o Flamengo no coração, na mente, nos poros, nas vértebras. Flamengo e “boliviano”. Sim, boliviano, como todos os demais torcedores do SPFC, a sigla do glorioso Sampaio Correia Football Club. E era capaz de escalar todo o time do Sampaio, “Dodó, Terrível e Wallace, Cacaraí, Elbert e Barradas, Gedeão, Biné, Sapeca, Henrique e Garcia”. E era mais um motivo de admiração dos vizinhos que exploravam sua mente brilhante. Escalava qualquer time, com a mesma facilidade que fazia as contas. A torcida das irmãs era tão grande que juntos, ele e as irmãs faziam planos para a Copa de 1970. Ele vestiria a camisa verdeamarela da “Seleção Canarinho”. É que ele jogava bem. Era, como se dizia na época, um craque. Jogava bem de verdade. E, claro, iria para a Seleção de 1970, quando já tivesse mais de 18. As irmãs, estariam nas arquibancadas gritando por seu nome. Porque as irmãs sempre estiveram na arquibancada da sua vida, com bandeirinhas, apitos, faixas e gargantas e corações torcendo por ele.

Mas a Matemática os traíu.

1970, foi, é, e será, depois de 1964. E aconteceu 1964 na vida de todos. E Sonsonho, que sempre teve seus próprios sonhos, não aceitou aquele 64, mas era quase uma criança e não tinha todos os instrumentos para mudar aquele 64. E, a camisa da Seleção foi se tornando distante. Ele não jogou bola naquele ano de 1970. Jogou a vida. Jogou a vida para mudar a História. E, quando ainda festejavam a Seleção que trouxe a terceira estrela na camisa, menos de um ano depois daquele histórico julho de 1970, Sonsonho, que agora dividia a bola com a História de seu país, não era mais chutado em campo, o adversário não conhecia as regras do jogo. Preferiam chutar corpos, aplicar-lhe choques elétricos. E não usavam chuteiras. Calçavam, e calçam ainda, botas pesadas que, por onde caminhavam, deixavam pegadas de sangue. O adversário não sabia jogar bola. Preferia torturar. Mas aquele menino que fazia complicadas contas mentalmente, sem necessidade de riscar os números, que era um craque na bola e, certamente vestiria a camisa verdeamarela com a terceira estrela, enfrentou o adversário que não sabia chutar a bola. Mas, se lhe tiraram o sangue, suas armas e métodos não foram suficientes para lhe arrebatar os sonhos e os amores de Sonsonho. E quando saíu daquele inferno, deixara de ser criança. E saíu na construção de mais sonhos. Teve filhos. E foi quando se descobriu que aquele menino que lia “Sir Jerry na Bretanha”, que escalava qualquer time, que era um craque, que se dividia entre a bola e a História de seus país e já não tinha mais os tamarindeiros da Quinta do Barão, mostrou que ser pai é “desdobrar fibra por fibra”. Estica e desdobra todas as fibras para os filhos, mesmo quando a História o rouba para grandes missões. E é quando se torna pai, camarada, companheiro, irmão e amigo. Como se criasse novas fibras a cada dia.

No dia 23 de maio, um sábado, o Rio de Janeiro, cidade onde nasceu, lhe brindou com uma brisa quase fria, um sol tímido, mas suficiente, para que o amigo, o irmão, o companheiro, o camarada e o pai, comemorasse uma data especial. E, naquela objetividade que nunca o abandonou, contou sua história em apenas três fotos. No meio, o centro do seu universo: a família, os filhos e netos todos dividindo o sentimento flamenguista. De um lado da sua paixão primeira, a família, exatamente à esquerda, como deveria ser, a bandeira na qual sempre acreditou. Forte e vibrante, a bandeira da Ala Vermelha do PcdoB. E à direita, sua outra grande paixão. A bandeira do Flamengo, que também traz, qual a do seu partido primeiro, a cor vermelha da luta e da resistência.

E todos dançaram em frente às paixões daquele menino que cresceu com a bola nos pés, que enfrentou aqueles que preferem torniquetes aos dribles. Dançaram samba, muito samba, dançaram rock, dançaram até “Besame Mucho” ao som de Ray Connif e sua orquestra. Todos felizes porque naquele dia o menino que fazia contas sem necessidade de lápis e papel, que com certeza usaria a camisa verdeamarela se 1970 fosse antes de 1964 comemorava uma vida de conquistas. Uma vida de alguém que sempre lutou, sem jamais se tornar um mercenário. Aquele menino comemorava 60 anos.

Mas o aniversário daquele menino é hoje, 26 de maio. E por isso eu quero dizer, Feliz Aniversário, mano. Tu mereces toda a torcida dos que te amam. E eu tenho orgulho de ser tua irmã.

4 Responses to “CRÔNICA DOS SESSENTA”

  1. No. PS1 came out before PS2 and the disc format is different. PS2 is a DVD it is not compatible in the PS1, but PS1 games can be played on PS2.

  2. If it’s on youtube, look for the URL and copy it, then goto Kev’s group and when you hit upload, plug in your URL in the space and your good to go.

  3. Ma Pan świętą rację, że kolejne dziecko pozwoli uniknąć pracy, potem kolejne. Co z tego, że poczęte w zamroczeniu alkoholowym,( przez to, późnie,j całe życie chore), państwo i tak zapłaci.Żyjemy w szalonym kraju. Wracajmy do komunizmu- powiedział znajomy.

  4. Sukey says:

    TYVM you’ve solved all my prolbems

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