UMA HERÓICA BRASILEIRA

By , 13 May, 2009 5:29 pm

UMA HERÓICA BRASILEIRA

Seu nome raramente aparece no noticiário. Ela é uma dessa pessoas que trabalha nos bastidores, o quê significa, na invisibilidade. Mas é uma brasileira heróica. Chama-se Myrian, com ípsilon mesmo. Paulistana descendente de italianos (comme il faut) e índios. Myrian Luiz Alves, é assim que ela assina o nome.
Nosso primeiro contato, há mais de dez anos, não foi exatamente amistoso. Claro, nós duas temos temperamento forte e somos desconfiadas e alertas.
Mãe de quatro filhos, três mulheres e um homem, ela é dessas pessoas que são necessárias. E mesmo na intimidade de sua casa, que tenho o privilégio de usufruir, é dura, mas segue os conselhos de Che e sabe ser a mais terna das mães, companheira e amiga. E só os deuses sabem o quanto é difícil cuidar de quatro filhos, sem a presença do pai (ela já foi casada, separou, ficou viúva) e, muitas vezes, sem saber como sustentar a prole. Mas eu repito, Myriam é uma heróica brasileira.
Há bem mais de dez anos, antes de conhecê-la, Myriam já estava na batalha que até hoje é motor de sua vida: a busca dos desaparecidos da ditadura militar brasileira. Foi ela, por exemplo, quem trabalhou incansavelmente para a descoberta das ossadas do cemitério de Perus, na sua São Paulo. Mas, sempre, nos bastidores, na assessoria de políticos. Na época, assessorava um vereador do PDT de São Paulo, que presidia a comissão de inquérito.
Mas São Paulo é pequena demais para Myriam e assim ela chegou a Brasília. E, sem tirar os sapatos de salto, começou uma luta sem tréguas para identificar os mortos e desaparecidos da Guerrilha do Araguaia. Viaja a Marabá, que foi o QG dos militares da ditadura no combate à guerrilha, com seus próprios recursos, vai de carro, volta de carro, dirigindo, às vezes sozinha, tudo para buscar mais uma informação. Desloca-se com passagem aérea emprestada quando sabe que lá nos confins de Rondônia, ou no Ceará, provavelmente se encontre mais um elo da sua busca. E mesmo numa reunião social, quando as pessoas estão falando de rock, ou cinema, Myriam consegue voltar ao tema principal. O direito à História, as chaves para a identificação das ossadas do Araguaia, as covas sem nome daqueles que lutaram para, quem sabe, libertar o Brasil e dar melhores condições aos brasileiros…
Sua maior revolta em todos esses anos tem sido contra muitos políticos que ocupam páginas de jornais dizendo-se empenhados em desvendar os bem guardados segredos dos militares que fizeram a campanha do Araguaia, enquanto conviviam, e nos faziam conviver, com ossadas guardadas em sacos plásticos nos armários da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Nem mesmo mesmo a fabulosa imaginação de Gabriel Garcia Márquez seria capaz de supor esse cenário surreal.
E mais, além da revolta, ela guardava uma certeza. A ossada é de Bergson Gurjão Farias, líder estudantil no Ceará nos nossos anos de chumbo, que depois aderiu à guerrilha e lá foi morto e barbarizado, porque seu corpo foi chutado e vilipendiado mesmo depois da morte.
Tanta era a convicção de Myrian que ela me convenceu.
Mas só agora, esta semana, Myrian teve o reconhecimento “científico” de suas convicções. O perito Domingos Tocchetto, professor de Criminalísitica na Escola Superior de Magistratura, admite que os ossos do armário são do guerrilheiro Bergson. E tenho certeza de que ele não foi influenciado por Myrian, afinal de contas, é um perito. Por coincidência, foi mais um parlamentar do PDT, Pompeo de Mattos, gaúcho e presidente da Comissão de Direitos Humanos quem possibilitou a perícia.
Hoje, quando acordei e li nos jornais a certeza de Myriam estampadas, não tive dúvidas. Telefonei e lhe dei parabéns. Mas achei pouco. Um telefonema, mesmo sujeito a escutas clandestinas, é pouco para agradecer o trabalho desta mulher. Por isso, escrevo. E escrevo com os pelos arrepiados pela emoção.
Myrian, obrigada. Acho que não só eu, mas a História do Brasil deve agradecer tua obstinação. E, quem sabe, te por uma medalha no peito. Medalha que ainda não tem nome mas, quem sabe, poderia se chamar “Medalha dos Guerreiros”, ou do “Mérito de Luta”.
Obrigada, Myrian. Obrigada por nos dar o direito de conhecer nossa História

2 Responses to “UMA HERÓICA BRASILEIRA”

  1. http://www./ says:

    If the opposite of generosity is “holding on,” it feels like to me that what motivates that opposition is fear…fear of letting go, fear of letting God. Being generous with not only money, but with our hearts, our love for one another, our time, our gifts, requires that we release to another that which we are giving. And that can be pretty scary…

  2. Lacey says:

    That adsredses several of my concerns actually.

Leave a Reply

Panorama Theme by Themocracy