SIM, NERUDA, CONFESSO!

By , 10 May, 2009 5:50 pm

SIM, NERUDA, CONFESSO!
Confesso que vivi e vivo na mesma intensidade e com todas as emoções. A certeza me veio quando vi a foto de um homem de cabelos brancos sendo condecorado com a “Ordem de Ipiranga”, honraria máxima do estado de São Paulo. O homenageado era um ex-presidente dos Estados Unidos que parecia ter um sorriso grudado ao rosto, todos os dentes à mostra. Recebeu a faixa porque foi um aliado da luta pela anistia no Brasil.
A foto que vi, num dos sites de jornal, era pequenina e por isso, impossível perceber que até suas cílios já estão totalmente brancos. E então me veio à lembrança a única vez que estive próxima de um Carter. Era o tempo dos medos e sussurros. Minha terra vivia sobressaltada. Qualquer palavra a mais poderia significar masmorras, torturas e até mesmo o desaparecimento de quem a proferisse. Aquele tempo ficou conhecido pelo nome de ditadura. Das histórias que sei e que presenciei, “ditadura” talvez seja uma palavra branda. Vivíamos um tirania total. Direitos Humanos? Nem pensar. A palavra fora arrancada das páginas do dicionário e triturada em algum dos porões mantidos pelos facínoras. Mas voltemos a Carter.
78 ou 79? Acho que era 79 e lutávamos pela anistia daqueles que se exilaram ou foram simplesmente banidos pelos militares. O presidente da época era um general, chamado João Batista Figueiredo. E então se anunciou a vinda do presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter e sua mulher, Rosalynn. Eu trabalhava num jornal importante, a Folha de São Paulo.
Na embaixada, pronta para receber o “comandante em chefe”, houve um sorteio para a escolha dos jornais que participariam da entrevista com Rosalynn Carter. Meu jornal foi sorteado e, imediatamente, me transferiu a tarefa de ir à Câmara dos Deputados, onde ela falaria com os jornalistas.
Na época meu inglês cabia numa caixinha de fósforos e até hoje não entendo porque o chefe me mandou fazer a entrevista. Talvez porque eu sempre perguntasse além da conta. Mas ainda hoje desconfio que a decisão do editor obedeceu a esses mistérios da vida.
E explico.
Jamais acreditei na chamada neutralidade jornalística. Isso já me custou empregos, prisões, mas manteve minha dignidade no devido lugar. Cada vez que algum jornalista vem me falar de neutralidade, lembro de um jovem militar do exército do Egito que lutava contra o colonialismo inglês no seu país que um dia disse, “eles nos querem neutros para que sejamos cúmplices”. O jovem militar se chamava Gamal Abdel Nasser. Bom, foi com esse espírito que sempre exerci a profissão e por isso acredito que minha escolha para aquela entrevista deve-se mesmo aos mistérios da vida. Nenhum outro jornalista ousaria, em plena ditadura, assumir a tarefa que assumi. Não, não pensem que isso me envaidece. Foi apenas uma tarefa de quem tem convicções na luta contra as tiranias.
Quando cheguei à Câmara, alguns deputados do chamado grupo “Autêntico” do MDB, ficaram felizes porque eu fora escalada para a entrevista. Eles tinham necessidade de se aproximar da primeira-dama dos EUA e não podiam entrar na Comissão de Constituição e Justiça, onde aconteceria a entrevista.
E então me deram um envelope branco, retangular que deveria ser entregue ao presidente, e ninguém melhor do que a esposa para a função de carteiro. Do grupo eu me lembro que estavam Aírton Soares, de São Paulo, o deputado Duque, do Paraná, Odacir Klein, Getúlio Dias e João Gilberto, do Rio Grande do Sul.
Guardei a carta dentro da agenda e fui para o lugar designado para a entrevista. Uns seis brutamontes gringos cercavam Rosalynn Carter, além dos temíveis policiais federais brasileiros. Não fiz perguntas. Havia outros para fazer e, desde a hora que recebi a missão, só me preocupava em cumpri-la. Entre os jornalistas e a primeira-dama havia um cordão de isolamento. Quatro ou cinco perguntas foram feitas e então, um representante da embaixada anunciou que a próxima seria a última pergunta. Ela respondeu, e eu corri para o cordão gritando “Mrs. Carter, Mrs. Carter”. O suficiente para uma cotovelada nas costelas, dada por um brutamontes. Fui logo cercada pelos demais. Com 159 centímetros de comprimento, desapareci no meio daqueles homens enormes, mas continuei gritando “Mrs. Carter, Mrs. Carter”. Na verdade, eu me esgoelava. E ela, num gesto de elegância, ou talvez benevolência, ordenou que me deixassem passar. Entreguei a carta dizendo que era da “oposição brasileira no Congresso” e que todos estávamos lutando pela anistia. Ela pegou a carta da minha mão, antes que os brutamontes o fizessem, abriu, leu, me concedeu um sorriso e um “thank you”.
Do lado de fora, os deputados também sorriam de alívio. E eu, com a missão que poderia ter custado meu emprego, saí da sala saltitante. Mesmo sem ter feito perguntas, criara o “lead”, ou seja, a abertura da matéria, preocupação diária de todos os jornalistas.
Não sei se o presidente Carter ajudou na conquista da nossa anistia, mas só sei que tempos depois eu me deslocava pelo Brasil afora para receber nossos exilados. Para Carázinho, no Rio Grande do Sul, onde me juntei à massa que esperava o querido Leonel Brizola, para Recife, receber Miguel Arraes, para o Rio, onde me sentei no chão do aeroporto e ouvi as palavras do “Cavaleiro da Esperança”, Luís Carlos Prestes, e para minha inesquecível ilha de São Luis, para encerrar a longa espera do meu tio, Neiva Moreira. Eles estavam voltando. Quem sabe tudo entraria nos eixos novamente.
Por isso, Neruda, não tenho pudor em repetir a sua frase tão famosa e ainda acrescentar versos de Roberto Carlos quando diz, “se chorei ou se sofri, o importante é que emoções eu vivi”.
Memélia Moreira

Leave a Reply

Panorama Theme by Themocracy