A CASA DA RESISTÊNCIA

By , 13 June, 2018 6:57 pm

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Antropólogo Bruce Albert                                Líder Pankararu Quitéria de Jesus

 

Related image  Professsor Patrick Menget

 

Esse texto foi provocado pela tristeza profunda que senti quando soube da morte da antropóloga francesa Dominique Bouchillet.

 

Não sei que lembranças vocês guardam das casas em que viveram. Porque você pode até mudar de casa, mas elas são sempre a mesma. Nossa casa, seja onde for, é a tradução dos nossos sentimentos, das nossas opções de vida, de nossa  relação com o mundo. Minha casa sempre foi uma casa aberta e gosto de pensar, sem qualquer soberba, que minha casa foi a a “casa da resistência”. A casa que abrigou a luta dos deserdados.  Pela minha casa passaram, se hospedaram, ou viveram índios, camponeses sem terra, advogados de trabalhadores, missionários, militantes dos direitos humanos, indigenistas, líderes políticos e até um lorde inglês já dormiu no sofá da sala de minha casa porque bebeu um pouquinho além da conta. Naquela noite traçamos estratégias de luta. Desenhamos o projeto de uma agência de notícias indígenas, feita por eles, escriTa e falada em suas línguas.  Tentei depois no primeiro governo Lula.  Desisti. As autoridades coçavam a cabeça e me olhavam de soslaio.

Uma histórinha para ilustrar. No primeiro governo Lula, trabalhei 126 dias na FUNAI, de graça, sem salário. Nesses 126 dias consegui formar, em uma semana, o índio Lucio Xavante para escrever matérias em sua própria língua e postar na página da Fundação Nacional do Índio. Lúcio aprendeu o básico e, na abetura dos trabalhos do Congresso, em 2003, consegui levá-lo para o Salão Verde da Câmara dos Deputados. Com um pequeno gravador, ele se tornou o primeiro índio e entrevistar um presidente da República. Nem mesmo os jornalistas credenciados na Câmara chegaram perto de Lula, que fez o discurso de abertura dos trabalhos do Legislativo. Tenho orgulho da ousadia de Lucio.

Também tenho orgulho de dizer que muitas das conquistas dos povos indígenas foram discutidas na minha casa. Mais especificamente na cozinha, onde passávamos dia e noite conspirande em defesa dos direitos das nações indígenas. Que as estratégias de  luta pela demarcação dos territórios indígenas do povo Yanomami, Xavante (Reserva de Parabubure e São Marcos),  Raposa/Serra do Sol, Apinagé, Parakategê, Kaingang de Mangueirinha (PR), Pataxó Hã-Hã-hãe, da Bahia e tantos outros foram traçadas sobre uma mesa vermelha na minha cozinha, enquanto tomávamos café e eu cozinhava alguma coisa para matar a fome das madrugadas.

Só para vocês terem uma idéia, nas noites de 30 e 31 de dezembro de 2002, véspera da posse de #Lula, que também já foi meu hóspede, no meu apartamento de três quartos na 105 sul de Brasília, alojei 23 pessoas. Na sala havia sacos de dormir e colchonetes espalhados, travesseiros espalhados. Enfim, um grande acampamento para celebrar a vitória do povo. O único lugar inviolável era o quarto das minhas filhas. E todos os hóspedes ou moradores temporários sempre souberam, porque eu me dava o cuidado de avisar, que a casa estava aberta, mas minhas filhas eram as soberanas. Até hoje são, onde quer que eu arme minha tenda de nômade.  Eu mesma dormi na sala naquelas duas noites porque assim dava espaço para mais três no meu quarto.

Foram meus hóspedes os chefes  indígenas Raoni, do povo Kayapó do Xingu, Aniceto, do povo Xavante,  Maluwaré, do povo Karajá, Quitéria do povo Pankararu, de Pernambuco, Álvaro,Tukano, do povo Desana e tantos outros líderes e guerreiros, além dos indigenistas. Um dia acordei, e vi um dos nove xavantes que haviam dormido lá em casa, amolando um facão. Não me surpreendi, apenas perguntei porque estava amolando. E ele com a confiança que depositava em mim, disse, “é que vou usar para cortar a cabeça do coronel Nobre da Veiga”, que foi o último presidente da Funai durante a ditadura. A cabeça permaneceu, mas o facão chegou bem perto do pescoço do coronel.

Havia três categorias os hóspedes. Os permanentes, que tinham praticamente residência fixa porque viajavam e deixavam suas malas comigo enquanto trabalhavam nas aldeias.  Esses chegavam sem aviso prévio e conheciam as regras da casa. Havia os temporários. Eles ficavam semanas enquanto esperavam autorização da Funai para embarcar  para a área de trabalho e, por último os hóspedes ocasionais, que chegavam a Brasília para resolver burocracias, passavam dois, três dias. Nós nos divertíamos muito. E sei que minhas filhas, apesar daquele tumulto, muito aprenderam com aquele desfilar de culturas.

Na categoria dos ocasionais estavam os antropólogos Eduardo Viveiro de Castro, Chrisitian Jeffray, Iara Ferraz, o cineastas Vincent Carelli,  Ives Billon, os fotógrafos Miguel do Rio Branco e Peter Frey, os chefes Raoni, Aniceto,  Megaron, Maluwaré, Quitéria e a indigenista Claudia Andujar.

E, dos permanentes, quatro antropólogos franceses, Patrick Menget, Bruce Albert, Nathalie Pétèsch e Dominique Buchillet, É preciso dizer que os governos da ditadura militar perseguiam os antropólogos estrangeiros, principalmente os franceses. Por quatro mêses, morou em minha casa o cacique Mário Juruna. Ele lutava para que o Governo brasileiro, seu tutor, permitisse sua viagem à Holanda onde foi presidente do Tribunal Bertrand Russel. Também permanentes os indigenistas, Sydney Possuelo e Maurício Wilke, esse último, meu mais querido amigo. Tanto eu quanto Frank Jakomeit já tentamos convencê-lo a vir morar nos EUA. Mas Maurício está lá onde deve estar, junto ao povo Krahô, no mundo das águas do Tocantins, É, de todos eles, meu maior amigo.

Mas é de Dominique Bouchillet de quem quero falar. Sua morte me fez relembrar os difíceis anos da ditadura, nossas lutas, nosas conversas sobre os acontecimentos políticos de um país que desde que me entendo, ou seja, desde Getúlio Vargas, vive aos atropelos, num turbilhão infindável. Aos “trancos e barrancos”, como dizia Darcy Ribeiro.

Ela chegou com uma pequena mochila, falando um português incompreensível, de calça de linho bege e camisa roxa. Passamos a falar só em francês, para facilitar as conversas. E chegou para ficar lá em casa. Todos os dias eu a deixava na Funai onde ela fazia a via-crucis para conseguir a autorização dos coronéis e viajar para o Alto Rio Negro onde faria sua pesquisa de doutorado. Dominque era metódica, mas uma coisa me incomodava. Ela estava sempre com aquela camiseta roxa. Não trocava. Um dia decidi comprar uma outra camiseta pra ela. Meio sem jeito, cheguei com o presente. E  disse a razão. Ela então me mostrou sua mochila. Duas calças e mais quatro camisetas. Todas roxas. Ou seja, ela trocava. Mas era sempre roxas. Fomos para a cozinha gargalhar para não fazer barulho para minha filhas e tomar vinho, enquanto ela me ensinava a fazer o molho de mostarda e mel.

Dominique foi enfermeira em Paris. Usou seu salário para construir seu sonho de ser antropóloga. Escreveu muito. Nas horas vagas, lia romance policial. Comprou uma casa na Bretanha e se refugiava na beira do mar para ler os romances policiais. Não adiantava fazer Dominique se encantar por qualquer música. Ela respondia sempre “Ou c´est Brahms ou c´est rien”. E eu provocava. “E os Beatles, e os Rolling Stones, Aznavour, Piaf?” E ela , pestanejanado muito,  com os olhos de criança que vai fazer travessura, respondia, “Baahhh”. Não sei se rompeu suas barreiras musicais, mas sei o quanto tentei.

Admirava Dominique. Ela era de poucas palavras, mas talvez a pessoa mais preservarante com quem já cruzei. Sem alardes. Ela fincava o pé e esgrimia generais e coronéis, em defesa do povo do Alto Rio Negro. Foi assim que batalhou contra a implantação do projeto Calha Norte, um sonho alucinado do general Rubem Bayma Denys, chefe do Gabinete Militar do presidente Sarney. Foi assim que evitou o quanto pode a sedução dos empresário de garimpo que queriam extrair ouro nas terras indígenas. Foi assim sempre, em todos os momentos em que se precisava de uma pessoa incapaz de tergivisar. Era ela, Dominique.

Nós nos perdemos pela vida porque me mudei para os Estados Unidos quando ela estava em Paris. Só ns comunicamos uma vez, nesse tempo que estou aqui. Ela me telefonou para dizer que a porta de madeira que comprou quando estávamos num dia de shopping, ficou perfeita no seu refúgio bretão. Era uma porta feita na Indonésia, país pelo qual ela se interessou e de lá me presentou com uma blusa preta tecida à mão. Uso até hoje.  Era assim, nossa amizade.

Pois é, ela se foi dia seis de junho. Só nesta terça-feira fiquei sabendo. E então me bateu saudades daqueles anos todos. Não saudades da ditadura, claro. Saudades de um tempo de resistência em que estávamos todos no mesmo barco contra aqueles que nos dominam há séculos. Saudades de minha casa brasileira onde cada um dos meus hóspedes enriqueceu minha vida e me preparou para ser uma idosa cheia de entusiasmo para continuar a luta.

P.S. Começo a desconfiar que o Google é machista. procurei fotos de Dominique Bouchillet e Nathalie Pétèsch e não encontrei. Só achei as fotos de Patrick menget e Bruce Albert, dois meus hóspedes franceses.

DE CHIQUINHA NAVALHADA A BOULOS

By , 3 June, 2018 9:11 pm

LA GÜERA RODRIGUEZ

Era março de 1951 e a ilha de São Luís estava em polvorosa. Uma revolta sacudia a cidade. Eram protestos pela fraude acontecida nas eleições de 1950, que deu vitória ao candidato “vitorinista” – um caudilho sanguinário, cacique do PSD,  que dominou o Maranhão por mais de 40 anos e só foi derrotado em 1965- Eugênio de Barros. Seu opositor, Saturnino Belo, sofreu um infarto durante a apuração quando o TRE maranhense anulou 16 mil votos da cidade mais populosa do estado, a ilha de São Luís e voto mais consciente. A revolta se iniciara em janeiro porque os eleitores não aceitavam a posse de Eugênio de Barros

Getúlio Vargas ameaçou mandar tropas federais.  O Vigésimo-Quarto Batalhão de Caçadores, unidade militar do Exército no Maranhão, não conseguia controlar as escaramuças. Na liderança da rebelião, um jovem de 33 anos, jornalista que acabara de ser eleito deputado estadual pelo PSP, recebe uma visita inusitada na Rua da Palma número 98, sede do jornal que o jovem acabara de criar, o “Jornal do Povo”. A visita era uma mulher um ano mais velha que o deputado e trabalhavana mesma rua do jornal.

– Deputado, nós podemos ajudar na greve.

Estupefato, o jornalista já exercendo seu mandato na Assembléia Legislativa do estado, não conseguia entender a proposta.

O novo deputado pede então à visitante que explique melhor o plano. E ela não se fez de rogada.

– As meninas cruzam as pernas.

E assim aconteceu. Os soldados enlouquecidos e as mulheres de pernas fechadas. Perdemos a briga, mas a partir daí São Luís assumiu o título de “Ilha Rebelde” porque sempre derrotava os caciques políticos.

Esse diálogo, que tantas vêzes ouvi durante minha infância e juventude, contado com todas as cores aconteceu entre meu tio, Neiva Moreira, que 13 anos depois, já deputado federal,  partiu para um longo exílio que durou 15 anos vivido em alguns países da América Latina e a prostituta Maria Ramalho Pestana, que por muitos anos, juntando suas economias no exercício da profissão, comprara a mais famosa “pensão” da Zona do Baixo Meretrício de São Luís. A “Pensão de Chiquinha Navalhada. Também conhecida como “Pensão da Maroca”, a nova dona do bordel.

Instalada num casarão da Rua da Palma, dois quarteiros depois do jornal, em direção à Praia Grande, o bordel de Chiquinha Navalhada era prestigiado por políticos, pelos ricos e pelos intelectuais daquela cidade que já foi conhecida pelo título de “Atenas Brasileira”.

Ah, as Mulheres de Atenas!

Papai e meu tio contavam muitas histórias da pensão. Tanto um quanto o outro chamavam as prostitutas de “primas”.  Eles contavam inclsuive das brigas políticas que lá aconteciam porque a pensão  era frequentada, indicriminadamente pelo Governo e Oposição. As profissionais eram bem cuidadas. Maroca exigia que todas fossem vacinadas e, principalmente, “higiênicas”. Não havia risco para os frequentadores serem surpreendidos pelas “doenças venéreas”, hoje conhecidas pela sigla DST. Ou seja, um luxo.

Conheci algumas das primas de meu pai e meu tio. Eram sempre simpáticas comigo quando, por acaso cruzávamos nas ruas de minha amada ilha de São Luís. Passei várias vêzes em frente ao casarão de quatro janelas. Minha curiosidade sempre comandou meus movimentos.

Foi esse meu primeiro contato com um mundo proibido e evitado pelas “moças de família”, nós, a classe aristocrática maranhense. Não podíamos sequer cruzar o quarteirão para ver o por do sol na Praia Grande, onde os pescadores chegavam com peixes fresquinho desde que o dia amanhecia até o fim da tarde.

Cresci e perdi o contato com aquelas histórias. Mas nós nos encontramos novamente

Nos anos 70, quando me tornei jornalista, o extinto “Diário de Brasília” (eles até hoje me devem dois mêses de salário. fechou as portas e não pagou nenhum funcionário) queria fazer propaganda dissimulada do governo e escolheu o Mobral, programa de alfabetização que a ditadura instalava a todo vapor.

Meu chefe me pediu uma missão “delicada”. Queria que eu fosse a uma casa de prostitutas que funcionava na cidade de Planaltina, arredores de Brasília. E ainda disse, olha, “mas você pode recusar. Sei que é difícil. Mas se você aceitar, vá à tarde”. Topei. Qual era o problema? Para quem convivia com aquele Governo, entrevistava aqueles homens asquerosos, ministros da ditadura que pintavam cabelo na cor acaju, entrevistar prostitutas não tinha nada de mais.

Cheguei ao bordel às duas da tarde. Elas me esperavam, mas não aceitaram fotos.  O fotógrafo, nem me lembro quem era, foi esperar num barzinho por perto. Estavam todas arrumadas, maquiadas, cabelos ainda molhados do banho, felizes porque daí a duas horas chegaria o grupo de alfabetizadores. A aula começaria às quatro.

Conversamos bem além da alfabetização. Conversamos de vida. Elas perguntaram o nome do meu perfume (na época, eu usava #Calèche), queriam saber se eu tinha namorado, se eu era virgem.  Eu e elas nos perguntávamos. E eram conversas de mulheres. Simplesmente mulheres. A mais velha de todas tinha 21 anos. Eu estava com 24. A mais nova, acabara de completar 16. Escrevi a matéria, recebi elogios e risadinhas dos boçais de sempre. Nunca mais vi aquelas meninas que me serviram café com pão-de-queijo.

Passado o teste de cobrir “Geral” – polícia, incêndio em cemitério, circo novo na cidade, show de Elis Regina, festival de cinema, crime passional, eleições no Uruguai- fui para o “Jornal de Brasília”, sangue novo na cidade. Já trazia na bagagem um experiência de três anos, inclusive pela Amazônia. E fui elevada à categoria de ter uma área fixa. A área dos meus sonhos. A área onde eu não precisava dizer “Abaixo a Ditadura” porque as reportagens diziam por mim. “Índios, Terra, Igreja”. Em outras palavras, fui para o front de guerra.

E as primas voltaram a frequentar minha vida.

Aconteceu em São Geraldo do Araguaia, a cidade da ‘Guerrilha do Araguaia”. Aqui cabe um parentêse. A guerrilha não acontecia em Xambioá, cidade que na época integrava o estado de Goiás. Os acampamentos dos gurrilheiros era na outra margem do rio, em São Geraldo do Araguaia, no lado paraense do rio. Em Xambioá foi onde o Exército instalou sua base de operações e centros de torturas contra guerrilheiros e camponêses que apoiaram a guerrilha.

Foi em 1976. Eu mal voltara da licença-maternidade. Minha filha mais velha, Cristina MoreiraSchiel só bebia o leite que nós duas, em ampla comunhão produziámos. E meu jornal me manda novamente para uma missão “espinhosa”. Ia para São Geraldo do Araguaia, onde dias antes o Exército prendera o padre Florentino Maboni. Era acusado de dar apoio à luta camponesa. As feridas da guerrilha estavam expostas e o governo foi apaziguar distribuindo uns parcos títulos de 50 hecatres de terra para os lavradores mais bem-comportados. Meu desespero: tirar leite do meu peito com bombinha para que minha primogênita se alimentasse.

Na véspera da viagem, o presidente do INCRA, o maranhense Lurenço Vieira da Silva, embora politicamente adversário, me chamou. Cortesia de conterrâneos. E me pediu, “pelo amor de Deus” que eu tomasse cuidado porque do barqueiro ao motorista eram todos militares em trajes civis. Espiões. Agradeci, mas nem seria necessário. Bastava ver os relógios que eles usavam nos braços, as camisas de xadrez novas e bem passadas para saber que ali ninguém era barqueiro ou chauffeur dos jipes Toyota. Embarquei. Coração partido por deixar minha bebê durante dois dias. Fui no avião com o jornalista Luis Cláudio Pinheiro. Mas antes, uma paradinha para  conversar na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). Queria informações sobre o padre Florentino.

Em São Geraldo, banho de rio e conversa com as mulheres que lavavam roupas. Uma delas, prostituta. Tímida, ela me perguntou se podíamos conversar mais tarde. Lá fui eu novamente para a zona. E elas me contaram todas as torturas impostas ao padre e às freiras presas. Contaram detalhes porque haviam ido para a cama com os militares e com os policiais. E eles desabafavam. Fiquei trêmula e chocada com as histórias. Muitos detalhes impublicáveis sob pena de ser perseguida ou até perder meu emprego. Mas decidi escrever. Só me lembro da primeira frase do texto. Bucólica. Manobra diversionista para enganar a censura. “Na beira do Araguaia, onde a sombra da Serra das Andorinhas se despeja sobre o rio, foram distribuídos ontem títulos de terra para os posseiros da cidade-palco de uma luta…”

As prostitutas estavam revoltadas com as torturas sofridas pelo padre gaúcho. Umas choraram me dizendo que ele fora obrigado a beber urina das freiras. Outras prometiam vingança contra os fregueses. Nenhuma demonstrou o menor sinal de simpatia pelos agentes da ditadura. Foi uma lição.

A partir daquele dia, sempre que o jornal me mandava para as áreas de conflito, era com elas que eu buscava as informações alternativas. Elas sabiam mais do que todas as autoridades. Em linguagem crua, me confidenciavam as fraquezas dasqueles que nos dominavam pela força.

E foram elas, sempre elas quem me ajudaram a escrever as matérias sobre a invasão dos garimperios nas terras Yanomami, na Serra das Surucucus, incentivados pela Docegeo- Vale do Rio Doce . Foi Neméia, dona de um bordel em Boa Vista, capital de Roraima, quem me contou sobre os engenheiros da Vale medindo a terra e cavando o chão para anunciar ao mundo que ali há urânio e ouro. Nos intervalos me disse que etava fazendo economia para comprar um sítio em Nova Friburgo. Lindos olhos tinha Neméia, carioca mestiça de negro e índio.

E hoje, 3 de junho de 2018, quando o século XXI completa sua maioridade, a quatro meses e 20 dias do meu aniversáruio de 71 anos, sou surpreendida pela notícia de que Guilherme Boulos, candidato à presidência da República pelo PSOL, partido pelo qual começo a cultivar muito carinho e, principalmente, respeito, auto-censurou sua página na internet com texto em que dizia que as prostitutas são trabalhadoras. E precisava? Será que alguém discorda dessa afirmação? Parece que sim. Claro que são trabalhadoras. Muitas talvez, o façam por prazer. E daí? Sou jornalista por prazer. Mas a maioria esmagadora se torna prostituta porque só contam com o próprio corpo para vender sua força de trabalho.

Vou além, Boulos. Prostitutas são revolucionárias. Muitas dessas mulheres ajudaram a mudar a História. Veja Mata-Hari. Veja Maroca, a dona do bordel de Chiquinha Navalhada. Veja La Güera Rodriguez, mexicana que foi amante de Simon Bolívar e com sua fortuna ajudou a movimento de independência do México.  Ou mesmo as prostitutas anônimas que, no dia a dia, observam os desmandos e, quando são lembradas te contam as histórias das misérias de um povo. Sem esquecer que não fossem essas mulheres até hoje, o tango seria uma dança exclusiva dos homens.

Por favor, Boulos, devolva seu texto à página. Não se deixe levar pelas hipocrisias, mesmo se fantasiadas de defesa das mulheres. Supere esse falso moralismo porque qualquer moralismo é opressor.

PAIXÃO SEGUNDO URARIANO

By , 16 August, 2017 12:47 am

Pátio de São Pedro, Recife, que concentra uma das mais majestosas represaentações da Arquitetura Colonial brasileira e onde os revolucionários, acreditavam estar a salvo do inimigo.

Nos terríveis anos da ditadura mantive correspondência com alguns dos mais notórios presos políticos do Presídio Tiradentes, em São Paulo. Todos eles gloriosos militantes da Ala Vermelha do PCdoB. Tanto com meu irmão #Sonsonho, de quem guardo muitas cartas com o abominável sêlo do DOPS, liberando a correspondência, quanto com Hélio Cabral de Souza e, Alípio Raimundo Viana Freire. Com meu irmão, conversas familiares, rumos do país e, principalente conselhos para que eu não me desviasse na profissão de jornalista. Foi meu irmão, Antonio de Neiva Moreira Neto quem me fez fincar pé na causa indígena. Ele dizia que todas as trincheiras contra a ditadura eram valiosas. Com Hélio Cabral falávamos da guerra do Vietnam, com a certeza absoluta que a História daria vitória aos guerrilheiros #viets E de música. Foi ele quem desenvolveu em mim o gosto pela música do mais profundo Goiás. 
Com Alípio, conversávamos sobre os mais diversos assuntos. Cinema, Pintura, Guerra do Vietnam (nós dois construímos um mapa na parte debaixo do estrado de nossas camas. Eu, em Brasíilia e ele no presídio, avançávamos “nossas tropas” e sabíamos que faltava pouco para ocuparmos o Vale do Mekong. Já havíamos vencido a guerra politicamente, mas nós dois sabíamos que as pequenas e importantes vitórias militares eram necessárias.
Mas as mais longas cartas entre nós dois aconteciam quando o assunto era Literatura. E um dia, conversando sobre Gustave Flaubert (que estou relendo pela terceira vez), Alípio escreveu, “On mange bien chez Flaubert”. 
Sim, Alípio on a bien mangé avec Flaubert. Et surtout avec Proust et ces “madeleines”, toujours à la recherche du temps perdu. 
 
E agora, Alípio, meu querido baiano, passados quase 50 anos daqueles tempos horríveis, estou diante de um livro onde ao contrário de Flaubert, on ne mange pas de tout. On crève de faim.  A  fome se distribui nas 320 páginas. Estou te falando de “A mais Longa Duração da Juventude”, de Urariano Mota, colega nosso, jornalista mas, sobretudo, um escritor, um filósofo, uma pessoa sábia que em em uma página te faz viver passado-presente-futuro como se não houvesse hiatos. 
A fome daqueles jovens, personagens reais da longa duração de nossa juventude, não se limitava a franguinhos assados ou polpudos filés deixados na mesa de um bar. Eles tinham fome revolucionária. De transformar o mundo, de eliminar as injustiças sociais, de evitar que nossa sociedade caísse no abismo da barbárie. E essa fome revolucionária lhes inibia ao ponto de lhes deixar com fome de paixões. Elas eram interditas, clandestinas, quase criminosas porque na moral revolucionária vigente, deixar que a paixão explodisse significava “desvio ideológico”. 
Era o tempo dos amores interrompidos, proibidos, dos beijos roubados porque a moral ideológico-sexual era rígida. E eu me pergunto, como se pode fazer uma revolução em que o amor, a paixão deve ser jogada para um segundo plano, uma revolução que nos massacrava permitindo apenas a tortura dos amores platônicos.
E enquanto nossos mais belos sentimentos amorosos eram aniquilados pela moral revolucionária, “eles” acreditavam que vivíamos em total promiscuidade. E nós, perseguidos pelo inimigo externo, não vencíamos os dragões ideológicos. Éramos, ou tentávamos ser “puros”. Aqueles meninos, loucos de paixão, sufocavam uma exigência da natureza animal que é assegurar a manutenção da espécie. E preservavam a virgindade das namoradas. De todas as formas possíveis. Estratégias para saciar o desejo sem que isso implicasse na perda do hímen, essa película responsável por carnificinas em muitas culturas.
A tradução das estratégias vem de forma resumida e elegante num diálogo que fariam os jovens de hoje gargalhar.
O narrador e o personagem Luiz do Carmo circularam pelos bordéias à procura de prostitutas. Cheios de culpa pelo comportamento que entendiam como “exploração” da mulher.
 
“Que depressão miserável, mesquinha, caiu sobre nós. Enquanto caminhávamos sobre os paralelepipedos da Vigário Tenório, eu lhe perguntei, sem poder olhá-lo:
 
– Você não pegou nenhuma?
 
E ele, a contragosto:
 
-Não, é contra os meus princípios.
……………………………………………..
Como você faz? Não sente necessidade?
– Eu tenho namorada
…………………………….
– E você faz sexo com ela?
…………………………………..
-Sim…Não.
-Sim ou Não?
-É sim…sim,sim. Mas não é um sexo completo.
-Hum…Mas completo até onde?
……………………………………………
….Eu respeito a virgindade dela, entende? Eu respeito”
 
O diálogo é uma e vidência explícita de o quanto minha geração que fazia resistência se negou. O quanto controlou emoções que são essência da natureza humana e que deveriam fluir com a mesma naturalidade com a qual o sangue navega em nossas veias. 
Perdemos? Hoje, quando vejo minha terra esfarrapada, acredito que sim. Perdemos. Mas, penso sempre no meu mestre maior, no mestre Darcy Rbeiro com quem tive o privilégio de conviver todas as quartas-feiras à noite, num grupo que ele selecionou para pensar Brasil. Bebíamos whisky e discutíamos nossa terra, esse amor sem retorno. E, ao pensar em Darcy, relembro uma de suas mais poderosas frases. Elas são o mapa de uma vitória. A vitória de nós, os derrotados pela História. 
    
  “Fracassei em tudo que tentei na vida. Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei.
Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.
 
Darcy, meu amigo, esse resumo da tua vida em sete frases é o que me ilumina quando vejo os caminhos apresentando momentos sombrios.
Bom, para analisar “A Mais Longa Duração da Juventude” livro de Urariano Mota, esse jornalista, escritor e filósofo pernambucano a quem não conheço e com quem converso muito (obrigada Mark Zuckerberge, ou, “Tio Zucka”, como diz Renata Lins, pessoa a quem muito admiro) dividi a escrita de Urariano em dois eixos. Caso contrário eu me perderia em sofrências pelas cenas que agrediram nossa geração e, pelo amor à luta que se espalha em todas as páginas. São mais de 300. Li duas vêzes as mais de 300 páginas. A segunda leitura doeu ainda mais porque eu já sabia qual cena se seguiria. E sabia também o quanto ela me daria punhaladas. 
O livro é um suceder de paixões. Paixão na sua essência do apaixonar-se. Paixão que se desdobra no sentido mais amplo, o do amor. O amor das imensidões. Amor ao povo, e aos infinitos brasis com os quais convivemos mesmo que nos pareça invisível.  Da paixão, vou ao segundo eixo. O da fome.  Fome pela transformação de uma sociedade injusta; fome da comida que era pouca e assim mesmo dividida e, principalmente, a fome de viver toda uma vida em um momento. Entre a Fome e a Paixão, incluo a alma de um poeta. Urariano Mota é poeta. Mesmo na descrição dos momentos mais trágicos a poesia está presente. O seu “Eu” profundo de poesia, um eu que também se nega quando ele tenta ignorar os mistérios da vida, entre eles, os pressentimentos que o perseguem até na mesa de um bar do pátio de São Pedro naquela cidade do Recife palco das resistências narradas em “A Mais Longa Duração da Juventu”. Um eu que filosofa e que se aproximando dos 70 anos, é aquele mesmo menino magro, que se considerava feio no passado, mas que agora descobre ser uma vida intensa dedicada à luta a fonte de sua a beleza.  
Conversei com o autor algumas vêzes e lhe disse que se tivesse capital criaria um roteiro turístico da Resistênia em Recife percorrendo as ruas, restaurantes, bordéis, pensões, a praia da Boas Viagem, Porto de Galinhas e outros logradouros que em vários momentos foram cenários daqueles meninos que carregavam no peito o ardor revolucionário; daqueles pós-adolescentes que eram feridos de morte quando cada companheiro caía nas mãos dos nossos implacáveis inimigos, entre eles Cabo Anselmo e o delegado Sérgio Fleury. E mais, que produziria um filme com inspirações de Jean-Luc Godard dos anos 60/70 e Fellini. A viagem daqueles combatentes a Porto de Galinhas é felliniana. Mais especificamente, uma “Dolce Vita” de uma juventude, que criava situações que poderiam subverter a perversa ordem social vigente e cujos instrumentos eram o sonho, a palavra, uma arma talvez enferrujada e, um simples mimeográfio guardado sob cuidados. Um dos mais revolucionários instrumentos da nossa geração. 
Todo leitor, do ocasional aos totalmente viciados, escolhe, no livro que lê os momentos mais marcantes, os parágrafos mais intensos, e também, elege seus personagens favoritos. Os favoritos do leitor nem sempre coincidem com os preferidos de quem escreveu o livro.
No meu caso, os personagens para sempre inesquecíveis são “Vargas” (leia com um “R” carregado como pronunciam os de língua espanhola), “Gordo”, uma verdadeira enciclopédia musical e Luis do Carmo. Há muitos outros. Zacarelli, por exemplo, Selene, direção da UBES (União Brasileira de Estudantes Secundaristas), Torquato de Moura, “guardião das virtudes subversivas”, Narinha, Marx, sim,  Marx e Engels, filhos de um pai comunista, já velho e o primeiro a sentir o cheiro da infâmia que exalava do Cabo Anselmo, Zé Batráquio e, Ela. Refiro-me a Soledad Barret, uma quase-menina que, dentre todos que sucumbriram naqueles anos tristes foi a mais traída. Traída pela paixão. A mulher bonita, forte, marcada em lutas pelo nosso continente, musa do poeta Mário Benedetti, apaixonou-se por um homem abjeto chamado “cabo anselmo” (com letra minúscula mesmo porque os infames não merecem ser maísculos em nenhum momento). Se em “Soledad no Recife” ele apenas abra a cortina da paixão por Soledad,  nesse segundo de sua quase-autobiografia, ele a escancara. Soledad foi e será sempre, o grande amor de Urariano. Amor confessado com todas as letras quase no final de “A mais Longa Duração da Juventude”, quando diz, “A mulher que em legítimo platonismo eu amei”. Amo.” O legítimo platonismo se transformou no amor eterno, porque agora Soledad vive na eternidade, na imortalidade.   
Há grandes e inesquecíveis momentos. Muitos, principalmente aqueles nos quais os jovens revolucionários, militantes de organizações armadas de esquerda se reuniam num bar e discutiam Música, Literatura e o lindo horizonte pelo qual lutam, a pátria socialista. Os dois momentos que mais me emocionaram foram a viagem dos revolucionários de Recife a Porto de Galinha, dentro de uma Vemaguete, às quatro da manhã de um sábado, sem sequer conhecer o caminho entre as duas cidades e passando riscos reais de morrerem num acidente porque João Alberto, o único que dirigia dormiu várias vêzes ao volante e, tudo porque, “Pasárgada não podia esperar…” 
O outro momento que me marcou e, aqui, pela tragédia, é também uma viagem. Talvez a última antes de ser atingida pelas balas da ditadura. A viagem de Vargas no ônibus que embarcou depois de dizer à advogada Gardênia que era um homem morto, que já estava sendo caçado pelos homens de ouro do delegado Fleury e pelo infame cabo anselmo. Ela o aconselha a fugir, mas ele rechaça a idéia para não abandonar “Nelinha”, sua mulher que já era mãe da menina Krupskaia. Ah, quanta paixão existe na alma revolucionária! Entra no ônibus no ponto da ponte Duarte Coelho e segue pela Avenida Guararapes, Capibaribe, Largo da Paz, Afogados, Ponte do Motocolombó num monólogo com sua consciência, com a certeza da morte, com o desespero de não poder salvar sua pequena família. Esse talvez seja o mais dramático momento do livro. “Vargas” foi preso, morto e carregado para a Chácara São Bento onde os torturadores de Fleury o posicionaram ao lado de Soledad, alterando a cena do crime. Nenhum dos mortos da Chacina da Chácara São Bento, em janeiro de 1973, morreu naquele lugar. 
Os fatos são todos reais, mas os nomes são fictícios. Ou, como diríamos na época, todos codinomes.  
 Convido a quem me lê nesse momento a ligar um aparelho que toque música. Youtube, Ipod, CDPlayer, o que for, até mesmo uma vitrola, toca-discos ou um gravador com as já jurássicas fitas K-7. Não precisa por o som no último volume. Deixe apenas o suficiente para não interromper a leitura do livro. E, do começo ao fim das 320 páginas de “A Longa Duração da Juventude” ouça Ella Fitzgerald. Sugiro que “I Wonder Why” seja a primeira música. E, se pensarem em mim, ouçam “Dream, a Little Dream of Me”. Vamos, me dê sua mão e vamos passear por Recife, aquela linda cidade do Recife que se espelha sobre um rio cruzado pelas pontes que, de tantas,  fazem inveja a Veneza. Recife, cidade que ao lado de Belém e Porto Alegre simbolizam, para mim, a rebeldia do nosso povo, protege uma pérola. Olinda. E é lá onde Urarinao Mota, esse poeta, escritor, guerreiro a quem admiro sem nunca tê-lo encontrado vive hoje. Morar em Olinda não deixa de ser uma recompensa por uma vida entregua à resistência.
 
“Quando reflito o que vi, noto que nossa vida começa a partir de um instante fora do nascimento. Ela começa naquele minuto que define nossos dias, que ilumina o passado, presente e futuro. O instante definidor como a linha da vida, na palma da mão lida por uma cartomante que não esperávamos”.
 
Essas são as três primeiras frases do livro do jornalista e escritor (mais que isso, poeta) Urariano Mota, pernambucano. E a partir dessa frase pode-se dizer que a vida desse homem começou no instante em que ele inicia sua luta revolucionária para derrubar a ditadura que se instalara no Brasil quando ele atingia a puberdade. E dá seus primeiros passos de consciência um pouco mais tarde.
Quantos anos tinham Urariano, ou Júlio, quando aconteceu a primeira paixão? Exatos 19. E também, foi sua primeira paixão platônica. Houve outras. Urariano apaixonou-se por Ella Fitzgerald. Comprou um LP com suas músicas. Amor platônico, irrealizável porque Urariano não tinha dinheiro para comprar uma “vitrola”. A compra provocou protestos de Luís do Carmo, um sonhador de pés no chão. E Urariano, naquela miserável pensão “Treze de Maio”, na Avenida Princesa Isabel, em Recife, sob um calor intenso do verão nos trópicos, sem vitrola, acariciava a capa do LP como se acariciasse o corpo de uma mulher. O corpo de Ella, talvez. Ou o corpo da mulher que viria. A capa é quase a pele da cantora, da mulher que não podia ter.
E ele solta aquela dor antiga dizendo, “quero ter Ella, acariciar sua capa (que pobreza, meu Deus, dói até a lembrança neste instante. Quero antegozar a sua voz, a doçura que apenas ouvi por segundos e me derrubou num encanto…”
I wonder why. Urariano ainda busca as respostas para essa pergunta sussurada na voz de mel de Ella Fitzgerald.
Urariano foi de muitas paixões. Não sei quantas. Mas em seu leque, apenas uma das peças não estava integrada à resistência brasileira e é justamente a figura de Ella Fitzgerald. Porque Selene, a quase-menina, dirigente da UBES cujos joelhos e parte das pernas foram quimadas por ácido jogado pelos estudante de direita da Universidade Mackenzie, na “Batalha da Maria Antonia” em São Paulo, estava na resistência. Com fome, pedia uma sopa, depois de exibir o quadro da pauperidade com a qual convivia o movimento da oposição armada. Ela estava com fome. E sem cigarros. Rígida nos códigos da conduta revolucionária, ela atraíu a paixão dos que a cercavam. Exibia belas coxas. exibia as coxas na minissaia para que não percebessem as cicatrizes do ácido que a mutilou. E Soledad, a paixão maior e eterna, bem, Soledad era uma revolucionária latino-americana que já circulara por outros países do nosso pedaço americano dedicando-se à luta. Essas três paixões foram todas vividas platonicamente, em segredo, silenciadas. Em Soledad ele deu um beijo roubado no rosto e pediu desculpas. Não resistiu, recolheu as desculpas e passou as mãos nos lábios daquela mulher discreta e forte cujo nome deveria ser sinônimo de “revolucionária”.
Mas se as paixões eram platônicas, a fome era real. E Urariano, o único entre os demais a ter um emprego. Ele datilografava  (E percebo, nesse momento que as gerações que hoje estão na faixa dos 30, 40, jamais conjugará o verbo “datilografar”) guias de transporte de material elétrico, num galpão coberto com telhas de zinco, pagava a sopa da dirigente estudantil. Datilografava guias e era “suspeito de gostar de gostar de poesia”. Sim, gostar de poesia sempre nos colocou entre os suspeitos. Não havia dinheiro nos bolsos ou nas contas bancárias dos heróis da resistência. E a fome os perseguia. 
 
 “Em 1970 o almoço era pouco, dividi-lo era o mesmo que ficar com meia-fome . E meia-fome ainda é fome”. Apesar dessa penúria, Julio/Urariano e seus companheiros mesmo com o estômago vazio tinha consciência de que “quem possui o que sonha não é pobre. Nós nos alimentávamos do sonho uns aos outros”.
E o sonho era tão sonhado, tão vivido, que a “companheira Selene”, das pernas queimadas com ácido, ao expor a situação do movimento, com a firmeza de quem guarda a convicção da vitória pela luta diz,
 “Companheiros, temos sérias dificulddes de sobrevivência. Física, grana, alimentação, tudo…Mas o que são as dificuldades do Socialismo, companheiro? O que são as dificuldades diante do heróismo do vietcong?”.
O heróismo não era apenas do povo Viet. O heróismo era daqueles brasileiros pessoas que se encontravam na faixa cinzenta entre o fim da adolescência e o início da idade da adulta que entregaram sua juventude para a construção de uma sociedade menos injusta. Quem sabe, socialista. E aí penso nos meus irmãos #Sonsonho e #Gagocha que, sem passar por essas necessidades também sonharam, também entregaram sua juventude porque sonharam. 
Os trechos de “A Mais Longa Duração da Juventude” onde se expõem as as carências do mínimo derrubam um mito. A Direita na sua incansável campanha para desqualificar a luta que nos concederia um mínimo de Democracia espalhava a idéia de que os guerrilheiros do Brasil eram todos brancos e “fihinhos de papai”, filhotes da burguesia. NÃO e NÃO. Havia pessoas pobres, operários, desempregados, professores mal-pagos, mas incansáveis, trabalhadores de um barracão coberto de zinco que estavam imersos na luta política e na luta pela sobrevivência. E havia negros. porque a resistência não tem cor.
E essa verdade aprendida no livro de Urariano Mota teve para mim, não um gosto de vingança contra os ditadores e seus capatazes, mas uma esperança de que um dia, num futuro que talvez eu não alcance, os pobres, os miseráveis, tomem, retomem as rédeas de um mundo com a qual ainda sonho. 
Mas mesmo real, não cinematográfica à Charles Chaplin no magistral “Em Busca do Ouro”, onde querido “Vagabundo”, delirando de fome degusta sola de sapato como se fosse um prato apetitoso, o fato acontecido no “Restaurante Coqueirinho”, nos faz rir e chorar. A churrascaria me remete a Carlitos.
 Aqueles jovens que discutiam T.S. Elliot, Balzac, Proust,  dostoievski, Kafka, que ouviam Milton nascimento, frevos clássicos, frevos anônimos, que liam e discutiam Marx, Engels e outros filósofos, voltando do Cine Coliseu, tinham fome. Ou dividiam uma cerveja ou comiam. Mas cerveja provoca fome. Nesse momento, um casal na mesa vizinha, come um churrasco. Comem um pouco e deixam a mesa. E os revolucionários criam uma pequena dissidência entre a dignidade e a fome. A comida já estava paga. A fome impagável. A agilidade era fundamental. Pegar a comida deixada e paga antes que “Topo Gigio”, o  garçon conhecido, chegasse. Venceu a fome. Quase saciados, o choque seguido da vergonha. . O casal retornou à mesa. Um pedido de desculpas. E o homem do casal, sentencia, “Podem ficar”. 
“Estava escrito e não sabíamos. É do gênero da felicidade durar menos do que esperamos”, reflete consigo o poeta-guerrilheiro.
Eles eram assim, os guerrilheiros, aqueles pós-adolescentes que se preparavam com ardor para o momento de pegar nas armas, de sacrificar até à morte pela derrubada de uma ditadura e construir a pátria socialistaque. 
Os fatos estão narrados como se fossem um jorro, um desabafo. Não falta no livro observações com característica de auto-crítica. Não falta também um tanto de desengano com o comportamento de quem ainda estampa o rótulo de “esquerda” enquanto exercita práticas da direita. 
Além dos fatos da triste História de um país que entrou em decadência antes de chegar à maturidade, Urariano Mota nos concede reflexões de quem já encontrou as respostas exigidas, mas sabe que ainda a mais a questionar e responder. De todas as reflexões, transcrevo aquela que também me responde alguns questionamentos.
 “A vida lembra a intensidadede uma canção. Na reconstrução pela minha memória, a vida é intensa, profunda e breve. Mais próximo do que desejo dizer: a memória da vida é uma brevidade que não termina. Há um ponto e uma repetição indefinida. Melhor, não um ponto, são retincências…”
Mas vamos em frente companheiro porque, diria meu mestre Darcy Ribeiro, 
“Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”.
Nós também não, amigo. 
Obrigada pelas lições aprendidas nessa nossa longa duração da juventude.

 

DE PECADOS E MODUS OPERANDIS BY TANIA FUSCO

By , 18 February, 2017 7:04 pm
Vocês se lembram daqueles cinemas de antigamente, que ficavam com luzes minúsculas piscando para anunciar o filme do dia? Aquelas luzes exerciam um fascínio especial na minha imaginação. E vem daí meu amor pelo “Cinema”. O fascínio pelas luzinhas cresceram comigo e até hoje piscam e piscam no meu universo amoroso que guardo intacto desde a infância.
Pois bem eu queria ter aquelas luzes-pisca-pisca para fixar ao redor da tela  e emoldurar o texto de Tania Fusco. É uma reflexão sobre o significado dos pecados capitais na leitura de uma jornalista que tem o dom de transformar assuntos corriqueiros em Literatura.
E eu preservo com todos os cuidados o carinho que nos liga.
Por isso, orgulhosamente, o Blog #MOSAICO lhes apreenta TÂAANIA FUSCO!
De pecados a modus operandi
TANIA FUSCO
Os (ex-pecados) capitais são sete: gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça e soberba. Há variações. Um e outro santo ou pensador do ramo amplia a lista. A heresia e a mentira, por exemplo, estão no inferno em funil de Dante, de nove andares, onde quanto mais fundo, pior.
No penúltimo andar está a heresia – culto ao demônio ou a outros deuses que não o Deus verdadeiro, aí incluído a idolatria ao dinheiro. O que seria uma variante da avareza e da soberba. Dante reservou o fundo do fundo à mentira. Distorcer a verdade seria pecado gravíssimo. Foi. Não é mais.
Andamos a pecá-los todos – os sete capitais e outros mais – de uma vez só e desavergonhadamente. Sem qualquer medo do inferno – presencial ou virtual.
A Gula, que é compulsão insaciável de comer e beber, além de fazer o mundo gordo, doente e alterado, ainda resulta também em egoísmo e cobiça. Mas corre solta, exercida de norte a sul do planeta.
A Avareza, que é o apego excessivo e descontrolado aos bens materiais, leva juros e impostos às alturas, faz Estados cada vez mais gulosos e perdulários, ricos cada vez mais ricos, impondo fome e pobreza a muitos.
Esse tal prazer de somar dinheiro a dinheiro, que alarga os limites da luxúria para muito além do desejo passional e egoísta por todo o prazer corporal e material, não mete mais medo. Rende selfie. 
Como incontido e disseminado desejo de causar mal a outrem, a velha IRA responde pela maior parte dos conflitos humanos, desde o início dos tempos. 
Nos dias de hoje, bomba. Quebra a banca. Saiu completamente da caixinha e do controle. Banalizou de um tanto que, sob a forma de raiva, ódio ou cólera por alguém ou alguma causa, é hoje o sentimento humano mais praticado. Não há Deus que nos livre da ira. É ex-pecado estabelecido e prática juramentada. 
Na cola da ira, ou antecedendo a ela, vem a Inveja, que é o desejo exagerado por posses, poder, status, habilidades e tudo que o outro tenha. O invejoso é um perigo. Odeia sem declarar. Pode estar longe ou até ali na sua sala, à mesa, sob os seus lençóis, só cobiçando e vuduzando o que é seu. 
O invejoso, Deus e o mundo sabem, quer sempre o que não tem. É parasita da sorte alheia, que pelas redes sociais afora destila sua cobiça por tudo que o outro tenha e ele não – particularmente, sucesso e dinheiro. Na forma de ciúme, a inveja costuma matar. E cai matando.
A Preguiça é definida como a prática permanente de negligência, falta de capricho, de esmero, de empenho, desleixo, morosidade, lentidão, descaso. Ex-pecado muito praticado nos nossos serviços públicos. Alcança com voracidade os mais necessitados de atenção e socorro – doentes, crianças e idosos, os frágeis todos preferencialmente. 
No modo descaso, a preguiça costuma debochar dos cidadãos em geral. Nos derradeiros meses, a permanente negligência das administrações de estados brasileiros, que é outra modalidade da preguiça, deixa sem salários servidores públicos de áreas essenciais – professores, médicos e policiais, por exemplo. O povo que se exploda.
Chegamos à Soberba, também conhecida como vaidade ou orgulho, sentimento siamês da arrogância, que dispensa descrição. É plena de exemplos. Com ela vimos esbarrando em volume cada vez maior. Para sairmos da esfera nacional, que é farta em soberbas, vamos nominar um estrangeiro: Trump, o presidente americano, em quem até o topete (capilar) espelha soberba. 
Para piorar a cadeia dos pecados caídos no modo desuso, como leis que não pegam, há ainda novos pecados capitais made in século 21. Igualmente praticados sem cerimônia. Por exemplo:
A Pressa. Os apressados não têm tempo para coisas de Deus, como solidariedade e compaixão. A pressa também alimenta as iras. Os efeitos colaterais mais visíveis da pressa são a impaciência e a ansiedade, que fazem matar e morrer.
Há ainda o Causar Injustiça Social. Ou seja, manifestar e praticar preconceitos e bullying. Dispensa explicações. 
Por falta de vaga no purgatório ou no inferno, pecados, antes capitais, foram promovidos a corriqueiro modus operandi. Ou praticamos, ou toleramos. Ou sobramos.
PS.: Há quem garanta que, apesar de descriminalizados e reduzidos à categoria de ex, os velhos pecados capitais mantém seus apadrinhamentos no alto clero infernal. Assim, Asmodeus cuida do bloco da luxúria, Belzebu da gula, Mommon da ganância, Belphegor da preguiça, Zazazel da ira, Leviatã da inveja, e Lúcifer da soberba. 
E haja água benta!

PILOTOS SEM BÚSSOLA NA AMAZÔNIA INFINITA

By , 13 February, 2017 3:07 pm

Nestas caixa estampadas com mapa-mundi, guardo histórias de minha vida

Confesso que fui inspirada a escrever a partir do baú de fotos de minha amiga Eliana Lucena, companheira de tantas viagens e, com certeza, minha única confidente. Por muito mais de dez anos, palmilhamos, ou melhor, voamos, em monomotores, bimotores, DC-3, e até aviões que insistiam em voar sem motor algum porque eles silenciavam em pleno ar, sobre aquele mar de árvores que de tão verdes pareciam um negro profundo pela Amazônia infinita. Quer dizer, na época em que ela parecia infinita porque estava apenas sendo ameaçada de destruição. E nós já denunciávamos essa destruição no início da década de 70.

Eliana guarda mais fotos dessa época. Eu guardo as histórias numa já legendária coleção de agendas onde anoto o dia a dia desse nosso país. As agendas estão catalogadas, guardadas em lindas caixas no alto da minha biblioteca. Suas páginas trazem histórias e entrevistas que remontam aos tempos em que o conceito da palavra #honra ainda era conhecido e praticado. Tempos em que as denúncias de corrupção de uma ditadura que nos fraturou para sempre eram abafadas sob tacos de botas ou ameaças explícitas contra os jornalistas. Não éramos heroicas. Não buscávamos fama ou prêmios nacionais ou internacionais. Sequer nos passava pela cabeça escrever livros imediatistas. Não. Nós apenas ousávamos praticar nossa profissão com um mínimo de decência. E era um exercício com risco de vida. Mas era necessário.

Algum de vocês já foi obrigado a empurrar um avião para ele “pegar”, ou seja, para que as hélices se movessem e sair correndo para sentar e decolar? Sim, já nos aconteceu. E mais de uma vez. Nem me lembro quantas.

Piloto perdido então, era o que não faltava. Piloto desmaiar em pleno voo foi a mais surrealista das nossas aventuras. Até porque, nessa viagem do piloto perdido, tudo começou errado, desde a saída e Brasília até Conceição do Araguaia (cidade grande daquelas bandas do sul do Pará).

O ano era 1980. Os Kayapó de norte a sul do Xingu decretaram uma guerra contra a proliferação das fazendas, contra as estradas iniciada nos anos 70 e com uma realidade agravada com a explosão dos garimpos e madereiras. Foi uma guerra de “efeito dominó”. Começou entre os Kayapó do Kretire, dentro do Parque Indígena do Xingu e se estendeu até o sul do Pará, com os Kayapó do Gorotire, no hoje município de Rio Maria.

Na viagem de ida, o piloto apenas se perdeu. Tenho um pânico irracional de aviões. Nos últimos três anos, minha médica tem receitado seis comprimidos quando vou ao Brasil. Viagem de ida e volta a Brasília, ida e volta ao Rio e ida e volta a Santarém. Se eu fizer mais de seis percursos de avião, vou de ônibus. Os comprimidos me deixam totalmente lesa. Não reajo nem sob uma tempestade.

Perdido e sem co-piloto. Era eu quem ocupava a poltrona do co-piloto. Ele voava e voava. Voava em círculos. Só percebi que estávamos voando em círculos quando pela terceira ou quarta vez ele sobrevoou a mesma fazenda.

Nossa viagem era para cobrir um acontecimento trágico. Os Kayapó do Gorotire tinham promovido uma chacina na “Fazenda Espadilha”, município de Rio Maria. Eram 17 mortos, entre estes, duas crianças e a babá, Aparecida. Uma das crianças tinha o nome da minha filha caçula, Helena.

Cansado de voar no mesmo espaço, o piloto, um jovem ainda imberbe e uma tanto amarelado, resolveu pedir ajuda aos outros pilotos que circulavam pelo mesmo espaço aéreo. Na qualidade de co-piloto, anotei as indicações na contracapa de minha agenda. E lá está escrito, “segue rumo norte, 50 graus de latitude. Passa um morro e depois duas fazenda. A terceira é Espadilha.

Mas não teríamos acesso á Fazenda Espadilha. O acesso só seria dado pelo famoso e mal-afamado Major Curió, o “homem do helicóptero vermelho”, senhor das terras do Araguaia desde a época da guerrilha. Encontramos o sorridente Curió no Hotel Tucumã, em Conceição do Araguaia. O horário já não permitia voo de aviões de pequeno porte. No dia seguinte, autorizados, chegamos ao local do massacre. Tento apagar a imagem da carnificina e ela insiste em permanecer viva na minha memória. Eles estavam mortos há mais de três dias. Desde a entrada principal da fazenda até os quartos, havia corpos. E muito sangue. Sangue para todos os lados. Muito, muito, muito sangue. Sangue humano. Sangue de vítimas da invasão da Amazônia. E as vítimas sempre foram os deserdados, índios, sem-terra, garimpeiros esfomeados.

Não havia tempo para passar matéria completa. Passei por telefone do hotel apenas dez linhas. E foi a única vez que tive matéria de dez linhas na primeira página da Folha de São Paulo, assinada. Que vergonha, assinar na primeira página e apenas dez linhas. Estávamos todas, Sandra Carvalho junto, em choque, apesar de já termos experiências com massacres e corpos espalhados sem vida.

Na volta, foi pior. Mal o avião decolou, nem dez minutos de voo e o piloto, a troco de nada, desmaiou. Desmaiou de fome. Sim, porque as empresas de táxi-aéreo pagam um salário tão baixo que os pilotos economizam as diárias recebidas e não almoçam ou não jantam. Ou então, não almoçam, nem jantam. Alguém providenciou sal e o piloto se recuperou. Eliana, Sandra e eu, devidamente alimentadas, apenas lixávamos nossas unhas, verdes de medo. Eu já quase sem sobrancelhas porque levo sempre uma pinça e vou tirando a sobrancelha cada vez mais rápido, à medida que o pânico aumenta.

Sã e salva, voltamos para contar os horrores da guerra de destruição da Amazônia.

Numa outra viagem, quando Eliana Lucena mostrou o quanto é leal às amizades, só chegamos por reconhecer os sinais de fumaça. Literalmente.

O presidente da Funai, general Ismarth de Araújo, pessoa de quem eu gostava muito, resolveu me punir me mandando num pequeno avião, o Minuano. Era dezembro, quando chuvas torrenciais desabavam do Cerrado à pré-Amazônia. Nosso destino era o Parque do Xingu, posto Diauarum, onde vivem os Kajabi, Suyá, Juruna.

A situação em Diauarum estava delicada. Os irmãos Villas-Boas haviam se aposentado e o sertanista Apoena Meirelles fora nomeado para dirigir o parque. Seu nome não era unanimidade. Os índios rejeitavam. Escrevi sobre isso e o general me puniu. Os jornalistas seguiriam todos no avião Bandeirante da Funai. E eu, no “Minuano”, um bimotor até ajeitadinho. Eliana, numa solidariedade inesquecível, prontamente disse que iria comigo. Fiquei comovida.

O Minuano estava com uma carga tão grande que nós duas íamos imprensadas entre caixas. Tudo bem na saída. Voamos tranquilamente até a ilha do Bananal, para abastecer. Daí em diante foi pauleira. Chuva sem trégua, tempestade e o Minuano parecia uma folha seca voando ao sabor do vento. Eu já estava morta. Confesso. Totalmente morta. Ressuscitei quanto o piloto, já um tanto nervoso, nos disse, “estou perdido”. Ai, meu Deus. Piloto perdido. Onde andará meu brevet?

Bom, orientamos o piloto. Já estávamos em terras xinguanas. Eu, como sempre, na poltrona do co-piloto. Ressuscitada disse, “segue por cima do rio maior. E o piloto, “mas como distinguir o rio maior se está tudo igual”. Confesso que quase morri de novo. Era 22 de dezembro de 1978. Natal seria daí a três dias e eu só pensava em estar em casa para o Natal com minhas duas paixões, Cristina e Helena.

Foi Eliana, que também ressuscitou discretamente quem disse, “lá está, o maior. É visível”. E então vimos o Xingu em sua majestade se destacando naquele mundo de água. Mas nem o piloto, nem nós sabíamos se estávamos mais ao sul ou mais ao norte do parque. E então falei, vai por cima do rio, em voo baixo até ver fumaça. Onde tiver fumaça, deve ter uma pista de pouso. Ueba! Viva! Chegamos a Diauarum e as negociações de paz já estavam a pleno vapor. Mas chegamos inteiras, com nossas agendas de anotações e nossas insuperáveis Bic´s. Azuis.

Tive o direito de voltar no “Bandeirante” da Funai, olhando Cláudio Villas-Boas com um ar triste porque foi naquele dia que ele e seu irmão Orlando, esses dois valorosos Villas-Boas cortaram seu cordão umbilical do Xingu que tanto amavam.

Essas são apenas duas das dezenas de outras histórias com pilotos, monomotores e essa nossa Amazônia tão amada e vilipendiada pela codícia.

Há uma que não conto nem amarrada. deixo para Eliana. Só ela conhece o segredo do vaso Karajá, dentro de um avião perdido na chuva.

 

 

 

 

 

 

 

O JAGUNÇO DA ESPLANADA*

By , 25 May, 2016 10:26 am
romero-juca
Corria o ano de 83.
No Rio, Brizola, do PDT, fora eleito, meses antes, governador do estado, depois de quase duas décadas de governadores biônicos. Em Pernambuco, Roberto Magalhães, do PFL, comandava um dos estados mais aguerridos do Brasil. 
Recém-formado em Economia, mais exatamente em Engenharia Econômica, um jovem criado dentro das usinas da direita nacional já despontava. E bem equipado.
Foi no começo do ano. Magalhães decidiu desalojar os sem teto do Conjunto Maranguape. Para esta operação foram deslocados 800 policiais militares. E é ocioso falar da brutalidade das PM´s no país. Prenderam o vereador do Recife, Pandolfe Rodrigues, na época dos quadros do PMDB enquanto esperava seu partido, o PCdoB, sair da clandestinidade. O episódio passou á História pelo nome de “Batalha de Maranguape”. E a palavra‪ #‎maranguape‬, na língua do povo Potiguara, que hoje se restringe à Paraíba, significa “vale da batalha”.
O jovem bem equipado trajava uma jaqueta de estilo aviador e portava, na cintura, sem qualquer escrúpulo, uma arma de alto calibre. Esse jovem, secretário de Roberto Magalhães atende pelo nome de ROMERO JUCÁ. E foi assim que ele iniciou sua carreira política.
Daí em diante só cresceu e encheu seu próprio cofre com dinheiro público, com maracutaias, propinas, chantagens e todas as demais palavras que integram o mundo do crime. 
Em 1985 saiu da esfera estadual e já era condutor de um programa nacional, o Projeto Rondon. Não demorou muito e foi levado, pelas mãos de Marco Maciel, para Brasília. mais exatamente para dirigir a Conab. Lá deixou seu primeiro rastro de corrupção na figura de ‪#‎Jucázinho‬, como é conhecido seu irmão Oscar Jucá Neto. O irmão do diminutivo até hoje responde processo na Companhia Nacional de Abastecimento, onde também trabalhou. 
Da Conab, e sempre por indicação de Marco Maciel, foi nomeado pelo presidente José Sarney para dirigir a Fundação Nacional do Índio. E foi ali, na Funai, que ‪#‎Jucá‬ revelou sua mente brilhante para as atividades do Mal. Envolveu-se com venda de madeira ilegalmente extraída do território do povo Kayapó. Foi indiciado, mas jamais condenado. E a este seguiram-se mais 21 processos. Com suas estratégias de chantagens, Jucá nunca foi pego nem na primeira nem na última instância do Judiciário brasileiro
Mas seus crimes se espalharam quando decidiu abrir o território da nação Yanomami para o garimpo de ouro. Na ocasião, Jucá proibiu a entrada de jornalistas, missionários e antropólogos na terra dos Yanomami. Só entrava garimpeiro. E ele lucrava sobre os corpos dos índios que tombavam com desnutrição e malária (doença quase desconhecida em Roraima, antes da devastação). Foram cerca de mil índios mortos. Um verdadeiro genocídio de um povo que até então tinha relações intermitentes com a sociedade nacional. 
O crime foi denunciado internacionalmente. O nome Jucá passou a ser repetido em mais de cinco línguas. E em todas elas seu nome era sinônimo de morte. Porque “Morte é o verdadeiro significado da palavra “Jucá”, na língua Tupi.
Feito estrela de primeira grandeza, ele começa a brilhar. E Jucá, agora homem de confiança de Sarney, foi nomeado governador de Roraima. O último governador nomeado do antigo Território Federal de Roraima, alçado depois à categoria de Estado. Completou sua obra de avançar sobre os territórios indígenas e fincou, definitivamente, as estacas de sua fortuna, toda ela meticulosamente construída com dinheiro público.
Não satisfeito de ser o único corrupto da família, dividiu seus bens com os próprios filhos. 
Em 1996, fez o loteamento da corrupção com seu filho Rodrigo Jucá que, em 2011, aos 29 anos, já contava com um patrimônio nove vezes maior do que o patrimônio de seu próprio pai. Rodrigo, deputado estadual pelo PMDB em Roraima, responde a processos de grillagem de terra pública urbana em Boa Vista. Entrou para o ramo imobiliário e “comprou” terrenos para construir condomínios.
Para sua filha, Marina Jucá, a jóia da coroa, a Boa Vista Mineração, criada em abril de 2012 e cujos sócios são, além do próprio pai, duas outras pessoas ligadas ao agora ex-ministro do Planejamento. Em 2 de abril de 2012, a empresa entrou com pedido de exploração de minério junto ao DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral) em “novas terras”, leia-se “terras indígenas”. Não por coincidência, em 17 de maio, o senador Romero Jucá sobe à tribuna da casa para convencer seus colegas a aprovar seu próprio projeto de lei que abre os territórios indígenas à exploração de minérios o que, em Roraima significa ouro, diamantes e, principalmente, nióbio, um dos mais raros minérios do planeta Terra. No seu discurso, “em defesa do Brasil”, esse que sempre foi o Mensageiro da Morte dizia:
“Quero aqui registrar a importância deste debate. Para o Brasil, é muito importante (a aprovação da lei)”.
E passou, então, a explicar os benefícios da proposta:
“Haverá pagamento de royalties ao Poder Público e também à população indígena. Ganhará o direito à mineração aquele que pagar mais à comunidade indígena. Haverá uma licitação. Haverá todo o cuidado ambiental, todo o cuidado antropológico da Funai”. E para comover os demais senadores encerrou seu apelo dizendo que o projeto observaria a “licitação”, “cuidado ambiental” e “cuidado antropológico”.
Tinha pressa, o senador. Urgência em pôr as mãos nas maiores reservas minerais do Brasil. O projeto rola até hoje nas comissões do Senado e Jucá planejava (é um “planejador” nato) votá-lo agora, quando voltou à Esplanada dos Ministérios cavalgando um movimento chamado ‪#‎golpedeEstado‬.
Versátil, ele também foi escolhido líder do governo de FHC. Tem as manhas das negociações baseadas em chantagens, promessas de propinas e outros elementos que nós brasileiros comuns desconhecemos.
As podres alianças do PT sustentaram a escalada de crimes dessa figura. E foi assim que Jucá se manteve líder do governo de Lula e Dilma. Só uma miopia política de um partido que um dia foi o sonho de mudanças podia abrigar em seus governos essa biografia manchada de sangue e corrupção. 
E não foi só líder do Governo. Lula teve a ousadia de nomeá-lo ministro da Previdência, outra frente de verbas para alimentar esse senador que continua impune afrontando a sociedade. Ele tomou posse no Ministério da Previdência em março de 2005 e caiu em julho do mesmo ano. Foi ancorado por Lula que ainda gozava de muita popularidade. E caíu porque o jornalista Rubens Valente publicou uma série de reportagens sob o selo “Fazendeiro do Ar”, pela Folha de São Paulo. Caiu e voltou para seu ninho no Senado no gabinete de espessas paredes já ouviram quase todas as estratégias de corrupção planejadas, montadas e executadas por essa figura que desde sua aparição na cena pública sempre atuou ora como ‪#‎jagunço‬, ora como simples ‪#‎gangster‬
E para a surpresa de muitos, suas vísceras foram novamente expostas. Dessa vez não só nos seus negócios excusos. Ele foi bem além, planejando um golpe de Estado. Um golpe para que não investigassem sua vida de crimes.
A carreira de Jucá não se encerrou. Seus tentáculos vão muito longe. E nem se encerrará com uma simples cadeia. É necessário e, sabemos que não acontecerá, que ele seja condenado à expropriação de seus bens, porque todos eles trazem a marca do esbulho de nossas riquezas e das poucas sobras que se despejam em programas sociais. Para Jucá, e família, nem um presídio de segurança máxima será suficientemente impenetrável para que ele seja impedido de cometer os mesmos crimes.
* Esse texto, em parte,  só foi possível graças às valiosas memórias de ‪#‎ChicoPreto‬, um valente militante comunista de Recife, homem simples e um filósofo do comportamento político brasileiro. Obrigada Chico.

UMA JARARACA ENFRENTA O LATIM

By , 10 March, 2016 12:46 pm

Memélia Moreira 

Quem escreveu a matéria que está colada aí embaixo conhece bem pouco as engrenagens do Vaticano. E essa falha distorceu a informação.  
A Folha de São Paulo, meu querido jornal, jornal que me deu espaço para denunciar todas as violências contra índios, camponeses e os demais deserdados da terra, #esmagalhou (era assim que meu irmão #Sonsonho dizia a palavra “esmagou” porque tinha certeza que esmagalhou parecia um trator passando sobre o objeto a ser destruído) a notícia.
Dom Jararaca, que atende pelo codinome de Dom Darcy Nicioli, foi removido de Aparecida do Norte para Diamantino. A Folha, num canto de baixo à esquerda da página na internet disse, na quarta-feira, nove de março,  que o bispo foi promovido. Como assim?
Vamos tentar entender. 
1) Qual a importância, no cenário nacional do bispado de Diamantina (MG)? 
Até onde eu saiba, aquela bela cidade, cheia de histórias e que preserva uma reliquía arquitetônica riquíssima, povoada de músicas e serenatas, além de ser berço de Juscelino Kubistcheck, não tem quase nenhuma importância política no cenário nacional. Menos ainda, no xadrez internacional. 
2) Qual a importância de Aparecida do Norte?
Além de estar localizada no estado de São Paulo, a megalópolis mais pulsante e rica da América Latina, o que não lhe confere mais importância do que estar situada em Minas Gerais,  Aparecida é um dos maiores centros de peregrinação religiosa, do mundo. E isso sim lhe dá importância. Quero dizer, importância para os seguidores da Igreja Católica Apostólica Romana. Por lá passaram inclusive cardeais, no caso de Dom Aloísio Lorsheider, que foi nada menos do que presidente da CELAM (Conferência Episcopal Latino-Americana) e presidente da CNBB Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 
Conclusão: é muito mais importante ser bispo-auxiliar em Aparecida do Norte, porque sempre há a possibilidade de um dia substituir o próprio comandante do episcopado e até se tornar cardeal do que ser bispo de Diamantina.
O que aconteceu com Dom Darcy Nicioli foi uma das práticas mais usadas pelo Vaticano, conhecido pelo termo latino “promoveatur ad removeatur” ou, no italiano “prumoevere per rimouvere”. Quando um bispo-auxiliar é promovido para uma diocese sem tanta importância política essa é a estratégia mais usada usada pelo Vaticano. Uma outra é obrigar o bispo ao “silêncio obsequioso”, muito utilizado pelo Papa Joãp Paulo II quando quis calar vozes incômodas para o Sumo Pontífice. Foi o caso de Dom Pedro Casaldáliga. A delicada figura do catalão que fala baixinho foi submetida duas vezes aos silêncio obsequioso porque bradava contra a ditadura militar do Brasil. Uma ditadura apoiada por João Paulo II e seu aliado preferencial, o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. 
O Papa Francisco é o antônimo de João Paulo II. Essa sua primeira intervenção no episcopado brasileiro é uma pequena amostra da disposição política de Francisco. E foi ditada por uma experiência pessoal. Ele conhece as entranhas das ditaduras sangrentas que se abateram no nosso continente. Viveu a Argentina dos generais. 
No começo dos anos 80, João Paulo II destroçou a Arquidiocese de São Paulo, retirando partes do território comandado por Dom Paulo Evaristo Arns que combatia com muita doçuura e firmeza uma ditadura que vivia seus estertores. E assim afastou também Dom Luciano Mendes de Almeida. Ele era bispo-auxiliar de São Paulo e foi nomeado bispo de Mariana (MG). Evidentemente, jamais recebeu o anel cardinalício, promoção que era esperada por todos que acompanham o jogo político do Vaticano. 
João Paulo II também “promoveu” vários bispos da região do Araguaia quando forte eram os clamores pós-anistia na busca dos desaparecidos da guerrilha. Os bispos da região, a começar por São Félix, dirigida por Dom Pedro Casaldáliga se juntavam aos clamores. O Papa polonês manteve Dom Pedro, mas promoveu, mandando para o ostracismo seus principais apoios, o bispo de Conceição do Araguaia, Dom Estevão Cardoso de Avellar e o de Marabá Dom Alano Pena (que foi torturado pelos militares na época da guerrilha). Para o lugar de Dom Estevão, acreditou que seu substituto, Dom Patrick Hanharan, se manteria distante das lutas camponesas. Antes dos 30 dias depois de sua consagração, Dom Patrick já respondia o primeiro IPM (Inquérito Policial-Militar) por dar apoio aos lavradores. Ele, que era um irlandês conservador, foi convertido à causa do povo. E morreu envenenado a mando dos fazendeiros da região.
Bom, mas aí é outra história. Fiz um parêntese muito longo. Voltemos, pois.
Daí se pode concluir, sem muitos questionamentos,  que Dom Jararaca  foi afastado. E isso significa que Francisco, esse papa que chegou para tirar toda a poeira que há séculos se acumulava sobre os móveis, as paredes, lustres e, principalmente, as idéias do Vaticano, não chegou exatamente a esmagar a cabeça da cobra, mas deu-lhe um pontapé certeiro. Ou, em outras palavras, mandou o recado de que pode ser traduzido a “recolha-se ao seu lugar”.
 Portanto, senhor editor da Folha de São Paulo, pouco me importa que o senhor e seus chegados estejam numa ferrenha luta levar o PT a ser um partido proscrito.  Jogá-lo na clandestinidade e banir seus presidentes eleitos. Essa é uma opção ideológica e não estou aqui para ditar opções ideológicas.  O senhor não é o primeiro chefe desse jornal, que foi minha casa por mais de 10 anos, a apoiar movimentos que não se contentam apenas em ser oposição, mas que pregam abertamente um golpe de Estado. Talvez não seja o último também. Conheci outros.
Mas não se esqueça que um dia esse jornal que o senhor dirige foi porta-voz de outro golpe, ajudando inclusive os torturadores, até que passou para o papel de vítima porque ninguém cultiva ninhos de serpentes impunemente.  
Há um escritor grego, cujo nome brinca de esconde-esconde na minha memória que diz “nada mais fácil do que iniciar uma conspiração”. É verdade. Conspiração golpista é fácil de comandar ou apoiar. É igual criar corvos. O problema é que um dia eles te devoram os olhos.
Senhor editor, me parece que o senhor está alimentando seu corvinho. É uma ave linda de plumas negro-azuladas. Mas lembre-se que só um estado democrático aceita diatribes golpistas. Não se esqueça disso. Mas, por favor, não distorça e nem permita que seus repórteres distorçam uma informação. E estude um pouco mais sobre a diplomacia do Vaticano. Além de ser instrutivo, é uma verdadeuira riqueza para quem gosta de Geopolítica e das engrenagens das guerras mantidas pelos impérios. 
 
P.S. Começo a desconfiar que Diamantina é também uma espécie de exílio de bispos golpistas. Pela Arquidiocesa daquela bela cidade já passou também Dom Geraldo Proença Sigaud, grande esteio da ditadura militar e que foi fiel aos homens de verde-oliva até o momento final. A Anistia cehgou em 1979. Dom digaud só agüentou até 1980.
 

NOITE EM CUERNAVACA

By , 17 April, 2014 10:17 am

 

 NOITE EM CUERNAVACA

 Memélia Moreira

 Era sábado e fazia muito frio na cidade do México naquele fevereiro de 1978. Meu tio, Neiva Moreira, que ainda amargava o exílio, acordou cedo e anunciou que íamos sair antes das nove da manhã para viajar. No caminho, compramos um bolo confeitado para comemorar o aniversário de uma das figuras que mais admiro na História do Brasil, Francisco Julião, que desde sempre fez parte do meu imaginário com suas lutas pela Reforma Agrária. O bolo parecia um arco-íris tantas e tão fortes eram as cores. No México, todas as cores e sentimentos são fortes. Até mesmo o dia dos mortos é comemorado com cores. O bolo seguia a tradição.

Subimos e descemos montanhas num “carro de praça”, antiga denominação para táxi, ainda usado por Neiva. Era confortável, mas mesmo assim não consegui continuar o sono interrompido. Seria quase um sacrilégio dormir e perder todos os momentos e paisagens daquele que é um dos países mais fascinantes que conheci. E só no caminho fui informada de que seguíamos para Cuernavaca, a capital do Estado de Morelos. Pronto, foi o suficiente para me deixar em crescente excitação. Morelos! Terra de Emiliano Zapata, outro personagem que reverencio. O homem que comandou a revolução mexicana. E mais montanhas e vales. E a terra seca, cinza, deserta. De vez em quando ultrapassávamos ônibus que gemiam nas subidas ou assoviavam nas descidas. E a terra continuava seca e cinza.

Ainda não era meio-dia quando chegamos à cidade. O táxi nos deixou em frente a uma casa singela, toda branca. Branca mesmo. Por dentro e por fora. E, na minha frente, tranquilo e amável, Julião, nome que era o terror de latifundiários e grileiros que ainda hoje infestam o Brasil. Pouco depois chegou mais um convidado, com sua esposa. Vestido de “guayabera”, branca, calças largas e voz tonitruante, ali estava para meu deslumbramento, o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez. De verdade. Trouxe petiscos para o almoço porque ali, ele era apenas “Gabo”, e naquele dia, pouco lhe interessava a fama porque naquele sábado, o importante era o aniversário de Julião. E ali estavam entre amigos, todos exilados das tantas ditaduras de nossa América.

Chegou a hora do almoço, mas não me lembro qual foi o prato principal. Só estava interessada na rica conversa entre aqueles três homens e na sobremesa. Era o famoso bolo enfeitado com flores açucaradas, vermelhas, verdes, amarelas, alaranjadas e até azuis. E recheado com chocolate e ameixas. Cantamos parabéns e tomamos suco de uva com o bolo.

Não saímos de casa. Nada de conhecer o “Palácio de Cortéz” ou o “Capitel do Calvário”. Não. Definitivamente, não. Para que conhecer monumentos construídos pelos invasores espanhóis e perder tanto conhecimento transmitido nas conversas? Não, o melhor era ficar ao redor da mesa aprendendo. Além disso, pensava eu, teria uma bela história a escrever para meu jornal. Na época, trabalhava no “Jornal de Brasília”.

Nem vi a tarde escorrer e, quando a noite começou a chegar foi que Julião nos contou que sua casa – construída com suas mãos – não tinha luz elétrica. Durante o dia, a iluminação era natural. E ao escurecer, velas e lampiões. Assim, dizia o homem que tanto sonhou e lutou pela Reforma Agrária, “economizo energia”. Francisco Julião era homem pobre.

E continuavam conversando, sem parar. Eu, calada, sorvendo cada vírgula, cada travessão, cada parágrafo. Neiva entusiasmado com a queda de Reza Pahalevi no Iran, destronado pelo aiatolá Khomeini. Gabo provocava Julião, que buscava seus cadernos com poesias escritas à mão. E confessava que ao se separar de uma mulher, sempre lhe deixava uma poesia. E Gabo queria saber se já havia poesia para a companheira do momento. Os dois riam, Nas pausas, Julião nos fazia ouvir fitas que ele mesmo gravou com os remanescentes da revolução mexicana. E os dois combinavam escrever um grande romance sobre a revolução. O personagem principal seria Gregório, um dos sobreviventes que morreu com mais de 90 anos e fora entrevistado por Julião,que tinha milhares de horas gravadas com os revolucionários. Não sei o que foi feito das fitas. Parece que foram entregues à Universidade Federal de Pernambuco. Mas delas não tenho mais notícias.

A conversa varou a noite. Nem vi meu tio deixando a sala para dormir. Mal levantava para beber água, totalmente magnetizada pela conversa, que em nenhum momento caíu nas amarguras de exilados. Riam, contavam piadas sobre os ditadores, comentavam o impacto da visita do Papa João Paulo II à cidade do México mas, falavam principalmente de poesia e política.

Quando o domingo começou a raiar, os dois, sem interromper a conversa, prepararam o café e foram acordar suas mulheres. Foi aí que Julião nos deu uma ordem. Não podíamos perder a missa. “É a maior atração dessa cidade”, dizia com um ar grave. Então conheci a Catedral, que começou a ser construída em 1526. Imponente como todas as catedrais embora sua principal riqueza fosse mesmo a conhecida “Missa Panamericana”, celebrada pelo cardeal espanhol Sérgio Mendez Arceo. Mais que missa, um libelo em defesa dos direitos sociais dos povos dominados pelo Império, vizinho ao México.

Depois da missa, como se tivesse vivido um sonho, voltamos para a Cidade do México. Peguei então minha agenda de anotações, que não ousara abrir durante a conversa e escrevi as histórias daquela noite encantada. Feliz porque tinha uma boa matéria para meu jornal.

Doce ilusão!

 Ao chegar, entusiasmada, fui direto ao chefe dizendo que tinha diálogos inteiros entre Neiva Moreira, Francisco Julião e Gabriel Garcia Márquez. O chefe, jovem jornalista de boa família e boa formação acadêmica, olhou com total desdém e respondeu: “Essa matéria não interessa ao jornal”. Quase chorei de raiva, mas meu desprezo foi tanto, que preferi dar de ombros. Não o sabia medíocre mas, agora, 31 anos depois, foi que tive certeza de sua pequenez, quando vi que seu nome era um dos citados para diretor-geral do Senado, que vive sua mais profunda degradação. E então entendi porque minha rica história não o interessou. O chefe estava apenas fazendo sua carreira. Obviamente, a noite encantada de Cuernavaca não acrescentaria ítens no seu currículo.

Que pena!


 

 

O CAMINHÃO DA NOITE DE NATAL, UM CONTO DA DITADURA

By , 29 March, 2014 12:36 pm
2014-03-29 MAMÃE COM QUATRO FILHOSb

Mamãe com quatro dos cinco filhos. Verinha ainda não havia nascido e eu estava com a boca cheia de pirulito.

2014-03-29 Memfam1970s

Pouco tempo depois daquele sombrio 71. Nós cinco por ordem de chegada ao mundo: Eu, Sonsonho, Gagocha, Goretti e Verinha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O CAMINHÃO DA NOITE E NATAL, UM CONTO DA DITADURA

Memélia Moreira

As esperanças pareciam agonizar no ano de 1971, o mais sombria de minha vida. Eu acabara de chegar de Paris e, logo no começo de janeiro, meu pai morreu. Estava com 50 anos. No hospital assinaram o documento dizendo que a morte fora provocada por um brutal e irreversível AVC. Mas se a Medicina soubesse ouvir as profundezas dos corações, no espaço pontilhado para descrever a causa mortis,  os médicos assinariam, sem erro, “morreu de tristeza”.  Sim, meu pai morreu de tristeza. Não conseguia dormir e acordar cercado pela ditadura e pelo medo, sabendo que os telefones estavam sob escuta permanente. Não se adaptava ao Uruguai sem redes penduradas nas paredes e o frio dos invernos rigorosos.  Vagava como se fosse um apátrida. Mas com a consciência de que aqueles militares que usurparam o poder, silenciaram, prenderam, torturaram e mataram, lograram também na tarefa de desestruturar as famílias. Sua família.

As flores da sepultura de papai ainda não haviam murchado quando um telefonema de São Paulo nos informou que meu irmão, Sonsonho, havia “caído”, código eufemístico para dizer que alguém fora preso. Paradeiro desconhecido. Sequer se podia dizer se vivo ou morto. A primeira providência era buscar um deputado que anunciasse em plenário a prisão do mano. Não havia garantias, mas se estivesse vivo, um discurso no plenário de certa forma inibia a soulção final aplicada em muitos casos. Porque ditaduras quando atingem o extremo de sua incapacidade em derrotar as idéias, eliminam seus opositores. O primeiro deputado a ser procurado, e  que outrora fora amigo da família, recusou-se. Coube ao deputado Pedroso Horta, ex-udenista e filiado ao então MDB de São Paulo, e sempre disposto a ajudar os prisioneiros políticos, fazer a comunicação no horário do “pequeno expediente” da Câmara.

Enquanto a família se mobilizava para encontrar meu irmão, Sonsonho, foi a vez de Goretti, a irmã que ocupou o posto de caçula por alguns anos e a primeira criança pela qual me apaixonei. Ela sofreu um acidente. Cirurgia, coma, passou 72 horas de sua vida lutando contra a morte. Venceu. Com menos 90 centímetros de intestino, vértebras espatifadas e um colete de gesso que usou por muito tempo para ajudar na recuperação da coluna vertebral. Até hoje sofre sequelas.

Os acontecimentos se acumulavam em velocidade impossível de ser assimilada. E era a vez de Gagocha, minha segunda irmã, aquela a quem desde criança me sinto na obrigação de proteger. Diante da possibilidade real de ser presa porque toda a organização na qual militava, a aguerridas Ala Vermelha do PcdoB , estava se desmantelando, ela deveria submergir. Outra palavra da nossa linguagem de resistência para dizer, desaparecer por um certo perído. Aqueles generosos meninos e meninas que fizeram a oposição armadas nas lutas de guerrilha tombavam dia a dia. E mamãe não queria correr o risco de ter mais um filho preso. Mandou Gagocha para São Luís, nosso refúgio.

Sem fraturas externas e de paradeiro conhecido, só minha mãe, uma ilha de fibras tecidas na coragem e cercada de coração por todos os lados, minha irmã Verinha, pessoa que me fez conhecer o sentimento de mãe desde que nasceu, e que ainda nem tinha dez anos mas já sabia o significado das palavras  “guerrilha’, “ditadura”, “terrorismo” , “escuta telefônica”, silêncio”, “medo”. E eu, que tentava me manter inteira entre as aulas da Universidade de Brasília e a redação da revista “Veja”.  No fim do dia, quando voltava para jantar, o eco do silêncio perturbava minhas lembranças de uma casa cheia da buliçosa infância.

Goretti saíu do coma no mesmo dia em que tivemos a resposta da pergunta que nos angustiava. Meu irmão estava vivo. Nas dependência da OBAN, uma casa de horrores. Era 71. Era Médici, o mais sanguinário dos ditadores,  um facínora de olhos miúdos e cruéis. E era meu irmão vivo. Sonsonho é o único homem entre nós, as quatro filhas mulheres. Passara pelas manoplas  impiedosas do Delegado Fleury, o mais temido dos assassinos da ditadura, e  estava vivo.  Torturado com todos os requintes das máquinas de morte dos ditadores, ele continuava vivo. Num mesmo dia, mamãe, culta e bela, que enfrentou os militares bravamente, de cabeça erguida,  respostas precisas, recuperou dois dos seus filhos.

Faltava pouco para o ano acabar.  E, finalmente, Natal.

Detesto lagosta na mesma intensidade com a qual me debruço vorazmente sobre um prato de camarões ou lagostins. Mas escolhi lagosta para a ceia de Natal. Queria ver minha mãe feliz pelo menos naquela noite. Ela nunca exibia sua tristeza, mas seus olhos viviam ausentes, enevoados. Tomamos vinho branco, eles comeram a lagosta e foi tirada uma foto. Não gosto de rever essa imagem de um momento sombrio. Ela expressa uma tal desolação que revivo todos os instantes daquele ano infindável.

Terminada a ceia, a celebração, foram, aos poucos, para seus quartos. Quando todos dormiam, peguei uma sobra de garrafa de vinho, caminhei até o Eixo Rodoviário e me sentei no meio fio. Chorei lágrimas de um ano inteiro. Bebi  as lágrimas que se misturaram ao vinho. E continuei a chorar.

Ainda sentada naquele silêncio do Cerrado que tanto me faz falta, quase duas horas da manhã, sózinha, vi duas luzes potentes bem longe,  e se aproximando. Mais perto e mais perto. Era um caminhão da Fábrica Nacional de Motores, que já foi um orgulho da indústria nacional, faróis enormes apontando o caminho. Quando olhei as três letras inscritas na cabine, enxuguei as lágrimas, consegui soltar um suspiro longo e sorri para o caminhão. As três letras, FNM,  me diziam “Feliz Natal, Memélia”. Foi uma das mais belas mensagens que recebi ao longo da vida. Tive então a certeza de que nenhuma dominação ditatorial nos deteria e que continuaríamos nas nossas lutas. Cada um na sua trincheira.

NAMORADAS COLORIDAS OU, ESCOLHAS AMOROSAS DE JOAQUIM

By , 3 January, 2014 8:43 pm

lovings1Richard Loving and Mildred Jetter

NAMORADAS COLORIDAS OU, ESCOLHAS AMOROSAS DE JOAQUIM

Memélia Moreira

Há alguns anos, uma das mais importantes empresas da indústria de cosméticos do Brasil fez uma pesquisa sobre a cor dos brasileiros. Eles queriam acrescentar novos tons à linha de maquiagem. Mais especificamente, ao pó-de-arroz. O resultado, sem tanto destaque na Imprensa, na Antropologia ou na Sociologia, me deixou cheia de orgulho da “nossa pátria mãe gentil”.  Há, na população brasileira, 125 diferentes tonalidades de pele. E esse é um dos meus trunfos quando, aqui longe do Brasil e também do centro do meu mundo, um gringo qualquer me pergunta porque nós, brasileiros, somos tão bonitos. A resposta vem igual “brado retumbante”.

Respondo com o peito estufado, “porque miscigenamos. Porque é o país que tem a cara de todo mundo. Porque qualquer pessoa, de Gisele Bündchen a Pelé, de qualquer lugar do mundo, de qualquer etnia,  pode dizer “sou brasileiro”.  E a resposta cala principalmente aqueles que nasceram e se criaram num país onde há bem pouco tempo se proibia casamento entre negros e brancos.  Ou brancos e índios. Que o digam Richard Loving (branco) e Mildred Jeter (negra). Eles  percorreram todas as instâncias judiciais para exigirem o direito de ter o casamento reconhecido. O caso foi parar na suprema corte dos Estados Unidos. E venceram a discriminação. A persistência do casal desembocou na revogação da lei que proibia “casamentos interraciais”.

No país onde vivo, bem longe do centro do meu mundo, vigorou, até 1967, uma lei que proibia qualquer casamento interétnico.  Mas os EUA não foi o único. A  Alemanha, que para muitos deve integrar o “centro do mundo”, se igualou aos EUA. Sob o governo Nacional-Socialista, em 15 de setembro de 1935, foi aprovada a lei “Gesetz zum Schutze des deutschen Blutes und der deutschen Ehre”  que pretendia proteger o sangue e a honra dos alemães. Há outros exemplos tão abomináveis quanto os citados, mas esse texto não quer ser um tratado. Escrevo apenas para externar minha indignação e perplexidade.

2013 agonizava quando eu, cercada pela família e minhas mais recentes paixões (os netos Luísa e Diego), sem tempo para ler jornal ou frequentar as redes sociais, num fim de noite, passei rapidamente pelo Twitter. Estava lá o tal texto que me deixou perplexa.

Estava lá, em letras de forma (ainda se diz isso?) uma das mais patéticas e rasteiras das demonstrações de racismo que tenho visto.  O autor, um jornalista, na sua ânsia de criticar o ministro Joaquim Barbosa, açoita o negro e presidente do Supremo Tribunal Federal  por suas escolhas amorosas. Diz ele que o  ministro Joaquim está namorando uma pessoa que – vejam o tamanho da ousadia, do pecado, do crime –  não é negra.  E compara o ministro ao jogador Pelé, esse que tantas alegrias  levou ao povo brasileiro. Pelé –vejam o tamanho da ousadia, do pecado, do crime – também se casou com uma mulher não negra.

O jornalista então faz elogios ao lutador Cassius Clay, o Muhamed Ali, considerado o maior boxeador de todos os tempos e que, negro, se casou com uma negra. Admiro Muhamed Ali. Não apenas porque por ter se casado com mulheres negras, mas sim porque recusou ser recrutado para o Exército do seu país que, naqule tempo, 1968, tentava massacrar a soberania do povo Viet. Clay, amargou um tempo na cadeia, mas não abriu mão de sua consciência.

Li e reli o texto que tanta indignação e perplexidade me provocou.  Tenho pouco conhecimento do autor.Então reli para entender o que não estava escrito. Foi fácil.

O ministro Joaquim Barbosa vem sendo alvo de diferentes manifestações de racismo desde o momento em quê, exercendo seu papel de relator da ação Penal 470, conhecida também pelo codinome de “Mensalão”, foi favorável à condenação de políticos de diferentes partidos, entre estes, o PT. Os adjetivos pejorativos já se esgotaram. Já foi chamado inclusive de “Macaco” até mesmo por pessoas que se consideram defensoras dos direitos humanos. Jogam no ministro todas as mágoas pela condenação de uma das figuras mais simbólicas do PT, o ex-presidente do partido, José Dirceu. Nunca ouvi ou li qualquer crítica contra a ministra Rosa Weber que ao votar acompanhou o relator da ação penal. Ela é branca e tem sobrenome de gente que vem do “centro do mundo”. Também não ouvi ou li críticas aos demais ministros que votaram pela condenação.  Não. É como se o ministro Joaquim Barbosa tivesse tomado uma decisão monocrática.  Seus críticos praticam o exercício da memória seletiva. Esquecem que os réus da AP-470 foram condenados por um colegiado e perderam por 5×4.  Não houve empate. Não houve necessidade da partida ser decidida nos penalties.

O jornalista chega ao cúmulo de comentar a idade da namorada do ministro Joaquim Barbosa. Diz que ela tem idade para ser filha do presidente do Supremo. E aí se traíu porque, mesmo bem informado,  se “esqueceu” de criticar a recente escolha do ex-ministro José Dirceu, a quem defende. Em pleno julgamento do “Mensalão”, os jornais noticiaram que ex-líder estudantil e agora preso por decisão da mais alta corte do país, está namorando uma moça de 26 anos. Dirceu está chegando aos 70.

Depois das releituras do texto foi então que percebi e entrei em sintonia com o nome do blog.  O jornalista, que mora na Europa, não deixa por menos. É o centro do mundo. Ou seja, o centro do seu mundo é branco, louro e fala inglês, de preferência. Uma escolha típica daqueles que sofrem o complexo de colonizado. Daqueles que acreditam ser a miscigenação uma bactéria ou um vírus que ataca os pobres da periferia do mundo.

O autor se esqueceu do fato de  que ele mesmo é fruto da diversidade étnica do Brasil. Que em algum momento, seus antepassados praticaram a ousadia, o pecado, ou crime,  de manter relações sexuais com pessoas “de cor”. E repete, quase como se fosse um mantra, as palavras de um juíz que se pronunciou no caso Richard e Mildred Loving: “O Deus Todo-Poderoso criou as raças branca, preta, amarela e vermelha e as colocou em continentes separados. Senão por interferência em seu arranjo não haverá causa para tais casamentos. O fato dele ter separado as raças mostra que ele não pretendia que raças se misturassem”.

Que 2014 limpe a poeira das intolerâncias porque “qualquer maneira de amor vale a pena/Qualquer maneira de amor valerá”

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