O JAGUNÇO DA ESPLANADA*

By , 25 May, 2016 10:26 am
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Corria o ano de 83.
No Rio, Brizola, do PDT, fora eleito, meses antes, governador do estado, depois de quase duas décadas de governadores biônicos. Em Pernambuco, Roberto Magalhães, do PFL, comandava um dos estados mais aguerridos do Brasil. 
Recém-formado em Economia, mais exatamente em Engenharia Econômica, um jovem criado dentro das usinas da direita nacional já despontava. E bem equipado.
Foi no começo do ano. Magalhães decidiu desalojar os sem teto do Conjunto Maranguape. Para esta operação foram deslocados 800 policiais militares. E é ocioso falar da brutalidade das PM´s no país. Prenderam o vereador do Recife, Pandolfe Rodrigues, na época dos quadros do PMDB enquanto esperava seu partido, o PCdoB, sair da clandestinidade. O episódio passou á História pelo nome de “Batalha de Maranguape”. E a palavra‪ #‎maranguape‬, na língua do povo Potiguara, que hoje se restringe à Paraíba, significa “vale da batalha”.
O jovem bem equipado trajava uma jaqueta de estilo aviador e portava, na cintura, sem qualquer escrúpulo, uma arma de alto calibre. Esse jovem, secretário de Roberto Magalhães atende pelo nome de ROMERO JUCÁ. E foi assim que ele iniciou sua carreira política.
Daí em diante só cresceu e encheu seu próprio cofre com dinheiro público, com maracutaias, propinas, chantagens e todas as demais palavras que integram o mundo do crime. 
Em 1985 saiu da esfera estadual e já era condutor de um programa nacional, o Projeto Rondon. Não demorou muito e foi levado, pelas mãos de Marco Maciel, para Brasília. mais exatamente para dirigir a Conab. Lá deixou seu primeiro rastro de corrupção na figura de ‪#‎Jucázinho‬, como é conhecido seu irmão Oscar Jucá Neto. O irmão do diminutivo até hoje responde processo na Companhia Nacional de Abastecimento, onde também trabalhou. 
Da Conab, e sempre por indicação de Marco Maciel, foi nomeado pelo presidente José Sarney para dirigir a Fundação Nacional do Índio. E foi ali, na Funai, que ‪#‎Jucá‬ revelou sua mente brilhante para as atividades do Mal. Envolveu-se com venda de madeira ilegalmente extraída do território do povo Kayapó. Foi indiciado, mas jamais condenado. E a este seguiram-se mais 21 processos. Com suas estratégias de chantagens, Jucá nunca foi pego nem na primeira nem na última instância do Judiciário brasileiro
Mas seus crimes se espalharam quando decidiu abrir o território da nação Yanomami para o garimpo de ouro. Na ocasião, Jucá proibiu a entrada de jornalistas, missionários e antropólogos na terra dos Yanomami. Só entrava garimpeiro. E ele lucrava sobre os corpos dos índios que tombavam com desnutrição e malária (doença quase desconhecida em Roraima, antes da devastação). Foram cerca de mil índios mortos. Um verdadeiro genocídio de um povo que até então tinha relações intermitentes com a sociedade nacional. 
O crime foi denunciado internacionalmente. O nome Jucá passou a ser repetido em mais de cinco línguas. E em todas elas seu nome era sinônimo de morte. Porque “Morte é o verdadeiro significado da palavra “Jucá”, na língua Tupi.
Feito estrela de primeira grandeza, ele começa a brilhar. E Jucá, agora homem de confiança de Sarney, foi nomeado governador de Roraima. O último governador nomeado do antigo Território Federal de Roraima, alçado depois à categoria de Estado. Completou sua obra de avançar sobre os territórios indígenas e fincou, definitivamente, as estacas de sua fortuna, toda ela meticulosamente construída com dinheiro público.
Não satisfeito de ser o único corrupto da família, dividiu seus bens com os próprios filhos. 
Em 1996, fez o loteamento da corrupção com seu filho Rodrigo Jucá que, em 2011, aos 29 anos, já contava com um patrimônio nove vezes maior do que o patrimônio de seu próprio pai. Rodrigo, deputado estadual pelo PMDB em Roraima, responde a processos de grillagem de terra pública urbana em Boa Vista. Entrou para o ramo imobiliário e “comprou” terrenos para construir condomínios.
Para sua filha, Marina Jucá, a jóia da coroa, a Boa Vista Mineração, criada em abril de 2012 e cujos sócios são, além do próprio pai, duas outras pessoas ligadas ao agora ex-ministro do Planejamento. Em 2 de abril de 2012, a empresa entrou com pedido de exploração de minério junto ao DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral) em “novas terras”, leia-se “terras indígenas”. Não por coincidência, em 17 de maio, o senador Romero Jucá sobe à tribuna da casa para convencer seus colegas a aprovar seu próprio projeto de lei que abre os territórios indígenas à exploração de minérios o que, em Roraima significa ouro, diamantes e, principalmente, nióbio, um dos mais raros minérios do planeta Terra. No seu discurso, “em defesa do Brasil”, esse que sempre foi o Mensageiro da Morte dizia:
“Quero aqui registrar a importância deste debate. Para o Brasil, é muito importante (a aprovação da lei)”.
E passou, então, a explicar os benefícios da proposta:
“Haverá pagamento de royalties ao Poder Público e também à população indígena. Ganhará o direito à mineração aquele que pagar mais à comunidade indígena. Haverá uma licitação. Haverá todo o cuidado ambiental, todo o cuidado antropológico da Funai”. E para comover os demais senadores encerrou seu apelo dizendo que o projeto observaria a “licitação”, “cuidado ambiental” e “cuidado antropológico”.
Tinha pressa, o senador. Urgência em pôr as mãos nas maiores reservas minerais do Brasil. O projeto rola até hoje nas comissões do Senado e Jucá planejava (é um “planejador” nato) votá-lo agora, quando voltou à Esplanada dos Ministérios cavalgando um movimento chamado ‪#‎golpedeEstado‬.
Versátil, ele também foi escolhido líder do governo de FHC. Tem as manhas das negociações baseadas em chantagens, promessas de propinas e outros elementos que nós brasileiros comuns desconhecemos.
As podres alianças do PT sustentaram a escalada de crimes dessa figura. E foi assim que Jucá se manteve líder do governo de Lula e Dilma. Só uma miopia política de um partido que um dia foi o sonho de mudanças podia abrigar em seus governos essa biografia manchada de sangue e corrupção. 
E não foi só líder do Governo. Lula teve a ousadia de nomeá-lo ministro da Previdência, outra frente de verbas para alimentar esse senador que continua impune afrontando a sociedade. Ele tomou posse no Ministério da Previdência em março de 2005 e caiu em julho do mesmo ano. Foi ancorado por Lula que ainda gozava de muita popularidade. E caíu porque o jornalista Rubens Valente publicou uma série de reportagens sob o selo “Fazendeiro do Ar”, pela Folha de São Paulo. Caiu e voltou para seu ninho no Senado no gabinete de espessas paredes já ouviram quase todas as estratégias de corrupção planejadas, montadas e executadas por essa figura que desde sua aparição na cena pública sempre atuou ora como ‪#‎jagunço‬, ora como simples ‪#‎gangster‬
E para a surpresa de muitos, suas vísceras foram novamente expostas. Dessa vez não só nos seus negócios excusos. Ele foi bem além, planejando um golpe de Estado. Um golpe para que não investigassem sua vida de crimes.
A carreira de Jucá não se encerrou. Seus tentáculos vão muito longe. E nem se encerrará com uma simples cadeia. É necessário e, sabemos que não acontecerá, que ele seja condenado à expropriação de seus bens, porque todos eles trazem a marca do esbulho de nossas riquezas e das poucas sobras que se despejam em programas sociais. Para Jucá, e família, nem um presídio de segurança máxima será suficientemente impenetrável para que ele seja impedido de cometer os mesmos crimes.
* Esse texto, em parte,  só foi possível graças às valiosas memórias de ‪#‎ChicoPreto‬, um valente militante comunista de Recife, homem simples e um filósofo do comportamento político brasileiro. Obrigada Chico.

UMA JARARACA ENFRENTA O LATIM

By , 10 March, 2016 12:46 pm

Memélia Moreira 

Quem escreveu a matéria que está colada aí embaixo conhece bem pouco as engrenagens do Vaticano. E essa falha distorceu a informação.  
A Folha de São Paulo, meu querido jornal, jornal que me deu espaço para denunciar todas as violências contra índios, camponeses e os demais deserdados da terra, #esmagalhou (era assim que meu irmão #Sonsonho dizia a palavra “esmagou” porque tinha certeza que esmagalhou parecia um trator passando sobre o objeto a ser destruído) a notícia.
Dom Jararaca, que atende pelo codinome de Dom Darcy Nicioli, foi removido de Aparecida do Norte para Diamantino. A Folha, num canto de baixo à esquerda da página na internet disse, na quarta-feira, nove de março,  que o bispo foi promovido. Como assim?
Vamos tentar entender. 
1) Qual a importância, no cenário nacional do bispado de Diamantina (MG)? 
Até onde eu saiba, aquela bela cidade, cheia de histórias e que preserva uma reliquía arquitetônica riquíssima, povoada de músicas e serenatas, além de ser berço de Juscelino Kubistcheck, não tem quase nenhuma importância política no cenário nacional. Menos ainda, no xadrez internacional. 
2) Qual a importância de Aparecida do Norte?
Além de estar localizada no estado de São Paulo, a megalópolis mais pulsante e rica da América Latina, o que não lhe confere mais importância do que estar situada em Minas Gerais,  Aparecida é um dos maiores centros de peregrinação religiosa, do mundo. E isso sim lhe dá importância. Quero dizer, importância para os seguidores da Igreja Católica Apostólica Romana. Por lá passaram inclusive cardeais, no caso de Dom Aloísio Lorsheider, que foi nada menos do que presidente da CELAM (Conferência Episcopal Latino-Americana) e presidente da CNBB Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). 
Conclusão: é muito mais importante ser bispo-auxiliar em Aparecida do Norte, porque sempre há a possibilidade de um dia substituir o próprio comandante do episcopado e até se tornar cardeal do que ser bispo de Diamantina.
O que aconteceu com Dom Darcy Nicioli foi uma das práticas mais usadas pelo Vaticano, conhecido pelo termo latino “promoveatur ad removeatur” ou, no italiano “prumoevere per rimouvere”. Quando um bispo-auxiliar é promovido para uma diocese sem tanta importância política essa é a estratégia mais usada usada pelo Vaticano. Uma outra é obrigar o bispo ao “silêncio obsequioso”, muito utilizado pelo Papa Joãp Paulo II quando quis calar vozes incômodas para o Sumo Pontífice. Foi o caso de Dom Pedro Casaldáliga. A delicada figura do catalão que fala baixinho foi submetida duas vezes aos silêncio obsequioso porque bradava contra a ditadura militar do Brasil. Uma ditadura apoiada por João Paulo II e seu aliado preferencial, o presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan. 
O Papa Francisco é o antônimo de João Paulo II. Essa sua primeira intervenção no episcopado brasileiro é uma pequena amostra da disposição política de Francisco. E foi ditada por uma experiência pessoal. Ele conhece as entranhas das ditaduras sangrentas que se abateram no nosso continente. Viveu a Argentina dos generais. 
No começo dos anos 80, João Paulo II destroçou a Arquidiocese de São Paulo, retirando partes do território comandado por Dom Paulo Evaristo Arns que combatia com muita doçuura e firmeza uma ditadura que vivia seus estertores. E assim afastou também Dom Luciano Mendes de Almeida. Ele era bispo-auxiliar de São Paulo e foi nomeado bispo de Mariana (MG). Evidentemente, jamais recebeu o anel cardinalício, promoção que era esperada por todos que acompanham o jogo político do Vaticano. 
João Paulo II também “promoveu” vários bispos da região do Araguaia quando forte eram os clamores pós-anistia na busca dos desaparecidos da guerrilha. Os bispos da região, a começar por São Félix, dirigida por Dom Pedro Casaldáliga se juntavam aos clamores. O Papa polonês manteve Dom Pedro, mas promoveu, mandando para o ostracismo seus principais apoios, o bispo de Conceição do Araguaia, Dom Estevão Cardoso de Avellar e o de Marabá Dom Alano Pena (que foi torturado pelos militares na época da guerrilha). Para o lugar de Dom Estevão, acreditou que seu substituto, Dom Patrick Hanharan, se manteria distante das lutas camponesas. Antes dos 30 dias depois de sua consagração, Dom Patrick já respondia o primeiro IPM (Inquérito Policial-Militar) por dar apoio aos lavradores. Ele, que era um irlandês conservador, foi convertido à causa do povo. E morreu envenenado a mando dos fazendeiros da região.
Bom, mas aí é outra história. Fiz um parêntese muito longo. Voltemos, pois.
Daí se pode concluir, sem muitos questionamentos,  que Dom Jararaca  foi afastado. E isso significa que Francisco, esse papa que chegou para tirar toda a poeira que há séculos se acumulava sobre os móveis, as paredes, lustres e, principalmente, as idéias do Vaticano, não chegou exatamente a esmagar a cabeça da cobra, mas deu-lhe um pontapé certeiro. Ou, em outras palavras, mandou o recado de que pode ser traduzido a “recolha-se ao seu lugar”.
 Portanto, senhor editor da Folha de São Paulo, pouco me importa que o senhor e seus chegados estejam numa ferrenha luta levar o PT a ser um partido proscrito.  Jogá-lo na clandestinidade e banir seus presidentes eleitos. Essa é uma opção ideológica e não estou aqui para ditar opções ideológicas.  O senhor não é o primeiro chefe desse jornal, que foi minha casa por mais de 10 anos, a apoiar movimentos que não se contentam apenas em ser oposição, mas que pregam abertamente um golpe de Estado. Talvez não seja o último também. Conheci outros.
Mas não se esqueça que um dia esse jornal que o senhor dirige foi porta-voz de outro golpe, ajudando inclusive os torturadores, até que passou para o papel de vítima porque ninguém cultiva ninhos de serpentes impunemente.  
Há um escritor grego, cujo nome brinca de esconde-esconde na minha memória que diz “nada mais fácil do que iniciar uma conspiração”. É verdade. Conspiração golpista é fácil de comandar ou apoiar. É igual criar corvos. O problema é que um dia eles te devoram os olhos.
Senhor editor, me parece que o senhor está alimentando seu corvinho. É uma ave linda de plumas negro-azuladas. Mas lembre-se que só um estado democrático aceita diatribes golpistas. Não se esqueça disso. Mas, por favor, não distorça e nem permita que seus repórteres distorçam uma informação. E estude um pouco mais sobre a diplomacia do Vaticano. Além de ser instrutivo, é uma verdadeuira riqueza para quem gosta de Geopolítica e das engrenagens das guerras mantidas pelos impérios. 
 
P.S. Começo a desconfiar que Diamantina é também uma espécie de exílio de bispos golpistas. Pela Arquidiocesa daquela bela cidade já passou também Dom Geraldo Proença Sigaud, grande esteio da ditadura militar e que foi fiel aos homens de verde-oliva até o momento final. A Anistia cehgou em 1979. Dom digaud só agüentou até 1980.
 

NOITE EM CUERNAVACA

By , 17 April, 2014 10:17 am

 

 NOITE EM CUERNAVACA

 Memélia Moreira

 Era sábado e fazia muito frio na cidade do México naquele fevereiro de 1978. Meu tio, Neiva Moreira, que ainda amargava o exílio, acordou cedo e anunciou que íamos sair antes das nove da manhã para viajar. No caminho, compramos um bolo confeitado para comemorar o aniversário de uma das figuras que mais admiro na História do Brasil, Francisco Julião, que desde sempre fez parte do meu imaginário com suas lutas pela Reforma Agrária. O bolo parecia um arco-íris tantas e tão fortes eram as cores. No México, todas as cores e sentimentos são fortes. Até mesmo o dia dos mortos é comemorado com cores. O bolo seguia a tradição.

Subimos e descemos montanhas num “carro de praça”, antiga denominação para táxi, ainda usado por Neiva. Era confortável, mas mesmo assim não consegui continuar o sono interrompido. Seria quase um sacrilégio dormir e perder todos os momentos e paisagens daquele que é um dos países mais fascinantes que conheci. E só no caminho fui informada de que seguíamos para Cuernavaca, a capital do Estado de Morelos. Pronto, foi o suficiente para me deixar em crescente excitação. Morelos! Terra de Emiliano Zapata, outro personagem que reverencio. O homem que comandou a revolução mexicana. E mais montanhas e vales. E a terra seca, cinza, deserta. De vez em quando ultrapassávamos ônibus que gemiam nas subidas ou assoviavam nas descidas. E a terra continuava seca e cinza.

Ainda não era meio-dia quando chegamos à cidade. O táxi nos deixou em frente a uma casa singela, toda branca. Branca mesmo. Por dentro e por fora. E, na minha frente, tranquilo e amável, Julião, nome que era o terror de latifundiários e grileiros que ainda hoje infestam o Brasil. Pouco depois chegou mais um convidado, com sua esposa. Vestido de “guayabera”, branca, calças largas e voz tonitruante, ali estava para meu deslumbramento, o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez. De verdade. Trouxe petiscos para o almoço porque ali, ele era apenas “Gabo”, e naquele dia, pouco lhe interessava a fama porque naquele sábado, o importante era o aniversário de Julião. E ali estavam entre amigos, todos exilados das tantas ditaduras de nossa América.

Chegou a hora do almoço, mas não me lembro qual foi o prato principal. Só estava interessada na rica conversa entre aqueles três homens e na sobremesa. Era o famoso bolo enfeitado com flores açucaradas, vermelhas, verdes, amarelas, alaranjadas e até azuis. E recheado com chocolate e ameixas. Cantamos parabéns e tomamos suco de uva com o bolo.

Não saímos de casa. Nada de conhecer o “Palácio de Cortéz” ou o “Capitel do Calvário”. Não. Definitivamente, não. Para que conhecer monumentos construídos pelos invasores espanhóis e perder tanto conhecimento transmitido nas conversas? Não, o melhor era ficar ao redor da mesa aprendendo. Além disso, pensava eu, teria uma bela história a escrever para meu jornal. Na época, trabalhava no “Jornal de Brasília”.

Nem vi a tarde escorrer e, quando a noite começou a chegar foi que Julião nos contou que sua casa – construída com suas mãos – não tinha luz elétrica. Durante o dia, a iluminação era natural. E ao escurecer, velas e lampiões. Assim, dizia o homem que tanto sonhou e lutou pela Reforma Agrária, “economizo energia”. Francisco Julião era homem pobre.

E continuavam conversando, sem parar. Eu, calada, sorvendo cada vírgula, cada travessão, cada parágrafo. Neiva entusiasmado com a queda de Reza Pahalevi no Iran, destronado pelo aiatolá Khomeini. Gabo provocava Julião, que buscava seus cadernos com poesias escritas à mão. E confessava que ao se separar de uma mulher, sempre lhe deixava uma poesia. E Gabo queria saber se já havia poesia para a companheira do momento. Os dois riam, Nas pausas, Julião nos fazia ouvir fitas que ele mesmo gravou com os remanescentes da revolução mexicana. E os dois combinavam escrever um grande romance sobre a revolução. O personagem principal seria Gregório, um dos sobreviventes que morreu com mais de 90 anos e fora entrevistado por Julião,que tinha milhares de horas gravadas com os revolucionários. Não sei o que foi feito das fitas. Parece que foram entregues à Universidade Federal de Pernambuco. Mas delas não tenho mais notícias.

A conversa varou a noite. Nem vi meu tio deixando a sala para dormir. Mal levantava para beber água, totalmente magnetizada pela conversa, que em nenhum momento caíu nas amarguras de exilados. Riam, contavam piadas sobre os ditadores, comentavam o impacto da visita do Papa João Paulo II à cidade do México mas, falavam principalmente de poesia e política.

Quando o domingo começou a raiar, os dois, sem interromper a conversa, prepararam o café e foram acordar suas mulheres. Foi aí que Julião nos deu uma ordem. Não podíamos perder a missa. “É a maior atração dessa cidade”, dizia com um ar grave. Então conheci a Catedral, que começou a ser construída em 1526. Imponente como todas as catedrais embora sua principal riqueza fosse mesmo a conhecida “Missa Panamericana”, celebrada pelo cardeal espanhol Sérgio Mendez Arceo. Mais que missa, um libelo em defesa dos direitos sociais dos povos dominados pelo Império, vizinho ao México.

Depois da missa, como se tivesse vivido um sonho, voltamos para a Cidade do México. Peguei então minha agenda de anotações, que não ousara abrir durante a conversa e escrevi as histórias daquela noite encantada. Feliz porque tinha uma boa matéria para meu jornal.

Doce ilusão!

 Ao chegar, entusiasmada, fui direto ao chefe dizendo que tinha diálogos inteiros entre Neiva Moreira, Francisco Julião e Gabriel Garcia Márquez. O chefe, jovem jornalista de boa família e boa formação acadêmica, olhou com total desdém e respondeu: “Essa matéria não interessa ao jornal”. Quase chorei de raiva, mas meu desprezo foi tanto, que preferi dar de ombros. Não o sabia medíocre mas, agora, 31 anos depois, foi que tive certeza de sua pequenez, quando vi que seu nome era um dos citados para diretor-geral do Senado, que vive sua mais profunda degradação. E então entendi porque minha rica história não o interessou. O chefe estava apenas fazendo sua carreira. Obviamente, a noite encantada de Cuernavaca não acrescentaria ítens no seu currículo.

Que pena!


 

 

O CAMINHÃO DA NOITE DE NATAL, UM CONTO DA DITADURA

By , 29 March, 2014 12:36 pm
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Mamãe com quatro dos cinco filhos. Verinha ainda não havia nascido e eu estava com a boca cheia de pirulito.

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Pouco tempo depois daquele sombrio 71. Nós cinco por ordem de chegada ao mundo: Eu, Sonsonho, Gagocha, Goretti e Verinha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O CAMINHÃO DA NOITE E NATAL, UM CONTO DA DITADURA

Memélia Moreira

As esperanças pareciam agonizar no ano de 1971, o mais sombria de minha vida. Eu acabara de chegar de Paris e, logo no começo de janeiro, meu pai morreu. Estava com 50 anos. No hospital assinaram o documento dizendo que a morte fora provocada por um brutal e irreversível AVC. Mas se a Medicina soubesse ouvir as profundezas dos corações, no espaço pontilhado para descrever a causa mortis,  os médicos assinariam, sem erro, “morreu de tristeza”.  Sim, meu pai morreu de tristeza. Não conseguia dormir e acordar cercado pela ditadura e pelo medo, sabendo que os telefones estavam sob escuta permanente. Não se adaptava ao Uruguai sem redes penduradas nas paredes e o frio dos invernos rigorosos.  Vagava como se fosse um apátrida. Mas com a consciência de que aqueles militares que usurparam o poder, silenciaram, prenderam, torturaram e mataram, lograram também na tarefa de desestruturar as famílias. Sua família.

As flores da sepultura de papai ainda não haviam murchado quando um telefonema de São Paulo nos informou que meu irmão, Sonsonho, havia “caído”, código eufemístico para dizer que alguém fora preso. Paradeiro desconhecido. Sequer se podia dizer se vivo ou morto. A primeira providência era buscar um deputado que anunciasse em plenário a prisão do mano. Não havia garantias, mas se estivesse vivo, um discurso no plenário de certa forma inibia a soulção final aplicada em muitos casos. Porque ditaduras quando atingem o extremo de sua incapacidade em derrotar as idéias, eliminam seus opositores. O primeiro deputado a ser procurado, e  que outrora fora amigo da família, recusou-se. Coube ao deputado Pedroso Horta, ex-udenista e filiado ao então MDB de São Paulo, e sempre disposto a ajudar os prisioneiros políticos, fazer a comunicação no horário do “pequeno expediente” da Câmara.

Enquanto a família se mobilizava para encontrar meu irmão, Sonsonho, foi a vez de Goretti, a irmã que ocupou o posto de caçula por alguns anos e a primeira criança pela qual me apaixonei. Ela sofreu um acidente. Cirurgia, coma, passou 72 horas de sua vida lutando contra a morte. Venceu. Com menos 90 centímetros de intestino, vértebras espatifadas e um colete de gesso que usou por muito tempo para ajudar na recuperação da coluna vertebral. Até hoje sofre sequelas.

Os acontecimentos se acumulavam em velocidade impossível de ser assimilada. E era a vez de Gagocha, minha segunda irmã, aquela a quem desde criança me sinto na obrigação de proteger. Diante da possibilidade real de ser presa porque toda a organização na qual militava, a aguerridas Ala Vermelha do PcdoB , estava se desmantelando, ela deveria submergir. Outra palavra da nossa linguagem de resistência para dizer, desaparecer por um certo perído. Aqueles generosos meninos e meninas que fizeram a oposição armadas nas lutas de guerrilha tombavam dia a dia. E mamãe não queria correr o risco de ter mais um filho preso. Mandou Gagocha para São Luís, nosso refúgio.

Sem fraturas externas e de paradeiro conhecido, só minha mãe, uma ilha de fibras tecidas na coragem e cercada de coração por todos os lados, minha irmã Verinha, pessoa que me fez conhecer o sentimento de mãe desde que nasceu, e que ainda nem tinha dez anos mas já sabia o significado das palavras  “guerrilha’, “ditadura”, “terrorismo” , “escuta telefônica”, silêncio”, “medo”. E eu, que tentava me manter inteira entre as aulas da Universidade de Brasília e a redação da revista “Veja”.  No fim do dia, quando voltava para jantar, o eco do silêncio perturbava minhas lembranças de uma casa cheia da buliçosa infância.

Goretti saíu do coma no mesmo dia em que tivemos a resposta da pergunta que nos angustiava. Meu irmão estava vivo. Nas dependência da OBAN, uma casa de horrores. Era 71. Era Médici, o mais sanguinário dos ditadores,  um facínora de olhos miúdos e cruéis. E era meu irmão vivo. Sonsonho é o único homem entre nós, as quatro filhas mulheres. Passara pelas manoplas  impiedosas do Delegado Fleury, o mais temido dos assassinos da ditadura, e  estava vivo.  Torturado com todos os requintes das máquinas de morte dos ditadores, ele continuava vivo. Num mesmo dia, mamãe, culta e bela, que enfrentou os militares bravamente, de cabeça erguida,  respostas precisas, recuperou dois dos seus filhos.

Faltava pouco para o ano acabar.  E, finalmente, Natal.

Detesto lagosta na mesma intensidade com a qual me debruço vorazmente sobre um prato de camarões ou lagostins. Mas escolhi lagosta para a ceia de Natal. Queria ver minha mãe feliz pelo menos naquela noite. Ela nunca exibia sua tristeza, mas seus olhos viviam ausentes, enevoados. Tomamos vinho branco, eles comeram a lagosta e foi tirada uma foto. Não gosto de rever essa imagem de um momento sombrio. Ela expressa uma tal desolação que revivo todos os instantes daquele ano infindável.

Terminada a ceia, a celebração, foram, aos poucos, para seus quartos. Quando todos dormiam, peguei uma sobra de garrafa de vinho, caminhei até o Eixo Rodoviário e me sentei no meio fio. Chorei lágrimas de um ano inteiro. Bebi  as lágrimas que se misturaram ao vinho. E continuei a chorar.

Ainda sentada naquele silêncio do Cerrado que tanto me faz falta, quase duas horas da manhã, sózinha, vi duas luzes potentes bem longe,  e se aproximando. Mais perto e mais perto. Era um caminhão da Fábrica Nacional de Motores, que já foi um orgulho da indústria nacional, faróis enormes apontando o caminho. Quando olhei as três letras inscritas na cabine, enxuguei as lágrimas, consegui soltar um suspiro longo e sorri para o caminhão. As três letras, FNM,  me diziam “Feliz Natal, Memélia”. Foi uma das mais belas mensagens que recebi ao longo da vida. Tive então a certeza de que nenhuma dominação ditatorial nos deteria e que continuaríamos nas nossas lutas. Cada um na sua trincheira.

NAMORADAS COLORIDAS OU, ESCOLHAS AMOROSAS DE JOAQUIM

By , 3 January, 2014 8:43 pm

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NAMORADAS COLORIDAS OU, ESCOLHAS AMOROSAS DE JOAQUIM

Memélia Moreira

Há alguns anos, uma das mais importantes empresas da indústria de cosméticos do Brasil fez uma pesquisa sobre a cor dos brasileiros. Eles queriam acrescentar novos tons à linha de maquiagem. Mais especificamente, ao pó-de-arroz. O resultado, sem tanto destaque na Imprensa, na Antropologia ou na Sociologia, me deixou cheia de orgulho da “nossa pátria mãe gentil”.  Há, na população brasileira, 125 diferentes tonalidades de pele. E esse é um dos meus trunfos quando, aqui longe do Brasil e também do centro do meu mundo, um gringo qualquer me pergunta porque nós, brasileiros, somos tão bonitos. A resposta vem igual “brado retumbante”.

Respondo com o peito estufado, “porque miscigenamos. Porque é o país que tem a cara de todo mundo. Porque qualquer pessoa, de Gisele Bündchen a Pelé, de qualquer lugar do mundo, de qualquer etnia,  pode dizer “sou brasileiro”.  E a resposta cala principalmente aqueles que nasceram e se criaram num país onde há bem pouco tempo se proibia casamento entre negros e brancos.  Ou brancos e índios. Que o digam Richard Loving (branco) e Mildred Jeter (negra). Eles  percorreram todas as instâncias judiciais para exigirem o direito de ter o casamento reconhecido. O caso foi parar na suprema corte dos Estados Unidos. E venceram a discriminação. A persistência do casal desembocou na revogação da lei que proibia “casamentos interraciais”.

No país onde vivo, bem longe do centro do meu mundo, vigorou, até 1967, uma lei que proibia qualquer casamento interétnico.  Mas os EUA não foi o único. A  Alemanha, que para muitos deve integrar o “centro do mundo”, se igualou aos EUA. Sob o governo Nacional-Socialista, em 15 de setembro de 1935, foi aprovada a lei “Gesetz zum Schutze des deutschen Blutes und der deutschen Ehre”  que pretendia proteger o sangue e a honra dos alemães. Há outros exemplos tão abomináveis quanto os citados, mas esse texto não quer ser um tratado. Escrevo apenas para externar minha indignação e perplexidade.

2013 agonizava quando eu, cercada pela família e minhas mais recentes paixões (os netos Luísa e Diego), sem tempo para ler jornal ou frequentar as redes sociais, num fim de noite, passei rapidamente pelo Twitter. Estava lá o tal texto que me deixou perplexa.

Estava lá, em letras de forma (ainda se diz isso?) uma das mais patéticas e rasteiras das demonstrações de racismo que tenho visto.  O autor, um jornalista, na sua ânsia de criticar o ministro Joaquim Barbosa, açoita o negro e presidente do Supremo Tribunal Federal  por suas escolhas amorosas. Diz ele que o  ministro Joaquim está namorando uma pessoa que – vejam o tamanho da ousadia, do pecado, do crime –  não é negra.  E compara o ministro ao jogador Pelé, esse que tantas alegrias  levou ao povo brasileiro. Pelé –vejam o tamanho da ousadia, do pecado, do crime – também se casou com uma mulher não negra.

O jornalista então faz elogios ao lutador Cassius Clay, o Muhamed Ali, considerado o maior boxeador de todos os tempos e que, negro, se casou com uma negra. Admiro Muhamed Ali. Não apenas porque por ter se casado com mulheres negras, mas sim porque recusou ser recrutado para o Exército do seu país que, naqule tempo, 1968, tentava massacrar a soberania do povo Viet. Clay, amargou um tempo na cadeia, mas não abriu mão de sua consciência.

Li e reli o texto que tanta indignação e perplexidade me provocou.  Tenho pouco conhecimento do autor.Então reli para entender o que não estava escrito. Foi fácil.

O ministro Joaquim Barbosa vem sendo alvo de diferentes manifestações de racismo desde o momento em quê, exercendo seu papel de relator da ação Penal 470, conhecida também pelo codinome de “Mensalão”, foi favorável à condenação de políticos de diferentes partidos, entre estes, o PT. Os adjetivos pejorativos já se esgotaram. Já foi chamado inclusive de “Macaco” até mesmo por pessoas que se consideram defensoras dos direitos humanos. Jogam no ministro todas as mágoas pela condenação de uma das figuras mais simbólicas do PT, o ex-presidente do partido, José Dirceu. Nunca ouvi ou li qualquer crítica contra a ministra Rosa Weber que ao votar acompanhou o relator da ação penal. Ela é branca e tem sobrenome de gente que vem do “centro do mundo”. Também não ouvi ou li críticas aos demais ministros que votaram pela condenação.  Não. É como se o ministro Joaquim Barbosa tivesse tomado uma decisão monocrática.  Seus críticos praticam o exercício da memória seletiva. Esquecem que os réus da AP-470 foram condenados por um colegiado e perderam por 5×4.  Não houve empate. Não houve necessidade da partida ser decidida nos penalties.

O jornalista chega ao cúmulo de comentar a idade da namorada do ministro Joaquim Barbosa. Diz que ela tem idade para ser filha do presidente do Supremo. E aí se traíu porque, mesmo bem informado,  se “esqueceu” de criticar a recente escolha do ex-ministro José Dirceu, a quem defende. Em pleno julgamento do “Mensalão”, os jornais noticiaram que ex-líder estudantil e agora preso por decisão da mais alta corte do país, está namorando uma moça de 26 anos. Dirceu está chegando aos 70.

Depois das releituras do texto foi então que percebi e entrei em sintonia com o nome do blog.  O jornalista, que mora na Europa, não deixa por menos. É o centro do mundo. Ou seja, o centro do seu mundo é branco, louro e fala inglês, de preferência. Uma escolha típica daqueles que sofrem o complexo de colonizado. Daqueles que acreditam ser a miscigenação uma bactéria ou um vírus que ataca os pobres da periferia do mundo.

O autor se esqueceu do fato de  que ele mesmo é fruto da diversidade étnica do Brasil. Que em algum momento, seus antepassados praticaram a ousadia, o pecado, ou crime,  de manter relações sexuais com pessoas “de cor”. E repete, quase como se fosse um mantra, as palavras de um juíz que se pronunciou no caso Richard e Mildred Loving: “O Deus Todo-Poderoso criou as raças branca, preta, amarela e vermelha e as colocou em continentes separados. Senão por interferência em seu arranjo não haverá causa para tais casamentos. O fato dele ter separado as raças mostra que ele não pretendia que raças se misturassem”.

Que 2014 limpe a poeira das intolerâncias porque “qualquer maneira de amor vale a pena/Qualquer maneira de amor valerá”

PARA MANDIBA, UM HERÓI

By , 5 December, 2013 8:59 pm


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PARA MANDIBA, UM HERÓI

MEMÉLIA MOREIRA

 

Vai aqui minha homenagem a um herói da resistência. Nelson, para sempre Mandela. Esse texto foi escrito horas depois de visitar a casa de Mandela, em Soweto, e depositar flores no memorial erquido para lembrar o massacre das crianças em junho de 1976. Soweto era uma espécie de favela, quase um campo de concentração mantido pelo apartheid para isolar os negros. Fica entre Joannesburgo e Pretória. Escrevi chorando porque Soweto me mostrou a infinitude da maldade humana. Estava sentada no bar-restauranten “Casa di Stella”, onde terminei ficando pela noite para ouvir um jazz de raiz tocado por negros anônimos da etnia Zulu. Era 10 de março de 2000. VIVA MANDELA!
Segue aí meu texto depois de ujm dia de emoções naquele África de tantos sofrimentos:

 

SOWETO, SOWETO
Ruas de lata,
homens de luta.
Terra cinzenta de um povo da cor da noite.
Soweto! Sôgueto!
O mesmo soriso fácil das crianças do Jardin de Luxembourg, Hyde Park, Manhattan, Diauarum, Mekness, Lago Sul.
O mesmo alarido infantil nos uniformes em azul e branco, na saída da escola.
E foi ali que conheceram, o sangue, antes de conheceram a vida.
Too young to die, mas mesmo assim se foram naquele inverno de 1976.
Pobre menino negro e seu olhar perplexo.
Tinha 13 anos e carregava um corpo igual na cor, nos sonhos, na sina.
Meu corpo estremeceu no teu memorial e as bombas de petróleo ecoaram nos meus sentidos.
Soweto, My Lai, Puerto Cabezas, Haximu, Rocinha, Kosovo, Sabra, Chatila, Treblinka., minhas crianças que jamais crescerão.
Por que plantaram tantos hectares de ódios?
Soweto, do langor mississipiano, do sax das liberdades.
Soweto livre no batuque da ruas concretizando as utopias.
Soweto, desafio da pátria resistente, te entrego lágrimas e minhas mãos para dançarmos a ciranda nesta aldeia universal.
Soweto, meu povo, meu amor.
OBRIGADA, MANDELA!

SONS DA MINHA INFÂNCIA

By , 24 November, 2013 7:28 pm

 

SaoLuis Map

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SONS DA MINHA INFÂNCIA

“Todos cantam sua terra

Eu também vou

Cantar a minha

Modéstia à parte,

seu moço…

Minha terra é uma belezinha

……………………………………..

………………………………………

Acho bonito inté

O jornaleiro a gritar

Imparcial, Diário,

Olha  O Globo

Jornal do Povo.

Descobriu novo roubo.

E os meninos vendendo

O derresol a cantar.

Derresol, deêê-êr-resol.”

(Baião de João do Vale, maranhense)

 

Foi no número 32 da Rua Coronel Mota, em Boa Vista, capital do antigo Território Federal do Rio Branco, hoje Roraima, que nasci na madrugada de 23 de outubro. Boa Vista era quase uma vila com menos de 30 mil habitantes e que eu só conheci aos 27 anos. Mas sou maranhense. De São Luís, “terra das palmeiras, terra das ladeiras, dos babaçuais”, canta o hino da cidade.

Digo que sou maranhense porque foi naquela ilha misteriosa e encantada pelas lendas e fantasmas que assutam as crianças que aprendi a ver o mundo. Aprendi a ler, aprendi a ouvir o som da chuva nos telhados e a acompanhar o movimento das águas do mar. Aprendi a pisar nas matas da Quinta do Barão de Itapary, sem fazer barulho e me esconder nos galhos mais altos das mangueiras e tamarindeiros. E lá ouvia o vento com seu murmúrio e as folhas que suavemente se despregavam dos galhos. E o som estacado das matracas do bumba-meu-boi. Salve salve, Mãe Catarina.

Nem precisava ver as ondas para saber se o mar estava bravio. Bastava ouvi-lo. Se manso, era um xuá-xuá, a escorrer para o infinito.

Da janela de minha escola, via os barcos de velas coloridas ancorados na areia porque a maré chega a ser tão baixa que era até possível atravessar o mar caminhando, como se fora terra firme, até chegar à praia Ponta D´Areia, trilha palmilhada pelas pegadas dos carangueijos. Sempre digo que quem teve o privilégio de olhar para um mar cheio de de barcos e suas velas coloridas se dirigindo ao Cais da Sagração, enquanto Madre Cabral, dorotéia do Colégio Santa Teresa, explicava, inutilmente, uma raíz quadrada, não tem o direito de ser infeliz.

Meus sonhos saltavam pela janela e se aninhavam entre as velas que tinham o poder de carregar minhas fantasias para todos os mares do mundo. E a raíz quadrada continuava lá, no quadro-negro. Imóvel, imutável, estéril. De números só me interessei por aqueles que me dizem em que latitude estou. Mas faço contas de cabeça, sem qualquer dificuldade e ainda sei que a raíz quadrada de 5 é 25.

É de São Luís que guardo os primeiros, e para sempre inesquecíveis, sons da minha infância e começo da adolescência. Sonoridade que vinha das ruas na voz dos vendedores. Sons do rádio ouvido pelas empregadas da casa. Som dos mambos, boleros e sambas-canção, fados, assoviavados pelo meu pai ou cantados por minha mãe. Som das serenatas feitas sob nossa janela e o som seco, dos linotipos sendo enfileirados na máquina para imprimir as folhas de papel do “Jornal do Povo”.  Era matutino e  mantido graças à tenacidade de meu pai, Geraldo, ou Gegê Moreira e meu tio, Neiva Moreira, o propritário incansável na sua luta contra todos os desmandos cometidos pelos governantes.

Os sons das ruas ressoavam na esquina de nossa casa, que por acaso era de propriedade do poeta Ferreira Gullar. Sons pontuais. Ninguém precisava de relógio. Infalíveis. Sempre.

Antes das oito da manhã, homens simples, quase sempre de pés descalços carregavam “cofos” (cestos de palha), de peixes e poesia. Lá vinham eles, roupa sem cor, gritando pelas ruas “Peeeeixe pedra natural/ quem pescou foi o Lourival”. Pelas dez da manhã, outros cofos carregados por outros homens também simples, pobres,  descalços e poetas anunciavam aos brados…”Banana macia, dona Maria…É uma beleza, dona Teresa”. No cesto, banana-maçã, banana roxa, a melhor de todas as bananas, banana-nanica e, de vez em quando, banana-prata. Todas elas macias, para todas as Marias. Todas elas perfumadas ostentando beleza e sabor para o paladar de Teresas, Jandiras, Raimundas, Cândidas, Nazarés…

Mas o som mais esperado do dia, aquele que desestabilizava os papilos e antecipava a visão de um banquete no paraíso ecoava na hora da sesta.”….veeeeete de co´o….. Com um pequeno barril em forma de cone, que protegia uma lata cercada de panos grossos, o sorveteiro trazia na sua cabeça sobre uma rodilha quase imunda o legítimo manjar dos deuses. Sorvete de côco. E a casquinha desse sorvete é única. Só existe em São Luís. Nem mesmo os chineses conseguiram imitá-la. Artesanal, assada, crocante, adocicada. Quem teve o privilégio de tomar sorvete de côco naquela casquinha não tem o direito de ser infeliz.

Até hoje, quando chego em São Luís busco pelas ruas um sorveteiro gritando “….veeeete de co´o….”. Mas não. Eles não mais circulam pelas ruas da minha infância e me dou por vencida. Entro numa sorveteria perto do Colégio Santa Teresa, peço sorvete de côco na casquinha assada e me debruço no parapeito da avenida Beira-Mar para ver as velas dos barcos que transportaram minhas fantasias.  As velas foram minha bússola e traçaram meus caminhos por tantos mares já “dantes navegados”.

“Fica comigo esta noite/E não te arrependerás/Lá fora o frio é um açoite/calor aqui tu terás….”. Era Nélson Goçalves cantando no rádio enquanto a engomadeira (hoje são apenas passadeiras, perderam a elegância das roupas engomadas e usam fone de ouvido para o celular), que era crente, fechava os olhos, quem sabe sonhando naquela proposta  com sabor de fruto proibido.

Na cozinha,”tum-tum,ticu-tum-tumtum, paranpanpan”. Lá reinava Maria Raimunda, cozinheira que uma noite me levou, clandestinamente, para um tambor de mina. E ela requebrava os quadris sob o batuque frenético, às vezes repreendida por minha doce Vovó Amélia que preferia cantar valsinhas como se estivesse chilreando.

Bastava pegar a bicicleta e ir ao largo em frente à Biblioteca Municipal. Tinha orgulho daquela imponente construção, hoje entregue à inépcia das autoridades. E lá,  ouvidos atentos escutavam a poesia de outros ambulantes. “Cocada, cocada da Bahia. Quem tem dinheiro compra, quem não tem espia. Olha a cocada, cocada da Bahia…” Eu me fartava naquela doçura incomparável.  E me digo baixinho, quem teve o privilégio de deixar uma cocada da Bahia derretar no céu da boca não tem o direito de ser infeliz.

Lá pelos oito, nove anos, ás vezes saía da escola e ia para a sede do “Jornal do Povo”, um casarão antigo.  Ficava um pouco na sala de papai, e descia, quase aos pulos, a escada que me levava ao porão onde estavam os linotipos. Clac-clac-clac os tipos (placas de chumbo com letras, sinais gráficos) estavam sendo posicionados, disciplinados e daí a pouco  impressos em folhas de jornal. Era pura magia. Na tentativa de ajudar os linotipistas, sujava  as mãos de tinta preta com cheiro forte. Agora, quando fecho os olhos para me lembrar daqueles momentos, o clac-clac-clac se espalha, inunda meus tímpanos, enquanto o cheiro da tinta preta invade meus sentidos e me devolve a doçura de um tempo de inocências. Quem teve o privilégio de sujar as mãos de tinta preta posicionando os tipos na máquina quente para imprimir um jornal combativo e ouvir o clac-clac-clac ritmado dos linotipos, não tem direito de ser infeliz.

Papai assoviava músicas de Nat King Cole. Era “Catito Mio”, “Que será, será”. Algumas vezes, cantarolava músicas do portorriquenho Perez Prado. Não me entediava com a repetição do “Mambo número 5” ainda mais sensual do que o famoso perfume Chanel usado por Marilyn Monroe para dormir. O mambo se infiltrava por minhas entranhas e, involuntariamete, me fazia dançar.

Cresci e me assalta a sensação de que ele assoviava quando estava preocupado com algum problema. Mas nunca cheguei a perguntar. Às crianças não era permitido conhecer os problemas dos adultos. Ele gostava de dançar e, quem sabe, o assovio o ajudava a ensaiar passos imaginárias. Nunca ouvi  mamãe assoviando. Ela preferia cantar.  Mas, bloqueada por um tipo de timidez que a impede de “soltar a voz na estrada”, nem sempre se fazia ouvir. Seu repertório é vasto e com ela aprendi muitas músicas belas e de rimas ricas.  Cantava boleros, mambos, músicas românticas, gostava de ouvir o Trio Irakitan que, no meu aniversário de dez anos, tocou na nossa casa. E se bem me lembro, cantaram “Aquellos ojos verdes”.

“Lindo capullo de aleli. Se tú supieras mi dolor. Correspondieras a mi amor. E calmaras mi sufrir. Porque tú sabes que sin ti. La vida es nada para mi. Tú bien lo sabes. Capullito de aleli.” Ah…essa música do cubano Rafael Hernandez me traz as mais belas lembranças. Quantos anos eu tinha? Dez, onze, doze? Não sei. Só sei que era de madrugada e acordei quando papai e mamãe chegaram do baile.

Papai assoviava e conhecia bem o repertório do cubano Rafael Hernandez. Assoviava com todas as notas da escala musical o “Capullito de Aleli”. Sem parar. Os dois pareciam felizes. Deviam ter dançado muito. Eram bailes no Clube Jaguarema ou no Grêmio  Lítero-Recreativo Português ou, simplesmente, Lítero.

Nossa casa era assim, cheia de música e um dos meus maiores prazeres era ver papai e mamãe se arrumando para ir a uma festa. Elegantes, perfumados, glamourosos, os dois provocavam admiração dos vizinhos que muitas vezes iam para suas janelas ver o casal saindo para noites de gala. E eles dançavam. Dançavam muito. E até cheiravam “rodó” (lança-perfume) no Carnaval. Não era proibido e nunca tive notícias de alguém ter morrido com uma overdose cheirando aquelas latinhas douradas da Rhodia. E sempre havia festas. Mamãe deslumbrante ao lado de papai que era vaidoso e usava camisas impecavelmente engomadas.

Além dos bailes, papai gostava de serenatas. Mais de uma vez fui acordada pelos irresistíveis violões. Mas não eram serenatas típicas porque no fim os músicos, acompanhados por meu pai sentavam-se à mesa da copa, comiam, bebiam e continuavam a cantar. Mesmo sonada, mamãe fazia as honras da casa. Não sei quantas vezes aconteceu. Não quero apostar quantas serenatas ouvi porque talvez seja traída pela fantasia infantil.

Na sala, no quarto, no banheiro, ou qualquer outro compartimento da casa,  mamãe, se não estava debruçada sobre os livros, cantava. De todas as músicas aquela que diz “Acuerdate de Acapulco de aquella noche/Maria Bonita. Maria del Alma/Acuerdate que en la playa/con tuas manitas, las estrellitas/las enguajabas….”, do mexicano Agustin Lara é a que me traz as mais desencontradas emoções. Ela também cantarolava  “Noche de Ronda”. E gostava de fados, essa música que não deixa dúvidas sobre a origem árabe do mundo português.

E quando nas longas marchas, algumas vezes solitárias, pelas matas da Amazônia,  descubro que  todos esses sons, essas músicas, os diferentes rítmos, a poesia dos vendedores de peixe, de bananas, sorvete, cocada, o radinho das empregadas, as matracas e tambores do bumba-meuboi, das folhas balançando na copa das mangueiras, tamarindeiros e abacateiros , do mar bravio ou manso, os assovios de papai, o cantar de mamãe e de vovó se impregnaram nas minhas células. E hoje distante da minha ilha, mantenho a certeza de que minha vocação para a felicidade foi moldada pelas doces sonoridades de uma infância venturosa.  E peço vênia, poeta,  mas eu era feliz e já sabia. E essa felicidade é tão profundamente enraizada que me permite sorrir das lembranças.

P.S.  Até hoje, canto ou assovio e não me incomodo em desafinar.

Manifesto

By , 22 June, 2013 8:14 am
O texto a seguir já pode estar defasado embora tenha menos de uma semana de vida. Mas o processo das ruas é vertiginoso e o que é novidade hoje pode se envelhecer em até duas horas.
O blog “Mosaico” traz hoje um “Manifesto” em forma de análise sob o olhar de uma antropóloga.
Manifesto.
HELENA M.SCHIEL*
Em vista dos acontecimentos, não posso conceber essa minha manifestação senão como um manifesto.
 
Desde o início das manifestações em São Paulo, e logo que elas ganharam corpo e notoriedade com a repressão brutal e desmedida da polícia militar paulistana, as redes sociais foram tomadas de mensagens de apoio, críticas, algumas ridicularizações, outras preocupações, de qualquer forma, ninguém mais ficou indiferente.
Um início de indiferença por ser “mais uma manifestação” foi rapidamente substituído por muitas tentativas de entender o movimento. E o Movimento, que começou organizado por uma entidade chamada Movimento Passe Livre, rapidamente deixou de ser pelo passe livre, pelos vinte centavos (ora, diriam uns, quatro moedinhas de cinco!), por algo imediatamente acessível. E deixou de ser feito por um grupo palpável. O mais desesperador, para a polícia, pala a imprensa pega de surpresa pelos antes vândalos, agora manifestantes, é que o movimento não parece ter cabeça. Levem-me ao seu chefe? Quem é o chefe?
 
Muitas velhas bandeiras ficaram desbotadas e se agora está fácil ser chamado de fascista, ninguém sabe exatamente quem é o que e está aonde. Bandeiras de partidos são hostilizadas e os hostilizados chamam isso de atitude fascista. Outra palavra que estava meio soterrada pelo tempo, burguês, e outra, reaça, também vieram à tona da parte de quem sempre esteve em manifestações (e nesses eu me incluo).
Para alguns, uma experiência nova, para outros, uma velha, mas com algo de impalpável que a torna um tanto indomável. Preocupantes infiltrados (da polícia? De onde?) fazendo real arruaça e quebra-quebra, desconfiança, hino nacional, bandeira mais o que? O que está acontecendo? E por que tanta ojeriza aos partidos?
 
Uma novidade gritante nesse Movimento é um fenômeno difuso que eu ousaria chamar de individualismo de massas. “Eu estive lá, eu vi, tirei fotos com meu celular, filmei policiais quebrando seus próprios carros, o vândalo que quebrou sozinho os vidros da prefeitura de São Paulo tinha o rosto coberto e apagou seu perfil… no facebook, estou aqui contando pra vocês, meus amigos, que replicam”. Muitos estiveram lá, e as mídias tradicionais não dão conta de acompanhar o que se passa agora: todos somos repórteres e temos opiniões e relatamos abusos da polícia, vimos gente inocente sendo presa sem mais. Há uma extensão ruas-redes que parece fora de controle, ou uma ignóbil tentativa de controle com a ousadia de tirar o facebook do ar por algumas horas na noite do 18 de junho em represália aos ataques de hackers ao blog da presidente e twitter da revista Veja.
 
Não, o movimento ainda não tem forma. Mas ele é profundamente contemporâneo e está experimentando as múltiplas formas de democracia possíveis no agora. Há múltiplos estranhamentos e múltiplas tentativas de aproveitar o potencial transformador dessa forma ainda sem forma que estou chamando de individualismo de massas. Partidos e políticos tradicionais acusados de oportunistas, atores novos, individuais, acusados de fascistas por não querer partidos. Experiências, experiências, experiências. “Reaça, saia dessa marcha”? O que estamos fazendo com a nossa democracia adolescente? Experimentando. E se o dito reaça não puder ficar na marcha, isso é democracia? E se um partidário à moda antiga com sua bandeira não puder ficar na marcha, isso é democracia? Quem somos nós que estamos na rua? Será que não há espaço para todos, com suas diferenças, nessa rua? E se essa rua, se essa rua fosse nossa?
 
Todas as tentativas de classificar ou domesticar o movimento têm sido infrutíferas. Uma única coisa é certa: nenhum esquema velho é capaz de dar conta do que está acontecendo agora. Porque ainda é (somos) uma massa amorfa que está sendo experimentada e está se experimentando. E nada é tão estimulante para quem quer mudanças do que a possibilidade de experimentação.
 
Há ainda os que, de fora, tentam encaixar no nosso referencial anterior, até mesmo chamando de hipocrisia daqueles que ontem vaiaram a Dilma e respiraram o gás que faz chorar e hoje estão desesperados para que o Brasil faça um gol.
 
Aqui entro eu de antropóloga. Preciso dizer que esse movimento tem TUDO a ver com a Copa do Mundo. A Copa é para o Brasil aquilo que um genial antropólogo francês do início do séc. XX chamou de Fato Social Total. O francês se chamava Marcel Mauss e Fato Social Total é aquele momento em que todas as instituições da sociedade estão envolvidas, são evocadas, todos os papéis sociais do indivíduo vêm a tona. Como a briga de galos em Bali, a Copa do Mundo para nós, brasileiros, envolve as instituições políticas, religiosas (quem não faz uma fezinha?), partidos, indústria (né, cerveja?) rede de amigos, família, rede de vizinhos, comércio (quem nunca comprou uma televisão nova porque ia ter jogo?), tudo. E aquele que recusa, foge por mato e não assiste nenhum jogo, está inteiramente inserido no fato social total como aquele que recusa a Copa do Mundo “como é que eu posso ler se eu não consigo concentrar minha atenção? Se o que me preocupa no banheiro ou no trabalho é a Seleção!”, diria Raulzito.
 
O que vivemos nos últimos vinte anos? A estabilização da economia após experiências dolorosas para a população em geral, a ascensão de uma experiência nova de governo com o que conhecíamos como esquerda, o esfacelamento das nossas referências sobre o que achávamos que era essa esquerda (as Ilusões Perdidas), a massificação do ensino fundamental e médio, junto com uma abertura de portas ao ensino superior [não pretendo emitir juízos de valor sobre a qualidade dos mesmos, apenas enunciar os fenômenos], a massificação do acesso a estruturas básicas como água, luz e esgoto, o acesso a bens de consumo de uma parcela da população que era antes relegada ou lembrada em períodos de eleição. Paralelas a essas mudanças, a tecnologia de informação trouxe uma modificação enorme na maneira das pessoas se comunicarem.
 
Isso inclui o que agora chamamos de redes sociais. A televisão – agora para todos – não é mais a fonte da verdade e as mídias tradicionais ainda não encontraram uma forma de se adaptar a essas tantas mudanças. O resultado é que as redes sociais hoje em dia funcionam como um clipping espontâneo em que todos compartilham de tudo um pouco e cabe a cada um, se quiser, selecionar qual deles vai ler (ou, se quiser, postar sua própria foto diante do espelho) e isso funciona como um acesso à própria imprensa tradicional assim como à blogosfera. Essa última, sem as redes sociais, não teria o impacto que tem.
 
Voltando ao agora: um movimento que começou pequeno (dele só ouvi falar por amigos auto-declarados anarquistas) e rechaçado em seu primeiro momento pela maioria das pessoas e essencialmente pela mídia, encontrou o temor dos governantes de que viesse a estourar diante da nossa vitrine, a Copa. Ainda não é a do mundo, mas é o ensaio geral para ela: a das Confederações. E resolveram reprimir de uma forma brutal algo que era inicialmente pequeno e objetivo. Há quem creia em conspiração contra um partido, há quem atribua ao outro lado o “problema”. Como diz um mote de Raul Seixas, “é sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”. Pouco importa. Importa que os desavisados foram empurrados a golpes de cassetete, apesar de sua indiferença, para dentro do movimento e de repente ele é um movimento de todos.
 
E de repente, na esteira do “não me representa”, mote que ficou famoso depois do anacrônico pastor evangélico que assumiu a presidência de uma comissão de Direitos Humanos, de repente ninguém me representa. Há algo de profundamente anárquico, e por isso potencialmente prenhe de algo novo, no individualismo massificado do “não me representa”. E àqueles que ainda se estão agarrando aos esquemas velhos para explicar o momento, desde os “sabotagem ao PT”, os “vandalismo de baderneiros”, aos “fascismo anti-partidos”, uma tentativa particular (porque aqui também sou eu, indivíduo me dirigindo a algum você, indivíduo) de ir além do “não me representa”, digo-lhes, como na música do Belchior: o novo sempre vem. (e que bom estar vivendo esse momento)
 
É o que faz desse texto um manifesto. Sim, estamos todos experimentando e nesse momento nada parece nos representar. Deposito aqui minha confiança, ou esperança, de que consigamos nós – indivíduos sim, porque é esse o Zeitgeist, o espírito do tempo em que vivemos e negá-lo é infrutífero – dar à nossa forma amorfa, nas trincheiras de ruas ou de teclas, algo de novo, não apenas na representatividade, mas na maneira que exigimos daqueles que nos representam. Exigimos o quê? Não, não se trata de quebrar tudo e ver o que se faz com os cacos. É de consolidar nossa democracia. E isso significa exigir seja nas fronteiras pequenas de municípios ou vizinhanças, seja na estrutura maior, federal, a participação de todos (ou todos os interessados) nas gestões: 1) na qualidade do ensino, esse que já é quase universal, na 2) valorização dos profissionais que nos servem, professores por exemplo, na 3) qualidade do transporte público – e aqui meu adendo contra as soluções anti-indivíduo e pró-consumidor de automóveis: alargamento de pistas e isenção de impostos para equilibrar números da economia não nos representam! Transportem pessoas e não automóveis e aí vocês nos representarão; na 4) transparência em execução de obras públicas; na 5) qualidade da saúde pública que sim, é atenciosa, mas não, não é nada ágil e prioriza a indústria farmacêutica em vez da prevenção; 6) respeito às diferenças, sejam elas de opção religiosa, orientação sexual, pertencimento étnico; 7) respeito ao direito de manifestação, oras! As bandeiras são velhas? Sim, parecem velhas, mas o momento é novo. A Copa do mundo realizada no Brasil é sim um momento de lutas novas. Estamos falando de união em torno de causas comuns e consolidação da nossa democracia. Sim, o MPL me representa.
 
Continuemos a experiência!!!!
 
Aos que querem calar os outros, minha frase preferida de Voltaire: “Não concordo com uma palavra do que você diz. Mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la”.
 
 
Com saudações ao rapaz que se auto-denominou playboyzinho e descobriu na manifestação que era de união que se tratava.
Helena Moreira Schiel.

*Antropóloga

QUANDO OS CORONÉIS TREMERAM…

By , 5 May, 2013 4:58 am

DAVID YANOMAMI ÍNDIO KARAJÁ Mário Juruna_thumb[3] raoni_trocadero

QUANDO OS CORONÉIS TREMERAM

Memélia Moreira

(Segue aqui minha homenagem a líderes indígenas que escreveram e ainda escrevem a história da resistências dos povos dominados: Mário Juruna, Raoni, Aniceto Tsvadzére, Celestino Xavante, Arutana, Modesto Terena, Maluwaré, Híbes Menino, Bedjai, Kokrid Panará, Ângelo Kretã, David Kopenawa Yanomami, Krumari, Marçal Tupã-í, Kremuro, Pio Suruí, Getúlio Krahô, Pio Tapirapé, Daniel Matenho Cabixi, Álvaro Tukano, Marcos Terena. Todos eles, em algum momento,  frequentaram minha casa e me deixaram um legado para a vida.)

Já é madrugada de uma fresca primavera nessa tórrida Flórida, que flerta à distância com minha América, a América do Sul, piscando seus olhos de cobiça sobre o Caribe. Entre saudades das filhas e neta, da família e dos amigos, leio as notícias da recente ocupação do canteiro de obras da faraônica barragem de Belo Monte. A repressão, a censura, a tentativa de esmagar povos que defendem sua própria sobrevivência e a sobrevivência do planeta me fazem lembrar tantas outras resistências e o dia em que os coronéis da ditadura tremeram. De medo.

Era noite de domingo, quatro de maio de 1982. Estava em casa com minhas filhas, ainda crianças, quando o telefone toca. Do outro lado da linha uma voz conhecida diz “venha aqui pra casa agora. Temos uma reunião de emergência. E você vai ter que viajar hoje à noite”. Respondi ser impossível porque não tinha com quem deixar minhas filhas. E então a voz, responde “estamos mandando alguém para ficar com as meninas”.

A reunião era na casa de Cláudio Romero, antropólogo e indigenista. Um combatente. Havia outros indigenistas e funcionários na Funai. Conspirávamos. Foi quando decidiram ser eu a “pessoa certa” para uma missão delicada e quase arriscada. Fui designada, por ser jornalista de um importante veículo (Folha de São Paulo), a escoltar um ônibus que transportava 60 índios do povo Xavante. E eles estavam pintados de vermelho. Só exigi levar o fotógrafo que sempre me acompanhava. Concordaram. Embarquei no bravo fusquinha AD-1715, sem carteira de motorista, documento que só tirei depois dos 50 anos. Sem mapa, porque conheço os caminhos que me levam à Amazônia, segui viagem.

Já era tempo de frio nos sertões de Goiás. O encontro foi marcado no trevo de São Luís dos Montes Belos. E lá nos esperava o saudoso Antonio Moura, jornalista do Porantim.

A madrugada  esfriava cada vez mais. O jeito era recorrer a uma cachaça para não congelar dentro do carro.

Ser mulher e ter a ousadia de entrar num restaurante de beira de estrada, às 3 da manhã para pedir uma “azuladinha” é igual brincar na montanha-russa. Mas, alertada por Guimarães Rosa, sei que viver é perigoso. Muito perigoso. Tomei uns goles e até exorbitei,  puxando conversa no balcão.

Pelas quatro da manhã, surge nosso ônibus. O fotógrafo dormia no carro, Moura tentava se concentrar na matéria que escreveria, enquanto eu fumava um charuto, planejando o quê dizer se fôssemos interceptados pela Polícia Federal. Foi para essa tarefa que me convocaram. Tinha que levá-los a Brasília. E cumpriria a missão.

Extasiada com o espetáculo do alvorecer, que nos sertões do Goiás na época da seca leva qualquer um à poesia,  acompanhei o ônibus. As barreiras policias de um país sitiado pela ditadura não se movimentaram. Chegamos a Brasília por volta das sete da manhã. O destino era o centro de estudos mantido pelos jesuítas, ao norte da cidade.

Voltei para casa. Precisava tomar um banho, sentar à mesa do café da manhã com minhas filhas e, descansar um pouco. Foi pouco mesmo. Elas foram para o parquinho. Às nove da manhã, quando mal começava a dormir, o chefe de redação do jornal telefona: “Memélia, vá direto para a Funai. Os índios cercaram o bloco A do Setor de Autarquias Sul. Há um batalhão de choque da PM. Mas, toma cuidado.” Que saudades dos chefes que tanto me conheciam.

Em menos de 15 minutos e com uma xícara de café forte na mão, já estava no fusquinha. E nem precisava me apressar. Afinal de contas, só Antonio Moura, e eu, tínhamos  a história completa. Mas  jamais perderia um minuto daquele dia.

O prédio borbulhava. Na calçada da entrada principal, 180 policiais militares com capacete, escudo, cassetete, armas no coldre, esperavam a ordem para atacar. Lá dentro, o pandemônio.

Aos 60 xavantes se juntaram mais 40 de 16 etnias diferentes. Pankararu, Makuxi, Suyá, Karajá, Kaingang, Terena, Nambiquara, Trumai, Parakategê, Guarani, Kaxinawá, enfim, todos os índios que estavam em Brasília reivindicando seus direitos se uniram naquele momento de resistência.

O presidente da Funai era o coronel João Carlos Nobre da Veiga. Naquele mesmo ano ele foi envolvido no escândalo da Capemi (lembram do caso Baumgarten, do travesti Polica e do coronel Newton Cruz? Pois é) e na venda ilegal de madeira derrubada para a construção da farônica e inútil hidrelétrica de Tucuruí. Nobre da Veiga presidia a Funai, vendia madeira de terra dos índios, ia a Paris dançar bolero no “Le 78”  e ainda comandava outros 19 coronéis todos com altos salários empoleirados em “funções de confiança”.

Do seu time, figuravam os coronéis da Aeronáutica, Roberto Guaranys, do grupo  que queria explodir o Gasômetro do Rio de Janeiro. A explosão serviria para  endurecer o poder militar que  vinha perdendo suas forças. E também o coronel Ivan Zanoni Hausen, conhecido como “doutor da mata” nas sessões de tortura contra os guerrilheiros do Araguaia. Um circo de horrores.

No oitavo andar, ocupado pela Funai, gavetas eram esvaziadas, processos do DSI  (Departamento de Segurança e Informação) rasgados e atirados pela janela. Os muitos servidores que eram subservientes e cúmplices dos coronéis se encostavam pelas paredes, olhos arregalados de medo, sem bússola, sem proteção dos chefes, sem saber o quê fazer.

Com pouco mais de um metro e meio de altura e medalha no peito por ter combatido nos campos da Itália durante a II Guerra Mundil, o coronel Nestor  andava de botas de montaria dentro da Funai. Sem qualquer razão específica agredia índios, jornalistas e qualquer um que se atrevesse a cruzar seus passos barulhentos. Ele foi içado por quatro índios. Carregando o coronel, entoavam a contagem regressiva. “3..2…”  Iam jogá-lo pela janela. Cheguei no exato momento em que o coronel, com voz de caniço rachado e chorando, gritava pedindo ajuda. “Ezequias, Ezequias, me socorre”. Ezequias era nada menos do que meu querido amigo. O  Xará de todos nós, um resistente que, por sua generosidade e senso político, evitou a  cena com uma cabeça de coronel virando farinha suja de sangue no asfalto do estacionamento…

Eu subia e descia os oito andares do Bloco A. Cheguei à porta principal e o coronel Hausen, cabelos eriçados, em total desespero, me pergunta, “o que é que se pode fazer”. Com o mais singelo sorriso (e uma vontade imensa de dizer “que se danem vocês”) respondi, “só resta negociar, coronel”.

Rodeado por seus seguranças, Nobre da Veiga, o presidente, homem irritadiço que quando perdia a paciência puxava a perna da calça até chegar à altura do joelho, e depois desenrolava até o tornozelo, ouve o coronel Hausen e pergunta se eu podia ajudar. Assumo imediatamente a famosa “neutralidade jornalística” e digo, “coronel, não posso fazer nada. Vim aqui só para fazer matéria para meu jornal”.

Que maravilha devolver aos dominadores os mitos que eles criaram para sufocar os povos que se levantam!

Os boatos começam a circular. “Mandaram prender Cláudio Romero”. Ou, então “Odenir está preso”. Odenir Pinto de Oliveira é  indigenista, apelidado “Xavantão”. Xavante mesmo. Mestiço. Criado em aldeia, fala a língua do seu povo tão bem quanto fala a língua portuguesa.

Já perto de meio-dia, o chefe xavante Aniceto Tsvadzére vai ao encontro dos policiais. Para em frente de cada um e diz as mesmas palavras. “Quando nós recebemos vocês na nossa terra, nós não mandamos guerreiro com arma para assustar vocês. Estamos aqui só para lutar pelos nossos direitos”. E apertava a mão do soldado. Foram 180 aperto de mãos. Aniceto era o diplomata do seu povo.

A situação continuava em descontrole. A essa altura, a imprensa internacional já subia e descia as escadas, câmeras no ombro, pedindo tradução das palavras de ordem, também assustados com os gritos e os corpos dos índios pintados de urucum.

Odenir e Cláudio Romero chegam. Para não receberem voz de prisão, entram protegidos por deputados do PMDB. Dante de Oliveira, que depois apresentou a emenda constitucional pelas eleições diretas para presidência da República, vinha na frente do grupo. Todos de braços dados.

Faz-se a negociação.

Volto para minha Olivetti e descrevo, com detalhes, o  dia que começara na noite de quatro de maio e se estendera por todo o dia 5. Matéria de primeira página de todos os grandes jornais do país.

Vou para casa levando cinco índios que passaram a noite tramando a nova ocupação. Ela aconteceria menos de 12 horas depois.  Minhas filhas dormiram na minha cama, aconchegadas ao meu corpo para matar as saudades da mãe sempre ausente. E, na biblioteca, armamos redes para os hóspedes insones.

Aquela foi a primeira ocupação de uma propriedade do Governo. Uma ação inédita que depois se repetiria pelo Brasil ao longo das resistências.

Por que será que tantas lembranças turbilhonam minha cabeça nessa madrugada de cinco de maio? Por que não jogar essas lembranças no fundo da arca? Porque Belo Monte, essa hidrelétrica planejada pelos ditadores do regime militar e executada por um Governo que prometia mudar a história dos povos deserdados, é a refilmagem de um momento que vivi e que se repete como um pesadelo contínuo. Porque as cenas da ocupação dessa obra criminosa, que vai destruir meu mágico Xingu são o testemunho mais vivo de que a luta na defesa da sobrevivência humana será prolongada. E só derrotaremos o seleto grupo de convidados para o banquete quando as palavras de Giuseppe Tomasi, duque de Palma, príncipe de Lampedusa, – “se queremos continuar como está, vamos mudar para que nada se transforme”- , enxovalhada pelo excesso de uso, seja atirado ao lixo não-reciclável da História. Caso contrário, o desabafo feito por David Yanomami, perplexo e triste, sentado no sofá da minha sala será citada como profecia: “Eles fazem tanto buraco no chão para buscar ouro que um dia a terra vai cair porque a riqueza do fundo da terra é que segura o mundo para não despencar tudo”.

PAPAI, CHICO MEIRELES E OS GAYS

By , 30 April, 2013 11:14 am

PAPAI, CHICO MEIRELES E OS GAYS

Memélia Moreira

Papai se chamava Geraldo Guimarães Moreira. Era boêmio, libertário amoroso e dava o sangue e a alma pelo “Jornal do Povo”, fundado por seu irmão, meu tio, Neiva Moreira, em 1950 e   fechado dias depois do golpe de abril de 1964. Papai nasceu em 15 de janeiro de 1920, na cidade de Barão de Grajaú, no Maranhão.  Morreu em janeiro de 1971.

Francisco Meireles era amoroso, libertário, não sei sobre suas boemias, sertanista, entregou a vida aos índios. Nasceu em 21 de fevereiro de 1908, na cidade do Recife e morreu em junho de 73.

Não me debrucei sobre os vícios e defeitos de nenhum dos dois. Nem me interessa. Guardo deles lições de vida que me moldaram e hoje são importantes para que eu assuma algumas bandeiras atuais.

Antes de mais nada, me apresento. Nasci em 23 de outubro de 1947, na cidade de Boa Vista, capital de Roraima e cresci entre Rio de Janeiro, São Luís do Maranhão, minha paixão, e Brasília, paixão igual.  Sou jornalista, libertária, de formação intelectual errática. Hoje leio István Mészaros e em seguida, abro Marie Claire, Vogue ou Elle e mergulho intensamente nas frivolidades ditas. Tenho paixão por Machado de Assis, Marcel Proust, Dostoievsky. Baudelaire, Bandeira Tribuzi, Sousândrade, Rimbaud, Pepetela, Mia Couto e tantos outros. Os amigos dizem que sou generosa. Pode ser. Dos meus defeitos, eu sei. Sou impaciente com pessoas neutras, intolerantes de qualquer natureza, mal-humoradas e, principalmente com aquelas que carregam o que chamo de “pollyanismo’, essa mania de acreditar que tudo está bem e querer agradar todo mundo o tempo todo. Bato de frente com quem se escuda atrás de qualquer religião, mas rezo sempre que me lembro. E, antes que me esqueça: heteroessexual bem resolvida.

Que traços em comum teriam Papai, Chico Meirelles e os gays.  Calma, mais adiante vocês vão saber. E se alguém estiver esperando por um tratado sobre gays, esqueça. Não tenho nenhuma tese sobre o assunto e nem sei citar os clássicos que tentam explicar porque um homem ou uma mulher é homossexual. Acho que a natureza, os fez assim. A mim me basta essa certeza.

Estou escrevendo tudo isso porque fui provocada por uma história contada por um jornalista de quem gosto muito. Chama-se Carlos Marchi.  Há dias ele postou no Facebook, esse grande ponto de encontro, militâncias, onde se debate desde o mais recente botox da Esplanada dos Minsitérios, passando pelas piadas, poesias, manifestações governistas e anti-governistas, intrigas políticas nacionais e internacionais e, principalmente, assuntos da ordem do dia uma pequena notícia.

Pois bem, Carlos Marchi nos conta história que aconteceu num parque público em São Paulo. Dois homens se beijavam na boca e uma criança assistiu a cena. Curiosa, como devem ser as crianças, perguntou à mãe o significado da cena. A mãe, sem responder, pegou o filho e se afastou correndo do beijo. Marchi disse que não saberia responder a pergunta se ela fosse feita por um filho seu. E eu sugeri ao meu amigo que a mãe respondesse apenas, “ele se beijam porque querem se beijar”. Nada mais simples.

Meus questionamentos me importunavam. E eu me dizia, que sorte a dessa criança e de sua mãe. Nenhum dos dois viveu o tempo em que o beijo público entre um homem e uma mulher também era uma cena vamos dizer, imoral, escandalosa. Nem precisa ir muito longe. “Cinema Paradiso” me resgatou. A herança deixada por Alfredo, que juntou no mesmo celulóide todas as cenas de beijo, entre um homem e uma mulher, cortadas pela censura religiosa de uma Itália da primeira metade do século XX me deu um alívio sobre a evolução da humanidade.

Mas os neuroniozinhos ainda não estavam satisfeitos. A história e a tentativa de montar a cena do parque continuavam beliscando meus pensamentos. E então, um filme, sem celulose, me transportou à minha infância tão rica em experiências. E, também, aos aprendizados que o Jornalismo me concedeu.

Era final dos anos 50, eu andava aí pelos 11, 12 anos, na minha ilha de São Luís, chamada de “Ilha dos Amores” ou, “Ilha Rebelde”. Seu Frauzino era um líder da comunidade do Sacavém, bairro proletário.  Negro retinto (no Maranhão, a pele negra tem vários tons: “negro retinto”, ou seja, puro; o “Roxinho”, com aquela tonalidade de pele comum aos indianos, paquistaneses; “Mulato claro”, ‘Mulato escuro” e outras subdivisões das quais já me esqueci), e olhos amendoados, ele era também nosso cabo eleitoral.

Um dia, alguém contou ao Papai que seu Frauzino, figura que frequentava muito nossa casa, era “maricas” (denominação socialmente aceita para denominar os “qualiras”, regionalismo maranhense para gays). O assunto foi lembrado na hora do almoço. E Papai, aquele homem que nasceu na segunda década do século XX apenas respondeu, “Isso não interessa. E daí, muda alguma coisa? Ele não é homem, nem mulher, ele só é diferente. É assim. E, pronto”. A discussão morreu. Não para mim que a guardei em alguma gaveta da memória.

Nos início dos anos 70, já com meus 24, 25 anos, convivi de perto com o sertanista Chico Meireles. Tenho dele grandes lembranças de ensinamentos que só depois de madura percebi a grandeza do que aprendera. Lembro de Chico Meireles deitado na rede num apartamento modestamente mobiliado na 205 Sul, em Brasília. Jornais espalhados pelo chão e o cheiro da caldeirada de peixe que borbulhava na cozinha integram essas lembranças. Ali, entre jornais e goles de cachaça, se escrevia a história de alguns dos povos indígenas da Amazônia, principalmente a da nação Xavante.

Seu Chico participou de muitas frentes de atração de índios sem contato com a sociedade nacional.  Era sertanista desde os tempos do SPI (Serviço de Proteção aos Índios) e se aposentou pela Funai.

Numa dessa frentes de contato, estava com seu filho Apoena Meireles e seu genro, Ezequias Heringer, o “Xará”. Filho e genro também sertanistas. Xará foi meu querido amigo desde a adolescência até meus 40 anos, quando um acidente de carro o matou. Era meu confidente, pai, irmão. E brigávamos muito. Muito mesmo. O machista mais carinhoso com quem convivi.

Da frente de atração, além de Chico Meireles, Apoena e Xará, havia um indigenista apelidado “Campinas”. Gay.

Um dia, em plena floresta, nas proximidades do rio Peixoto de Azevedo, Mato Grosso, terra dos Krena-Karore (Panará), Xará e Apoena chegam esbaforidos perto da rede de seu Chico e contam, indignados e atropeladamente, que Campinas, o indigenista gay, “estava comendo os índios”. E eles não falavam exatamente de canibalismos.

O velho Chico, mais indignado ainda, senta-se na beira da rede e pergunta: “Apoena, o cu é seu?”. Apoena, já de cabeça baixa, responde “Não”. Vira-se para “Xará e refaz a pergunta, “Xará, o cu é seu?”. Quieto, mas trincando os dentes, Xará responde “Não”. E aí aquele homem que nasceu no começo do século XX, deu a lição: “O cu é dele. Vocês dois não tem que reclamar de nada. Deixem o Campinas em paz e não me encham o saco”. Era assim, seu Chico Meireles.

Agora, já nos meus 65 anos aquela lição de respeito ao outro que esses dois homens me deram em épocas tão diferentes da minha vida me devolvem à criança do beijo. E não mais acredito que ela é uma criança de sorte. Vai atravessar o século XXI sem ter  vivido a oportunidade de receber uma aula  de respeito quando viu dois homens se beijando. E lamento mais ainda pela mãe do garoto que jamais entenderá as tantas variedades de amor manifestadas pelo ser humano.

Marchi, meu amigo, eu te agradeço muita aquela postagem. Tu reavivastes momentos esquecidos.  Até agora nem eu sabia a razão pela qual defendo a bandeira dos gays. Não é apenas porque minha militância política está sempre a postos para lutar em defesa dos discriminados de um modo geral. Mas porque, no passado, dois homens tão diferentes entre si imprimiram em mim a noção da alteridade. E, mais ainda, a respeitar essa alteridade.

Que se beijem todos!

Que se beijem homens e mulheres, mulheres e mulheres, homens e homens, anjos e demônios, todos. Eu prefiro vê-los aos beijos que entre quatro paredes construindo bombas ou planejando a destruição do planeta que me serve de moradia. E   porque, canta o poeta…

 

“…Eles amaram de qualquer maneira, vera

Qualquer maneira de amor vale a pena

Qualquer maneira de amor vale amar

 

…Qualquer maneira de amor vale aquela

Qualquer maneira de amor vale amar

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Qualquer maneira de amor valerá”

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