GENOCÍDIO CONTINUADO. PIROTECNIA RECICLADA. by Memélia Moreira.

By , 2 February, 2023 1:34 pm

As imagens dos corpos semi-mortos de pessoas do povo #Yanomami que causaram horror e indignação ao redor do mundo me trouxeram de volta o horror que vivi ao lado desse povo durante outro pico de massacre, acontecido há exatos 33 anos . Não precisei ver as imagens porque eu as vivi. Carreguei em meu braços os corpos de adultos e crianças que chegavam em voos continuos de helicópteros na aldeia Paá-Piu vindos de diferentes aldeias. Eles pesavam menos de 30 kg. Não pareciam mais humanos. Eram esqueletos que respiravam com dificuldades.

Era a Nova República, governada pelo presidente José Sarney que estava passando o comando para seu sucessor, FernandoCollor.

E não me falem em números. É absolutamente ridículo dizer que morreram 722 crianças/adultos. De onde tiraram esse número? Percorreram todas as aldeias? Fizeram um censo antes para saber quantos Yanomami existem? Ou é número cabalístico? Isso é ridículo.

Ora, me poupem.

Não tenho fotos minhas naquela situação porque nunca fui personagem. Sou e serei sempre apenas testemunha da História. Era janeiro de 1990. Outro dia, se pensarmos em tempo histórico.

As cenas de 1990 apenas repetiam uma outra situação de massacre, acontecida quando o Estado brasileiro começou a construir a Perimetral Norte. Uma aldeia inteira devastada. Naquela, pudemos contar os mortos. Entre adultos e crianças, foram 68. Tropeçávamos em ossadas vivas no meio da mata. Nas redes, olhos sem cor pareciam nos perguntar o que estava acontecendo. Eles não sabiam. Apenas morriam de fome porque foram infectados por gripe levada para o território indígena pelos trabalhadores da construtora Camargo Correa, encarregada de abrir os buracos na mata e construir aquela estrada sem sentido, sem rumo, sem necessidade. Morriam de fome porque a fraqueza da gripe lhes impedia buscar alimentos na mata. E a caça fugira com o barulho dos tratores que rasgavam a floresta. Secaram rios com terraplanagens pagas a preço de ouro enriquecendo a conta bancária da construtora. O massacre aconteceu naquele ponto onde a savana se transformaa em floresta, a Floresta Amazônica que, poucos anos depois era apenas um areal coberto de árvores fantasmas. Isso era 1972/1973. O auge da ditadura militar, na época comandada por um facínora de olhos miúdos chamado EMILIO GARRASTAZU MÉDICI.

Três anos depois, em 1976, mais de três mil garimpeiros comandados por Altino Machado, laranja dos grandes grupos capitalistas que, longe, bem longe dali ditavam a vida e a morte dos índios. Os três mil garimpeiros invadiram a Serra das Surucucus de forma ordenada dias depois que o governador de Roraima, CORONEL FERNANDO RAMOS PEREIRA ter anunciado em Brasília ao seu comandante, general ERNESTO GEISEL, a descoberta de urânio na serra.

“Na minha opinião, uma terra rica como essa não pode ser dar o luxo de conservar meia dúzia de tribos indígenas atravancando o desenvolvimento”, disse o coronel. 24 horas depois, foi se desculpar porque a repercussão internacional foi imediata. Em menos de uma semana, o exército de garimpeiros invadia a terra indígena extamente no ponto que os Yanomami consideram sagrado, a Serra das Surucucus.

Acreditava nunca mais enfrentar cenas semelhantes. Mas os sinais de que elas estavam esperando o momento de acontecer eram dados mês a mês. Num dia, a notícia da entrada de 200 garimpeiros na terra indígena. No outro, índios sendo mortos por garimpeiros que já contavam com apoio das organizações criminosas (braço do PCC e milícias), num terceiro, meia página de jornal contando que as meninas Yanomami trocam sexo por um prato de arroz e feijão.

E chegou o inominável presidente Bolsonaro. Não vou me perder na busca de adjetivos para classificá-lo. Ele jurou os índios de morte. E cumpriu a promessa com a ajuda de uma mulher chamada Damares Alves, figura perversa e sexualmente pervertida, agora senadora da República. O grupo dos inatingíveis. E não apenas ela. Mas com seu séquito de militares que faziam e continuam fazendo vista grossa tanto para o comércio ilegal de ouro quanto para o narcotráfico que despeja toneladas de cocaína que vão chegar aos mercados das cidades brasileira e levam de volta quilos e mais quilos de ouro.

A situação é conhecida das autoridades militares e civis. E é conhecida há bastante tempo. Não há surpresas nessa nova tragédia.

Sou leitora ávida de livros da História do mundo. Conheço genocídios praticados desde Alexandre o Grande, em sua luta imperial para conquistar o Afeganistão, conheço genocídios perpetrados pelos imperialistas franceses e ingleses na África e Ásia. Conheço também o genocídio do povo judeu e cigano praticado pelo estado alemão comandado por Hitler. Conheço em detalhes o genocídio ao qual o povo armênio foi submetido pelo Estado turco, no começo do século XX.

Todos esses genocídios – à exceção do genocídio palestino praticado pelo Estado de Israel desde o final dos anos 40 – tem começo, meio e fim.

Mas o genocídio Yanomami, que se iniciou há mais de século é o único genocídio continuado na História do Ocidente. E é o mais cruel de todos porque o povo-alvo já no século XX ainda estava na idade da pedra polida. Desconheciam arma de fogo, desconheciam a gripe, desconheciam a fome, a prostuição, a bebida alcóolica e acreditam que os metais que estão sob a terra por onde perambulam caçando e coletando seus frutos, são apenas os pilares que sustentam o planeta.

Daí a crueladade da nossa civilização.

Dito isso,quero lhes informar que nunca tive partido político. Minha vida inteira foi na luta em defesa do dominado contra o dominador. Não sou de aplauso fácil. Não me deixo enganar por palavras de ordem ditadas por propagandas enganosas. Tenho apenas dois compromissos na minha vida, minha família e a defesa dos dominados.

E chegamos ao recente massacre. Fiquei satisfeita com a pronta reação do Estado brasileiro assumindo medidas emergenciais que podem dar sobrevida a esse povo que hoje morre de fome e bala.

Mas isso é pouco. Ou melhor isso é apenas aspirina para tratar de um câncer.

Se quiserem mesmo liquidar o garimpo, a investigação vai ter que ser longa, acurada e, sobretudo, cortando a própria carne do Estado. Para começo de conversa aviso que a opção não é fácil.

Elementos para iniciar as investigações estão sob o poder do Estado. Dorme em alguma gaveta da Comissão da Verdade instalada no governo de Dilma Roussef um documento entregue nas mãos da presidente da comissão, Maria Rita Kehl com os nomes dos donos de garimpo. São figuras conhecidas. São militares, são agentes da Polícia Federal, são grandes empresários que financiam campanhas, são políticos aliados do atual governo e dos governos anteriores. Até hoje não entendi a razão pela qual esse documento entregue em 2014 nunca veio a público. Não entendi ou entendi demais. Ali estavam militares de alta patente. Foram poupados pela Comissão porque, talvez, e digo um talvez com quase certeza, de amigos dos investigadores.

Se quiserem fazer a coisa certa devem abrir mão da sanha de poder pelo poder. Que tal começar pelo ex-líder do governo de Lula, o ex-senador e ex-presidente do PMDB, ROMERO JUCÁ. Suas digitais estão em cada um dos mais de mil mortos do massacere de 1989/1990, quando foi governador de Roraima e abriu o território indígena para mais de 30 mil garimpeiros. Nos corpos mortos ou semi-mortos estão as digitais dos comandantes do Projeto Calha Norte na Serra das Surucucus, não por acaso, a região mais invadida pelos garimpeiros.

Não adianta apenas a perseguição dos garimperios. Eles são o lumpensinato, a ponta mais miserável da sociedade brasileira. Garimpeiros não tem dinheiro para comprar as dragas que que estão escavando os rios Uraricoera, Branco, Mucajaí e outros. Os garimpeiros não tem dinheiro para comprar trator de esteira e derrubar a mata para construir mais um campo de pouso e decolagem na mata. Os garimpeiros são os soldados da miséria e explorados até suas últimas forças. Eles são alvo porque não conheço na História do Brasil, nenhum governo com força suficiente para enfrentar essa selvageria capitalista. Não. Mas conheço bem a sede de poder de todos eles.

E, antes que eu me esqueça, fechar o espaço aéreo do território Yanomami tem cor e cheiro de pirotecnia. A mesma pirotecnia usada no governo Sarney explodindo as pistas usadas pelos garimpeiros. Era um show. Estive em várias dessas operações, ROMEU TUMA, diretor-geral da PF, sorria feliz com as explosões

Fechar o espaço aéreo daquela fronteira difusa em plena selva mais parece política para europeu ver. Há quem bata palmas. Afinal de contas todos se embevecem. É a sociedade do espetáculo. AVISO: isso é apenas pirotecnia reciclada.

Passado o surto de indignação, aposto que em quatro meses ou até menos, o exército de miseráveis voltará à área.

Mas aí, o espetáculo será outro. Talvez com mais atrações.

P.S. Só para lhes dizer orgulhosamente que a campanha pela demarcação do territória Yanomami, as estratégias para ver aquele povo dono de seu próprio território aconteceram na mesa da cozinha da minha casa. Eram debates intermináveis com duas figuras heróicas na defesa do povo Yanomami. Estou me referindo à grande CLÁUDIA ANDUJAR e ao antropólgo BRUCE ALBERT, além do querido missionário CARLO ZACQUINI.

OCULTAÇÃO DE CADÁVER, DIPLOMATAS, ESPIÕES

By , 14 June, 2022 2:27 pm

OCULTAÇÃO DE CADÁVER, DIPLOMATAS, ESPIÕES

A tragédia do Javari, onde desapareceram, para sempre, o indigenista Bruno Araújo e o jornalista Dom Phillips, carrega todos os ingredientes para um filme “baseado em fatos reais”. Naquelas bandas, onde a floresta chega a ser assustadora e soturna, personagens dignos de um OO7 tropical se tropeçam em informações verdadeiras, contra-informações, ocultação de cadáver, diplomatas, espiões da rainha, ABIN, índios de diferentes nações, alguns amedrontados porque o Estado brasileiro quando aparece é para reprimir ou ameaçar, e até jornalistas esperando e acreditando que as autoridades serão bondosas para lhes dar “um furo” que os leve à glória. Enfim, o roteiro ideal para uma produção cinematográfica.

Vamos começar pelos personagens.

DIPLOMATAS

Quando Alessandra Phillips atendeu o telefonema lhe dando a informação de que o corpo de seu marido fora encontrado, não era trote. Do outro lado da linha estava nada mais, nada menos que o diplomata Roberto Doring e não “um funcionário” como divulgou o Itamaraty. Doring não é de esquerda. É um direitista de ampla circulação nos meios políticos. Trabalhou no gabinete de Antonio Patriota, ministro das Relações Exteriores no governo de Dilma Roussef. Ou seja, uma pessoa altamente bem informada sobre problemas nacionais e internacionais, que é para isso que se educam os diplomatas. Depois foi assessor de Michel Temer.

Para quem conhece os intrincados meandros da corte brasiliense, ser assessor do presidente da República mesmo sendo este um impostor ou um ditador, abre as portas das salas escuras onde se conspiram o inimaginável, abrem possibilidades de conhecer os grandes espiões das embaixadas de países amigos, enfim, gregos, romanos, turcos, o que quer seja, está nesse grande balaio. E, nesse ambiente, informação é a mais preciosa das moedas.

Roberto Doring é o segundo na embaixada do Brasil em Londres. Acima dele só está o embaixador Fred Arruda que, inclusive foi cotado para ser ministro das Relações Exteriore, antes mesmo do desastrado Ernesto Araújo.

Doring jamais e repito, jamais, teria cometido esse erro de ligar para Alessandra Phillips para lhe dar essa notícia. se não tivesse uma informação sólida. Ele é só de direita. Não é um doidivanas. Ele estava informado. Bem informado. Não pela PF, obviamente. Mas há outras hipóteses. ABIN? Espiões do MI 6? Sim esses espiões levam vida tranquila nos pontos-chave do país. Amazônia, Rio, SP, Brasília.

POLÍCIA FEDERAL

Aí se instala o grande nó. A PF está numa saia justíssima, sem elastano. Ordens estritas de só passar as informações ao ministro da Justiça e para o presidente da República. Filtradas essas informações, elas são distribuídas para a imprensa.

Podem observar que todas as informações dos jornais são semelhantes. Nenhum jornal tem informação diferente. E isso não é bom sinal. Mas há jornalistas correndo por fora. Esses também recebem as informações filtradas, mas fazem suas próprias investigações. São lobos solitários que mutas vezes se confrontam com ameaças e vão em frente. Dom era desse time. E há mais de um desses na área da tragédia. De todos os personagens, a Polícia Federal está na situação mais delicada porque, quando lá na frente esse cipoal for desvendado pela História, eles podem ser acusados de ocultação de cadáver. E não acredito que todos eles sejam da mesma cepa.

ESPIÕES

Bom, desses não posso dizer nada. Afinal de contas espião que se preza não deixa pistas.

ÍNDIOS

Algumas pessoas me perguntam porque os índios guardariam silêncio.

Levantei duas hipóteses.

Uma, o medo de retaliações por parte de autoridades armadas e desarmadas. Medo também dos narcotraficantes que se confundem coma população dos municípios da área do Javari (Benjamin Constant, Atalaia do Norte e Tabatinga). Eles sabem até onde podem falar.

A segunda hipótese são as rivalidadse entre as diferentes organizações indígenas. A APIB chegou a divulgar nota dizendo que só se deve falar que estão mortos e já foram encontradios “com confirmação oficial”. Ele não me responderam querm é a “informação oficial”.

PERSONAGEM OCULTO

Governo brasileiro.

POR QUE?

Não vou me surpreender se daqui a algum tempo seja descoberto nomes do primeiro escalão do Estado brasileiro envolvidos nas denúncias feitas por Bruno Araújo.

O resto, a Históia vai escrever

PS- O narcotráfico entra de forma periférica nesse roteiro. Porque é sua presença é difusa e envolve pessoas que só querem sobreviver e lutamm contra a ausência do Estado

UMA BOMBA

By , 10 June, 2022 11:45 am

Memélia Moreira

Era começo da noite de 28 de dezembro de 1988, quando recebi um telefonema que horas depois se transformaria numa bomba de alto poder.

No telefone, a antropóloga Ana Lange, minha comadre, só disse três palavras, “Mataram Chico Mendes”. Fui pro sofá para assimilar a notícia e começar a moblização a partir de Brasília. Logo fiquei sabendo que Lula, sim, o ex-presidente Lula e o camponês Avelino Ganzer estavam se deslocando para Xapuri, lá no Acre. Foi lá que mataram o seringueiro FRANCISCO ALVES MENDES FILHO que no seu aniversário de 44 anos, quatro dias antes de sua morte, disse que não viveria até o ano seguinte. Morreu a três dias antes de 1989.

Chico Mendes vinha sendo sistematicamente ameaçado pelos fazendeiros do Acre, inclusive políticos que foram poupados do julgamento. Em novembro, 35 dias antes de ser assassinado, o líder concedeu uma entrevista coletiva na sede da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG) denunciando as ameaças. O chefe da Polícia Fedral no Acre, Mauro Spósito foi alertado várias vezes sobre os bilhetes e os cochichos informando que Chico seria morto.

Eu estava nessa entrevista e nós todos sentamos numa mureta interna da CONTAG para contar a história de mais uma crime anunciado.

NENHUMA MEDIDA FOI TOMADA PELO ESTADO BRASILEIRO. Um estado que é sempre cúmplice nos assassinatos daqueles que o incomodam.

Consegui carona no avião de Lula e Avelino e chegamos em Rio Branco quase de madrugada. Impossível continuar a viagem de Rio Branco a Xapuri que, embora sejam apenas 120 km de distância,era um lamaçal só.

Lá estava, morto, um homem de fartos bigodes tão negros quanto sua cabeleira. Lá estava um homem que defendia a floresta não apenas por ser um bem do planeta mas, porque precisava sobreviver. Era da floresta que ele recolhia seu sustento, com apenas uma cuia e pequenas incisões nas árvores que devolviam um leite branco, espêsso, o látex.

Chico virou símbolo internacional e os olhos do mundo, por algum tempo, se voltaram para aquele pequeno e bravo Estado – costumo dizer que o Acre, geograficamente, é o oposto do Chile. Um gorducho onde norte e sul se confundem com leste e oeste e o outro magricelo feito vara de bambu onde o traçado do leste e oeste são dominados pela nitidez do norte e do sul – para onde ondas humanas se revezavam na minúscula Xapuri que, na época, tinha 26 ruas.

Mas por que Chico Mendes agora?

Porque simplesmente, o desaparecimento do sertanista BRUNO ARAUJO PEREIRA e do jornalista DOM PHILLIPS tem características semelhantes. Bruno vinha recebendo constantes ameças, cada dia mais intensas. DOM porque amplificava a luta pela sobrevivência da Amazônia. Todos sabiam que os dois eram incômodos ao Estado brasileiro.

E esse mesmo Estado, desacreditado, fraco, covarde tenta, com suas notas mequetrefes manchar a imagem dessas pessoas que lutaram e lutam contra a ruína de um país e a extinção de um planeta. Mas é tempo perdido porque as biografias dos homens desse estado já estão emporcalhadas.

O Estado brasileiro está podre.

O ORÁCULO DO PERICUMÃ

By , 3 May, 2021 11:58 am
O que era o Oráculo de Delfos? | Super

Conheci Sarney quando tinha seis anos de idade .

Foi numa reunião política na nossa casa em São Luís. Ele já era amigo de meu tio, meu pai e minha mãe. A reunião foi no jardim de nossa casa, no bairro do “Filipinho”. A pessoa mais fascinante daquela reunião política da qual nasceu as “Oposições Coligadas” era uma mulher. Gorda para os padrões de hoje e da época, 1954, sem que o peso evitasse o fascínio que aquela mulher exerceu sobre mim. Braços cheios de pulseiras. De ouro. E eu conhecia ouro porque todos nós tinhamos pulseira desse metal mortal. Mas uma pulseira, particularmente, me impactava. Era uma corrente de aproximadamente um dedo de largura, cheia de berloques – todos de ouro -que ela balançava semnpre para dar ênfase às palavras. E, entre os berloques, um deles faiscava e piscava para os meus olhos. Era um berloque chamado “mina”. Cravejado com pedras preciosas de diferentes cores. (Pensando bem, o vírus Corona parece com esse berloque).

Naquele dia, Sarney, meu tio, Neiva Moreira, meu pai, Geraldo Moreira, o deputado Henrique de LaRocque Almeida, além de dois oficiais do Exército, dos quais não me lembro o nome, além da fascinante mulher, a condessa Pereira Carneiro, dona do “Jornal do Brasil”, conspiravam contra Assis Chateaubriand. dono dos Diários Associados e candidato a senador pelo Maranhgão. Lançariam um candidato contra Chatô, que tinha apoio do Diabo. E o Diabo se chamava Vitorino Freire.

O tempo passou, perdemos aquelas eleições, tio Moreira e Sarney viraram deputados federais, meu pai ficou cuidando do “Jornal do Povo”, nosso jornal que foi fechado em abril de 64. E veio o golpe, Sarney crescendo. E as notícias de tortura. E Sarney crescendo. E veio a anistia. Sarney já comandava. E veio 84, a campanha das diretas, Sarney quieto, apoiando á distância com seus filhos engajados na “Diretas Já”. E veio a a chapa Tancredo-Sarney.

Bom, chega de historiar.

Fui testemunha privilegiada de todos esses acontecimentos porque nunca nos desligamos de Sarney, embora fôssemos ferrenhos adversários políticos. Sarney ajudou, com dinheiro do próprio bolso, a fuga de grandes companheiros que de tarde eram condenados pelo Tribunal Militar e de noite íamos à casa de Sarney, e ele dava grana para o camarada fugir. Tudo na surdina, na clandestinidade. Então, digam o que disserem, verdades ou não, pouco me importa. Continuo mantendo por ele a admiração que mantenho por quem salva vidas.

E “Zé meu filho”, como dizia o Sarney original, o pai do presidente, virou presidente da República. Conhecia tudo, os pecadilhos de cada um, a lealdade de muitos, o oportunismo da maioria e o cheiro daqueles que o trairiam a qualquer momento. Politicamente, um sábio, pessoalmente uma pessoa afável e, acima de tudo um intelectual sem academicismos.

Nos últimos 40 anos de minha vida assisti, em todos os momentos decisivos, a peregrinação de políticos, da direita à esquerda, trilharem o caminho de São José do Pericumã, uma chácara nos arredores de Brasília onde, aos 94 anos, Sarney repousa, pinta seus quadros, recebe amigos, toma Guarana Jesus e conversa. Em 2002 o caminho da chácara foi pisado e repisado não só por Lula, mas também pelo estrategista daquela campanha, o então deputdo José Dirceu. Dirceu é estrategista e sabe reconhecer um.

Foi uma aliança sem alardes, sem fotos. Eficaz. Vitoriosa.E hoje cheguei à conclusão de que Sarney é, de fato o #oráculo. O “Oráculo do Pericumã”.

Até Bolsonaro, esse ser desprezível foi lá consultar Sarney. Bolsonaro odeia Sarney mais do que odeia Lula. Mas foi lá. Fez o “Caminho d Pericumã” Ou seja, apertou o botão “pânico”. Sarney mantém um certo desprezo em relação a Bolsonaro que foi lá pedir pelo amor de Deus que o sábio use seus poderes para tirar a faca da boca de Renan Calheiros. Ahhhhhhhhh. riu a bruxa Meméia. Ele apenas deu munição a Sarney e Renan. Ahhhhhhhhhh. Riu novamente a bruxa Meméia.

Não me surpreende a ida de Lula ao Pericumã. Não é a primeira, nem a segunda visita. Mas vai sim me surpreender se for verdadeira a notícia de que Lula foi oferecer vaga para vice-presidência numa possível chapa do PT. Errar uma vez com Temer é admissível. Errar duas com Alckmin só me leva à certeza de que essa oposição já nasce com data marcada para novas crises estilo 2013/2016…2018.

Pragmatismo tem preço Preço alto pelo qual pagamos com vidas que se perdem nas estatísticas escabrosas.’

Lula, chega de costear o alambrado.

*Aquela reunião marcou também minha primeira grande ousadia. Aproveiteo a distração dos adultos, peguei as chaves do carro e sai dirigindo a nossa caminhonete Rural Willis azul e branca. A condessa me salvou de qualquer castogo dizeno, “não briguem comn ela. Essa criança é curiosa”.

O ÚTERO DE TODOS OS BRASILEIROS

By , 25 April, 2021 3:24 pm

Cristina Schiel/ Cristina Doula

Pode ser uma imagem de texto que diz "Brasília 61: o rabisco era de um útero grávido. Juarez 21,4"

Brasília pode ser um útero grávido, gestando a nação. Pode ser aquele ipê amarelo na seca de agosto, ou aquele céu azul tinindo sem uma única nuvem até onde a vista alcança. Pode ser a turma correndo debaixo do bloco brincando de pique esconde, ou o Lago Paranoá com uma prainha e as pessoas curtindo a água.Brasília pode ser também o céu de julho e agosto, com cores mil, azul, laranja, amarelo no entardecer em um enorme engarrafamento na EPTG. Ou pode ser também aquele mergulho no Poço Azul.Ela pode ser as pessoas sentadas no chão do metrô aguardando seu destino ao trabalho ou pode ser o pé de amora no Parque da Cidade com a criançada comendo amora no pé.Brasília pode ser a Torre Digital ou o caminho mais rápido para os brasileiros do sul-sudeste chegarem à Chapada.Ela pode ser o bebê que nasce na maternidade do Hospital da Ceilândia com 40 mulheres parindo ao mesmo tempo, às vezes no chão frio do hospital ou pode ser o parto numa banheira a meia luz num condomínio de luxo do Setor de Mansões Dom Bosco.Brasília pode ser o Beirute até a 1h da madrugada ou a procissão no Morro da Capelinha.Brasília pode ser minha, pode ser sua. Brasília é nossa! Coração do Brasil, coração dos brasileiros.Feliz aniversário, Brasília! Feliz 61 anos.Cristina Schiel, brasiliense há 45 anos.

By , 17 April, 2021 2:42 pm
Pode ser uma imagem de interiores

Luminosidade máxima aceitável para olhos que enxergaram bem além do que sonhavam ver.

E AMANHÃ,

By , 13 February, 2021 4:24 pm

CRISTINA SCHIEL

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“…e no entanto é preciso cantar.Mais que nunca é opreciso cantar.É preciso cantar e alegrar a cidade…”
E amanhã?

Amanhã você estaria às 9h ou 10h ou 11h da manhã em algum lugar previamente e secretamente combinado com o “Vai Quem Quer”. Crianças, muitas, muitas e famílias inteiras estariam ali, com a tradicional (muita) chuva nessa época em Brasília, cantando marchinhas, tantas marchinhas que amamos. E lá pelas tantas, algum raivoso (bolsonarista) gritaria da janela “cala a boca, que bagunça” só porque alguém gritou “Lulalivre” e o Raul Behs puxaria com muita categoria para amansar a ira do alucinado fascista, acompanhado pelos foliões: “meu coração/não sei porque/bate feliz/quando te vêêê”. Ou mesmo apareceria na sacada de uma varanda um casal idoso saudando a festa momesca e a multidão, para retribuir o carinho cantaria novamente “meu coração/não sei porque/bate feliz/quando te vêêê.”Ah, amanhã você estaria às 9h, 10h ou 11h cantando no centro do Rio de Janeiro “quem não chora não mama/segura meu bem/a chupeta”.Ou mesmo estaria às 7h da manhã no Recife já a espera do Galo da Madrugada.Ou estaria descendo e subindo as ladeiras de Ouro Preto, Mariana… com a gente jovem das repúblicas de estudantes.Ou ainda estaria escolhendo entre os circuitos Osmar/Campo Grande ou Barra/Ondina, ao som de “chiclete, chiclete, quero chiclete” ou no Expresso 2222 do Gil.Aaahh… amanhã você estaria esperando o “Galinho”, o “Babydoll de Nylon”, o “Aparelhinho”, o “Asé Dudu”, a “Baratinha”, o “Pacotão”, o “Suvaco da Asa”, o “Mamãe Taguá”, a “Tesourinha’, o ‘Calango Careta’… Aaaah, você estaria purpiranada, enfeitada, fantasiada, se desdobrando pras crianças se divertirem junto contigo.Mas, você, eu e todos nós estamos aqui. Em frente às nossas telinhas e telonas, esperando um milagre, o bom senso e a consciência dos brasileiros para que tudo passe rápido e você volte à purpurina.Enquanto a purpurina tá na gaveta e a lágrima do Pierrot tá na caixa de maquiagem aguardando ser desenhada, nossa alegria ainda tá aqui também. Tá dentro do peito de cada folião brasileiro que faz do Carnaval a festa mais desejada do planeta, a festa mais democrática do país, quando você pode ser quem quiser, da dama da corte real no vestido de alguma ala de escola de samba, ao super herói de quadrinhos ou à prostituta chique de Paris dos anos 20. É a festa mais amada e desejada. É a festa brasileira em sua essência. E amanhã estaremos com nossa alegria de carnaval guardada na gaveta, mas ela ainda estará aqui. Guardada com muita paciência para quando o próximo fevereiro chegar quando a saudade já não mata a gente e a chama continua no ar.Bom Carnaval em casa! 22 é logo ali.

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BRASIL NA PORTA DOS FUNDOS DA GUERRA HÍBRIDA

By , 6 August, 2020 5:51 pm

Eu só queria saber saber porque o Brasil entrou nessa guerra híbrida EUA x China, sem armas e sem estratégia para o enfrentamento. Entrou pela porta dos fundos, uma tendência que se tornou hábito do governo atual.
Quatro meses depois de iniciar a escalada de agressões à China – que começou com Trump acusando os chineses de espalhar o vírus Corona pelo mundo – o presidente dos Estados Unidos fez, há duas semanas, um recuo estratégico dizendo que suas divergências com aquele gigante asiático não podiam interferir nas relações comerciais entre os dois países.
Obviamente, mandou seus cães de guarda atacarem. Estalou os dedos e pronto, Eduardo Bolsonaro, o não-embaixador em Washington, retomou seus espasmos em forma de declaração contra os chineses. Seu pai, se achou o máximo quando, ao falar da vacina contra o Covid, disse “aquele país”, para não citar a China. Oh, quão corajoso! Só faltou o galinho-de-briga bater no peito e cantar #coccoricô, enquanto balançava as perninhas de taquara.
Os chineses não fizeram declarações com sangue nos olhos, não espumaram ao falar o nome “Brasil” mas, agiram. Como sempre, pisando naqueles macios tapetes que eles tecem há milênios..
Ontem foram dois ataques frontais contra a economia brasileira (?). Cedo, a “Cofco International Ltd,” maior empresa de importações da China, aquele “povinho” que tem uma população de de 1,4 bilhão (dados de 2019) de pessoas, anunciou estar rastreando a origem da soja brasileira, com mapas das áreas devastadas do Cerrado e da Amazônia. Se a soja vier da terra arrasada, não compram.
Não houve, pelo menos publicamente, reação do governo brasileiro. Acho que dona Teresa Cristina, ministra da Agricultura deve ter alguma reação depois de calcular os prejuízos.
No começo da noite, novamente sem alardes, aquele pessoal lá do Leste da Ásia, sem disparar nenhum míssil, novamente nos jogou por terra. Anunciaram que também não vão comprar carne criado em terras devastadas da Amazônia.
Ou seja, além de cortar a cabeça da nossa economia, o governo chinês ainda vai sair bem na foto da militância ecológica. País que sequer assina acordos internacionais na defesa do planeta, que devastou milhões de hectares na Indonésia e em outros países, mandou o recado em forma de pressão econômica. Só faltaram estender uma faixa dizendo “Estamos fazendo fazendo nossa parte pelo clima”
Quanto aos Estados Unidos, vão bem obrigado. O comércio com os chineses não sofreu abalos. Trump está até ajudando Bill Gates a comprar a Tik-Tok.
E viverão felizes para sempre.

VIDRINHOS, MEMÓRIAS DE SARAH BERNHARDT

By , 12 July, 2020 3:00 pm

(Ler ouvindo “La Bohème”, na voz de Charles Aznavour)

O Vidrinho Inicial
Meus Vidrinhos

Os antropólogos Patrick Menget e Bruce Albert, que tinham lugar cativo na minha casa, costumavam me chamar de Sarah Bernhardt, uma sedutora atriz do teatro francês que reinou em Paris no final do século XIX, começo do século XX. Diz a lenda que ela até se apresentou no Teatro Amazonas, em Manáus.

Mal sabiam eles o quanto eu tinha e tenho de Sarah Bernhardt. Ela é a principal responsável por uma das minhas mais caras coleções. Coleciono vidrinhos e vidros. E, um deles, de cristal, presente de Patrick Menget nos meus 50 anos.

Começou em Paris nos anos 70. Morava na casa da família Murard, que Haroldo Saboia e Alexandre Ribondi conhecem muito bem. Família rica. Passávamos fins de semana no castelo da família, à beira do rio Loire no vilarejo chamado Sully-sur-Loire. Nous, les soixantehuitards.

De vez em quando, trabalhava. Foi Édouard Bailby, que fora correspondente do “Le Monde” no Brasil e era amigo do meu tio, Neiva Moreira, quem me arranjou um emprego de verdade, traduzir do espanhol para o francês as notícias da ‘Prensa Latina”, agência cubana de notícias.

O dinheiro era gasto em ninharias. Uma dessas, nem tanto ninharia.

É que sou apaixonada, totalmente apaixonada, por brechós. Paris é o paraíso dos brechós, tanto na margem esquerda quanto direita do Sena. Conhecia todos. E deixava, às vezes, todo meu salário em uma só peça quando ela roubava meu oxigênio. E foi assim que aconteceu.

Era um brechó perto de casa, mais exatamente na Rue St. Sulpicy. Brechó pequeno, poucas peças, e uma assim destacada. Era apenas um vidro. Um vidro vazio, cheio de vida. Bem caro, corresponderia, hoje, a uns 200 dólares. gostei do vidrinho. Fiquei intrigada pelo preço. Dinheiro eu tinha. Havia recebido naquele mesmo dia. Uma senhora de vestido verde desmaiado me olhou com suspeição. Eu tinha apenas 19 anos, cara de india e examinava sua peça valiosa com olhos de cobiça.

Noblesse oblige, a senhora de verde desmaiado, cheia de pompa, num francês antigo, me disse que aquele vidrinho que parecia insignificante, ficava no boudoir de Mademoiselle Bernhardt. Tudo bem, mas e quem é essa demoiselle. E ela, “Sarah Bernhardt”. “Oh”. Fiquei até com vergonha porque segurava o vidrinho sem o devido respeito, enquanto a senhora de verde desmaiado me olhava com suspeição.

Audaciosa, que sempre fui, atirei, “quanto é?”. Acho que ela salgou o preço. Audaciosa e, orgulhosa. Abri a bolsa, quando comecei a contar meus francos, ela pegou na minha mão e disse, “deixo por um pouco menos”. O tal pouco menos era só 20 francos a menos do que eu tinha na bolsa. Uma loucura reconheço. Mas, uma loucura a mais, uma loucura a menos, por que não. Tudo era permitido na Paris dos anos 70.

Sai triunfante daquele brechó e cheguei em casa mais triunfante ainda para mostrar meu achado para a mãe da família, Françoise Murard, uma das mais extraordinárias mulheres que conheci na vida. E minha vida é pontilhada por mulheres extraordinárias, Ela me disse. “Não lave por dentro. Assim você guarda o perfume de Sarah”. Até hoje, está lá, no fundo do vidro, uma manchinha amarelada, com a memória de Sarah Bernhardt.

Pronto, Bruce Albert, talvez agora entendas porque eu ria quando vocês brincavam comigo. Pena que Patrick morreu antes de conhecer esse segredo.

O que eu não sabia naquele setembro de 1970 era que aquele vidrinho se transformaria numa coleção. Uma coleção cuidadosa, Há outros. Não com a mesma história, mas tão valiosos quanto. Até meu primeiro Chanel 5 está aqui nessa coleção. Lindo.

PAIAKÃ E AS PIMENTEIRAS

By , 17 June, 2020 11:35 pm

Paulinho Paiakan : Foto jornalística

Minha homenagem ao guerreiro Pauklinho Paiakã, que morreu no dia 17 de junho de 2020, aos 65 anos.

Quero homenagear também os demais índios vitímas do vírus Corona e do projeto de massacre do Governo.

Desci do monomotor, numa pista de 600 metros (ou menos) ainda tonta e quase descabelada. Antes mesmo de descar do avião, vi um grupo de homens com seus calções. Cores diversas. Um deles se aproximou e perguntou quem era eu e o que estava fazendo ali.  Ainda trêmula por causa do voo, me apresentei. Em seguida tive uma crise de tosse daquelas irritantes e sem motivo aparente. Tensão do voo, talvez. Ou do ar que estava seco.

Sem nem pestanejar, aquele homem que ainda me olhava de cara fechada disse “você não pode entrar na aldeia. Está tossindo muito. E pode estar trazendo gripe para meu povo. O sol ardia e era pegajoso. O monomotor só voltaria pare me pegar às quatro da tarde.  Ainda nem era dez da manhã.

Mas tenho que escrever sobre o quê está acontecendo aqui, estão derrubando árvore e sei que vocês estão irritados, argumentei. Os demais homens ao seu redor falavam a língua de seu povo e eu não entendia nada. Eram todos fortes e me olhavam com suspeição.

Então ele mesmo me disse. Só pode entrar depois de comer as pimentas. Passou a mão no arbusto, um pimenteiro. Era malagueta. Ele me fez comer para “matar” a tosse, que foi embora na primeira pimenta que ardia até em minha medula. Eu me sentia um dragão soltando fumaça pelos olhos, pelo ouvido, pelo nariz e, principalmente pela boca. Comi.  Não havia opção. Mastiguei todas. Umas quatro. Minha pele ardia naquele sol viscoso, temperado com o fogo da pimenta.

O homem de cara séria e fechada era o chefe Paulinho Paiakã ou, me disse em sua língua, Benkaroty Kayapó. Ali mesmo debaixo daquele sol que nos atirava flechas com brasas, selamos uma amizade para sempre. E me tornei até sua confidente nos mais difícieis momentos. A última conversa que tivemos, há pouco menos de um mês, falamos dos sites de venda on-line.

Ali  na minha frente estava um chefe guerreiro com seu exército formado talvez por 20 homens, todos de calções coloridos e a pele tostada. Todos prontos a defender a intergridade territorial do povo Kayapó que se distribui de Mato Grosso ao Pará e que se consumia entre a devastação feita por madereiros, com a cumplicidade da Funai e dos garimpos que sujavam as águas do Rio Fresco,  cristalino e frio onde se localiza a aldeia de Paulinho.  

Todo esse encontro com mais um grupo Kaypó aconteceu no começo dos anos 80, 1981, para ser mais exata.  Talvez março. Não me lembro bem a data e estou com preguiça de recorrer às minhas agendas de anotações. O grande amigo Ezequias Heringer, o #Xará, meu melhor amigo, antropólogo e sertanista me dá a notícia de que os Gorotire, Kayapó do sul do Pará, estavam em pé de guerra porque o então presidente da Funai, coronel João Carlos Nobre da Veiga, havia assinado, de forma ilegal, contrato com a Madereira Sebba, de Brasília para corte de madeira na terra indígena. Não havia condições de checar e meu jornal, a Folha de São Paulo, me mandou para a aldeia.

Denúncia feita, coronel Nobre da Veiga me ameaçando -para não fugir a regra – segui adiante. Revia Paulinho de vez em quando em Brasília e voltei à terra indígena em 1984, quando se aceleraram as invasões em busca de ouro e da madeira. A  resistência indígena e  os ataques dos invasores  encharcou de sangue as terras xinguanas.  A aldeia do Aukre não ficou longe da guerra.

Um fazendeiro, de nome Expedito Macedo, dono da Fazenda Macedônia, em redenção (PA), espalhou o boato de que os garimpeiros estavam chegando na terra dos Kayapó do rio Fresco, onde vivia Paiakã. Os guerreiros se armaram com suas bordunas. E invadiram a fazenda para matar Expedito. Ele não foi encontrado. Os Kayapó se vingaram promovendo um massacre que deixou 17 mortos. Até hoje me tensiono com as cenas e me lembro da posição dos corpos mortos.

De novo num avião, dessa vez, bimotor, fomos à aldeia, Eliana Lucena, eu e mais dois jornalistas. Os guerreiros estavam retirados. Não podiam conversar com os jornalistas. Pintados de preto, eles tinham que “descarregar” o sangue que derramaram e sequer voltavam para suas malocas. Uma espécie de purgação. Dois dias voando pelo sul do Pará. A base era Conceição do Araguaia. Voltei três depois. A conversa com Paiakã foi seca. Ele não queria falar e não insisti. Então pedi a borduna que estava encostada do lado de fora da maloca. Ainda estava suja de sangue.   

 

Os anos se passaram e novamente encontro Paulinho Paiakã e mais 650 índios. Eram dias eletrizantes. Estávamos todos participando de uma reunião com a Eletronorte que queria convencer os índios a aceitarem  construção da Hidrelétrica de Kararaô, a primeira das quattro previstas pela ditadura militar para o rio da minha paixão, meu Xingu. Era o hoje célebre “encontro de Altamira”, quando índios e não índios nos reunimos para lutar contra aquele crime. Era governo Sarney e conseguimos adiar a tragédia. Foi no governo Lula quando enfim se realizou o grande desejo do general Ernesto Geisel, o ditador da anistia e que sonhava com águas jorrando das comportas enquanto o Xingu vagava pela floresta na qual um dia foi senhor quase absoluto. Só nos restou lutar contra o nome Kararaô, que é outro grupo Kaiapó. A nova denominação é Belo Monte. Essa foi nossa única vitória.

Paiakã estava lá. Almoçamos aquela comida terrível que nos serviram. Tão ruim que escapamo,s uns cinco ou seis índios para comer “comida boa”, como sempre diz Irekran, a grande companheira de Paulinho. 

Em sete de junho, de 1992, o choque. Lá está Paiakã, numa foto que toma toda a capa da revista “Veja”, portando com um soberbo cocar amarelo e o título, “O Selvagem”.  E lá conta que estuprastes Silvia Letícia,, de 18 anos. E te acusavam de além de ter estuprado terias tentado matá-lo. era choque e conflito pessoal. Como assim? Que loucura! E não conseguia falar Paiakã nem com niguém lá de Redenção (sul do Pará). Estava envolvida na minha viagem para a Eco-92 no Rio, tentando convencer as freiras da escola de minhas filhas que remarcassem as provas porque elas iriam comigo a esse encontro internacional que alertava o mundo para os riscos da destruição do planeta. A “Veja” tentou sabotar aquele encontro usando um crime hediondo para manchar a imagem de Paulinhoo que, naquele tempo era a imagem do maior defensor da floresta. A matéria tinha o dedo do governado do Pará, Jáder Barbalho. Mais que um dedo. A matéria foi toda pensada por Jáder Barbalho que tinha se transformado no inimigo número 1 de Paiakã. E, da causa ambiental, além de lucrar com os garimpos. Foi um abalo geral. 

Só duas semanas depois consegui falar com Paulinho. ele me telefonou quase em desespero porque queriam prendê-lo e pedia minha presença imediata. E mais uma vez embarquei, dessa vez, sozinha e fui para o Aukre que parecia estar de luto. Então, a história toda foi contada. Sem omitir detalhes. Eu já estava fora de jornis, mas a Folha de São Paulo me deu uma página inteira para contar o que aconteceu. 

Só fiquei serena quando em 1994, o juiz de Redençao, Elder Costa absolveu o chafe guerreiro. Na sentença contou a verdadeira história dizendo  que todo o processo foi uma “balbúrdia jurídica”. Anulou todas as provas.

E depois, pela última vez, encontrei Paulinho e Irekran no Fórum Social Mundial realizado em Belém, em 2009. Daí em diante, nossos contatos foram virtuais. Há pouco menos de um mês conversávamos pelo what´s up. ele queria saber da idoneidade de alguns sites de compras. Rimos um pouco porque contei algumas papagaiadas do Governo. mas ele estava sério. Estava assustado com a expansão do vírus Corona entre os povos indígenas. E foi essa a guerra perdida pelo líder Benkaroty Kayapó, conhecido pela sociedade ocidental pelo nome de Paulinho Paiakã, meu amigo que sonhava em ter um filho homem que o sucederia no comando do Aukre. O sonho acabou quando os médicos da sociedade dominante, à revelia da da família ligaram as trompas de Irekran.

Paulinho, hoje, ainda chorando, comecei meu ritual para te homenagear. Estou plantando flores num vaso com as cores que marcam nossas lutas. 

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