O ORÁCULO DO PERICUMÃ

By , 3 May, 2021 11:58 am
O que era o Oráculo de Delfos? | Super

Conheci Sarney quando tinha seis anos de idade .

Foi numa reunião política na nossa casa em São Luís. Ele já era amigo de meu tio, meu pai e minha mãe. A reunião foi no jardim de nossa casa, no bairro do “Filipinho”. A pessoa mais fascinante daquela reunião política da qual nasceu as “Oposições Coligadas” era uma mulher. Gorda para os padrões de hoje e da época, 1954, sem que o peso evitasse o fascínio que aquela mulher exerceu sobre mim. Braços cheios de pulseiras. De ouro. E eu conhecia ouro porque todos nós tinhamos pulseira desse metal mortal. Mas uma pulseira, particularmente, me impactava. Era uma corrente de aproximadamente um dedo de largura, cheia de berloques – todos de ouro -que ela balançava semnpre para dar ênfase às palavras. E, entre os berloques, um deles faiscava e piscava para os meus olhos. Era um berloque chamado “mina”. Cravejado com pedras preciosas de diferentes cores. (Pensando bem, o vírus Corona parece com esse berloque).

Naquele dia, Sarney, meu tio, Neiva Moreira, meu pai, Geraldo Moreira, o deputado Henrique de LaRocque Almeida, além de dois oficiais do Exército, dos quais não me lembro o nome, além da fascinante mulher, a condessa Pereira Carneiro, dona do “Jornal do Brasil”, conspiravam contra Assis Chateaubriand. dono dos Diários Associados e candidato a senador pelo Maranhgão. Lançariam um candidato contra Chatô, que tinha apoio do Diabo. E o Diabo se chamava Vitorino Freire.

O tempo passou, perdemos aquelas eleições, tio Moreira e Sarney viraram deputados federais, meu pai ficou cuidando do “Jornal do Povo”, nosso jornal que foi fechado em abril de 64. E veio o golpe, Sarney crescendo. E as notícias de tortura. E Sarney crescendo. E veio a anistia. Sarney já comandava. E veio 84, a campanha das diretas, Sarney quieto, apoiando á distância com seus filhos engajados na “Diretas Já”. E veio a a chapa Tancredo-Sarney.

Bom, chega de historiar.

Fui testemunha privilegiada de todos esses acontecimentos porque nunca nos desligamos de Sarney, embora fôssemos ferrenhos adversários políticos. Sarney ajudou, com dinheiro do próprio bolso, a fuga de grandes companheiros que de tarde eram condenados pelo Tribunal Militar e de noite íamos à casa de Sarney, e ele dava grana para o camarada fugir. Tudo na surdina, na clandestinidade. Então, digam o que disserem, verdades ou não, pouco me importa. Continuo mantendo por ele a admiração que mantenho por quem salva vidas.

E “Zé meu filho”, como dizia o Sarney original, o pai do presidente, virou presidente da República. Conhecia tudo, os pecadilhos de cada um, a lealdade de muitos, o oportunismo da maioria e o cheiro daqueles que o trairiam a qualquer momento. Politicamente, um sábio, pessoalmente uma pessoa afável e, acima de tudo um intelectual sem academicismos.

Nos últimos 40 anos de minha vida assisti, em todos os momentos decisivos, a peregrinação de políticos, da direita à esquerda, trilharem o caminho de São José do Pericumã, uma chácara nos arredores de Brasília onde, aos 94 anos, Sarney repousa, pinta seus quadros, recebe amigos, toma Guarana Jesus e conversa. Em 2002 o caminho da chácara foi pisado e repisado não só por Lula, mas também pelo estrategista daquela campanha, o então deputdo José Dirceu. Dirceu é estrategista e sabe reconhecer um.

Foi uma aliança sem alardes, sem fotos. Eficaz. Vitoriosa.E hoje cheguei à conclusão de que Sarney é, de fato o #oráculo. O “Oráculo do Pericumã”.

Até Bolsonaro, esse ser desprezível foi lá consultar Sarney. Bolsonaro odeia Sarney mais do que odeia Lula. Mas foi lá. Fez o “Caminho d Pericumã” Ou seja, apertou o botão “pânico”. Sarney mantém um certo desprezo em relação a Bolsonaro que foi lá pedir pelo amor de Deus que o sábio use seus poderes para tirar a faca da boca de Renan Calheiros. Ahhhhhhhhh. riu a bruxa Meméia. Ele apenas deu munição a Sarney e Renan. Ahhhhhhhhhh. Riu novamente a bruxa Meméia.

Não me surpreende a ida de Lula ao Pericumã. Não é a primeira, nem a segunda visita. Mas vai sim me surpreender se for verdadeira a notícia de que Lula foi oferecer vaga para vice-presidência numa possível chapa do PT. Errar uma vez com Temer é admissível. Errar duas com Alckmin só me leva à certeza de que essa oposição já nasce com data marcada para novas crises estilo 2013/2016…2018.

Pragmatismo tem preço Preço alto pelo qual pagamos com vidas que se perdem nas estatísticas escabrosas.’

Lula, chega de costear o alambrado.

*Aquela reunião marcou também minha primeira grande ousadia. Aproveiteo a distração dos adultos, peguei as chaves do carro e sai dirigindo a nossa caminhonete Rural Willis azul e branca. A condessa me salvou de qualquer castogo dizeno, “não briguem comn ela. Essa criança é curiosa”.

O ÚTERO DE TODOS OS BRASILEIROS

By , 25 April, 2021 3:24 pm

Cristina Schiel/ Cristina Doula

Pode ser uma imagem de texto que diz "Brasília 61: o rabisco era de um útero grávido. Juarez 21,4"

Brasília pode ser um útero grávido, gestando a nação. Pode ser aquele ipê amarelo na seca de agosto, ou aquele céu azul tinindo sem uma única nuvem até onde a vista alcança. Pode ser a turma correndo debaixo do bloco brincando de pique esconde, ou o Lago Paranoá com uma prainha e as pessoas curtindo a água.Brasília pode ser também o céu de julho e agosto, com cores mil, azul, laranja, amarelo no entardecer em um enorme engarrafamento na EPTG. Ou pode ser também aquele mergulho no Poço Azul.Ela pode ser as pessoas sentadas no chão do metrô aguardando seu destino ao trabalho ou pode ser o pé de amora no Parque da Cidade com a criançada comendo amora no pé.Brasília pode ser a Torre Digital ou o caminho mais rápido para os brasileiros do sul-sudeste chegarem à Chapada.Ela pode ser o bebê que nasce na maternidade do Hospital da Ceilândia com 40 mulheres parindo ao mesmo tempo, às vezes no chão frio do hospital ou pode ser o parto numa banheira a meia luz num condomínio de luxo do Setor de Mansões Dom Bosco.Brasília pode ser o Beirute até a 1h da madrugada ou a procissão no Morro da Capelinha.Brasília pode ser minha, pode ser sua. Brasília é nossa! Coração do Brasil, coração dos brasileiros.Feliz aniversário, Brasília! Feliz 61 anos.Cristina Schiel, brasiliense há 45 anos.

By , 17 April, 2021 2:42 pm
Pode ser uma imagem de interiores

Luminosidade máxima aceitável para olhos que enxergaram bem além do que sonhavam ver.

E AMANHÃ,

By , 13 February, 2021 4:24 pm

CRISTINA SCHIEL

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“…e no entanto é preciso cantar.Mais que nunca é opreciso cantar.É preciso cantar e alegrar a cidade…”
E amanhã?

Amanhã você estaria às 9h ou 10h ou 11h da manhã em algum lugar previamente e secretamente combinado com o “Vai Quem Quer”. Crianças, muitas, muitas e famílias inteiras estariam ali, com a tradicional (muita) chuva nessa época em Brasília, cantando marchinhas, tantas marchinhas que amamos. E lá pelas tantas, algum raivoso (bolsonarista) gritaria da janela “cala a boca, que bagunça” só porque alguém gritou “Lulalivre” e o Raul Behs puxaria com muita categoria para amansar a ira do alucinado fascista, acompanhado pelos foliões: “meu coração/não sei porque/bate feliz/quando te vêêê”. Ou mesmo apareceria na sacada de uma varanda um casal idoso saudando a festa momesca e a multidão, para retribuir o carinho cantaria novamente “meu coração/não sei porque/bate feliz/quando te vêêê.”Ah, amanhã você estaria às 9h, 10h ou 11h cantando no centro do Rio de Janeiro “quem não chora não mama/segura meu bem/a chupeta”.Ou mesmo estaria às 7h da manhã no Recife já a espera do Galo da Madrugada.Ou estaria descendo e subindo as ladeiras de Ouro Preto, Mariana… com a gente jovem das repúblicas de estudantes.Ou ainda estaria escolhendo entre os circuitos Osmar/Campo Grande ou Barra/Ondina, ao som de “chiclete, chiclete, quero chiclete” ou no Expresso 2222 do Gil.Aaahh… amanhã você estaria esperando o “Galinho”, o “Babydoll de Nylon”, o “Aparelhinho”, o “Asé Dudu”, a “Baratinha”, o “Pacotão”, o “Suvaco da Asa”, o “Mamãe Taguá”, a “Tesourinha’, o ‘Calango Careta’… Aaaah, você estaria purpiranada, enfeitada, fantasiada, se desdobrando pras crianças se divertirem junto contigo.Mas, você, eu e todos nós estamos aqui. Em frente às nossas telinhas e telonas, esperando um milagre, o bom senso e a consciência dos brasileiros para que tudo passe rápido e você volte à purpurina.Enquanto a purpurina tá na gaveta e a lágrima do Pierrot tá na caixa de maquiagem aguardando ser desenhada, nossa alegria ainda tá aqui também. Tá dentro do peito de cada folião brasileiro que faz do Carnaval a festa mais desejada do planeta, a festa mais democrática do país, quando você pode ser quem quiser, da dama da corte real no vestido de alguma ala de escola de samba, ao super herói de quadrinhos ou à prostituta chique de Paris dos anos 20. É a festa mais amada e desejada. É a festa brasileira em sua essência. E amanhã estaremos com nossa alegria de carnaval guardada na gaveta, mas ela ainda estará aqui. Guardada com muita paciência para quando o próximo fevereiro chegar quando a saudade já não mata a gente e a chama continua no ar.Bom Carnaval em casa! 22 é logo ali.

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BRASIL NA PORTA DOS FUNDOS DA GUERRA HÍBRIDA

By , 6 August, 2020 5:51 pm

Eu só queria saber saber porque o Brasil entrou nessa guerra híbrida EUA x China, sem armas e sem estratégia para o enfrentamento. Entrou pela porta dos fundos, uma tendência que se tornou hábito do governo atual.
Quatro meses depois de iniciar a escalada de agressões à China – que começou com Trump acusando os chineses de espalhar o vírus Corona pelo mundo – o presidente dos Estados Unidos fez, há duas semanas, um recuo estratégico dizendo que suas divergências com aquele gigante asiático não podiam interferir nas relações comerciais entre os dois países.
Obviamente, mandou seus cães de guarda atacarem. Estalou os dedos e pronto, Eduardo Bolsonaro, o não-embaixador em Washington, retomou seus espasmos em forma de declaração contra os chineses. Seu pai, se achou o máximo quando, ao falar da vacina contra o Covid, disse “aquele país”, para não citar a China. Oh, quão corajoso! Só faltou o galinho-de-briga bater no peito e cantar #coccoricô, enquanto balançava as perninhas de taquara.
Os chineses não fizeram declarações com sangue nos olhos, não espumaram ao falar o nome “Brasil” mas, agiram. Como sempre, pisando naqueles macios tapetes que eles tecem há milênios..
Ontem foram dois ataques frontais contra a economia brasileira (?). Cedo, a “Cofco International Ltd,” maior empresa de importações da China, aquele “povinho” que tem uma população de de 1,4 bilhão (dados de 2019) de pessoas, anunciou estar rastreando a origem da soja brasileira, com mapas das áreas devastadas do Cerrado e da Amazônia. Se a soja vier da terra arrasada, não compram.
Não houve, pelo menos publicamente, reação do governo brasileiro. Acho que dona Teresa Cristina, ministra da Agricultura deve ter alguma reação depois de calcular os prejuízos.
No começo da noite, novamente sem alardes, aquele pessoal lá do Leste da Ásia, sem disparar nenhum míssil, novamente nos jogou por terra. Anunciaram que também não vão comprar carne criado em terras devastadas da Amazônia.
Ou seja, além de cortar a cabeça da nossa economia, o governo chinês ainda vai sair bem na foto da militância ecológica. País que sequer assina acordos internacionais na defesa do planeta, que devastou milhões de hectares na Indonésia e em outros países, mandou o recado em forma de pressão econômica. Só faltaram estender uma faixa dizendo “Estamos fazendo fazendo nossa parte pelo clima”
Quanto aos Estados Unidos, vão bem obrigado. O comércio com os chineses não sofreu abalos. Trump está até ajudando Bill Gates a comprar a Tik-Tok.
E viverão felizes para sempre.

VIDRINHOS, MEMÓRIAS DE SARAH BERNHARDT

By , 12 July, 2020 3:00 pm

(Ler ouvindo “La Bohème”, na voz de Charles Aznavour)

O Vidrinho Inicial
Meus Vidrinhos

Os antropólogos Patrick Menget e Bruce Albert, que tinham lugar cativo na minha casa, costumavam me chamar de Sarah Bernhardt, uma sedutora atriz do teatro francês que reinou em Paris no final do século XIX, começo do século XX. Diz a lenda que ela até se apresentou no Teatro Amazonas, em Manáus.

Mal sabiam eles o quanto eu tinha e tenho de Sarah Bernhardt. Ela é a principal responsável por uma das minhas mais caras coleções. Coleciono vidrinhos e vidros. E, um deles, de cristal, presente de Patrick Menget nos meus 50 anos.

Começou em Paris nos anos 70. Morava na casa da família Murard, que Haroldo Saboia e Alexandre Ribondi conhecem muito bem. Família rica. Passávamos fins de semana no castelo da família, à beira do rio Loire no vilarejo chamado Sully-sur-Loire. Nous, les soixantehuitards.

De vez em quando, trabalhava. Foi Édouard Bailby, que fora correspondente do “Le Monde” no Brasil e era amigo do meu tio, Neiva Moreira, quem me arranjou um emprego de verdade, traduzir do espanhol para o francês as notícias da ‘Prensa Latina”, agência cubana de notícias.

O dinheiro era gasto em ninharias. Uma dessas, nem tanto ninharia.

É que sou apaixonada, totalmente apaixonada, por brechós. Paris é o paraíso dos brechós, tanto na margem esquerda quanto direita do Sena. Conhecia todos. E deixava, às vezes, todo meu salário em uma só peça quando ela roubava meu oxigênio. E foi assim que aconteceu.

Era um brechó perto de casa, mais exatamente na Rue St. Sulpicy. Brechó pequeno, poucas peças, e uma assim destacada. Era apenas um vidro. Um vidro vazio, cheio de vida. Bem caro, corresponderia, hoje, a uns 200 dólares. gostei do vidrinho. Fiquei intrigada pelo preço. Dinheiro eu tinha. Havia recebido naquele mesmo dia. Uma senhora de vestido verde desmaiado me olhou com suspeição. Eu tinha apenas 19 anos, cara de india e examinava sua peça valiosa com olhos de cobiça.

Noblesse oblige, a senhora de verde desmaiado, cheia de pompa, num francês antigo, me disse que aquele vidrinho que parecia insignificante, ficava no boudoir de Mademoiselle Bernhardt. Tudo bem, mas e quem é essa demoiselle. E ela, “Sarah Bernhardt”. “Oh”. Fiquei até com vergonha porque segurava o vidrinho sem o devido respeito, enquanto a senhora de verde desmaiado me olhava com suspeição.

Audaciosa, que sempre fui, atirei, “quanto é?”. Acho que ela salgou o preço. Audaciosa e, orgulhosa. Abri a bolsa, quando comecei a contar meus francos, ela pegou na minha mão e disse, “deixo por um pouco menos”. O tal pouco menos era só 20 francos a menos do que eu tinha na bolsa. Uma loucura reconheço. Mas, uma loucura a mais, uma loucura a menos, por que não. Tudo era permitido na Paris dos anos 70.

Sai triunfante daquele brechó e cheguei em casa mais triunfante ainda para mostrar meu achado para a mãe da família, Françoise Murard, uma das mais extraordinárias mulheres que conheci na vida. E minha vida é pontilhada por mulheres extraordinárias, Ela me disse. “Não lave por dentro. Assim você guarda o perfume de Sarah”. Até hoje, está lá, no fundo do vidro, uma manchinha amarelada, com a memória de Sarah Bernhardt.

Pronto, Bruce Albert, talvez agora entendas porque eu ria quando vocês brincavam comigo. Pena que Patrick morreu antes de conhecer esse segredo.

O que eu não sabia naquele setembro de 1970 era que aquele vidrinho se transformaria numa coleção. Uma coleção cuidadosa, Há outros. Não com a mesma história, mas tão valiosos quanto. Até meu primeiro Chanel 5 está aqui nessa coleção. Lindo.

PAIAKÃ E AS PIMENTEIRAS

By , 17 June, 2020 11:35 pm

Paulinho Paiakan : Foto jornalística

Minha homenagem ao guerreiro Pauklinho Paiakã, que morreu no dia 17 de junho de 2020, aos 65 anos.

Quero homenagear também os demais índios vitímas do vírus Corona e do projeto de massacre do Governo.

Desci do monomotor, numa pista de 600 metros (ou menos) ainda tonta e quase descabelada. Antes mesmo de descar do avião, vi um grupo de homens com seus calções. Cores diversas. Um deles se aproximou e perguntou quem era eu e o que estava fazendo ali.  Ainda trêmula por causa do voo, me apresentei. Em seguida tive uma crise de tosse daquelas irritantes e sem motivo aparente. Tensão do voo, talvez. Ou do ar que estava seco.

Sem nem pestanejar, aquele homem que ainda me olhava de cara fechada disse “você não pode entrar na aldeia. Está tossindo muito. E pode estar trazendo gripe para meu povo. O sol ardia e era pegajoso. O monomotor só voltaria pare me pegar às quatro da tarde.  Ainda nem era dez da manhã.

Mas tenho que escrever sobre o quê está acontecendo aqui, estão derrubando árvore e sei que vocês estão irritados, argumentei. Os demais homens ao seu redor falavam a língua de seu povo e eu não entendia nada. Eram todos fortes e me olhavam com suspeição.

Então ele mesmo me disse. Só pode entrar depois de comer as pimentas. Passou a mão no arbusto, um pimenteiro. Era malagueta. Ele me fez comer para “matar” a tosse, que foi embora na primeira pimenta que ardia até em minha medula. Eu me sentia um dragão soltando fumaça pelos olhos, pelo ouvido, pelo nariz e, principalmente pela boca. Comi.  Não havia opção. Mastiguei todas. Umas quatro. Minha pele ardia naquele sol viscoso, temperado com o fogo da pimenta.

O homem de cara séria e fechada era o chefe Paulinho Paiakã ou, me disse em sua língua, Benkaroty Kayapó. Ali mesmo debaixo daquele sol que nos atirava flechas com brasas, selamos uma amizade para sempre. E me tornei até sua confidente nos mais difícieis momentos. A última conversa que tivemos, há pouco menos de um mês, falamos dos sites de venda on-line.

Ali  na minha frente estava um chefe guerreiro com seu exército formado talvez por 20 homens, todos de calções coloridos e a pele tostada. Todos prontos a defender a intergridade territorial do povo Kayapó que se distribui de Mato Grosso ao Pará e que se consumia entre a devastação feita por madereiros, com a cumplicidade da Funai e dos garimpos que sujavam as águas do Rio Fresco,  cristalino e frio onde se localiza a aldeia de Paulinho.  

Todo esse encontro com mais um grupo Kaypó aconteceu no começo dos anos 80, 1981, para ser mais exata.  Talvez março. Não me lembro bem a data e estou com preguiça de recorrer às minhas agendas de anotações. O grande amigo Ezequias Heringer, o #Xará, meu melhor amigo, antropólogo e sertanista me dá a notícia de que os Gorotire, Kayapó do sul do Pará, estavam em pé de guerra porque o então presidente da Funai, coronel João Carlos Nobre da Veiga, havia assinado, de forma ilegal, contrato com a Madereira Sebba, de Brasília para corte de madeira na terra indígena. Não havia condições de checar e meu jornal, a Folha de São Paulo, me mandou para a aldeia.

Denúncia feita, coronel Nobre da Veiga me ameaçando -para não fugir a regra – segui adiante. Revia Paulinho de vez em quando em Brasília e voltei à terra indígena em 1984, quando se aceleraram as invasões em busca de ouro e da madeira. A  resistência indígena e  os ataques dos invasores  encharcou de sangue as terras xinguanas.  A aldeia do Aukre não ficou longe da guerra.

Um fazendeiro, de nome Expedito Macedo, dono da Fazenda Macedônia, em redenção (PA), espalhou o boato de que os garimpeiros estavam chegando na terra dos Kayapó do rio Fresco, onde vivia Paiakã. Os guerreiros se armaram com suas bordunas. E invadiram a fazenda para matar Expedito. Ele não foi encontrado. Os Kayapó se vingaram promovendo um massacre que deixou 17 mortos. Até hoje me tensiono com as cenas e me lembro da posição dos corpos mortos.

De novo num avião, dessa vez, bimotor, fomos à aldeia, Eliana Lucena, eu e mais dois jornalistas. Os guerreiros estavam retirados. Não podiam conversar com os jornalistas. Pintados de preto, eles tinham que “descarregar” o sangue que derramaram e sequer voltavam para suas malocas. Uma espécie de purgação. Dois dias voando pelo sul do Pará. A base era Conceição do Araguaia. Voltei três depois. A conversa com Paiakã foi seca. Ele não queria falar e não insisti. Então pedi a borduna que estava encostada do lado de fora da maloca. Ainda estava suja de sangue.   

 

Os anos se passaram e novamente encontro Paulinho Paiakã e mais 650 índios. Eram dias eletrizantes. Estávamos todos participando de uma reunião com a Eletronorte que queria convencer os índios a aceitarem  construção da Hidrelétrica de Kararaô, a primeira das quattro previstas pela ditadura militar para o rio da minha paixão, meu Xingu. Era o hoje célebre “encontro de Altamira”, quando índios e não índios nos reunimos para lutar contra aquele crime. Era governo Sarney e conseguimos adiar a tragédia. Foi no governo Lula quando enfim se realizou o grande desejo do general Ernesto Geisel, o ditador da anistia e que sonhava com águas jorrando das comportas enquanto o Xingu vagava pela floresta na qual um dia foi senhor quase absoluto. Só nos restou lutar contra o nome Kararaô, que é outro grupo Kaiapó. A nova denominação é Belo Monte. Essa foi nossa única vitória.

Paiakã estava lá. Almoçamos aquela comida terrível que nos serviram. Tão ruim que escapamo,s uns cinco ou seis índios para comer “comida boa”, como sempre diz Irekran, a grande companheira de Paulinho. 

Em sete de junho, de 1992, o choque. Lá está Paiakã, numa foto que toma toda a capa da revista “Veja”, portando com um soberbo cocar amarelo e o título, “O Selvagem”.  E lá conta que estuprastes Silvia Letícia,, de 18 anos. E te acusavam de além de ter estuprado terias tentado matá-lo. era choque e conflito pessoal. Como assim? Que loucura! E não conseguia falar Paiakã nem com niguém lá de Redenção (sul do Pará). Estava envolvida na minha viagem para a Eco-92 no Rio, tentando convencer as freiras da escola de minhas filhas que remarcassem as provas porque elas iriam comigo a esse encontro internacional que alertava o mundo para os riscos da destruição do planeta. A “Veja” tentou sabotar aquele encontro usando um crime hediondo para manchar a imagem de Paulinhoo que, naquele tempo era a imagem do maior defensor da floresta. A matéria tinha o dedo do governado do Pará, Jáder Barbalho. Mais que um dedo. A matéria foi toda pensada por Jáder Barbalho que tinha se transformado no inimigo número 1 de Paiakã. E, da causa ambiental, além de lucrar com os garimpos. Foi um abalo geral. 

Só duas semanas depois consegui falar com Paulinho. ele me telefonou quase em desespero porque queriam prendê-lo e pedia minha presença imediata. E mais uma vez embarquei, dessa vez, sozinha e fui para o Aukre que parecia estar de luto. Então, a história toda foi contada. Sem omitir detalhes. Eu já estava fora de jornis, mas a Folha de São Paulo me deu uma página inteira para contar o que aconteceu. 

Só fiquei serena quando em 1994, o juiz de Redençao, Elder Costa absolveu o chafe guerreiro. Na sentença contou a verdadeira história dizendo  que todo o processo foi uma “balbúrdia jurídica”. Anulou todas as provas.

E depois, pela última vez, encontrei Paulinho e Irekran no Fórum Social Mundial realizado em Belém, em 2009. Daí em diante, nossos contatos foram virtuais. Há pouco menos de um mês conversávamos pelo what´s up. ele queria saber da idoneidade de alguns sites de compras. Rimos um pouco porque contei algumas papagaiadas do Governo. mas ele estava sério. Estava assustado com a expansão do vírus Corona entre os povos indígenas. E foi essa a guerra perdida pelo líder Benkaroty Kayapó, conhecido pela sociedade ocidental pelo nome de Paulinho Paiakã, meu amigo que sonhava em ter um filho homem que o sucederia no comando do Aukre. O sonho acabou quando os médicos da sociedade dominante, à revelia da da família ligaram as trompas de Irekran.

Paulinho, hoje, ainda chorando, comecei meu ritual para te homenagear. Estou plantando flores num vaso com as cores que marcam nossas lutas. 

ACORRENTADO AO CINCO DE NOVEMBRO

By , 2 June, 2020 10:56 pm
EUA preparam reação militar contra rebelião popular - Brasil 247

O presidente do país mais poderoso da Terra, que espalha seu império sobre todos os continentes está com mãos acorrentadas à primeira quinta-feira de novembro. Ao cinco de novembro.
Pois é, Donald Trump, que ameaçou os manifestantes de convocar as Forças Armadas para conter os protestos pelo brutal asasassinato, por asfixia, do negro GEORGE FLOYD, pelo policial branco DEREK CHAUVIN, não pode cumprir sua promessa.
Trump só conta com 40% de popularidade e a curva está achatada. Dentro de 155 dias, ele vai enfrentar uma eleição que tentou adiar por causa do vírus ao qual não entendeu e, se entendeu, menosprezou. Defendeu o adiamento das eleições em nome da necessidade de isolamento social. Não colou. E nem tinha chances de colar. Afinal de contas, você pode votar sem sair de casa. Recebe o envelope com a cédula, confirma o voto e manda pelo correio, sem a menor necessidade de confrontar o Corona.
Há menos de 90 dias, a vitória de Trump era incontestável. Joe Biden, candidato do Partido Democrata parece que ia apenas cumprir o ritual da derrota para seu partido não chegar de mãos vazias. O vírus mudou o curso da História e os democratas começaram a se mexer porque sentiram a possibilidade de vencer Trump, uma espécie de Bolsonaro com verniz e cheiro de dinheiro. Aos poucos afastaram os Clinton da campanha e o ex-presidente Barack Obama assumiu o processo.
Para completar o fenômeno do achatamento da curva, as cenas da morte de George Floyd chocaram a consciência dos brancos que defendem os direitos humanos, dos hispânicos que sabem que correm risco de vida na mãos dos policias, dos índios que correspondem apenas a 1% da população e, mais. Levantou a população dos negros que não passam um ano sem ver um dos seus tombar sob as balas dos policiais. Dessa vez não foi gasta nem munição. Derek, o policial assassino, usou seu joelho como armaa e asfixiou Floyd lentamente, por exatos oito minutos.
E os Estados Unidos explodiu numa convulsoão sem precedentes. Se você está pensando ou comparando com as rebeliões de 1968, um aviso. A situação está bem pior.


Não bastasse tudo isso, Donald Trump enfrenta a oposição interna. Os inimigos estão dentro do seu partido. Na lista dos infortúnios de Mister President, a milionária Sarah Longwell, republicana da Pennsylvania, conservadora que comanda uma dissidência dentro no Partido Republicano, o “Never Trumper” e está trabalhando ativamente pela vitória de Joe Biden. Trabalhou nas eleições primárias para afastar Bernie Sanders e agora, mesmo com toda a tradição republicana de sua família, faz campanha de porta em porta nos bairros luxuosos das ricas cidades do Norte e acredita que Trump está vivendo “seu pior cenário”. Sarah financia a campanha de Biden que parece ter deslanchado.
E Trump, que tem direito legal de convocar as tropas para impor uma espécie de estado de sítio no país, ainda não conseguiu chamar as Forças Armadas, embora as pesquisas digam que ele tem 58% de apoio para apelar ao INSURRECTION ACT, lei do século XIX e que foi usada a pela primeira vez exatamente para conter rebelião de escravos e mais recentemente, no século XX, pelo Bush I, para acabar com os conflitos dos negros em Los Angeles,que protestavam contra o assassinato do #brother Rodney King.
Só não entendo porque os jornalistas de televisão insistem em desinformar dizendo que Trump só pode convocar as Forças Armadas se os governadores concordarem. Podiam ler as leis. Faz um bem danado.

P.S. Hoje seria o marco inicial da campanha para presidente da República dos Estados Unidos. Hoje seriam realizadas as convenções dos dois partidos para a escolha do seu candidato. Ainda faltam 500 votos para Biden.

O SONHO DA DIREITA É TER UM BRILHO DE ESQUERDA

By , 31 May, 2020 6:33 pm

ArtStation - dragon concept, Yongsub Song

O título soa de forma esranha? Possivelmente. Tenho base em algum estudo acadêmico ou pesquisa? Absolutamente. Apenas observação pessoal e muita leitura da História do Brasil.*

Quando vi o primeiro post no Facebook me informando do movimento #Somos70% contra os desmandos desse governo que nos atirou nesse redemoinho de crueldades, bateu aquele entusiasmo juvenil. Só não pulei de alegria porque estava um tanto cansada do dia. Ainda procurei o lugar de assinar mas tenho o hábito de não tomar atitudes na hora de dormir. E já passava das três da manhã.

´Acordei pelas dez da manhã. Literal e literariamente.

Acordei e havia mais posts sobre o Somos70%. Então, me informei melhor, quem assinava, quantas assinaturas havia, o básico. Vi, feliz, que lá estava Luiza Erundina uma das mulheres mais admiráveis da política brasileira. Lá estava Flávio Dino, meu candidfato a presidente, havia também Fernando Henrique Cardoso. Tudo bem, nunca foi de direita e tem uma história. Seus descaminhos, nesse momento, pode-se relevar.

Finalmente reuni as informações necessárias e…foi quando esbarrei no detestável. Não gostei do que vi. O movimento foi criado pelo banqueiro Eduardo Moreira. Vamos lá, engoli em seco. Mas… banqueiro? Aquele pessoal que só joga blefando? Aquele pessoal que está sempre no comando dos mercados com seus juros asfixiantes e conseguem até dissimular que apoiam governo progressista para conseguir mais benesses? Hummmcheirou a enxÔfre queimado. Onde estava Eduardo Moreira quando o povo brasileiro perdeu algumas de suas conquistas? Onde estavam todos os banqueiros quando começamos a apontar os crimes cometidos pela campanha de Jair Bolsonaro e os outros crimes ainda mais graves que cometeu depois de empossado? Só agora perceberam o que denunciávamos há mais de dois anos? E por que perceberam? Por que o Brasil se tornou uma espécie de lepra junto à comunidade internacional? Por que nos tornamos tão párias quanto a Coréia do Norte? Ou talvez porque não possam passar o fim de semana no Ritz em Paris, ao lado da “Hermès”, olhando a Place Vendôme, simplesmente porque não somos mais bem-vindos? Ou, quem sabe para dar brilho à biografia. Bingo!!!!

A esbarrada que me engasgou com o nome na lista foi o de Luciano Huck. Sim, ele, com quem FHC anda flertando ultimamente com elogios pra lá de explícitos. O que ele está fazendo nessa lista? De graça não é. Quer um lugar ao sol? Uma faixa verde-amarela no peito para chamar de sua? Ele está é tentando se tornar político. Ser ouvido. Ser citado. Errou pela Direita e agora quer escrever em sua biografia que já “até” assinou manifesto com a esquerda.

Exatamente ele que há menos três anos circulava com uma camiseta verde-amarela bem justinha, gritando “Fora Dilma”, colaborando para um dos mais sórdidos movimentos políticos que já vi – pior do que esse só o das “Senhoras de Santana”, em São Paulo, marchando com terço na mão contra o “comunismo” e incitando as Forças Armadas para um golpe contra João Goulart – e depois meio sem graça num partido que se intitula “Novo” porque se fosse chamado de “Velho” seria rejeitado. O quê? Aquele mesmo Luciano Huck, grileiro de terra da Marinha na ilha de Fernando de Noronha e que na abertura da Copa do Mundo, a ´plenos pulmões chamou a presidente da República de “filha da puta”, frente a mandatários estrangeiros?

Sim, é ele mesmo. Despiu-se da camiseta verde-amarela e agora se fotografa com com camisa cor-de-rosa só para dizer que faz oposição à ministra Damares.

Não, alguma coisa estava errada. Por que razão eu me alinharia a um movimento com essa figura. Não. Mesmo que a lógica me obrigasse, meu corpo reagiria. E eu respeito meu corpo. Respeito meus espirros porque são alergias morais.

Mas há nomes da esquerda, o diabo bom me dizia. Sim, há. Mas onde estão os “outros” nomes do campo progressista? Não foram chamados? Não são palátaveis à “nova resistência”? Ou, feito eu, não gostam de más companhias? Lula assinou? Dilma assinou? E, no entanto, eles foram as vítimas preferenciais dos #hucks que estão na lista.

Além disso, tenho certeza de que num espaço de tempo não muito distante, as pessoas que admiro e até meu candidato à presidência, ainda vão se arrepender do gesto. mesmo que não se arrependa, continuo votando em Flávio Dino.

A jornalisa Leda Flora e a professora Raimunda Monteiro, ex-reitora da Universidade Federal Oeste do Pará, amigas queridas por quem tenho amor, admiração e respeito, me falaram da unidade. Raimundinha, a combatente Raimundinha, ainda disse, que é unir para derrubar o Bolsonaro e depois põe os pingos nos iis. Não resisti à piada, amiga. Eu ponho os pingos nos iis no momento em que escrevo e não quando o texto está pronto. Leda com quem divido o prazer da leitura, preocupações sentimentais, políticas e de comporamento social foi na mesma toada.

Mas essas todas já foram gastas. Quem primeiro desmoralizou foi Delfim Neto. Primeiro cresce o bolo, depois reparte. Até hoje estou esperando ver o povo saborear sua fatia. Deve ter solado. Continuei fazendo minha mousse au chocolat.

Ainda penso nessa unidade. Unidade?? Não. Não. Mil vezes não. Isso não é unidade. É o velho e detestável hábito da política brasileira de acochambramento. É a “Síndrome de Lampedusa”.

E só para lembrar àqueles que me falaram dos acordos das unidades do passado, que se elas tivessem sido realmente funcionado, não teríamos chegado onder chegamos.

Pra encerrar, não dou palanque a Luciano Huck e ele é o principal beneficiado desse manifesto.

*Tenho 72,5 anos de idade e vivi todos os acontecimentos políticos dos últimos 65 anos da Hisória do Brasil. Sei que vão fazer as contas, mas não precisa. Explico. Tinha quase sete anos quando Getúlio deu um tiro no peito. Família historicamente de esquerda, aquele momento foi vivido com intensidade dentro de minha casa. Estava com quase oito quando uma rebelião militar contra a posse de Juscelino Kubistcheck estourou em Aragarças, Goiás. O avião que me levava do Rio de Janeiro para São Luís ficou retido. Eu era a única criança. E a tensão dos adultos era tão pegajosa que me manifestei. O comandante era responsável pela “menor”. E, no meio daquela tensão, todos riram, porque, do alto alto do meu nariz, disse, “só espero que eu não precise dormir com o piloto”. Todos riram. Estava com 14 na minha primeira pixação de parede, “Pela reforma Agrária” escrevi naquele paredão enorme. Ia fazer 15 anos quando papai me escalou para cumprir uma tarefa política. Jogar panfletos contra a visita do embaixador americano Lincoln Gordon a São Luis. Missão cumprida. Joguei os panfletos no colo do embaixador. Veio o golpe e minha família foi atingida de todas as formas possíveis. É tanta história, que o governador do Maranhão, Flávio Dino, que possivelmente terá meu voto nas eleições presidencias, falando num comício em Brasília, em agosto de 2019 em alto e bom som, disse, “Memélia Moreira, quando você fizer a festa de 50 anos de militância, quero ser convidado”. Lá no fundo da multidão, muito sem graça, gritei, “já passou muito dos 50”.

Estou fazendo esse currículum vitae só para lhes dizer que não li nenhum texto acadêmico, pesquisa, estudo, nada para dizer que o sonho da direita esclarecida do Brasil (falo da direita, não dos fascistas) é ter brilho de esquerda são apenas observações feitas ao longo de uma vida na qual não parei de lutar um só dia. E, sempre à esquerda. Sem tergiversar.

Gente, fui

A SOLIDÃO DO VERME

By , 16 May, 2019 3:25 pm

A SOLIDÃO DO VERME
Memélia Moreira
Alguns de nós já devem ter se esquecido. Mas esta não é a primeira vez que Bolsonaro procura uma lanchonete ou um fast-food quando está em viagem internacional.
A escolha não acontece apenas para exibir sua tendência populista. Para que acreditem que ele é modesto e não gasta “em vão” o nosso dinheiro (não em frente aos fotografos).
A escolha aponta para além, bem além do populismo. Ela é o cruel retrato de uma pessoa que chegou ao mais alto posto de um país que tem espaço relevante na Geopolítica internacional. Ela é o registro da solidão à qual está entregue #Bolsonaro
Em Dallas há excelentes restaurantes que servem pratos bem melhores do que a mixórdia de um hamburguer com fritas e refrigerante. Está certo que talvez ele temesse suas dificuldades idiomáticas indo a um restaurante onde ninguém fala Português ou Espanhol. Mas só de restaurantes brasileiros ele teria o “Texas do Brasil” onde, além de um buffet que gourmet nenhum poria defeitos, há uma excelente carne canadense com corte de açougueiro brasileiro. E batatas fritas. Ou podia escolher o “Fogo de Chão”, também brasileiro, também de primeira linha. Se não quisesse nenhum dos famosos, há o “Rafain’ tão brasileiro quanto os dois citados.
Mas não. Ele foi a uma lanchonete. E por que? Porque num restaurante os fregueses sentam-se com calma e observam o ambiente. E então poderiam descobrir que ali estava um presidente eleito pelo povo. E ficariam um tanto impressionados com a solidão do presidente de um importante país. 
Numa lanchonete ou num fast-food, ele não corre esse risco. Os fregueses chegam, pagam na hora do pedido, comem e vão embora. Não param para observar os arredores. Mesmo que ele não tenha bons modos à mesa, ninguém perceberá. 
A verdade é que Bolsonaro vive a solidão de um precoce ostracismo.
Cobri a presidência da República por alguns anos. Acompanhei viagens presidenciais até mesmo de presidentes que já estavam a caminho do lixo da História e nunca, nunca mesmo, vi um presidente almoçar assim, sozinho. O presidente General, Figueiredo, quando a ditadura já estava respirando por aparelhos, ainda viajou um bocado. Nos seus almoços e jantares, a mesa mesmo com aquele clima de fim de festa, ainda reunia pelo menos 20 pessoas. E havia sempre aquela enxurrada de jornalistas.
Sarney, o sucessor de Figueiredo, quando chegava a uma cidade, tanto no Brasil quanto na Europa, era cercado por personalidades políticas e alguns intelectuais, principalmente escritores. 
Mas Bolsonaro, quem estava com ele? Ninguém. 
O mesmo aconteceu em Davos. A cidade, durante o Fórum Econômico Mundial, borbulhava de mandatários. Todos procurando aqueles deliciosos fondues bourguignone que servem na Suiça. E ele num self-servce. Só.
Essa viagem nos custou caro. Não sei quantos milhões são necessários para pagar o deslocamento de dois aviões, o precursor e o presidencial. Para quê? Para mostrar que o presidente do Brasil entrou firme na rota da rejeição.
Cadê o título de “Personalidade do Ano concedido pela Câmara de Comércio Brasil-EUA? Foi entregue?
Onde a reunião com os magnatas do petróleo, os Koch, os grandes executivos tipo Max Tillerson? Onde? NADA.
Bolsonaro volta para o Brasil de mãos vazias e cabeça quente porque seu inferno astral ainda vai durar bastante. Pelo menos uns dois anos até o desfecho. 
Até mesmo seu guru, um auto-proclamado filósofo chamado Olavo Carvalho o abandonou.
O verme está só e sua solidão vai nos custar caro porque, se ele é despreparado em todos os setores, ele guarda, na mesma proporção do despreparo, uma sede de vingança que é sempre mais cruel e selvagem nos medíocres.

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